Notas iniciais
Aaaay! Não vou pedir desculpas pelo atraso, mesmo sabendo que eu fui uma preguiçosa lazarenta. Aulas começando em Agosto e minhas queridas "férias" acabando *chora desconsoladamente* Estou adicionando capas para cada um dos capítulos. Todas as imagens serão na vibe vintage, logicamente, e cada uma terá uma relação com o capítulo. A imagem deste é como imaginei que fosse a fachada da casa da Kushina. Bom, é isso aí. Aproveitchem.

:: ::

XI

::

::

A velha batera em sua porta na semana passada. Era segunda-feira e Kushina van Ness, nascida Willa Sinclair, um nome certamente antiquado para uma aspirante à estrela de Hollywood como ela, atendeu-lhe pensando ser Aron Benson trazendo alguma proposta de revista convidando-a a posar em roupas curtas ou apertadas (às vezes as duas coisas) ou, melhor ainda, com uma resposta do diretor que dirigiria As Dunas de Marfim, aceitando-a para interpretar Beatrice. Era um papel secundário, mas não deixava de ser um começo. Um começo ótimo, falando honestamente, para quem não tinha nem vinte e cinco anos. Ultimamente, o dinheiro finalmente havia começado a entrar, e ela abriu a porta enrolada em um robe de seda púrpura; nas faces e na testa um creme adquiria uma consistência de gesso.

O sorriso congelou quando viu não Aron, em seu terno cinza e seus olhos inquietos por trás dos óculos de chifre, mas uma mulher idosa, as faces cavadas e a pele negra profundamente enrugada, tão sulcada de vincos como o couro dos sapatos. Uma argola dourada cintilou em um dos lóbulos da orelha. Kushina achou-a feia e mais do que magra; achou-a emaciada.

– Bom dia – falou na voz mais agradável que conseguiu arranjar. – Em que posso ajudá-la?

A velha sorriu para ela, mostrando dentes manchados de nicotina. O sorriso não passava de uma flexão de músculos. Não afetava em nada o olhar, que mantinha uma inexpressividade mortal.

– A adoráver senhurita vai convidá uma póbri e fraca véia pra entrá? A caminhada foi longa e meus pé tão duendo.

Obviamente que Kushina não queria aquela mulher, que mais parecia uma bruxa saída de um terrível conto de fadas, onde o final não era feliz e as criancinhas eram transformadas em gafanhotos, dentro de sua casa, sentada em uma de suas cadeiras de mogno alcochoadas.

Contudo, lembrou-se das palavras de Paula, sua consultora de moda: “Uma dama deve sempre se manter interessante e afável, não importe o que joguem contra ela. Se precisar, agradeça e peça para repetir.”

E ali estava algo que o destino jogava a ela, para testar seus bons modos. Tentando ao máximo não mostrar relutância, Kushina recuou um passo para deixar a idosa visita passar.

– Terei prazer em recebê-la – disse, alegremente.

– Agradicida. – A velha não fez cerimônia em providenciar um lugar para sentar, e não foi numa das cadeiras de mogno, e sim no espaçoso sofá cor de gengibre. Não importa, Monique pensou, sorrindo o tempo todo enquanto ocupava o divã ao seu lado. Estou de mudança mesmo, e daqui a poucos meses nunca mais verei este sofá novamente.

– Gostaria de um chá? Talvez café?

– Naum, num vô tomá muito do teu tempo. Vô sê beim breve.

Graças a Deus.

– E qual o motivo desta... visita inesperada? A senhora tem algum assunto a tratar comigo?

A velha não pareceu escutá-la.

– É uma casa bunita – comentou. – Apesar di um pôco grandi pra só uma pessoua.

– Dentro em breve ela não será mais minha – replicou Kushina. – Me mudarei para Munique, para uma casa com o dobro do tamanho desta.

Falou isto tentando não soar convencida, mas descobriu que aquilo não era possível. Não quando estava tão na cara a enorme distância entre seu padrão de vida e o da outra, cujo velho vestido azul com bolinhas que tinham sido brancas, mas que agora tinham aquela cor amarelada de jornal velho, deveria ser o melhor traje de seu guarda-roupa.

– Uma casa taum grandi. Tu devi se senti um pôco sozinha, num é verdadi?

Uma pergunta um pouco invasiva, dona, uma voz falou em sua cabeça, ao que outra respondeu: interessante e afável, interessante e afável. Afável.

– Sempre gostei de um pouco de privacidade – disse, brandamente. – Convido amigos e dou festas no jardim dos fundos, às vezes com a música tocando tão alto que a polícia bate à porta depois de um tempo, porém gosto da casa silenciosa quando chego do trabalho. Sinto-me em paz sem ninguém por perto.

– É mermu? – Ela inclinou-se para frente e seus olhos amarelados cintilaram, astutos. Para Kushina, assemelhavam-se aos de uma leoa, exceto que deixavam entrever um desagradável brilho de inteligência. – Ti senti em paiz, mermu nas hora escura da noiti, cô som du ventu parecendo um uivo dum lobu e a sombra dum gaio di arvóre na paredi qui mais pareci a mão duma pessoua?

Kushina não se deixou intimidar. Não sabia o que aquela gata velha queria, mas já decidira que coisa boa não poderia ser. Continuou sorrindo polidamente para ela, aguardando.

A velha voltou a recostar-se na cadeira.

– Li uma reportagi docê. Ou mió, um dos meu pirraio leu pra mim, pruque eu nunca tive instruçaum. Até assisti um firme teu, Mi conta teus sonho, num é essi u nomi?

O filme era antigo, produzido há quinze anos atrás, pelo menos. O papel de Kushina nele não pode ser considerado nem mesmo secundário, já que aparecera em dois pares de cenas como Annita, a pequena órfã. Contudo, houve uma cena em que ela roubara as luzes dos holofotes, quando Annita morre numa viela escura, acendendo um fósforo atrás do outro para tentar manter-se aquecida da neve que caía. Segundo a coluna de uma revista, a cena fora tão real que a jornalista não conseguira ver o final do filme. Fora naquele momento em que Willa Sinclair começara a ter os olhos da indústria cinematográfica voltados para si. Conte-me Seus Sonhos fora o primeiro grande passo, e As Dunas de Marfim seria o segundo.

– Sim, o nome é esse mesmo.

– Ocê teim futuro, fia – a velha comentou, e o comentário ao menos parecia sincero. – Si eu dissé qui num fiquei imprêssonada cum a tua artuação, vô tá contandu uma mintira dislavada.

– Obrigada. – Kushina deixou-se lisonjear com aquilo. Um pouquinho. Talvez ela não passe de uma admiradora, pensou, uma senhora que fica com a televisão ligada enquanto tricota e que assa muffins para levar à igreja aos domingo. Acho que foi errado de minha parte julgá-la tão precocemente.

Mas o pensamento não parecia correto. Ora, a coisa toda era bem convincente – o tom descontraído, a adulação discreta, nada excessivo. Mas a sensação de que a mulher tinha segundas intenções por detrás dos elogios persistia.

– Ocê devi é viajá muitu. Ou si num é assim, ainda vai sê. Pessoua assim num consegui firmá raiz c’ozotros. Pensa em si casá?

Outra pergunta íntima, e Kushina começou a perder a paciência com ela. Tentava ser educada, mas a verdade é que era bem destemperada. Nos seus anos de adolescência, concluídos não fazia muito tempo, Kushina fora uma fonte abundante de respostas ríspidas e ataques de fúrias devastadores como furacões de categoria cinco. Foram várias as vezes em que destruíra seu quarto quando algo lhe era negado, como quando fora proibida de participar de qualquer filme ou peça de teatro enquanto não terminasse o ensino médio. Lembrava de ter arrancado o adorado pôster de Ricky Nelson, a primeira e derradeira paixão dela e de tantas outras garotas de 15 anos; arrancara-o da parede e fizera em pedacinhos o belo rosto de olhos azuis bem separados e cercados de fabulosas pestanas grossas.

“Willa, minha filha” vovó Mito chamara-a, e quando a garota sentara-se ao seu lado, os olhos furiosos e desafiadores, a velha passara as mãos em seus cabelos rubros. Mito também tivera-os quando moça, e ainda que houvessem tornado-se grisalhos, Kushina assemelhava-se em aparência muito mais à avó do que ao pai. “Se não controlar o seu temperamento, ele acabará controlando você”.

Suas mãos alisavam seus cabelos, enrugadas e suaves, tão diferentes das da velha sentada à sua frente. Desde então, aquelas palavras passaram a acompanhar Kushina, que resolvera dar um jeito em seu temperamento tão frequentemente vil. Sabia que não poderia matá-lo, pois isso seria destruir uma parte de si mesma, mas se não decidisse fazer algumas mudanças fundamentais, uma parte importante dela continuaria a ter 15 anos por muito tempo mais. Esforçou-se para impor o controle, e quase sempre conseguiu. Quando sentia o controle escorregar, lembrava-se do que a avó lhe dissera e do carinho em sua cabeça. Ela falou em seu funeral, dois anos atrás: Minha avó me disse a coisa mais importante que já ouvi. Não revelou que coisa era essa, mas o pai sabia; estava sentado no banco da frente da igreja, com um sorriso grave nos lábios.

Nos últimos dez anos, quando sentia ânsia de explodir com alguém – ânsia que em certas ocasiões era quase irreprimível, porque as pessoas podiam ser muito estúpidas, muito burras de propósito –, ela lembrava-se da voz da avó: Se não controlar seu temperamento, ele controlará você.

– Casar e ter filhos não estão em meus planos no momento. No futuro, quem sabe – disse, feliz que sua voz soava mais calma do que realmente se sentia. – Agora, permite-me perguntar o real motivo dessa visita? Não sou tola, senhora, e gostaria que não mentisse para mim.

Educada, mas firme. A velha estudou-a por um momento, e Kushina esperou pelo o que estivesse por vir. No fim, será dinheiro, pensou, cínica. Sempre é.

A velha, contudo, surpreendeu-a.

– Muitu beim – ela disse, cruzando as pernas. – Eu cuidu dum orfanatu, intendi? E tô é querendo arranjá um lar prum dus menino.

– Senhora – Kushina começou, e uma risadinha incrédula escapou da boca. – Senhora, eu acabei de dizer que...

– ... qui num qué tê criança, sim, num sô surda. Mais issu é pur inquantu, fia. Cê é nova, mais naum taum nova assim, si mi permiti a ôsadia. Num vai tardá e tu vai começá a pensá nissu, tô certa.

Mas é muita cara-de-pau.

– Isso talvez aconteça, você está realmente certa, mas o seu “tardar” talvez leve algum tempo. Um ano, ou cinco, ou dez. Quando eu de fato querer um filho, vou deixá-la a par disso.

Aquilo, claro, jamais iria acontecer, e ambas sabiam disso. Se Kushina alguma dia chegasse desejar ser mãe, procuraria engravidar, e não adotar a cria de uma fulana qualquer. E torceria por uma menina, não um menino.

A velha não mostrou sinais de derrota.

– Eu sei o qui tá passandu na tua cabeça – disse. – Tu tá pensando num bebê barulhentu, ranhentu, qui num faiz nada além di cagá e chorá. Sim, essis saum umas praga. Mas u garotu qui eu tô ti oferecendu já é crescidu.

Oferecendo, a mente de Kushina repetiu. Como uma mercadoria.

– Senhora, francamente...

– Dê uma oiada no guri – insistiu a velha. – Só uma oiada, e depois podi pensá a respeitu. Si é malcriaçaum o qui ti preocupa, digo qui ele é bastanti educado, e brianti como ágata polida.

Agora a velha estava inegavelmente portando-se como uma vendedora. Imaginou-a num comercial de televisão, segurando uma embalagem de xampu numa pose caricatamente sensual, enquanto uma voz masculina anunciava num tom empolgado: Use regularmente e observe seus cabelos ficarem brilhantes como ágatas polidas!

Retomou a postura.

– Disse-lhe que não estou interessada. – Daquela vez, deixou a frieza infiltrar-se em sua voz. Quem sabe a velha talvez percebesse que deveria procurar uma candidata à mamãe em outra residência. – Tenho que pedir para ir embora. Estou esperando uma pessoa.

– Certo – a velha cedeu, suspirando.

Desistira fácil demais, e Kushina sentiu uma pontada de desconfiança. Abriu a porta para ela, praticamente enxotando-a, e enquanto via-a caminhar para longe através da janela, sentiu um alívio crescente. Tudo bem, pensou. A bruxa foi embora, as criancinhas estão dormindo, e está tudo bem.

Aron chegou e ela o recebeu devidamente vestida num justo vestido preto e os espessos cabelos vermelhos presos no topo da cabeça com uma presilha de pedras preciosas. “Senhorita, a atriz protagonista caiu fora”, ele lhe disse, o rosto iluminado. “O diretor quer a senhorita para o papel de Sybelle, e ele quer uma resposta o mais rápido possível”.

Kushina gritou e atirou os braços em volta dele, desequilibrando-o por um momento. Em seguido deu um beijo estalado em seus lábios. “Se ele quer uma resposta tão imediata, você poderia ter dito sim na mesma hora, Aron, seu palerma!” Aron ficou vermelho como um pimentão e murmurou qualquer coisa num tom apologético. Kushina apenas riu do pobre garoto e foi abrir uma taça de champanhe. Aquele dia foi corrido, e quando a noite chegou, Kushina já havia se esquecido da velha.

:: ::

No entanto, no dia seguinte, ela estava à sua porta de novo.

Seu sorriso foi varrido do rosto.

–Bum dia – A velha lhe dirigiu um sorriso amarelado, e mostrou a bandeja que trazia nas mãos. – Nossa cuzinhêra extrapolô nu númiro di muffins, e eu achei qui tu ia gostá di exprimentá arguns.

Kushina viu-se novamente sentada frente a frente com ela, desta vez na mesa da cozinha, sorrindo como se tivesse elásticos amarrados nos cantos da boca. A velha nem sequer tocou no assunto da adoção. Falava de coisas mais naturais: quem elas conheciam nessa rua, de que parte de Nevada Kushina viera, onde gostava de fazer compras. Kushina olhou para o muffin de amora que tinha nas mãos. Levou-o para perto do rosto, mordiscou-o, hesitante, e deu uma dentada maior. Estava mais do que passável – estava delicioso.

Estará ela pensando que pode me comprar com comida?, pensou em seguida, assistindo a velha ir embora. Havia deixado três muffins “pra mais tardi” na cozinha de Kushina. Por quê?

Achava que sabia o motivo. A velha queria que um dos garotos que cuidava fosse adotado, e aparentemente enfiara na cabeça que a pessoa a fazer isso tinha de ser Kushina e ninguém mais. Por qual razão, ela não era capaz imaginar.

A velha voltou no outro dia. E no outro. E no outro.

– Basta – Kushina arrebentou quando a velha apareceu para lhe oferecer a quarta ou quinta leva de muffins. – Basta, eu digo. Se voltar a aparecer em minha casa outra vez, chamo a polícia. Nem pense que estou brincando.

– Issu num é precisu – ela disse, despreocupadamente. – Só queru qui venha vê u garotu.

– Pelo amor de Deus, quantas vezes já disse que não quero adotar essa criança?

A velha deu um tapa impaciente no ar com a mão livre como quem diz Bobagem.

– Num qué pruquê num viu eli ainda – ela disse. – Vamu fazê assim: aminhã, tu veim cum eu pro orfanatu, dá uma espiada, e si num gostá... bom, num posso fazê nada.

Uma mina, uma parte dela avisou, porém estava tão zangada e louca para ver-se livre da velha que disse:

– Muito bem. Irei ver esse tal garoto, e depois de amanhã, a senhora nunca mais voltará a pisar no meu carpete de entrada, está bom assim?

– Tá – a velha disse, e inclinou-se para ela sobre a bandeja de muffins. Embora fosse mais baixa e infinitamente mais velha, Kushina sentiu uma pontade de medo. – Ti pegu às novi di aminhã. Num vai si arrependê, ti prometu isso.

Já estou arrependida agora, ela pensou, e bateu a porta, pelo que pareceu ser a milésima vez.

:: ::

Acordou na calada mais profunda da noite, quando a lua está baixa e a hora é nenhuma. O dia anterior havia sido bom, com temperaturas baixas mas sem sinal de mais neve, e a previsão do tempo havia prometido a mesma coisa para o próximo, contudo a noite jamais poderia ter prenunciado um tempo bom com o vento assobiando nos beirais da casa, tão alto que ela despertou com um pulo, o coração aos pinotes.

Olhou em volta, imóvel. Não havia nada de anormal no quarto escuro, iluminado pelo luar – ali estava sua penteadeira, o contorno da estante de livros, e ali estava ela, sentada trêmula em sua cama, os longos cabelos ruivos desgrenhados.

Chutou as cobertas para fora e tropeçou em direção ao interruptor. A luz afastou a sensação ruim dentro dela – um pouco.

Um banho e um copo de leite, é isso o que eu preciso, pensou, calçando suas pantufas. Desceu para a cozinha, demasiado ciente dos pequeninos ruídos da casa: relógio elétrico, o zumbido das lâmpadas fluorescentes, um baque seco do congelador da Frigidaire, indicando a fabricação de mais um cubo de gelo. Abriu a geladeira, viu uma embalagem de seis Cocas e pensou: Longe de mim, Satanás! Mesmo assim, ela apanhou uma lata. Pouco importava que lhe estragasse a pele. Não estou saindo com ninguém mesmo. Minato foi embora antes de terminarmos o ginásio, mudou-se para sabe-se que ponto do Alabama, e conclui que os garotos não prestam, nenhum deles, e que eu estaria melhor sozinha, mesmo que naquela noite eu tenha chorado até dormir. Nunca mais me envolverei emocionalmente daquele jeito, então e daí, se me crescerem espinhas?

A casa vazia a deixava inquieta. Isso jamais acontecera antes; Kushina sempre sentira-se satisfeita e absolutamente competente quando era deixada só – sem dúvida, uma reminiscência da infância. A casa sempre lhe parecera confortadora, mas agora os sons da cozinha, o uivo do vento aumentando lá fora, até mesmo o rumor de seus chinelos no linóleo – tais sons pareciam sinistros, até mesmo aterrorizantes. Se tudo tivesse ocorrido de uma maneira diferente, Minato poderia estar ali, com ela. Seus pais, especialmente sua mãe, haviam gostado dele. Era boa-praça, tinha um sorriso fácil e olhos azuis que brilhavam como safiras, e era capaz de domar seu temperamento explosivo. Kushina simplesmente não conseguia ficar furiosa com ele. Houve uma vez, no Dia das Bruxas, em que ele viera buscá-la para o baile à fantasia da escola, e quando ela abrira a porta, ele saltara do arbusto de framboesas, quase matando-a de susto. Era noite e a lâmpada do hall de entrada estava queimada havia semanas, e ela ainda lembrava-se de como sua máscara do Monstro de Frankstein brilhara, fluorescente, no escuro. Assustara-a para valer, não importava que ele houvesse dito que era apenas para “entrar no clima”. Kushina batera repetidamente no seu peito, repetindo Por que você tem que ser tão escroto, Minato, por quê?, e somente o perdoara porque ele realmente parecera arrependido.

Memórias, ela pensa. Memórias de um passado há muito ido.

Agora, naturalmente, depois do sucedido, sentia vontade de lavar sua boca com sabão só de pensar nele. No entanto, ela não conseguia evitar. Pensava nele, às vezes o dia todo. Perguntando-se por que Minato a deixara. Perguntando-se como ele estaria aceitando sua nova vida. Perguntando-se se ele estaria legal.

O vento aumentou de tom até uivar, e ela segurou com força o decote da camisola, vendo a ela mesma ali na cozinha, com um ! de história em quadrinhos sobre a cabeça. Recordava-lhe – sem qualquer motivo, naturalmente – o grito de uma bruxa.

Sem retorno da curva do Homem Morto, sussurrou sua mente, de modo estranho. Então, sem o menor motivo (lógico) ela foi até a pia e despejou a Coca no ralo, perguntando-se se iria chorar, vomitar ou o quê. Kushina percebeu, com surpresa crescente, seu estado de quase terror.

Sem o menor motivo.

Lógico.

Afinal, toda aquela incomodação sobre adoção iria acabar no dia seguinte, ou melhor, dali a algumas horas. A velha (velhas, estava com velhas na cabeça) viria buscá-la às nove, a levaria para o orfanato, mostraria a criança, e Kushina recusaria-a delicadamente. Estava tudo planejado. Era uma manhã que se seguiria conforme ela a programara enquanto comia um solitário jantar de pão com queijo e azeitonas no dia anterior. Ainda assim, não sentia alívio nenhum. De pé sozinha em frente à pia da cozinha no coração partido de uma noite de inverno, sentia-se nervosa.

Culpa dela, disse a si mesma. Ela me deixou deste jeito. Pobre das crianças que têm de conviver com isso todos os dias, algumas desde que nasceram.

Esquentou um pouco de leite na panelinha marrom com o fundo riscado e tomou um banho quente. Foi para a cama nua, enrolando-se nas cobertas, e as três coisas surtiram efeito: mesmo quando o vento tornou a intensificar-se, zumbindo em torno das calhas e em seguida murmurejando, Kushina dormiu, e não sonhou.

:: ::

Era uma coisa pobre, tal qual ela esperara: as paredes eram de madeira nua sem acabamento, os espaços entre as ripas tapados com espuma de isolamento cor-de-rosa. As beiradas da mesa à qual estavam sentadas era uma profusão de farpas de madeira (e ali viviam crianças, pelo menos cinquenta delas, sua mente apontou), e em seu centro havia um vaso rachado sem flores que brilhava à luz mortiça do globo salpicado de sujeira de mosca, que formavam desenhos de ondas.

Claro que ela não se importaria em ajeitar o lugar para uma visita tão insignificante quanto a minha, Kushina pensou, algo ressentida. A velha fora buscar o garoto em seu quarto, deixando-a sozinha na sala de estar. “Num contei nada pra ele”, dissera a ela. “Tu é uma senhoritinha qui trabaia prum jornal e veiu dá uma oiada nu orfanatu pra fazê entrevista. Se ele perguntá, bicu fechadu sobri a adoçaum.”

Kushina – é claro – achara aquilo um desaforo. Em primeiro lugar, ela prendera o cabelo e amarrara um lenço verde em volta da cabeça, com o nó bem no topo da testa, e mesmo ali dentro manteve os óculos escuros em forma de máscara de arlequim. Não parecia uma “senhoritinha que trabalha para um jornal” nem a vinte léguas de distância. Em segundo, como aquela velha bruxa ousava vir com uma história daquelas? E sem avisá-la? “Os moleque si cumportam diferenti quandu nas entrevista c’as famía” ela explicara. “Parecim uns anjinhu, as pesti, mas quandu pisam dentru di casa, viram umas gárgula. Dessi jeitu, ocê vai vê comu ele é di verdadi, seim fingimentu”.

Vira a esperteza da velha naquilo, mas isso não tornava a situação mais fácil de engolir. Agora estava claro que todo aquele papo sobre a velha admirá-la era conversa fiada, e Kushina estava se coçando para dar o fora dali. Sentia-se tão deslocada naquele casarão sombrio quanto uma calcinha de puta num altar.

Então a velha voltou, trazendo uma garota com ela. Ou foi essa a primeira impressão que Kushina teve, pois quando eles se aproximaram viu que era, em fato, um menino.

– Itachi, essa é a jornalistinha – a velha disse-lhe. – Ela veiu fazê uma matéria sobri adoçaum.

Kushina o olhava de cima abaixo, contente que os óculos escuros ocultavam sua expressão de honesta surpresa. O menino – Itachi – chamava a atenção, mesmo com círculos escuros em torno dos olhos e uma escolha de roupas indiferentes (jeans desbotados e uma camisa que sem dúvida era de pijama). Ela pensou que, talvez, as pessoas inteligentes raramente perdessem a boa aparência – isso se a tivessem, claro – e viu a luz límpida da inteligência nos seus olhos.

Nan Melda deixou o momento estender-se, com a mulher e o menino estudando-se sub-repticiamente um ao outro, e então falou num tom amável:

– Agora, seje um meninu obedienti e faiz um pôco de chá pra nóis, faiz favô.

Itachi retirou-se, não sem antes lançar à Kushina um último olhar disfarçado.

Melda sentou-se em frente a ela.

– E então? – perguntou. – O qui achô?

Kushina tratou de fechar a boca.

– Me parece um garoto normal – declarou, indiferente. – Embora um pouco magro demais. E desgastado.

Fez questão de sublinhar a última palavra. A velha, contudo, não pareceu se importar com a sugestão de censura.

– Ele teim passado por maus bocado, o bichinho. Na verdade, senhorita... – Ela inclinou-se sobre a mesa daquela maneira vulpina que fazia Kushina retrair-se, como se a mulher fosse morder-lhe. –... essi é o motivu di eu tê ido chamá ocê. Essi lugar num tá fazendu beim pra eli. Na verdade, nunca feiz. Desdi o primêro dia qui ele chegô aqui as ôtra criança teim martratadu ele. Quero tirá ele daqui, mas num queru dá ele pra quarquer um. Ocê é a pessoua certa pra cuidá deli. A pessoua... apropriada.

Kushina não encontrou palavras para exprimir seu ódio, sua raiva, seu desprezo por aquela mulher. Não importava de que maneira ela pusesse aquilo, o que estava fazendo era jogar o garoto em seu colo sem mais nem menos e ainda dando uma desculpa mais furada do que queijo suíço para aquilo. Ele lhe parecera decente, mas Minato também parecera a oitava maravilha do mundo no início, apenas para desapontá-la daquela maneira atroz no final. O mais provável é que fizesse a governanta subir pelas paredes ao ponto em que ela resolvera livrar-se dele o quanto antes. Sentiu quebrar uma fissura em seu autocontrole, aquela fissura que ela conhecia bem – se não se controlasse, em breve ela estaria cuspindo lava. E eu consigo controlar-me. Sorriu largamente para a velha, que estreitou os olhos.

– Vou pensar no caso.

Pronto. Simples assim. Uma resposta incerta, que poderia significar tudo ou coisa alguma, sem nada definir.

A velha pareceu quase surpresa por um instante, Kushina viu com satisfação, após o que retomou a compostura.

– Senhurita – ela disse –, seria mió si ocê decidissi isso, hum, em brevi, intendi? O garotu...

– Oh, mas não posso, você vê? – ela retorquiu, seu sorriso doce. – Tenho a agenda cheia pelos próximos quatro meses, pelo menos, e não posso simplesmente sair adotando uma criança do nada, entende? Sem contar que fui escalada para o papel principal de um novo filme... quem sabe não marcamos outro encontro no futuro? Tenho certeza que as filmagens já estarão encerradas, ah... no final do ano que vem. Possivelmente.

Os lábios franzidos da velha se comprimiram de tal forma que quase desaparecerem, como se... sim, como se ela tivesse acabado de dar uma dentada num limão, Kushina constatou com júbilo vitorioso.

– Si vai pensá, intaum pensa cum carinhu, senhurita. Pretendu tirá o garotu daqui o mais rápidu possíver, mas eu prefiria qui fosse cocê.

– E por quê? – Kushina inquiriu, sorrindo feroz, e bateu com a mão na mesa. – O que ele lhe fez para estar tão desesperada em livrar-se dele? Por que tem atormentado-me tanto para assumir sua responsabilidade, ao ponto de perseguir-me até minha própria casa? Por que eu?

Melda chegou a abrir a boca (onde havia dois dentes faltando) quando ouviram passos vindos da cozinha e logo o garoto apareceu, trazendo duas pequenas xícaras de porcelana limpas como a neve e uma bandeja com açúcar e creme e roscas de pão aparentemente saídas do forno. Kushina esquecera seu nome, só sabia que começava ou terminava com i.

– Os garotos comeram os últimos biscoitos de limão – ele disse, em tom de desculpas, enquanto servia-lhes o chá. Tinha um aroma bom, quente e forte, e como que despertou-a da névoa sangrenta em sua mente.

– Num teim probrema – retrucou Melda secamente, levantando-se. – Ti senta e intreteim a moça, tarvez ela quera ti etrevistá. Vô atráis dessis muleque, disse qui num era pra cumê os mardito biscoitu.

O garoto tomou o lugar à sua frente enquanto ela ia embora a passos duros. Então Kushina viu-se cara a cara com o tão falado garoto, a fonte do tormento dos seus últimos dias. Abriu a boca, e tornou a fechá-la. Ele também não fez qualquer menção de iniciar uma conversa. Manteve a boca calada, olhos baixos e joelhos fechados.

– Então – Kushina esforçou-se para dizer –, qual é mesmo seu nome, querido?

– Itachi – ele disse.

Não acrescentou mais nada. É mesmo, tenho de interpretar uma jornalista, Kushina lembrou. Não que isso fosse difícil para Kushina van Ness, conhecida em outra vida por Willa Sinclair, Aspirante A Hollywood. Improviso era tão natural para ela quanto chutar uma bola, mas viu-se momentaneamente sem fala. Observava o pescoço de Itachi, onde havia uma equimose amarelada e quase desaparecendo. Um machucado, foi o que concluiu, pensando na velha. Com certeza ele é muito novo para aquilo ser uma marca de amor.

– Quantos anos tem, Itachi?

– Catorze.

Logo se via que ele era alto, talvez 10 centímetros a mais que ela, porém mesmo assim Kushina teria dado menos para ele. Treze anos, até mesmo doze, por conta de sua aparência absolutamente arrasada, com aqueles joelhos unidos e a cabeça baixa sobre o colo. Era um garoto alto que agora parecia pequeno. De certa forma, diminuído.

Não posso sentir pena, senão estarei nas mãos dela, não importa o que ele venha me dizer.

– Conte-me sobre sua vida – ela pediu, delicadamente.

Itachi encolheu os ombros e começou a falar. Antes que se desse conta, Kushina tinha tomado duas xícaras e também comido uma das roscas. Ele bebericou o chá, mas apenas para acompanhá-la; nem sequer tocou nas roscas sobre a mesa. Em algum momento pensou que talvez devesse interrogá-lo mais, para dar mais realidade ao papel, mas decidiu contra. Percebeu que não queria interromper o garoto, que também arrancava farpas da beirada da mesa enquanto falava e depositava-as sobre seu píres. Não queria atrair aqueles olhos cinzentos para si. Eles a deixavam desconfortável, mas não da mesma maneira que os olhos da governanta. Os olhos eram incômodos pela sua tristeza, tão carregados dela que um astronauta poderia ter visto do espaço. Kushina não pôde dizer o que havia de errado pelo dia-a-dia tragicamente entediante que ele contava para ela. Novamente surgiu-lhe a ideia de que a própria velha o estava maltratando – ela, ou as crianças do orfanato. Não acreditara num pingo do que dissera sobre os outros órfãos o molestarem, aquilo lhe soara como algo para dar uma pitada de desgraça à pobre vida do pobre garoto, mas agora já não tinha tanta certeza.

Um momento depois de ele terminar de falar, vieram gritos do andar de cima, seguidos do som de pancadas. “Pur acaso cês saum SURDO?”, a voz vibrante de Melda gritou. “Eu dissi qui num era pra cumê a porcaria dus biscoito, diacho!

Cada palavra grifada era acompanhada de uma pancada, que Kushina julgou só podendo ser de uma vassoura. Itachi bebeu mais um gole do chá.

– E você gosta da vida aqui? – perguntou a ele. Continuava sorrindo. Um sorriso congelado.

Ele deu de ombros.

– Não é ruim. Digo, não é como se eles fossem abusivos ou algo assim.

Lá em cima, as pancadas continuavam. Uma garota começou a chorar, e então Melda os enxotou para os quartos com um “E si ocês pensaum que vaum tê jantar hoji di noiti, é mió pensa duas veiz!”

O olhar de Kushina voltou para a equimose no pescoço dele e seu estômago pareceu se comprimir dolorosamente contra o coração, mas sua expressão não se alterou. Se eu deixar mover-me por algum equivocado sentimento de pena, ele pode estar dormindo debaixo do meu teto no próximo mês. Além do mais, tudo aquilo não poderia passar de uma encenação, orquestrada para invocar nela sentimentos de horror e compaixão... mas isso não parecia provável. Não achava que a velha fosse assim tão longe, por mais que quisesse que adotassem o garoto. E se fosse de fato uma encenação, ela e os garotos mereciam Hollywood três vezes mais do que Kushina.

Melda desceu as escadas, as costas tão eretas quanto o cabo da vassoura que trazia na mão.

– Já terminaraum? – questionou, mal-humorada.

– Ah, sim, claro. – Kushina pegou sua bolsa e levantou-se, apressada. Itachi observava-a com aqueles olhos de um matiz mais claro de cinza, e ela ficou agradecida pelos chamativos óculos escuros sobre o nariz. Não queria ter nenhum contato muito direto com ele.

Melda deu as chaves para Itachi e ele saiu para abrir o portão. As duas mulheres detiveram-se por um momento na porta de entrada.

– Entaum? – a velha perguntou. – O qui qui tu achô?

– Ele... me pareceu ser um bom menino – admitiu.

A velha deu-lhe seu sorriso leonino.

– Issu eli é. Inteligenti, tambéim. Tá um ano na frenti dos colega, e já conseguiu bolsa numa universidadi. Ia sê o orguio dos pai, si elis tivesse si importadu o suficiente pra num tê abandonadu eli.

Kushina não respondeu. Se deixasse aquelas palavras fazerem o caminho até seu coração, estava perdida.

– Tenho certeza de encontrará ótimos pais para ele. Qualquer um desejaria um filho assim.

– Quarquer um... mas naum ocê.

– Exatamente – disse, descendo os degraus. – Não eu.

Itachi a observou aproximar-se, segurando o portão aberto para ela.

– Obrigada – Kushina disse-lhe. – Tivemos uma conversa agradável.

– Sim. – Ele hesitou, então soltou: — A senhora não é uma jornalista de verdade.

– Ora – ela disse, mais divertida do que surpresa –, por que diz isso?

Itachi desviou os olhos para o chão.

– Jornalistas levam blocos de anotações nas mãos. Ou um gravador. Quando vão fazer entrevistas. É assim que aparecem na televisão, pelo menos.

Soava como se estivesse pedindo desculpas por tê-la desmascarado.

– É como você disse: como aparecem na televisão. Alguns levam blocos de anotações ou um gravador, isso é verdade, mas digamos apenas que eu tenha uma boa memória.

Seu tom era leve como merengue, e ele pareceu acreditar nela.

Agora. Você está livre, vá embora e faça questão de deixar este dia para trás.

Em vez disso, ficou olhando Itachi, e ele devolveu-lhe o olhar. Seu rabo-de-cavalo ia até debaixo dos ombros, e os cílios em torno dos olhos eram compridos e negros. Kushina achava que jamais havia visto cílios tão longos, nem mesmo Ricky Nelson tinha alguma chance.

– Diga-me, por que deixou o cabelo crescer até esse tamanho?

Era uma pergunta sincera. Se um rapaz o deixasse até o ombro, era o.k., ela supôs, porém mais do que aquilo e o indivíduo já passava a impressão de afeminado, ou pior, envolvimento com drogas, e as pessoas já olhavam-no torto. Ele pegou a ponta do rabo-de-cavalo e observou-a com um olhar vago.

– Ele não fica bem curto. E também... algumas poucas vezes... desejo que eu não fosse um garoto. Então tudo ficaria bem, ou assim eu gosto de acreditar.

Kushina desejou perguntar o que exatamente “tudo” abrangia, mas ele logo recuou, o rosto avermelhando-se.

– Desculpe, não deveria estar dizendo essas coisas.

E fechou o portão a sua frente.

Está tudo bem, ela quis lhe dizer... mas era um pensamento perigoso, e ela o reprimiu.

– Até logo – ela disse, e lembrando-se de algo que Vovó Mito costumava dizer, acrescentou: – Vá pela sombra.

Pela primeira vez, Itachi sorriu. Um sorriso rápido, brilhante e triste como o sol de outono num curso d’água.

– Eu vou de todo o jeito que puder.

Ela caminhou alguns passos, virando-se a tempo de ver Itachi entrar de volta no orfanato. As grades do orfanato assemelhavam-se às de uma prisão.

:: ::

Outra noite insone.

Sonhou que acordou naquele mesmo quarto, com o luar formando um leque de luz no chão. A velha estava à sua frente, vestida com aquele horrendo vestido de bolinhas, mas calçava sapatos vermelhos e cintilantes, com o salto da metade da sua altura e que tornava-a tão alta que quase alcançava o teto. Os saltos eram incrustados de diamantes. Kushina estava sentada no sonho, sentada na cama, e a sensação que tinha era de estar assistindo à velha.

Brianti comu ágata purida!, a velha anunciou. Satisfaçaum garantida!

Estendeu a mão para ela e Kushina já sabia o que havia nela: Itachi, tão pequeno quanto um frasco de perfume. Por alguma razão, seu eu onírico o vestira com roupas de boneco. Quando pequena, ela própria cozera as roupas para suas bonecas, e elas quase sempre ficavam enormes e fora de proporção nos brinquedos. A mão da velha estava lá em cima, mas Kushina conseguia vê-lo perfeitamente bem, a camisa feita com tecido de pano de louça e calças listradas, uma perna maior que a outra. Ele estava deitado na palma da mão dela, o rosto adormecido e vulnerável. Os cabelos estão esparramados porque não ficam bem curtos, ela pensou, atônita.

A velha pôs a outra mão em concha sobre aquela, formando uma bola de ar com os punhos, e começou a sacudir.

Não!, ela tentou gritar. Não, não faça isso, por favor! Ele é uma criança! Por favor, você o mataria!

Aumenta a velocidade do sacolejo, em seu rosto a expressão de prazer de uma criança malévola colocando fogo no rabo de um cachorro. Uma criança incrivelmente velha, contudo.

Por favor!, gritou Kushina. Por favoooor!

A velha diminuiu o sacolejar, parecendo soturnamente satisfeita.

Matá eli?, ela questionou. Senhurita, eu jamais seria capaiz duma côsa dessa. Só uma ou ôtra pancada c’a vassôra, tarveiz, mas pra colocá a pesti nu lugar, entendi?

Kushina estende o braço para apanhar o garotinho, libertá-lo da gaiola que eram as garras da velha, mas descobriu que não podia, afinal a velha estava dentro da televisão, numa outra versão daquele mesmo quarto.

Vai querê eli?

Senhora, por favor...

Quero ouvi o qui tu vai dizê.

Eu... eu quero.

Num si esqueci dissu, sinhurita.

Kushina acordou gritando com isso nos ouvidos, arfando e desnorteada. Por um longo tempo a força do sonho a dominou, até mesmo depois que acordou, sobretudo porque ela não podia acender a luz a dissipar seu poder. Jogou as cobertas com brutalidade para o lado, acreditando encontrar a velha na tela da televisão, tão alta quanto o Monte Etna, mas o quarto estava mergulhado na mais profunda escuridão, e a televisão estava desligada.

Ela ficou sentada ali, a camisola ensopada de suor. Seu corpo tremia incontrolavelmente. Então desceu de novo à cozinha, andando em silêncio, com meias nos pés, para não acordar os fantasmas. Prepararia outro copo de leite quente, desta vez adoçado com mel. Não foi nada, dizia para si mesma. Você sabe como os sonhos são confusos – lógicos como os relógios de Dalí, tão macios que jazem sobre os ramos das árvores como pequenos tapetes. Não há nada para se preocupar. Nada.

Quando voltava com o copo fumegando em uma das mãos, sentiu um movimento à frente e voltou o olhar para cima dos degraus que levavam ao segundo andar e não viu nada; ainda assim, tinha uma estranha sensação de que

(a bruxa)

coisas saltaram para trás na mais profunda escuridão do corredor lá em cima, antes que seus olhos pudessem registrá-las.

Olhou os degraus novamente. Sua mão direita suava no copo de vidro; passou-o para a esquerda, enxugou a palma direita no robe de veludo cor-de-rosa, e voltou o copo para a direita. Quase sem saber que sua mente comandava o corpo, impulsionando-o para frente, começou a subir, a mão vazia escorregando pelo corrimão.

Ela jogou seu feitiço sobre mim, pensou, ao entrar no quarto. Foi isso que aconteceu.

Tal pensamento jamais iria ocorrer-lhe à claridade racional da luz da manhã, mas era diferente quando a alvorada ainda estava a horas de distância. Bebeu um pouco do leite, fechando os olhos. Na realidade, ela não sabia se acreditava nisso ou não, mas de uma coisa estava absolutamente convencida: de que não queria acreditar nisso.

Ela era dona de sua própria razão. Ela decidia o que queria para sua vida. Ela, e apenas ela. Ninguém mais.

Num si esqueci dissu.

Quando os abriu, já sabia o que fazer.

Notas finais
Queria saber onde estão meus leitores. Postei o capítulo passado há eras e só duas pessoas comentaram. Duas únicas pessoas. Não quero ser uma autora chata, é sério, mas saíam das fendas onde vocês estão escondidos. Não quero ficar escrevendo para as paredes.