Colors

5 Amarelo


Notas iniciais
O que fazer quando o terror te visita toda a noite antes de dormir?

E quando as lembranças que temos são as piores, o nosso passado não ajuda em nada o nosso dia, e tudo que temos são histórias tristes e pavorosas nos assombrando toda noite antes de dormir.

Assim era a vida dela, um inferno criado desde que ela tinha 10 anos, ela estava no carro, um pequeno FIAT amarelo dirigido pelo pai, onde a mãe estava na carona e ela no banco de trás, o pai estava ligeiramente alterado pelo álcool e não percebeu quando apagou ao volante, nem quando o carro capotou, somente acordaram depois de dois dias, em um hospital qualquer, com a notícia de que a mãe havia morrido, somente os dois sobreviveram àquele acidente.

Com catorze anos o pai sumiu e ela se viu sozinha no mundo, sendo abandonada em um lar qualquer para menores, até poder voltar para casa, um lugar escuro, fétido, a vida dela descia cada vez mais, não sabia o que fazer, a única coisa que ainda tinha era aquele vestido amarelo, e ela tem a marca até hoje em sua cintura quando uma das mulheres que cuidavam das crianças a atacou com uma faca, a grande cicatriz ainda rasga a pele de sua barriga, mais uma das marcas dos horrores que ela passou.

Com dezoito anos, finalmente livre, se viu de volta a sua velha casa amarela, outrora bonita, hoje apenas um resquício do que ela foi quando tinha família, era noite de inverno, ela não sabia porque haviam tantos barulhos em casa, quando desceu descobriu ela sendo assaltada por dois homens fortemente drogados, que ao verem a jovem não tiveram dúvidas, a arrastaram para o quarto onde naquela noite fria ela foi brutalmente violentada, um estupro que ainda hoje não se acham os culpados, e que muitos acham que apenas foi uma história para atrair atenção.

O mundo dela desabava a cada dia, entregue ao mundo das drogas e do sexo fácil, ela se viu vendendo seu próprio corpo para sobreviver, não tinha condições de vida além disso, morava num pedaço de quarto e se vendia por qualquer trocado a noite, para qualquer homem disposto a pagar, tudo para poder ter o que se alimentar quando acordasse no outro dia, mas ela jamais duvidou que a vida reservasse algo pior a ela, e por isso ela estava enganada, aquele pedaço de papel amarelo que chegou apenas dizia que além de um passado amaldiçoado de tragédias, o futuro também era amaldiçoado com doenças, a vida dela estava contada, e ela sabia que iria acabar.

Hoje, eu vi ela, ela havia economizado e comprado um vestido amarelo muito parecido com o anterior, o sol brilhava amarelo sobre nossas cabeças, ali naquele prédio eu a vi sorrir e dizer que todo o sofrimento que uma pessoa passa tem um fim, e ela estava se livrando de toda a dor que havia sofrido na vida, mostrando que ela era mais forte, eu disse a ela para não fazer isso, não foi o suficiente, naquele mesmo momento, ela saltou, eram 20 andares e a única coisa para amortecer sua queda foi o chão, uma curiosa calçada de cor amarela.

Agora ela descansa, livre de um passado que nunca a deixou dormir, brilha junto ao lado daquele sol amarelo.