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XII

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O nevoeiro amarelo do degelo de janeiro esvaiu-se das ruas como se houvesse escoado-se pelos bueiros, e o mês de fevereiro passou numa sucessão de dias incomumente amenos, com manhãs frias de um grau abaixo de zero que davam lugar à tardes de temperatura por volta dos 15º, perfeitas para se divertir por aí. Não que muitos pudessem se dar a tal luxo.

Na semana das Provas de Progressos Escolásticos, as escolas estavam em rebuliço. Os alunos dividiam-se em dois grupos: um era o daqueles que estudavam em cada intervalo entre provas, inclinados gravemente sobre os livros e envoltos num manto de tragédia que é, principalmente, o que se vê em velórios. No outro, a garotada bolava novos meios de colar nas provas, sendo que uma parcela já planejava saltar fora do colégio de qualquer jeito. O número de jovens fumando na área dos fundos aumentou, e as paredes dos banheiros ecoavam com o choro de meninas (e também de alguns meninos). Kankurou estava entre aqueles reunidos na área para fumantes, um baseado queimando na boca. Deus sabia que só maconha o ajudaria a enfrentar o pai depois da notícia da gravidez de Temari. Além disso, não fora bem na prova de Francês. Uma nota abaixo de B-, e não seriam apenas palavras duras que o receberiam em casa.

Nan Melda estava mais bem humorada do que estivera em tempos. Ainda assim, as crianças do orfanato continuavam a manter distância dela, como se um estado de espírito tão elevado sinalizasse algum tipo de doença contagiosa; assoviava despreocupadamente ao pendurar calças úmidas num varal de chão em frente à lareira (meias e roupas íntimas foram presas no gradil atrás da geladeira). Avistou Itachi limpando os tênis no carpete de entrada e pensou: Em boa hora.

– Itachi, veim aqui um minutu.

E ele veio, dócil como um potro. Sua aparência não estava nada boa, mas aquilo havia de mudar, disse a si mesma. À medida que falava, a expressão dele foi modificando-se, passando de confusão à incredulidade e então a algo próximo ao medo. Num me odeia; tu num vê, mas tô fazenu issu pur ti, pensou tristemente, ajeitando o colarinho da camisa dele sobre o moletom. Pra tu continuá sendu um bom mininu.

– Intendeu beim o que eu disse? – ela questionou, não sem alguma gentileza.

– Si... im.

– Entaum vá lá fazê o que tu teim que fazê.

O pobrezinho saiu a passos incertos, uma expressão de temerosa perplexidade, e ela sentiu mais piedade naquele momento do que ao bater na garotinha recém-chegada, pega tentando surrupiar uma barra de chocolate vencida logo depois de terem feito um miserável jantar de sopa fria.

Anko, que andava se preparando para ler O Senhor Das Moscas de fio a pavio no final de semana (e morrer de tédio, pois ela preferia histórias de detetives da década de 40) para a prova de Literatura Contemporânea, soube por uma amiga que Shisui iria à sua casa no final da tarde. Franziu as sobrancelhas a isso; não fora ele que viera com aquele papo de bancar o bom moço estudioso durante a semana de provas? Não conseguiu ficar longe deste rabo-de-saia aqui, pensou, e não sem um pouco de satisfação.

A tarde de sábado correu com a rapidez de um caramujo. Ela não conseguia se concentrar nas palavras impressas nas páginas, e uma vez teve que reler todo um capítulo logo após terminá-lo, pois descobriu que não se lembrava de absolutamente nada do que acabara de ler. Os tornozelos cruzavam e descruzando-se sob a mesa, as unhas batucavam no tampão de vidro. Quando ouviu a porta ser aberta, quase saltou da cadeira.

– Quem é? – perguntou, tentando não soar muito eufórica.

– Agora vou precisar me identificar toda vez que entro na minha própria casa? – seu pai questionou, colocando as sacolas do supermercado sobre a mesa.

Anko atirou-se de volta na cadeira, amuada. Olhou para a janela, para o sol ainda alto no céu e que batia forte na pequena sala de estar. Deveria ser três da tarde, talvez três e meia. Não estou ansiosa, e definitivamente não estou apaixonada.

Demorou muito mais tempo do que deveria para finalmente terminar o livro, mas afinal fechou-o, aliviada. O pôr do sol estava vermelho e purpurino no horizonte quando finalmente escutou batidas na porta.

– Quer que eu atenda? – seu pai perguntou, sua voz vinda do escritório.

– Não, tudo bem – ela respondeu, levantando-se, procurando não apressar-se mais do que o necessário.

– Já terminou de ler o livro?

– Sim – falou, controlando cada passo até a porta.

– Ótimo. – E o som das teclas da máquina de escrever recomeçou.

Anko abriu a porta, o coração batendo um pouco mais rápido do que deveria. Shisui usava o blusão laranja com o brasão do ginásio e uma velha calça jeans surrada. Tinha um sorriso no canto da boca, e ela soube que o amava.

– De volta tão cedo, tigrão? Você deve estar indo espetacularmente bem nas provas.

Ele deu de ombros.

– Não tão mal em Fracês, mas Cálculo III me fodeu por dentro, por fora, de um lado para o outro e de cabeça para baixo. – Estendeu o cotovelo para ela, numa chistosa imitação dos cavalheiros do século passado. Ela teve que rir, aceitando seu braço. De repente, desejou ter vestido outra coisa que não fosse a camisa de boliche com o patrocínio do posto de gasolina. Pare com isso, pensou, sorrindo, nervosa.

– Algo em mente, senhor? – perguntou. Começaram a caminhar na luz poente, suas sombras tão compridas que pareciam estar usando pernas-de-pau.

– Pensei em dar uma volta por aí, nada de mais. Quero reservar um tempo para rodar um dos calhambeques do Bee e descolar uns trocos.

– Prefere passar seu tempo com carros velhos e barulhentos em vez de comigo?

Ele franziu as sobrancelhas, olhando para frente.

– Você sabe que não é isso.

Ela não conseguiu deixar de balançar a cabeça, divertida.

– Shisui, seu babaca, essa é a deixa em que você me convida para ver seu fascinante trabalho de mecânico.

– É mesmo? Oh, é mesmo. Claro, isso é bom! – Shisui deu um largo sorriso e Anko retribuiu. As olheiras dele passaram despercebidas a ela. – Mas Bee é o mecânico. Eu só dirijo o que ele conserta.

– Não rebaixe sua posição de ofício, Sr. Mecânico.

Shisui levou-a à oficina e apresentou-a ao maior homem que Anko já vira. Monstruosos braços marrons, cabelo amarelados (obviamente descoloridos em casa) penteados para trás com brilhantina, e óculos escuros que davam-lhe uma aparência antes sinistra do que descolada.

– Fala aí, meu irmão – ele disse, e a frase soou Falaímermão. – Quem é esse favinho de mel que você trouxe aqui? Eu teria pelo menos posto uma camisa limpa.

– Bee, essa é Anko, minha garota.

– Senhorita – ele a cumprimentou, com uma mesura absurda: uma perna na frente, uma mão esticada para o alto, a outra fazendo um gesto de tirar um chapéu imaginário da cabeça enquanto ele se inclinava.

– Killer Bee, a Abelha Assassina, restaurador de antigas relíquias e combatente da negligência e abandono de artefatos automotivos.

Ele ficou tão parecido com o cortesão de uma farsa cômica que Anko riu. Riu tanto que curvou-se, uma mão sobre a barriga. Não pode evitar.

– Anko Mitarashi – disse, retribuindo com uma profunda cortesia, onde estendia os braços para segurar a ponta da saia que não estava usando –, para servir ao bom senhor.

– Senhor? Diabos, não sabiam que as coisas já estavam nesse pé. Acho que meu espelho está muito embaçado. – Virou-se para Shisui. – Gostei da moça. Os filhos de vocês serão lindos.

– E imaginários – Shisui acrescentou.

Bee primeiro o mandou dirigir um Volkswagen Formula V, um carro que parecia em perfeito estado, coisa rara por ali, Shisui contou-lhe. Anko sentou no banco do carona e não tinham rodado dez metros quando o carro fez um estranho gorgolejar e apagou. Tiveram de empurrá-lo todo o trajeto de volta para a oficina, que felizmente era curto, e Anko meditou que era preciso agradecer a Deus pelas pequenas benesses.

Voltaram às ruas dessa vez dentro de um carro vermelho que Anko não sabia o nome, apenas que o formato lembrava-lhe uma caixa de sapatos. Ela tirou sarro da cara de Shisui por ter colocado o cinto de segurança, sendo que eles iriam rodar por apenas algumas quadras. Ele lhe sorriu de volta, como sempre fazia... só que daquela vez havia algo de diferente. Algo afetuoso, mas contido. O sorriso de um pai observando a filha bancar a espertinha.

Ela virou o olhar para frente, inquieta, receando ter soado como uma pirralha, e pôs seu próprio cinto. Shisui virou a direção e entraram numa alameda estreita, com árvores crescendo dos dois lados. Ele desligou a chave da ignição e fez-se silêncio. O céu ainda não estava negro, mas logo estaria.

– Nada de errado com este camarada aqui – ele disse, dando um tapinha no volante.

– Agora voltamos e parabenizamos Bee pelo seu excelente trabalho como ressuscitador de bugigangas?

– Apenas se quisermos. – Ele ligou o rádio e procurou algo de bom em meio à estática. – Embora ele possa ficar magoado com o “bugigangas”. Ele adora carros, principalmente os antigões. E, pra ser sincero, eu também.

A expressão era séria e Anko sentiu uma pontada fria de terror. Mas depois ele sorriu, tinha um sorriso muito alegre, e a escuridão recuou um pouco.

– Mas como ele gostou de você, provavelmente será perdoada.

– Não preciso do perdão dele – ela declarou, e a frase soou irremediavelmente infantil. – E você disse para ele que era sua garota, coisa que não sou.

– É, realmente – ele disse, encarando o painel de controle. – Mas você poderia ser.

O coração dela deu um salto. Ah, você está ficando gamadinha, uma voz sardônica falou de dentro dela. Está mesmo.

Cale a boca, ela gritou em resposta.

– O que você quer dizer com isso? – Embora ela soubesse perfeitamente.

Ele arqueou ligeiramente as sobrancelhas, ainda sem encará-la. Dee Dee Sharp cantava “Mashed Potato Time” – tolice mística nas ondas radiofônicas, brotando do escuro.

– Esquece – disse. –Estou pensando em voz alta.

Aquilo a irritou e a machucou, mais do que ela gostaria de admitir. Bruscamente, pegou uma das mãos dele e a colocou entre as coxas.

– Então me faça esquecer, droga.

A surpresa ficou estampada no rosto dele por um momento. Então ele sorriu novamente, um sorriso triste, que o fazia parecer quase adulto (ainda que Anko fosse quase um ano mais velha que ele), não o tipo de sorriso que ela queria ver. Ele desabotoou suas calças jeans, pacientemente demais para o gosto dela, e então a puxou para seu colo, levantando sua saia até a cintura e abaixando a calcinha até a dobra das pernas. Ela o tocou, um pouco envergonhada por já estar tão molhada e ele nem sequer duro. Shisui ergueu sua camisa até descobrir o sutiã branco de algodão, bem desinteressante em termos de sensualidade, e pôs a boca em um seio.

Ela arqueou as costas, agradavelmente surpresa. Era a primeira vez que ele fazia aquilo, e a língua deslizando pelo mamilo encobriu seus pensamentos e levou embora o sentimento ruim. Quando ela escorregou para baixo, sentindo-o entrar profundamente em si, tudo tornou-se secundário exceto o calor, a fricção. Duas vezes Shisui teve que parar, ofegante, a cabeça entre seus seios, e continuar novamente, com força. Sua respiração vinha aos arrancos, cada célula de seu corpo vibrando. Incapaz de parar, suando, os braços firmemente ao redor do pescoço dele; começou a gritar. Na mata ao lado, um pássaro grande fugiu voando, num rodopio de asas, para alguma parte menos excitante do mundo.

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Mais tarde, a caminho da oficina, ela perguntou sobre Itachi. Shisui não demonstrou expressão alguma.

– Ele está bem – disse. – Estudando até sair fumaça pelas orelhas. Nada fora do normal.

O tom era casual, mas Anko captou algo, talvez o mais leve tremular em sua voz.

– Nada fora do normal, você diz?

– Isso.

Ele tinha as mãos firmemente agarradas ao volante, os ombros tensos. Anko não era uma garota expansiva e não era comum se intrometer onde não era chamada; ainda assim, não conseguiu segurar-se.

– E as coisas entre vocês? Elas estão nor...

– Não quero falar sobre isso.

Seu tom era cortante como lâmina de barbear, e nunca antes ela o ouvira soar tão frio. Nunca.

Shisui percebeu que a tinha ferido, e suspirou pelo nariz.

– Desculpe. Isso não tem nada a ver com você. Para falar a verdade, as coisas não estão nada bem entre nós dois, e acho que não vão voltar a ficar. Itachi... fez algo que não sei se conseguirei perdoar algum dia.

– Você sabe por que ele fez isso? Alguma ideia...

– Anko, eu não sei.

Ficaram em silêncio, e Anko sentiu-se triste. Gostava de Itachi, que tinha um jeito de falar tão interessante e agradável que era difícil acreditar que ele pudesse ter feito algo tão horrível a ponto de magoar Shisui daquela forma. A amizade que eles tinham era uma das únicas verdades absolutas que ela tinha. Agora, aparentemente, o mundo perdera uma de suas certezas.

– Às vezes – disse, devagar –, meu pai diz que temos que perdoar as pessoas não porque elas merecem perdão, mas porque nós merecemos paz dentro da gente.

Ele a encarou, olhos arregalados, então desviou o olhar para entrar na garagem da oficina.

– E os pombinhos retornam, afinal – Bee exultou. – Onde vocês estavam, afinal? Deram um pulo em Las Vegas para casaram-se sem seus pais saberem?

– Meus pais não ligam muito para o que faço – Shisui disse quando saiu do carro. – Dá para dizer pela maneira como me abandonaram num orfanato.

Anko achou que um silêncio constrangedor fosse instalar-se entre eles, mas Bee apenas deu tapinhas nas costas dele, deixando uma mancha preta de graxa em seu ombro.

– Dia duro, filho? Favinho de mel rejeitou sua aliança, aposto. Venha lá em casa, tenho umas cevas sobrando na geladeira. Não posso dizer que são boas, mas com certeza estão geladas.

– Não, obrigado – ele disse, retribuindo com as palmadas nas costas de Bee. – Só estou cansado. Estudei tanto que minha cabeça parece que vai rachar ao meio. Sorte que já não tenha rachado. Vem, Anko, te levo até em casa.

Eles foram, novamente de braços dados. Na porta da casa dela, ele a beijou quase formalmente. Como se eu fosse uma prima querida.

– Boa noite – ele disse.

– Adeus. – Ela hesitou. – Vai perdoá-lo?

Shisui olhou para cima, para a lua que havia avançado no céu, encolhida e prateada, cercada por um vasto, porém contável número estrelas.

– Eu gostaria – falou, enfiando as mãos nos bolsos do jeans. – Gostaria mesmo. Mas é difícil, mesmo que eu mereça perdoá-lo.

– Desejo que tudo se resolva entre vocês – ela disse.

– Eu também, Anko. Eu também.

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O próprio Shisui teria pedido para que o trocassem de quarto, mas Itachi estava sempre um passo à sua frente, mesmo naquilo. No dia que seguiu à discussão, ele chegara da escola e começara a arrumar seus parcos pertences, transportando-os até o quarto da frente. Shisui ficou o tempo inteiro sentado na escrivaninha, sem dizer uma palavra, encarando fixamente um ponto qualquer do livro que tinha aberto à sua frente. Quando terminou, Itachi passou por ele, e Shisui quase, quase pegou sua mão. Não o fez, contudo, e Itachi fechou a porta com um rangido e um clique.

Seu novo companheiro de quarto era um garoto praticamente da sua idade, reprovado uma vez no primeiro ano do ginásio e outra no segundo, chamado Iruka. Em resumo, era um garoto barulhento que vivia fazendo macaquices para chamar a atenção. Nas férias de verão, os órfãos eram sempre levados para algum lugar, e algum tempo atrás, passaram um mês numa casa de campo. Iruka havia se tentado se equilibrar num pé só sobre um rochedo, mas escorregara no musgo ainda úmido de orvalho e caíra sobre as pedras que haviam embaixo. Levara doze pontos na cabeça e ficara com uma cicatriz bem feia atravessando o nariz, de uma bochecha à outra. Shisui lembrava-se de como ele aparecera no dia seguinte com a cabeça toda enfaixada e um curativo de gaze enorme na cara, sorrindo e dizendo que as garotas adoravam um cara com cicatrizes, que elas achavam sexy. Shisui desconfiava que Iruka deveria ser uma pessoa bastante triste, para parecer alegre daquele jeito o tempo inteiro.

Não obstante, davam-se bem. Conversavam, nenhum bate-papo brilhante de coquetel, mas conversas mesmo assim. Era um pouco enfadonho o fato de Iruka achar hilário tudo que Shisui dizia, sem contar que ele também roncava à noite (não que Shisui se importasse, pois não conseguia dormir de uma maneira ou de outra). Itachi nunca ria abertamente daquele jeito, e quando dormia, o único som que fazia eram os ocasionais suspiros em meio ao sono.

Não fique personificando-o nas outras pessoas. Não faça isso.

Mas não conseguia evitar. Depois de tantos anos convivendo juntos, Shisui se acostumara a ele como um pato à agua. Iruka poderia ser a pessoa mais agradável do universo e ainda assim seria um estranho para ele. Cada gesto dele parecia não ser adequado, cada palavra parecia inapropriada.

Houve uma única vez que Itachi tentara falar com ele – aproximara-se sem que Shisui o notasse, seus pés descalços nem chegando a fazer barulho sobre o assoalho. Quando o viu, Shisui falara “Poupe-me” e fechara a porta na cara dele. Itachi mantivera-se fora de sua vista desde então, mas por mais que Shisui tentasse convencer a si mesmo que era isso o que ele merecia (e de fato era), a porta para o quarto de Itachi não era mais a porta para o seu, e aquilo não parecia valer a pena em absoluto.

O colega de quarto anterior de Iruka era um garoto de nove anos chamado Chouji, roliço e com um tufo de cabelos alaranjados. A única coisa que Shisui sabia a seu respeito era que o menino era um covarde, e a memória mais forte que tinha sua era de quando acharam uma marmota apodrecendo no terreno dos fundos, e ele desmaiara quando trouxeram o animal morto para dentro do orfanato, dizendo que seria o jantar daquela noite. Antes, Shisui não tinha nenhuma opinião formada sobre ele, mas depois de saber que fora escolhido para passar a dividir as noites junto de Itachi, prontamente formou-se uma antipatia pelo garoto. Sentiu-a pela primeira vez ao observar, de longe, Itachi ajustar um gorro verde sobre suas orelhas antes de irem à escola. Ela lhe subia pela garganta feito uma cobra de papel. E tudo isso era sempre acompanhado por uma dor aguda, como se uma mão de ferro estivesse esmagando seu coração... e embora fosse um pensamento mesquinho, desejava que Itachi sentisse o mesmo esmagar.

Passava seu tempo fora do orfanato tanto quanto fosse possível, aproveitando os dias de sol para estudar ao ar livre nas arquibancadas do campo de esportes, saindo com os amigos se tivesse tempo (Kankurou andava com uma cara fechada desde a notícia da gravidez da irmã), ganhando uns trocados de Bee, algumas vezes nem voltando à noite. Anko não exagerara, o pai de fato lhes oferecera panquecas quando entrara no quarto dela e encontrara Shisui vestindo as calças. Sentados à mesa, disse não se importar que Shisui não tivesse pais (não se importava muito, fez questão de ressaltar), desde que ele tivesse em mente terminar o ginásio e não usasse drogas. Aquilo, Shisui respondera, ele conseguia fazer.

Nesse momento, tivera um rápido, porém verdadeiro vislumbre do futuro: ele e Anko, sentados naquela mesma cozinha, partículas de poeiras dançando nos raios de sol que entravam pela janela, duas crianças brincando na sala e um cachorro dormindo aos seus pés. Estava ao seu alcance; quase podia estender a mão e tocá-lo. Anko era uma coisinha marota, tão fácil de amar. Conseguiria ser feliz com uma vida assim, tinha certeza.

Exceto que não era a vida que queria.

A puberdade demandava emoções cruas, feias, brutais. Enquanto ele “meio que amava" Anko, era Itachi quem ele desejava empurrar num colchão em uma tarde ensolarada de Agosto e fodê-lo até que ele gritasse. O amor por ela era uma vela; por ele, uma chama explosiva. Mas a vida feliz que poderia ter com ela não estava disponível em Itachi.

– O mundo não é justo – disse um dia para Kankurou no corredor, exatamente no intervalo entre a vazante dos alunos que saíam e a enchente dos que entravam. Era o terceiro dia que não dormia no orfanato, e já havia começado a deixar algumas peças de roupa na casa de Anko. Nan Melda não levantara sequer uma objeção em relação a isso – ela simplesmente parecia não dar por sua ausência. Ultimamente, tinha sido vista até mesmo assoviando enquanto pendurava as roupas no varal. E por que não?, ele pensou, furioso. Ela conseguiu o que queria, eu e Itachi separados. Está dançando na porra do ar de felicidade. Embora tivesse sido Itachi quem os separara, culpá-lo se tornou muito difícil, porque a raiva vinha sempre misturada à uma saudade imensa, então ele redirecionava seu ódio à governanta, e não sem bons motivos. Um dia, ainda vou devolver todas as bofetadas, velha.

Kankurou o olhou com olhos vermelhos – parecia fumar um baseado sempre que podia ultimamente.

– O mundo é justo porque é injusto para todo mundo – disse numa voz complacente, conhecedora do universo.

Como se decidisse que seu tormento atual não fosse o suficiente, Nan Melda lhe mandou ir ajudar Bah a fazer o rancho no supermercado juntamente com – adivinha quem? – o jovem leitãozinho, que ocupava ao lado de Itachi o lugar que antes era de Shisui.

– Mande outra pessoa – ele grunhiu, jogando a mochila sobre a escrivaninha. Arrependia-se de não ter dormido na casa de Anko quando ela o convidara. Ali, energia havia acabado, restringindo-o a banhos gelados e sopa enlatada à noite. Porém a vida não era só sexo e cafés da manhã em família. – Preciso estudar.

Pelo que talvez fosse a primeira vez em sua existência, ela ignorou o disparate.

– Bah pricisa di ajuda, mermu sendu forçuda feitu um tôro, e ocê vai ajudá ela a carregá as sacola. Vai tê tempu di sobra pra istudá dispois. O gurizinhu vai junto pra comprá uma carça nova, já qui ninhuma pareci servi mais neli.

Ao invés de comprar-lhe roupas novas, diga-lhe pra parar de comer, ele pensou, marchando escada abaixo. Chouji estava ao lado da porta, os olhos desviando-se nervosamente de Shisui quando se aproximou. Gaguejou-lhe que Bah estava procurando a bolsa na cozinha; a presença de um cara mais velho parecia deixá-lo ao ponto de se sujar. Mas ele estava bastante à vontade enquanto Itachi punha aquele gorro nessa cabecinha de bochechas rosadas.

Shisui teve de aguardar ao lado dele, recostado contra a parede com os braços cruzados sobre o peito, morrendo de ódio e de tédio, até que Bah chegou, vestindo um costume azul bem tradicional e um chapéu quase da mesma cor.

No supermercado, ela entregou-lhe a lista de compras e levou Chouji até uma loja que havia do outro lado da rua. Shisui desdobrou o papel, seu ânimo caindo ainda mais lá embaixo ante a quantidade de coisas listadas ali. Perguntou-se se conseguiria pegar tudo antes de Bah voltar caso fosse rápido, e saiu em disparada pelo corredor, fazendo algumas pessoas soltarem exclamações descontentes.

Já estava passando os itens no caixa quando eles chegaram. Chouji vestia calças novas de veludo cotelê azul, parecendo bastante orgulhoso dentro delas. Perguntou à Bah se podia comprar um pacote de batatinhas fritas.

– Já estamos quase terminando – Shisui objetou, mal-humorado.

– Só se você for rápido – Bah disse ao menino. Chouji saiu bamboleando para longe o máximo que suas perninhas gordas permitiam.

– Por que demoraram tanto? – Shisui perguntou, pegando um saco de açúcar escrito Peso líquido: 9 quilos com as duas mãos e entregando ao caixista.

– Tivemos de ir de loja em loja até o final da rua – ela respondeu, contando o dinheiro na carteira de couro. – As outras não tinham calças do número dele.

– Ele precisa de uma dieta – Shisui disse num tom casual de não-quero-meter-minha-colher-porém-esses-são-os-fatos-senhora.

– Ele é um garoto fortinho – ela disse, sorrindo para ele.

Ele é um garoto gordo que precisa urgentemente frequentar os Vigilantes do Peso, Shisui pensou, observando-a pagar a montanha de sacolas plásticas azuis em silêncio. Continuem comprando-lhe batatinhas e ele criará tanto massa que acabará implodindo como uma estrela de nêutrons.

Chouji voltou não com um, mas dois sacos de Doritos, correndo sem fôlego em direção a eles. Comeu-os num piscar de olhos durante o caminho de volta, enfiando na boca porções que asfixiariam uma mula.

Feliz como um pinto no lixo. E então: Quer parar com isso? Você está rivalizando com um pirralho de nove anos.

Itachi descia as escadas no momento em que pisaram dentro do orfanato, e ele teve a nítida sensação de que sua temperatura corporal acabara de despencar 30 graus. Teria passado reto por eles se Chouji, que seu dia mais curto no inferno durasse mil anos, não houvesse exclamado:

– Itachi! Olha as minhas calças novas!

Os olhos cinzentos de Itachi primeiro voltaram-se para ele, então encontraram os negros de Shisui, e houve um mundo de significado ali (embora ele não conseguisse dizer qual). A mão de ferro agarrou seu coração, esmagando-o entre dedos implacáveis. Ele dorme junto de você?, quis perguntar. Precisava desesperadamente saber. Vocês juntaram as camas, como nós vínhamos fazendo desde o primórdio dos tempos? Você sente-se tão sozinho quanto eu?

– Muito bonitas, Chouji – ele disse, sem desviar o olhar de Shisui. – Não há por aqui muitas crianças que ganham roupas novas.

Quer ele dizer algo com isto?, Shisui perguntou-se, pensando no blusão de lã que ele dera-lhe de Natal. Não voltara a usá-lo, mesmo que fosse a melhor peça de roupa que possuísse; às vezes, avistava-o dentro do guarda-roupa, dobrado negligentemente numa prateleira, e detestava-se por ser tão orgulhoso.

– Realmente, ninguém no orfanato tem calças assim – disse, seus lábios formando um sorriso que era tão autêntico quanto um maço de nota de três dólares. – Todas as garotas cairão aos pés dele.

Chouji virou o rosto para ele.

– Você acha? – perguntou, esperançoso. – Acha mesmo?

– Claro que sim – disse Bah, pondo a mão em sua cabeça. – Mas agora nos dê licença para guardar as compras, sim, Chouji? Itachi, queira nos ajudar.

Bah levou as sacolas com os produtos secos – farinha, açúcar, feijão e vários filões de pão – para a despensa, e coube a Shisui e Itachi guardar as carnes, frutas e legumes nas duas geladeiras marrons na cozinha escura. A luz ainda não havia voltado, e ainda que fosse de tarde, um capacho de nuvens cobria o céu e a cortina xadrez obstruía a pouca claridade daquele dia. Shisui pegou um facão de uma gaveta e começou a cortar impacientemente a sacola de fio trançado das laranjas, derramando-as no cesto de frutas quase com brusquidão. Elas rolaram por ele, chocando-se umas nas outras como bolas de sinuca.

A organização se deu no mais profundo silêncio, acompanhado apenas do forte cheiro de barrela de sopa no ar. Shisui guardou o último pacote de carne para hambúrguer enquanto Itachi abria a última sacola plástica. Fechou a porta da geladeira, e não havia dado três passos para fora dali quando sentiu algo prendendo a parte de trás da camisa.

Parou, o coração disparando num galope desordenado.

– Estarei lá fora – sussurrou Itachi.

Ele não soltou sua camisa de imediato, demorando um momento muito longo para finalmente passar ao seu lado, deixando-o sozinho na cozinha.

O coração de Shisui não se acalmou nem mesmo quando os passos dele desapareceram do assoalho de madeira, duelando entre duas decisões conflitantes:

Vou.

Não vou.

A última prevaleceu por algum tempo. Não queria ir ter nada com Itachi; ele que ficasse criando raiz lá fora, Shisui tinha mais o que fazer. Subiu ao quarto e abriu a mochila, tirando os materiais de estudo e concentrando-se em procurar entender por que o carbono podia formar até quatro ligações, mas o hidrogênio não. Isso é privilégio, divagou. Os outros elementos deveriam reivindicar seus direitos.

Mergulhou a fundo por pelo menos uma hora, talvez uma hora e meia. Num certo ponto, sua mente voltou-se para Itachi – como sempre fazia – e se ele ainda estaria esperando-o lá fora. Evidentemente que não, mas Shisui permitiu-se acreditar que sim, porque o fazia sentir-se bem. Terminou todas as questões do livro de exercícios e foi espiar o pátio pela janela ao lado da cama de Iruka, espreguiçando-se.

Itachi estava lá embaixo, encostado no muro coberto de plantas trepadeiras que separava as dependências do orfanato do terreno baldio que havia ao lado, as pernas cruzadas.

Por seis segundos, Shisui ficou parado, um braço esticado para cima e o outro o segurando por detrás da cabeça. Iruka, que ficara até aquele momento preso na sala da direção, sob acusação de ter posto tachinhas na cadeira da professora Kurenai (e da qual ele era absolutamente inocente, ao menos daquela vez), sequer o viu descer apressado a escada, apenas tendo um rápido vislumbre quando virou a cabeça para trás.

Vai tirar o pai da forca?, quis gritar, azedo, e retomou seu rumo à cozinha, resmungando.

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Itachi tinha a cabeça baixa e levantou apenas os olhos quando ouviu passos se aproximando. Mais de uma vez, cogitou entrar de volta no orfanato, e mais de uma vez, decidiu esperar. Ele viria. Ele tinha de vir, caso contrário acreditava que a opressão acumulada durante todo aquele fevereiro esmagaria seu autocontrole. Ninguém veria isso, é claro, contudo ninguém nunca via o que se passava com Itachi. Exceto Shisui.

Somos velhos amigos, pensou, observando-o postar-se diante de si, no rosto aquela expressão fechada que havia se tornado sua marca registrada no último mês. Gosto de acreditar que isto ainda é verdade.

– Olá, Shisui – disse, cauteloso. Muito formal, formal até demais, mas era necessário antes testar a direção do vento.

– Volte para dentro – ele ordenou, ríspido. – Quanto tempo mais planeja ficar criando mofo aí?

Não muito, se quer de fato saber. Perguntava-se como Shisui reagiria. O próprio Itachi não sabia bem se havia entendido direito. As palavras de Nan Melda repetiam-se na sua cabeça, sem parar, mas ele simplesmente não conseguia encontrar significado nelas.

“Cê vai é sê adotadu”, dissera ela, arrumando-lhe o colarinho da camisa com uma mistura (incompreensível para ele) de afeição e melancolia. “Vai tê tudo o qui num tevi aqui. Essa sinhurita vai sê boa procê, tu vai vê só. O futuro dela é grandi. Cumida di primêra, sapatus sempre briando, um cama taum macia que tu vai afundá nela. Até mermu tua própria televisaum, já pensô nissu?”

Itachi apenas a olhara. Sua própria televisão? Um luxo tão grande que ele nem conseguia entender como algo assim podia ser possível; era difícil até mesmo de imaginar. Era como se Nan Melda estivesse dizendo que ele fosse ter seu próprio castelo.

– Eu tinha de esperar por você – disse. – Há algo que preciso lhe contar.

– O que é? – Shisui perguntou, desinteressado.

Seu tom fez o estômago de Itachi embrulhar com algo que ele não sabia se era raiva ou... Vergonha? Será que podia mesmo estar com vergonha? Sim, ele viu; depois de revelada a mentira, havia algo de vergonhoso apenas em estar cara a cara com Shisui. Era como ter levado uma bronca do professor depois de ter sido o aluno exemplar por muito tempo. Sentia-se desgraçadamente sem palavras, tanto agora quanto na noite em que dormira pela última vez no seu quarto, cada um num lado da cama e a terra de ninguém entre eles. As respirações e inspirações entravam e deixavam seu peito de maneira tão desconfortável que era quase dolorosa, e sentindo a impaciência cada vez maior de Shisui, sussurrou de uma só vez:

– Vão me levar embora.

No início, a expressão dele não se alterou. Então ele piscou, duas vezes, rapidamente, e inclinou-se para frente.

– Vão...?

Não me faça repetir isto, mas respirou fundo e obrigou-se a fazê-lo de qualquer maneira.

–... me levar. Daqui a dois dias. Os papéis...

O medo rolou do coração de Itachi como um pedregulho. Ali estava a parte terrível: não era algo que podia acontecer, já estava acontecendo.

–... Já foram assinados.

Notas finais
A faculdade está me comendo viva. Estou fazendo dez cadeiras e quando não estou no campus, estou em casa estudando. Consegui, de algum modo, postar este capítulo porque ele já estava quase pronto antes de aulas começarem. Porém quero que saibam que irá haver períodos cada vez maiores entre uma atualização e outra. Isso me deixa muito triste, mas acho que faz parte de ser adulto. Tentarei retomar as coisas nas férias. Cuidem-se.