Notas iniciais
Demorei para responder os comentários, eu sei, eu sei... mas nenhum comentário ficará sem uma reply antes da publicação de um novo capítulo - é isso o que eu posso prometer.

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XIII

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As coisas iam de mal a pior e daí para horríveis, e o que assustava era a velocidade com que isso acontecia.

O que havia saído da boca de Itachi atingira seu coração como uma pá de terra fria. Ele deixou o orfanato e andou a esmo por muito, muito tempo, até o cinza do céu aprofundar para o negro e uma brisa gelada começar a soprar. Ele não reparou em nada disso. Nem tinha mais consciência de estar andando a esmo do que sua própria respiração, a menos que pensasse nela. E Shisui pensava em Itachi, em como era possível ele ser adotado àquela altura do campeonato. Nas férias de verão, um dia antes de Iruka ter rolado barranco abaixo, Shisui capturara um sapo de rio e dera-o a Itachi, que não devia ter nem sete anos na época. Ainda se lembrava do olhar assombrado dele quando Shisui pôs o animalzinho dentro das suas mãos em concha. Sentia oito anos de memórias clamando – contudo, era o sapo que sua mente continuava reprisando. Como ele poderia ir embora, se Shisui havia posto o escorregadio sapinho em suas pequenas mãos? Por Deus, aquilo parecia ter acontecido apenas um ou dois meses antes. Então, como é que ele podia ir embora? Aquela memória tornava absurda a própria ideia.

Parou repentinamente quando percebeu a casa de Anko erguendo-se sombriamente à frente. A luz do quarto dela estava apagada, mas a da cozinha estava acesa. Por um momento, permaneceu parado, encarando as cortinas fechadas. Ouvia o som de uma chaleira no fogão, e, finalmente, deu-se conta de algo.

Não posso dar-me conta de que o amo enquanto fodo ela.

Deu meia volta e seguiu em direção à saída da cidade.

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Hans, o barman, secava os copos enquanto a clientela habitual enchia o estabelecimento.

– Noite, Ralph – ele cumprimentou o homem que sentou à sua frente. – O emprego novo vai bem?

– Como, em nome de Deus, dar banho em corpos pode ir bem? – ele retorquiu, com uma careta. – Me dê o de sempre. Dose dupla.

Um copo de uísque foi posto a sua frente. Ele o esvaziou em quatro longos goles.

– Dia duro, hein? – perguntou, voltando a secar os copos.

– Duro é pouco. Hoje chegou um presunto fresco, um dos empresários de uma maldita companhia de seguro, rico como Creso. Talvez nem tão fresco assim. Câncer de ânus. Nem toda sua fortuna conseguiu regenerar o rabo dele.

– É o que acontece quando muitos cuzões ficam juntos num mesmo lugar.

– Isso. Isso, exatamente. Cara, essa é boa. Vou contar para minha mulher quando chegar em casa.

O barman percebeu com o canto do olho outra pessoa tomar o banco na ponta do bar.

– Ela o proibirá de voltar aqui.

– Malandro no fim do trabalho quer beber uma porra qualquer – Ralph fungou. – Ela pode tentar, se conseguir sair do sofá. Só come bombons de cereja enquanto assiste Oral Roberts. Daqui a pouco não conseguirei diferenciá-la de um boto.

Ele teve de rir pelo nariz.

– Posso estar tendo um dia duro – Ralph comentou –, mas aquele moleque ali parece estar na bosta.

Olhou para o lado. Um garoto havia sentado no último banco da esquerda. Tinha os braços cruzados sobre o bar, a cabeça baixa, os ombros caídos, os cabelos desordenados, os tênis empoeirados. Hans achou que ele parecia ter vindo a pé dos confins da Terra.

– Vou ver o que ele quer – disse a Ralph.

– O que você acha que ele possa querer vindo para um bar? – ele questionou, sardônico.

Hans o ignorou. Mesmo quando aproximou-se, o garoto não levantou a cabeça.

– Boa noite – disse, suficientemente educado. – Em que posso servi-lo?

A cabeça dele finalmente se ergueu, e o olhar morto que Hans nela viu não o agradou nem um pouco.

– Você tem uma coisa guardada para mim já faz algum tempo – o garoto disse numa voz entonação.

– É mesmo, amigo?

– É.

– Bem, me diga o que é, que vou buscar para você.

– É uma garrafa de Bushmmills, e como ela está aqui desde outubro, por que não acrescenta os juros e me dá um duplo?

Hans olhou para o lado. Ralph estava tirando sarro de Andy Miller, algo sobre o velho Chevrolet que Andy tinha desde que se formara no colégio.

Inclinou-se para mais perto e segredou:

– Escute, filho, não vendo bebida para menores. Se quiser sua garrafa de Bushmills, preciso antes ver sua documentação.

Nenhuma alteração na expressão dele.

– Se você faz tanta questão, aqui está ela.

O garoto tirou do bolso do jeans três notas amassadas de vinte e as colocou à frente de Hans, que as encarou por um longo momento antes de dizer:

– Você acha que isso é algum tipo de brincadeira?

– Não – ele respondeu com a mesma apatia. – Acho que talvez outro bar lucre comigo esta noite. O mais próximo fica a duas esquinas daqui, mas se o senhor insistir, eu não me importo de caminhar até lá.

Dá para ver, Hans pensou. O bar ao qual ele se referia era uma velha espelunca, e o dono vendia álcool a qualquer adolescente que pudesse mostrar-lhe a cor do dinheiro. E dinheiro era algo que o garoto visivelmente possuía.

Ele vai conseguir sua garrafa de uma maneira ou de outra, Hans disse a si mesmo, relutantemente pegando os sessenta dólares e os enfiando com discrição na parte de trás da calça.

Serviu-o e o garoto engoliu a bebida de maneira muito semelhante a de Ralph, exceto que havia lágrimas nos seus olhos quando terminou. Ele não está acostumado a beber, pensou. Daqui a vinte minutos, estará alto como uma pipa. Então seus pais o acharão aqui e irão dizer-me que terei um compromisso na delegacia amanhã.

Voltou para junto de Ralph com um copo na mão.

– E então?

– Tudo o.k. – Hans respondeu. – Ele tinha documento.

– Ah, mesmo? Então tudo bem. Já que está aí, busque-me outra dose.

– É este tom que você usa com a sua mãe, Ralph, seu limpador de bundas mortas? – E foi buscar o uísque.

Mesmo depois de Ralph e a maioria da clientela ir embora, o garoto permaneceu sentado onde estava, a garrafa de Bushmills esvaziando-se até a última gota. Quando terminou, ele ficou a correr o dedo pela poça de uísque que derramara no balcão. Sugou-o, passou novamente o dedo, sugou de novo.

– Filho – disse Hans –, melhor você sair antes de o bar fechar.

– Claro – ele disse. Para quem havia virado uma garrafa inteira de Bushmills, sua voz até que não estava tão pastosa. – Mas vocês fecham às quatro horas, e o relógio da parede está marcando cinco minutos para uma da manhã.

Hans não tinha resposta para aquilo.

– Escute, você bebeu demais e nem comeu nada – disse. – Seria sensato se forrasse o estômago com alguma coisa.

– Dei todo o dinheiro que economizei nas últimas semanas para você – ele replicou, novamente sugando o dedo. – Quer também as traças?

– Não. Este é por conta da casa.

O garoto enterrou as bases das mãos nos olhos, os esfregou e então tirou o cabelo de cima da testa, um gesto que Hans já conhecia muito bem de seus clientes frequentes – significava cansaço e distração.

– Obrigado – ele disse, e embora não houvesse feito contato visual, havia sinceridade em sua voz.

O próprio Hans pegou bolinhos congelados de peixe na geladeira e os fritou na farinha. Enquanto rolava-os na frigideira, refletiu em como as pessoas com frequência diziam que a juventude fora a época de suas vidas em que eram felizes e despreocupadas e como não haviam se dado conta disso até que fosse tarde demais. Mas as pessoas esquecem que a juventude tem sua própria carga de merda. Esquecem de como era incerto o futuro, e de como é ser empurrado para o mundo real sem nenhuma pista de como é a vida adulta. Esquecem de que houve momentos em que sentiram-se aterrorizados como passarinhos presos dentro de um celeiro, enlouquecidos de terror e sem conseguir achar uma saída.

Colocou os bolinhos à frente do garoto e, pela primeira vez, surgiu uma cintilação de vida em seus olhos. Hans acreditou ter despertado seu apetite, até ele declarar:

– Com licença. – Levantou-se e, muito calmamente, dirigiu-se ao banheiro. Um minuto depois, Hans ouviu-o devolvendo toda a Bushmills. Tomara que tenha tido tempo de alcançar a privada, pensou, olhando desanimadamente para os bolinhos de peixe intocados.

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A puta estava colocando as calças quando Bee entrou no quarto e mandou-a embora.

– Recebi um comunicado do quartel. Há um soldado pedindo socorro, e digamos que não quero a visão de seu corpo nu rondando a casa quando eu o trouxer aqui.

Ela apenas lhe deu um olhar carrancudo que dizia Sei, e minha mãe é virgem. Abotoou as calças e escondeu os seios sardentos com o casaco, deixando-o sem dizer uma palavra. Ela ainda vai rodar a bolsinha por aí. Afinal, a noite é uma criança.

Pegou o Formula V que Shisui havia rodado alguns dias atrás e foi buscá-lo no endereço que ele havia lhe passado, ofegante, por telefone. Bee sabia reconhecer um bar quando via um e não ficou nem um tiquinho surpreso ao vê-lo encostado na parede de um, a cabeça entre as pernas.

– Sabia que isto iria acabar mal no momento em que ele pediu aquela garrafa de Bushmills – disse o homem que estava dando tapinhas nas costas dele. – Você é parente dele?

– Olhe para mim, amigo. Tenho de preto o que ele tem de branco – disse Bee, pegando Shisui pelos ombros. – Ei, filho. Consegue andar até o carro? Senão terei de pegá-lo feito um saco de batatas.

Devagar, Shisui balançou afirmativamente a cabeça.

– Ótimo – disse, ajudando-o a colocar-se de pé ao erguê-lo pelas axilas.

– Quem é você? – perguntou o homem, que Bee supôs só podendo ser o barman. – Vai chamar os pais dele? Se vai, diga que eu não...

– Ele não tem pais – interrompeu-o. – Sou apenas o mecânico para quem ele faz uns bicos vez por outra. Vou levá-lo para minha casa e ver o que posso fazer por ele. Então o deixarei no orfanato.

Aquilo deixou o barman com um estúpido ah de surpresa na cara. Bee colocou um dos braços de Shisui sobre o ombro e praticamente o arrastou até o carro.

– O que aconteceu com o Volga? – Shisui perguntou fracamente, depois de Bee bater a porta do motorista e pôr o cinto de segurança.

– Nada, até onde eu saiba. Estava bem quietinho na minha garagem a última vez que chequei. Apenas não quero correr o risco caso seu estômago decida que ainda tem algo para por para fora. – Ligou o carro, que estremeceu e rosnou antes de pegar. Afastaram-se do bar, os faróis cortando a escuridão de modo contínuo.

– Desculpe por isso – ele murmurou.

– É assim que você gasta a grana que eu te pago? Bebendo uísque de quinta até vomitar o forro do estômago? Sorte sua que meu coração é feito de manteiga. Como está se sentindo?

– Talvez um pouco melhor, mas sinto meu estômago revirando como uma máquina de lavar roupa. – Ele fez um barulho de golfada. – Merda, não devia ter falado isso. – Inclinou-se para fora da janela, vomitou novamente e se deixou cair de volta no banco, rindo e gemendo. Sua franja estava grudada na testa em nacos grossos. – Acabei de emporcalhar a lateral do carro. Por favor, diga que você tem uma mangueira.

– Tenho, e se não tivesse, o faria lavar vômito seco pela manhã com suas próprias mãos. Se fosse meu Volga, pode apostar que você não teria essa oportunidade.

Ele assentiu debilmente e fechou os olhos.

Bee virou à esquerda e entrou de ré com o Formula na entrada para carros, perto de onde estava enrolada a mangueira. As árvores e postes de luz agigantavam-se, sentinelas negras contra o céu morto. Um vento se elevou, suave, trazendo consigo um sussurro de galhos e folhas. Estava gelado, e ele supôs que uma ventania estava por vir, podendo ou não trazer neve; se não naquela noite, com certeza na seguinte.

– Deixe que eu limpo o carro – disse Shisui, saindo do carro e quase tropeçando nos próprios pés. Bee o amparou.

– Vá se deitar. O sofá é duro, mas ficará mais confortável se estendermos algumas mantas por cima. Tenho álcool no depósito, é melhor você tirar as roupas e esfregar no seu corpo para aliviar a ressaca de amanhã.

– Eu não...

–... não se aguenta em pé. Está parecendo alguém que esqueceram de enterrar. Andando, ordens do quartel-general.

Ele foi fazer isso. Bee girou a torneira e lavou com a mangueira o lado do Formula, levando o tempo estritamente necessário para deixá-lo limpo antes que o vento mudasse. Entrou em casa, achou um velho cobertor empacotado debaixo da cama, bateu-o na janela e o trouxe para sala, onde Shisui terminava de despir-se, ficando apenas de cueca. Bee estendeu o cobertor sobre a colcha que já havia sobre o sofá, pegou a garrafa de álcool (usada para limpar manchas de graxa que ele às vezes costuma deixar pela casa) e a pôs no colo de Shisui.

– Tome. Não se esqueça das axilas.

Antes de sair da sala, arriscou uma última olhada. Shisui encarava a garrafa com olhos foscos, sem dizer nada. Bee estava considerando voltar e chacoalhá-lo até sua mente voltar de Andrômeda ou sabe-se lá de que parte do universo estivesse, quando Shisui virou a garrafa numa mão e começou a passar álcool pelo corpo, primeiro nos ombros, depois nos braços. Não é só a bebedeira, Bee pensou ao fechar a porta. É também o que a provocou.

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Shisui deitou no sofá duro e dormiu até às três da manhã, quando acordou tremendo e suando como um homem com malária. Tentou desvencilhar-se da manta, caiu no chão e levantou-se, desengonçado como uma marionete, apoiando-se na mesinha de chão.

Febre, foi a única coisa que conseguiu pensar. Enrolou a manta ao redor dos ombros e saiu andando sorumbática e lentamente pela casa, a procura de uma caixinha de remédios. Levou um tempo até encontrá-la no fundo de uma gaveta, mas não havia nenhuma aspirina. O que achou foi metade de uma cartela de Darvon. Shisui tomou todos os quatro comprimidos, um de cada vez, com longos goles de água. Mesmo que aqueles caras não tenham conseguido me matar, correndo atrás de mim na calada da noite com um canivete, isto com certeza vai, refletiu, arrastando-se de volta para o sofá, desabando pesadamente nele.

O sol estava perto de nascer quando ele afinal conseguiu voltar a dormir, sentindo o cheiro azedo do caldo de suor e álcool em que sua pele marinava.

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Acordou horas mais tarde com uma dor de cabeça retumbante. Lá fora, o vento era um lamento firme e a densa camada de nuvens deixava impossível de determinar a hora do dia. Em algum lugar, ao longe, havia uma porta batendo, como um som ouvido num sonho.

– Bee? – chamou, a voz rouca e áspera. Não era sua voz de verdade. — Bee, está em casa?

Não recebeu resposta. A cabeça latejava como um tomate cheio de sangue quente que estivesse aumentando de volume. Foi até a janela. As folhas das árvores sacudiam com o vento. O asfalto estava seco, sem nenhum sinal de que nevara pela noite. O cinza cromado do céu não deixava sombra de dúvida de que isto aconteceria em breve.

Neve pela noite, não tem erro nisso, Shisui pensou, e percebeu que era um homem suado e fedorento usando uma cueca suada e imunda. Tirou-a o mais rápido possível, deixou-a atrás da porta e foi para o chuveiro; Bee não se importaria de prestar-lhe aquele último favor. O sabão era duro e havia água misturada ao xampu, porém Shisui saiu da ducha quase se sentindo um ser humano novamente. Vestiu a calça jeans, o blusão do colégio e os tênis de pano. A cueca, meias e a camisa foram fechadas dentro de uma sacola plástica.

Saiu para a rua, encolhendo-se para o vento, ainda que não estivesse tão frio quanto supusera de dentro da casa. Não viu o Formula V estacionado ao lado da mangueira – contudo, o Volga estava lá, um grito amarelo em meio àquele dia cinzento.

Shisui aproximou-se do carro, pondo-se à sua frente. Ficou a observar sua beleza amarela, o capô tão cintilante que parecia ter acabado de sair da linha de montagem, em um ano quando Ike ainda era presidente e Batista continuava mandando em Cuba.

Fazia apenas quatro meses desde aquela fuga ao drive-in? Por Deus, parecia muito mais tempo. Ora, ele nem se lembrava direito do nome do filme, Horror Show ou qualquer coisa assim. O que se lembrava era de ter...

(Itachi)

Subitamente, foi arrancado de seus devaneios como se alguém tivesse batido em seu rosto com um uma toalha molhada. Ele beijara Itachi pela primeira vez naquela noite, e Itachi havia sido adotado e iria embora no dia seguinte.

Virou a cabeça para trás tão rápido que a coluna estalou. O vento zumbia nos seus ouvido e jogava seu cabelo para trás. Sob os telhados vermelhos da casas, as nuvens corriam pelo céu, emprestando-lhe aquele tom metálico, impiedoso, espalhando-se para além do horizonte e para além das fronteiras do mundo.

Sim, ele beijara Itachi naquela noite, beijara-o porque ambos haviam avançado sobre a pizza e ao mesmo tempo. Dois vetores convergentes de coincidência que, em outras circunstâncias, teriam requerido não mais do que um murmurado “Desculpe-me” e uma recuada apressada. Daquela vez, entretanto, algo diferente tinha acontecido. Daquela vez, tinha levado um a apaixonar-se pelo outro. Até que podia ter sido gozado, se não fosse tão triste, se aquilo não ficasse assustador tão depressa como ficou. Podia ter sido divertido, se não houvesse sido tão ruim.

Ruim — a que ponto?

Foi ruim desde o começo. E está se tornando pior.

Pela primeira vez, sentiu um doentio formigamento subindo pelas pernas até as virilhas. Medo – medo de verdade – o envolveu por completo.

Ele começou a correr, mas logo parou. Ele chegaria ao orfanato, encontraria Itachi, e então... o quê? O perdoaria? Diria adeus? Imploraria para que engolisse a porra das suas boas maneiras e fugissem juntos?

O tempo estava passando.

Meu Deus do céu, estou assustado.

Ele tornou a correr. Para o orfanato, e contra o destino.

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E Itachi não estava lá.

– Ele perguntou por você – Iruka disse, fechando a mochila. – Não o vi mais desde então. Acho que saiu à sua procura. Agora com licença, estou atrasado. Não me espere para dormir.

Shisui sentiu vontade de sair pulando e gritando. Pensou em ir procurá-lo, mas isso seria idiotice, não? Ficariam os dois buscando um pelo outro por sabe-se lá por quanto tempo, talvez a tarde inteira, e tempo era um luxo que eles não mais possuíam. Amaldiçoou-se por ter sido tão imbecil ao ponto de desperdiçar aquele dia – o último dia em que o veria– desmaiado bêbado num sofá. Não consegui imaginar o tempo se esgotando, pensou, desesperado. E Deus nos pune pelo o que não conseguimos imaginar.

Sentou-se na cama, impaciente, passando na cabeça todos os lugares em que costumava passar o tempo: a garagem de Bee, a academia do pai de Anko, a quadra de basquete. Permeando cada esforço de pensar clara e racionalmente, estava o medo de vê-lo, medo que aliás era terror, terror que aliás era a queda de todo um futuro, cultivado durante uma vida inteira.

Uma hora se passou, depois duas. Um tempo que andava devagar e onde cada momento era uma experiência de frustração. Quando a maçaneta da porta girou, ele praticamente saltou da cama.

Por alguns minutos, ambos ficaram se encarando, um de cada lado do quarto, como dois pistoleiros. As nuvens de neve estavam mais escuras, mais altas, o vento parecia raivoso e implacável sob suas sombras.

Dentre as seis mil coisas que Shisui poderia ter dito naquele momento, o que falou foi:

– Você dormiu com ele?

Itachi piscou duas vezes, e então pareceu entender a pergunta.

– Uma vez. Quando estava trovejando, ele ficou assustado, por isso eu...

Shisui o jogou na cama. E então avançou sobre ele.

Notas finais
A fanfic recebeu uma recomendação de um usuário cujo perfil foi deletado (ashra? Acho que se escrevia assim). Gostaria apenas que esta pessoa se revelasse para que eu possa abraçá-la e enchê-la de amor. Mais: a Oficina Literária que venho frequentando durante o ano inteiro está prestes a lançar um livro na Feira do Livro! É pequeno, com quatro contos e uma introdução por aluno (praticamente todos os contos que selecionei têm final trágico, talvez surjam sugestões para que eu vá consultar um psicólogo). Estou tão feliz, apesar de tão enrolada com minha nova vida de universitária adsflakfdlafjdlafk o(≧∇≦o)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.