Color The Sky
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Notas iniciais

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A música soavaalta vindo do Chevrolet içado para o alto, e eles ouviram músicos como Chuck Berry cantando "Maybelline" e os Everlys em "Wake Up Little Susie". Agora Robin Luke gemia "Susie Darling" e Bee estava às voltas com uma motocicleta Kawasaki marrom que já vira dias melhores, desmontando uma tubuladora ou tornando a montá-la. As ferramentas ao seu lado se dispunham em ordenação cirúrgica.
– Bee, tenho de voltar – disse Shisui. Tinha um livro à sua frente de Matemática Fundamental aberto à sua frente. – Já está tarde.
– Fique onde está se ainda quer ganhar aquelas dez pratas – ele disse. Mais cedo, o lugar estava cheio dos sons ruidosos de ferramentas, gritos e rajadas de metralhadoras das chaves de boca pneumática. Agora só estavam os dois ali, rodeados pelo silêncio da noite. Shisui rodara carros a tarde inteira e tentara estudar um pouco nos intervalos. Os exames começavam na quarta-feira e ele andava com a cara metida nos livros – ainda que não tanto quanto Itachi, que a tinha enfiada até encostar o nariz nas páginas. Inglês não era tão difícil, mas desistira de tentar aprender Francês e numa escala Richter de 1 a 10, Cálculo III conseguia alcançar um 7 em níveis de ridículo. Às vezes, Kankurou suspirava "Mais um dia se passou e eu não usei álgebra para absolutamente porra nenhuma na minha vida".
Bee levantou-se e ligou o motor. A Kawasaki tossiu e expeliu uma fumaça oleosa no ar. Ele assentiu.
– Shisui, dê uma varrida nesse lugar antes de ir embora.
– Não está me pagando para servir de faxineira.
– Também não estou lhe pagando para ficar reclamando. Não tenho tempo para fazer isso hoje. Deixe as chaves debaixo do tapete.
Enquanto varria o piso alcatroado da garagem depois de Bee ter saído, gigantesco em sua capa de chuva de feltro, pensou em como a oficina parecia uma Disneylândia automotiva. Havia uma prateleira muito bem provida de peças, algumas para alugar, estampadas a tinta com as palavras ABELHA A MOTOR (um nome ridículo para uma oficina, mas não tão ridículo quanto se sabia que Bee era seu proprietário), mas a maior parte estava à venda: cabeçotes Feully, caixas de mudança Hurst e supercompressores Ram-Jett, sem mencionar uma vasta seleção de compactos pneus e uma imensa variedade de calotas especiais. Um parque de diversões, sem dúvida.
Excetuando-se os fracos uissht, uissht, das cerdas da grande vassoura no concreto manchado de graxa, tudo ali dentro era silêncio. E solidão. A garagem ficava um bocado esquisita de noite, sem o barulho reverberante e evocativa de ferramentas e do som de homens trabalhando nos carros, gritando palavrões para aquele em que trabalhavam. Se o automóvel não pegava, os palavrões eram sempre do gênero feminino. "Vamos, sua filha da puta", "Afrouxe, sua boceta", "Venha cá, Dick, e me ajude a tirar fora esta cona".
Levantou o tapetinho na entrada e colocou ali o molho detrês chaves– uma para abrir a grande porta de aço de enrola da entrada, outra abria a porta dos fundos, que dava para o comprido pátio de carros velhos, e a terceira era do escritório de Bee, ou o que quer que fosse chamada aquela pequena sala com uma máquina de café automática, uma coleção de miniaturas colecionáveis de automóveis do século passado dispostos numa prateleira e uma samambaia pendendo num canto.
Daqui a pouco estará pedindo-me para mudar os rolos de papel sanitário da privada e encher o toalheiro com toalhas de papel. Atrevessa a esquina, assoviando despreocupadamente, o livro debaixo do braço e o lápis enfiado atrás da orelha. Quando ouviuo homem falar, quase estavalonge demais para distinguir o que disse:
– Isso não é necessário.
A frase soou baixa, porém perfeitamente audível na noite silenciosa, vindo de trás dele, à sua direita. Mais tarde, Shisui pensou em como as coisas poderiam ter sido diferentes se ele simplesmente tivesse seguido adiante e cuidado de chegar ao orfanato o quanto antes, quem sabe a tempode estudar um pouco mais. Pensou em como alguns passos teriam mudado tudo.
Contudo ele parou, escutando atentamente. Ouviu outras vozes, desta vez fracas demais para ele entender qualquer coisa. Recuou até a esquina, cuidando para ser silencioso, e viu o rapaz e os sujeitos que o rodeavam. Era uma rua de casas com cercas baixas, e Shisui agachou-se atrás de uma para evitar ser visto,sabendo que era arriscado.O que estava acontecendo era bastante óbvio. Quatro contra um; era meio difícil não ver uma emboscada planejada ali.
– É necessário – disse um deles. Dava a impressão de ser o manda-chuva do grupo. – E tudo culpa daqueles arrombados dos direitos humanos. Por causa deles os tiras não podem mais colocar os tipinhos como você no lugar certo. Qualquer coisinha e já vêm balir em seus ouvidos como bezerros. Agora temos um monte de viados saltitando como bem querem por aí e os tiras não podem fazer nada. Mas nós podemos.
Da longa manga da sua jaqueta, um canivete deslizou para a sua mão. A lâmina retrátil tinha cabo de marfim, com um pequeno botão cromado que a fez saltar para fora com um clique. Parecia ter uns vinte centímetros de comprimento – não um canivete, em absoluto, mas uma maldita baioneta, e Shisui sentiu uma mistura covarde de puro medo e angústia.
– A gente disse que ia te pegar – disse outro. As feições do rostorudes e idiotas, com expressão malévola. Sorria de leve. – Se danou, Florence. Até nome de mulherzinha você tem, sabia? Se tivesse mais miolos, teriafugido da cidade quando nos topamos pela última vez, Flooorence.
– Não tenho motivos para fugir – o rapaz no meio do círculo respondeu. Shisui o via de perfil, o rosto pálido e assustado, mas não em pânico. – Pertenço a esta cidade tanto quanto qualquer um de vocês.
Idiota, Shisui pensou, a boca seca. Idiota, pare de bancar o herói e corra o mais rápido que puder daqui, o que diabos está esperando?
– Que politicamente correto – disse um deles. As costas da sua surrada jaqueta de couro exibiam uma caveira usandouma boina verde e o fascinante lema MORRAM TODOS ELES E QUE DEUS OS DIVIDA. – Vamos, Dale, marque ele.
O manda-chuva (agora Sr. Dale, muito prazer) levou o canivete à frente do rosto e o moveu lentamente, para frente e para trás, como um mágico fazendo passes místicos. Shisui pressentia que algo ia acontecer ali, bem depressa – talvez daquelas que exigem suturas e deixam cicatriz –, porém viu os olhos por trás da lâmina e soube que estava errado. Eram olhos de quem vai matar.
– Deveria ter caído fora, seu chupa-picazinha odioso – disse. – Essa cidade é nossa.
Inclinou o canivete e o esgrimiu de leve no ar, na direção do rapaz, fazendo-o recuar, e então as coisas se sucederam com uma rapidez mortal. O sujeito atrás dele, o da jaqueta com caveira, atingiu com as mãos unidas para formar um único punho grande, nos rins. Florence tropeçou para frente e encontrou o grandalhão com cara de imbecil no caminho, que avançou para ele e lhe deu um chute circular. Poderia ter quebrado o maxilar se acertasse, mas Florence ergueu o braço a tempo.
Ele se virou de lado e, por um momento, conseguiu pôr-se de pé. Deu três passos antes que o quarto integrante do grupo lhe pusesse o pé na frente e o fizesse cair de cara no asfalto. Tinha cabelos longos e ruivos amarrados atrás da cabeça, em rabo de cavalo, com uma tira de couro cru.
– Aparentemente vamos ter picadinho para o jantar! – cantarolou alegremente.
Os pontapés começaram. Shisui assistia a tudo de olhos arregalados e hipnotizado, a respiração tornando-se vapor branco no ar gelado da noite, pensando que tinha de chamar a polícia, chamá-los para já, mas sem dúvida tudo já teria acabado antes de os policiais chegarem... a menos que ele pudesse retardar um pouco as coisas, revelando-se do seu esconderijo e surpreendendo-os temporariamente com sua repentina aparição.
Não moveu um músculo.
Florence cobria a cabeça contra o temporal de botas que lhe golpeavam as pernas, a bunda, os braços. Uma o pegou bem nas costelas, e Shisui ouviu seu grunhido de dor mesmo de onde estava. O ruivo passou o cotovelo em volta do seu pescoço, erguendo-o do chão. Florence jogou o próprio cotovelo para trás rumo ao abdômen dele, e viu-se livre quando o ruivo o soltou, o ar escapando por entre os dentes cerrado num uuff, mas Jaqueta logo o prendeu, metendo-lhe os braços abaixo das axilas e imobilizando-o.
Dale aproximou-se, o canivete estendido. A luz do poste dividia sua sombra em duas e cintilava malignamente na lâmina: vinte centímetros de aço cromado. Sorria docemente.
– Agora você pode dar o traseiro no inferno, meu amigo – e enfiou a faca na carne macia.
O grito agudo e impotente expulsa qualquer controle que restasse em Shisui, ele próprio deixando escapar um gemido alto da sua garganta.
Sr. Dale vira-se em sua direção.
– Quem está aí? – grita, alarmado.
Shisui não pensou (exceto um único e aterrorizado fodeu). Shisui vira um cara ser esfaqueado bem na frente dos filhos da puta dos seus olhos e esse tipo de coisa não leva a pensar.
Shisui só correu.
– Ei! – gritaram para ele, mas ele não identificou quem. – Volta aqui! Ei, você!
Ele imprimiu velocidade, contornou as casas do quarteirão (as luzes de algumas sendo acesas, seus donos despertos com a barulheira) e, assim que passou por elas, se abaixou e engrenou a quarta marcha. Seus sapatos martelavam o cimento rachado na calçada, a respiração produzia um ruído áspero na garganta cada vez mais seca e quente.
Podia ouvi-los no seu encalço, pelo menos um deles. Distinguia passos e uma respiração pesada há alguns metros atrás, mas não se atreveu a olhar para trás. Quem quer que o estivesse perseguindo não estava na melhor forma física, talvez o idiota grandalhão, que aparentara ter mais corpo que músculos. Uma parte mordaz da sua mente perguntou para onde iria, afinal de contas (com certeza não poderia levá-los até o orfanato e denunciar onde morava). Dar a volta no quarteirão até o posto de gasolina e ligar para a polícia seria a linha de ação mais racional, mas Shisui e a razão tinham se separado. Provavelmente teria corrido direto pela estrada de acesso até a saída da cidade se as luzes de um bar não houvessem atraído seus olhos.
Nunca na vida fizera maior esforço mental do que diminuir a velocidade para um passo rápido, tentando aparentar normalidade. Ultrapassou a tabuleta com SHOW DOG escrito e entrou num lugar que era uma confusão de mesas e pessoas e fumaça de charuto pairando logo abaixo do teto.
Shisui embrenhou-se entre aquele amontoado de gente até o balcão da caixa registradora e pediu onde ficava o telefone público. O homem olhou-o avaliativamente, o rosto branco salvo dois pontos de cor no alto das bochechas, os cabelos desgrenhados e os lábios descoloridos curvados para cima em um sorriso congelado. Indicou-lhe os fundos do estabelecimento e disse que seria bom que Shisui não arranjasse nenhum tipo de problema ali dentro, senão não pensaria duas vezes antes de chamar os tiras.
Estou um passo à sua frente, amigo.
Seus pés o levaram até o telefone vermelho fixado numa das paredes. Pegou o fone, deu uma espiada por cima do ombro e procurou por moedas nos bolsos. A qualquer momento, pensou. A qualquer momento eles irão entrar e me verão aqui. Seus dedos quase não conseguiram enfiá-las na reentrância ao lado dos números. Estavam duros de frio.
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O resto passou-se como um sonho. Foi possível ouvir o som da sirene ao longe, aumentando rapidamente em proximidade e volume, e logo a viatura policial apareceu em frente ao bar numa explosão de som e luz vermelha. Sentia os olhares de todos ali dentro postos sobre ele enquanto um policial alto e careca, com o rosto cheio de cicatrizes, guiava-o até a saída. O homem foi amigável com ele, puxando conversa enquanto dirigia, porém seu rosto era intimidador.
– Um órfão, hã? – disse ele. – Não está um pouco tarde para se estar fora de casa?
– Eu estava voltando do trampo – respondeu Shisui, tamborilando os dedos no livro de Matemática. Depois de tudo o que passara, era impressionante que ainda o tivesse consigo. Acreditara tê-lo perdido em meio à sua corrida pelas ruas até dar-se conta dele debaixo do braço enquanto aguardava no bar. – Trabalho na oficina do Bee. Digo, na oficina Abelha A Motor. É uma garagem faça-você-mesmo. Tem uma placa que diz "Seu know-how, nossas ferramentas".
– Conheço a oficina Abelha a Motor – replicou o policial. As luzes da rua iluminavam seu rosto e emprestavam uma certa profundidade às cicatrizes. – O que faz lá?
– Dirijo os carros que Bee conserta. O dono da oficina, digo. Rodo-os por um tempo, para ver se ainda há alguma coisa a reparar.
– Interessante. E você tem habilitação?
Oh, merda.
– Sim – mentiu.
– Mesmo? – disse, distraidamente. – Estamos quase chegando.
Na delegacia, fizeram-lhe perguntas e Shisui as respondeu procurando não parecer agitado, temendo que dissesse algo que o incriminasse. Perguntou-se o tempo inteiro se o fato de ele ser a única testemunha faria dele um suspeito. Aquilo o deixou assustado. Aterrorizado, para falar a verdade. Não fora apanhado em flagrante nem nada, não é? Mas e se os tiras o levassem para passar a noite no xilindró, apenas por via das dúvidas? Suas pernas tremeram com a possibilidade. Não havia como pagar finança alguma. Todos na escola ficariam sabendo de como tivera de dormir numa cela – e toda a escola configurava-se como o mundo inteiro.
Pediram nome, idade, endereço, telefone para contato. Onde estava antes de chegar ao local do crime, para onde estava indo. Se conhecia a vítima. Se conheciaalguém que conhecesse a vítima. Se tinha tido algum contato direto com os criminosos (Se ele tivessem me alcançado enquanto eu corria e me enfiado aquele canivete no estômago, teria sido isso um contato direto?, teve vontade de perguntar). Shisui negou tudo, cada vez mais certo de que aquele interrogatório não fosse terminar nunca. Por fim o liberaram, e ele deixou a pequena sala onde havia apenas uma mesa, duas cadeiras, uma luminária e o incessante bater das teclas da máquina de escrever registrando cada palavra que dissera.
Deu de cara com o policial careca a caminho da saída. Ele virou-se para Shisui com um cigarro na boca.
– Liberaram-no?
– Sim – respondeu. – Posso ir pra casa agora? Tenho aula amanhã.
– Pode. – O policial puxou uma profunda tragada e a soltou no ar. – A propósito, eu sei que você não tem habilitação, garoto; farejar mentiras foi o que fez de mim um tira, porém não vou detê-lo nem nada. Muitas vezes eu dirigi o carro de minha mãe escondido quando tinha quinze anos, e teve uma vez em que me esqueci de manter o pé no freio ao ligá-lo e avancei para cima do muro de casa. Levei a maior surra da minha vida, embora ache que tenha sido mais por causa do canteiro de rosas destruído que minha mãe cultivava desde que casara, porque o carro quase não sofreu dano algum. Mas reze para que eu não o pegue rodando por aí, pois posso arrumar uma encrenca braba para você.
Shisui hesitou antes de sair.
– Pode me dar uma carona? – perguntou, algo sem jeito.
O policial permitiu-se um sorriso.
– É, garoto, ninguém quer caminhar sozinho a essa hora da noite com uma gangue a solta por aí, não?
A viatura rodou lentamente pelas ruas, as luzes apagadas. Shisui pediu para deixá-lo na esquina (se Nan Melda estivesse acordada e visse-o sair de um carro de tiras, iria estripá-lo), mas quando o carro parou, levou um tempo para sair. O policial nada perguntou, apenas o observava curiosamente. Enchendo-se de coragem, Shisui perguntou:
– O que vai acontecer ao sujeito? O tal Florence?
O homem careca virou-se para frente e levou um tempo para responder.
– Eu não deveria lhe dizer nada, mas enviamos uma viatura policial ao local que nos indicou – disse afinal. – Meu colega comunicou-nos pelo rádio que encontrou esse Florence estirado no chão, deitado numa enorme poça de sangue. Disse que qualquer pessoa que tivesse perdido tanto sangue não teria qualquer chance de voltar a comer a comida da mamãe, mas ele sempre foi um pessimista. Temos um caso assim uma vez ao mês, pelo menos, e a maioria sobrevive.
Uma vez ao mês, Shisui pensa, distante, olhando para o livro de Matemática em seu colo.
– Um índice tão alto – falou, tentando soar casual –, e mesmo assim não vi nenhum jornal bradando qualquer coisa sobre isso. Acho que não li nem mesmo uma nota.
– É – o policial disse. – Isso não é notícia para a pacata família americana. Agora vá, garoto. Está tarde.
Não foi a alta incidência de morte que o abismou – um gay ao mês, uma dúzia ao ano, em média –, mas a maneira absolutamente trivial com que o policial disse aquilo. Teria usado aquele mesmíssimo tom caso tivesse comentado a safra de uvas do ano. Era o tom de quem diz querem dormir com outros caras, olha só no que dá.
Shisui saiu da viatura tropeçando, pensando Como fomos idiotas. Beijando-nos em público no parque de diversões e rolando na neve como um casal. Podíamos ter sido espancados lá mesmo, se as pessoas erradas houvessem nos visto. Éramos tão tolos?
Sim... e não. A verdade era que tinham sido loucos. E ainda eram.
Era quase meia-noite quando entrou no quarto.
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– Quero terminar.
Disse as palavras sem realmente pensar na questão – sabia que se pensasse muito a fundo, acabaria dando para trás.
Itachi não desviou o olhar do livro de imediato. Lentamente, virou-se para olhá-lo, a expressão vazia e olheiras sob os olhos. Sempre apareciam durante a semana dos exames, contudo pareceram-lhe particularmente escuras daquela vez, a pele quase preta.
Ele fita Shisui por um momento, então volta ao livro.
– Certo.
Shisui esperou que ele dissesse mais alguma coisa (mentiria se dissesse que não esperava de um por favor, não me peça isso), mas aparentemente era só aquilo o que Itachi tinha a lhe dizer.
– Isso é tudo? – perguntou. Seus punhos fecharam-se inconscientemente, as unhas enterrando-se nas palmas.
– O que eu poderia falar? – ele retrucou, virando uma página. – Não posso obrigá-lo a ficar comigo, se não quiser.
– Nem ao menos vai perguntar por quê? – exclamou alto demais, não conseguindo controlar a voz. Agora estava ficando irritado.
– Não precisa justificar-se para mim – Itachi rabiscou alguma coisa no caderno, e voltou à página anterior. – Agora fique quieto, Shisui, está me desconcentrando.
Às vezes, esquecia-se de como Itachi conseguia ser um filho-da-puta quando estava sob o estresse dos estudos, porém não estava em condições de ser indulgente. Além da raiva, estava tomado por uma horrível sensação de medo da qual não conseguia sequer encontrar um ponto de estabilidade. Era como um redemoinho afundando na escuridão.
Estou terminando porque podia ter sido um de nós, quis gritar. E ainda pode ser. Num mês será você, e no próximo será eu.
Não foi isso o que disse, contudo.
– Por Deus, me acostumei a ser amigo de um cubo de gelo – comentou friamente. – Pergunto-me como foi que isso aconteceu.
Itachi reclinou-se contra a cadeira e pôs a base das mãos sobre os olhos, num gesto infinitamente cansado, e isso atravessou momentaneamente a espessa névoa da raiva de Shisui. Achou que ele fosse começar a chorar. Mas Itachi novamente encarou-o com aquele mesmo olhar inexpressivo, que dizia claramente Não tenho tempo para sua insensatez, Shisui, que o tirava do sério.
– Se também não deseja mais a minha amizade, separe as camas. Posso pedir para Nan Melda trocar-me de quarto depois da aula.
Ia tornar a concentrar-se no livro, mas Shisui não iria engolir isso. Pegou-o pelos ombros e obrigou-o a girar a cadeira até ficar frente a frente consigo.
– Me deixa absolutamente puto como ser meu amante ou meu amigo significa tão pouco para você.
Os olhos cinzentos dele cintilaram com algo que poderia ser raiva, e Shisui ficou quase feliz em vê-la.
– E decepciona-me como nos conhecemos há nos e como você sabe que não sou bom em demonstrar o que sinto – disse, tentando livrar-se do aperto de Shisui – e como, apesar disso, eu ainda tenha de aguentar esse acesso de fúria infundada. Agora poderia fazer o favor de soltar-me?
O aperto em seus ombros apenas aumentou, fazendo-o retrair-se. Shisui lembrou-se do pulso machucado dele – pulso que ele machucara – e acabou soltando-o.
– Não devíamos ter começado isso – disse. – Que merda, não devíamos nem sequer ter cogitado em fazer isso. Nunca daria certo. – E ele sempre soubera disso, não é? Ainda houvera um pequeno cristal de confiança no fundo de seu peito. Estava tudo bem? À merda se ele soubesse. Isso importava? Nem um pouco. Se Itachi queria (e Deus, Shisui realmente acreditou que ele queria), foda-se quantas lições ele houvesse dado a si mesmo sobre os perigos de misturar desejo e amizade.
Atrás dos seus olhos persistia a imagem do canivete desaparecendo através da barriga do rapaz. Pensar nisso trouxe à sua garganta o gosto de bile.
– Se pensa assim, então acabe com este teatro e deixe-me em paz. – A voz de Itachi alterou-se com as lágrimas e a raiva. – Deixe-me para que eu possa voltar a afogar-me neste maldito livro e tentar alimentar um pouco a esperança de passar nessa duas vezes maldita prova de Latim.
Ele não está entendendo a matéria, Shisui percebeu. Não está entendo a matéria e a paranoia dos alunos estudiosos está acabando com ele.
– Itachi, você é o melhor aluno da sua escola – disse, num tom mais suave. – Aquele diretor não fez todo o caminho desde Manhattan para lhe oferecer uma bolsa na Trinity School porque estava a fim.
Itachi fez um esgar estranho, como se houvesse provado algo azedo.
– Se ele houvesse demorado mais alguns meses, nem sequer a teria oferecido. – Seus olhos estavam muito, muito brilhantes, e seus lábios tremiam. – Minhas notas estão baixando. Tirei um B- na última prova. Eu nunca tirei um B-, em nenhuma matéria. A professora disse que sempre há a primeira vez, mas ela não... ela não...
Uma lágrima deslizou pela bochecha esquerda. Ele bateu sobre ela com a palma da mão.
Shisui tentou intervir – achou que ele iria começar a chorar, mas a força com que o choro viera o assustou –, passando os braços ao redor de seus braços, porém Itachi empurrou-o rudemente.
– Se é covarde demais para assumir o que sente por mim, não me abrace deste jeito. Não ouse.
Ele arrancou do pescoço o medalhão que Shisui lhe dera de Natal e o atirou contra seu peito. A rodela de metal quicou no chão uma vez e então caiu de lado, brilhando lugubremente para eles.
Os braços de Shisui penderam de cada lado de seu corpo. Observou Itachi sentar-se de volta na cadeira, soluços brotando em jatos descontrolados e amargos, as mãos segurando o cabelo como se estivesse prestes a arrancá-lo aos tufos. Seria realmente um covarde? Apenas porque não queria topar numa viela escura com um lunático armado com um canivete, sorrindo alucinadamente para ele? De certa forma, talvez ele não deixasse de ser. Sr. Sarutobi recitara em aula um trecho de poesia que dizia que os covardes não são aqueles que sofrem por amor, mas os que não amam por medo de sofrer (algumas colegas suspiraram e Shisui sussurrara para Kankurou que não amava o pretzel mais caro da cantina pois sabia que ele nunca seria seu, fazendo o amigo rir pelo nariz) e a única coisa maior do que seu amor por Itachi era o medo de perdê-lo.
– Então fuja comigo.
Houve uma pausa breve nos soluços, algo chocada, então Itachi riu fracamente.
– Você é plenamente iludido – disse, com um desprezo frágil na voz.
– Sim, eu sou. – Shisui mirava o chão, sentindo um vazio dentro de si. – Nós podemos sair escondidos e pegar o ônibus da meia-noite. Levaremos tantos mantimentos quanto pudermos enfiar dentro das mochilas e eu arranjarei um bico para sustentar a nós dois, e então nunca mais você se preocuparia com estudos e eu, com o que pensam sobre nós. Iremos para um lugar bem longe, onde ninguém saiba nossos nomes.
Ouviu Itachi fungar e suspirar.
– Vá dormir, Shisui.
Ele foi, porque estava exausto. Na manhã seguinte, a tragicidade se perderia e eles teriam tido apenas uma discussão durante a noite. Mas temos de acabar com esse namoro, ele pensou antes de adormecer. Temos mesmo.
Quando acordou, porém, ainda não estava nem perto de ser dia. A luz da luminária ainda esparramava sua luz fraca e criava vultos pelo quarto. Itachi estava sentado na cadeira, a cabeça apoiada nos os braços cruzados sobre a mesa.
– Itachi – Shisui grunhiu –, pelo menos durma na cama.
Não houve nenhuma resposta. Adormecera sobre os livros, algo nem de longe incomum para Shisui, que se perguntava se não deveria levantar-se e trazê-lo para as camas quando o ouviu falar, muito baixo:
– Nunca houve convite algum. – Uma pausa. – Outro garoto foi escolhido, não eu.
Shisui o olhou sem dizer nada.
– Eu só devo minhas desculpas a você – murmurou. – Não devia tê-lo forçado a nada. Você está certo, absolutamente certo. Jamais devíamos ter começado isto. Jamais.
Não havia nada que pudesse responder àquilo. Itachi, éramos para ser melhores amigos, pensou, acabado. Não poderia haver nada entre nós, e você mentiu para mim. Fez-me acreditar que iria embora e fez-me acreditar que eu era o culpado por você não ter tido a chance de estudar numa das melhores escolas dos Estados Unidos. Como é que poderei olhar nos seus olhos sem lembrar-me disto?
Outro pensamento, mais frio e não tão sentimental: Olhe para nós agora. Olhe até que ponto isto nos levou.
Fora aquele momento que assinalara o término de tudo? Achava provável que sim. Anos depois, mesmo depois de o tempo cegar essa memória que uma vez cortara como uma faca, ele ainda era capaz de lembrar a sensação que aquelas palavras inspiraram: gelo quebrando, cordas rompendo-se, e água tão, tão fria.
Ao raiar do dia, Shisui separou as camas, e Itachi não voltou a juntá-las.
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