Color The Sky
5 Iv
Notas iniciais

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IV
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O tempo passou e as coisas não voltaram ao normal, embora os dois tentassem ao máximo fazer com que voltassem. Shisui, que sempre falava pelos cotovelos e ria abertamente, ficava quieto e pensativo entre os amigos. Eles perguntavam o que havia acontecido (cada um o puxava para um canto em momentos diferentes, individualmente), porém a única resposta que obtinham era um distraído balançar de cabeça, descartando o assunto.
– Não adianta – Kankurou disse-lhes resignado, voltando de sua abordagem. – Fechado como uma ostra.
Contudo, quando junto de Itachi, o que quer que estivesse prendendo sua língua se soltava e ele falava, falava, falava. Sem, no entanto, dizer coisalguma. Aquele falatório sem sentido servia tão somente para prevenir o silêncio que constantemente instalava-se entre eles. Antes, uma pausa nas conversas de vez em quando era normal – ninguém tinha assunto o tempo inteiro, não é? Agora, o silêncio era algo constrangedor, de peso quase físico na pele, como mãos carnudas, tateantes. O que está se passando na cabeça dele?, Shisui se perguntava. O que ele pensa de mim? O que ele costumava pensar? Alguma coisa mudou? O que restou? Era enlouquecedor. Então ele falava. Pelo bem de sua sanidade mental.
Quase um mês depois da ida ao drive-in, Itachi gentilmente o interrompeu em meio à uma de suas tagarelices sem fim:
– Anko veio aqui.
– Quem? Anko?
– Sim. Nas palavras dela, ela quis saber "onde diabos você enfiou o traseiro, já que não o está levando para malhar".
– Ah – disse. De fato, ele não havia frequentado a academia pelas últimas duas semanas. Isso o fez sentir uma pontadinha de culpa.
– Você tem passado tempo demais aqui no orfanato, Shisui, e você não é assim. Não quero soar como se fosse sua mãe, mas não acho que seja bom simplesmente largar de mão seus outros amigos.
Shisui teve o decoro de enrubescer ligeiramente. Percebia que não andava dando muitas brechas para conversas ultimamente, mas isso só porque sua cabeça estava tão às voltas com a atual situação de sua amizade com Itachi.
Itachi levantou-se e, antes de sair, disse:
– Vá vê-la, Shisui. Fará bem para vocês dois.
Shisui ainda ficou sentado, pensando, e decidiu que ele estava certo. Itachi não era o único amigo que possuía, e relegar o pessoal não era muito justo de sua parte, quer ele tenha beijado acidentalmente o melhor amigo ou não.
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À tarde, ele foi para a academia de calção e toalha sobre o ombro. Os sons mecânicos dos aparelhos podia ser ouvido desde a esquina. O sol, enfraquecido por ser novembro, mais ainda tentando ser rigoroso, batia em cheio em sua nuca.
À luz verde-maçã do dia, a academia funcionava com animada diligência. Avistou Anko sentada atrás do balcão onde costumava ficar seu pai, um livro enorme aberto à sua frente, a cabeça apoiada numa das mãos e um beicinho de aborrecimento nos lábios.
– Alguém não parece estar se divertindo muito – ele disse, vindo por trás.
Anko girou a cabeça tão rápido que ele ficou um pouco receoso que ela tivesse deslocado uma vértebra, mas logo essa preocupação sumiu quando ela deu um sorriso enorme e literalmente saltou em cima dele.
– Woa, woa – calma...
– Onde foi que você têm andado, seu imbecil? – ela olhou para ele. O sorriso, de tão largo, parecia capaz de cortar sua cabeça em duas. – Dependendo da resposta, posso reconsiderar não lhe castrar.
Ele sorriu de volta, se dando conta de como realmente gostava dela, de verdade. Como amiga ou como namorada, não sabia dizer – mas achava que teria a resposta naquela noite.
– É, foi mal. Fiquei meio encucado com umas coisas que rolaram, e precisava de tempo para pensar. Mas agora estou de volta.
– Precisava de tempo para pensar – ela repetiu em voz de falsete, girando os olhos comicamente. – Cruzes, você soa mais como uma garota do que eu.
O pegou pela mão e começou a puxá-lo por entre os aparelhos.
– Vem, vamos ver se ainda restou alguma masculinidade pra contar a história.
Malharam juntos, e falaram bastante. Nada das palavras plásticas que sua boca despejava irrefreavelmente quando estava junto de Itachi. A conversa com Anko fluía fácil e com naturalidade. Pela primeira vez em bastante tempo, Shisui estava descontraído e contente.
Depois de terem utilizado todos os aparelhos, foram para um canto onde ficava o material de ginástica. Anko o fez deitar de costas em um colchonete, colocou uma bola de cinco quilos sobre sua barriga e ordenou que fizesse 15 abdominais. Shisui conseguiu completar 12 e achava que iria morrer se continuasse com aquilo.
Caiu de costas.
– Não – disse ele, ofegante. – Ah, acho que não, Anko.
– Levante-se, seu molenga! – exclamou ela, de pé ao seu lado, os olhos brilhando com um bom-humor sádico. Alguns fios de cabelos haviam escapado do apertado rabo de cavalo e grudavam-se na testa e têmporas. – Levante-se! Levante-se! Mais três e eu te pago uma Coca!
– Dê-me a bola de quatro quilos e meio e eu lhe faço mais duas.
– Vou fazer dessa bola de quatro quilos e meio o maior supositório que o mundo já viu se você não fizer mais três. Levante-se!
– Aaaaargh! – exclamou Shisui, conseguindo fazer a décima terceira. Caiu de novo e lutou para levantar-se outra vez.
– Ótimo! – exclamou Anko. – Mais uma vez, mais uma!
– UUUUOOOOOHH! – berrou Shisui, sentando-se pela décima quinta vez. Caiu no colchonete, deixando a bola rolar para longe. – Eu me rompi, está satisfeita? As porras das minhas vísceras se soltaram, estão boiando dentro de mim, vou processá-la, sua cadela fodida!
– Ai, que lindinho – disse Anko, estendendo a mão para ele. – Isso não é nada, comparado ao que tenho preparado para a próxima vez que você vier.
– Esqueça – disse Shisui. – Da próxima vez vou eu só vou é nadar na piscina com aquelas boias de braço para bebês.
Lavaram-se no banheiro e saíram. O último sol da tarde banhava a rua de laranja. Anko o convidou para beber os restos de Ponche Havaiano que seu pai havia feito e Shisui aceitou de bom grado. As paredes da casa dela eram de madeira e a sala de estar estava abafada, apesar da friagem que começava a se fazer presente do lado de fora. Ela encheu dois copos até o topo (era um troço espesso, mas eles adoravam), beberam uns dois goles e logo estavam engajados no sofá, arfando e agarrando-se.
Um ajudou o outro a livrar-se das roupas, desajeitados e impacientes. Shisui passou as mãos pelas coxas dela, cintura, costas, até envolver os seios cheios e macios, os polegares acariciando os mamilos. Anko arqueou as costas por um momento, e então seu rosto baixou e ela beijou-lhe o canto da boca e o lóbulo da orelha em fogo.
Ele sentia o doce aroma/sabor do Ponche Havaiano. O frescor do couro do sofá contra sua nudez maciça, quente e pegajosa, enquanto a tinha em cima de si, era maravilhoso. Tocou o centro dela, fazendo-a gemer brevemente.
Shisui riu, ofegante.
– Droga, você está encharcada.
Ela mordeu os lábios, posicionando-se sobre ele e então descendo lentamente os quadris. Shisui suspirou, e deu uma firme estocada. Anko soltou uma exclamação, os dedos se cravando nele como esporas. A amazona e o cavalgado.
– Anko...
–... o quê?
– Preciso te perguntar uma coisa.
– O quê?
– Você toma pílula?
As sobrancelhas dela se arquearam de surpresa, então os dois riram.
– Seu idiota. – Ela deu um murro no seu ombro. – Se engravido, meu pai me dá uma surra.
Riram mais um pouco, depois recomeçaram a se mover. Acima deles, a janela derramava pela sala escura o clarão alaranjado do sol que se punha. Seus quadris moviam-se num ritmo acentuado. O tempo foi passando. O corpo magro e musculoso de Anko ia e vinha, ia e vinha, sem senso de ritmo, mudando de extremamente rápido para muito devagar.
Ela curvou-se sobre ele, cobrindo seu rosto com beijos ardentes, seu hálito ainda com o gosto do Ponche. Mechas dos cabelos soltos rasparam de leve no rosto de Shisui. Eram ásperos, ainda que bonitos. Ele podia dizer que ela estava perto do orgasmo, julgando como ele estava deslizando para dentro e para fora com facilidade.
Ele aumentou a velocidade, a euforia atingindo seu pico mais alto. Uma expressão sonhadora e estranha tomou conta das feições dela. Seus olhos se fecharam e algo subitamente cruzou a mente de Shisui.
Foi totalmente imprevisto; um daqueles raros momentos em que a mente age sem nenhum comando consciente, e o pensamento passou brilhante como um meteoro, claro e muito rápido, e já havia passado antes que Shisui
(como seria a expressão dele neste exato momento)
pudesse negá-lo, antes que pudesse começar a cogitar negá-lo. O pensamento trouxe junto uma imagem dele, de seu rosto abaixo de si (não acima, como agora), sua boca entreaberta, por onde a respiração sairia resfolegante, de seus olhos, ah, seus absolutamente lindos olhos, o cinza luminoso da alvorada nas águas de inverno, olhando-o, e então
(e então eles se fechariam e ele arquearia as costas, expondo a barriga branca, e gemeria seu nome, sim, exatamente assim, seu nome passaria por aqueles lábios macios, "Shisui", baixo e urgente, o corpo abaixo de si tremendo, impotente, os nervos à flor da pele, diante do clímax que que que)
e então Shisui veio dentro dela. A força de seu orgasmo arrastou Anko junto para fora do limite, e ela grunhiu, seu sexo fechando-se apertadamente em torno do seu durante breves instantes, então relaxando em esparsas pulsações. Ela recostou o rosto em seu peito com um suspiro exausto, satisfeito.
Shisui respirava depressa, o tórax subindo e descendo em pequenos saltos sob o corpo suado de Anko. Cada músculo seu salientava-se, cada veia ressaltada, o tendões surgiam em perfeito relevo. Sua garganta era a de um homem que tentara levantar um piano.
Shisui contemplou o teto, os olhos parados. Naturalmente, fora apenas sua imaginação – ou uma alucinação, ou visão, ou fosse lá o que fosse. E fora tão clara e doce, também, que parecera assustadoramente real. A intensidade do pré-orgasmo contribuíra para isso, tinha certeza, e sua respiração se acalmou para um ritmo mais tranquilo.
Sentiu lábios traçando leves selinhos estalados até sua boca. Ele respondeu ao beijo, as línguas se movendo preguiçosamente, sem nenhuma pressa, e ficaram ali durante longos minutos, bronzeados, ardentes, sonolentos, entorpecidos.
Depois de um tempo, Shisui murmurou em seu cabelo:
– Tenho que ir.
– Não – ela disse prontamente, espalmando a mão em seu peito. – Fique.
– Se o seu pai me vê, ele me mata.
– Bobagem. Ele já topou com um garoto da minha turma no meu quarto, nu da cintura para baixo, vestindo uma de suas camisas, e o convidou para jantar.
Ele riu pelo nariz.
– Certo, mas se ele não me fizer em pedacinhos, Nan Melda com certeza fará o serviço. Da próxima vez que nos encontrarmos, estarei usando as bolas como fones de ouvido.
Ela girou os olhos.
– Vá, então, se precisa mesmo partir.
Ele saiu debaixo dela e recolocou as roupas. Sentia o olhar de Anko sobre si.
– Você volta?
– Sim.
– Não vá sumir de novo.
– Prometo que não.
– Ok, então. – Ela espreguiçou-se com vontade no sofá, olhos fechados, e não se moveu mais.
Shisui saiu para o dia que morria. O sol poente se transformara em uma acre linha alaranjada no horizonte ocidental e a rua ficara sombria.
Fez o caminho mais comprido para de volta ao orfanato, dobrando o quarteirão vazio e caminhando até uma pequena praça arborizada. A grama estava repleta de frutas pretas, doces como mel. Um gato estava sentado em cima do banco manchado de sucos roxos. Observava Shisui com olhos verde-âmbar e cintilantes.
Ele avistou uma solitária garrafa de cerveja no chão. O vidro verde estava sujo de terra, o invólucro desgastado até ficar liso e branco como uma amnésia, mas fora isso, estava inteira. Apanhou-a e ficou girando-a nas mãos durante alguns segundos, antes de arremessá-la contra o banco com toda força que possuía.
Os exercícios na academia haviam deixado-o na melhor forma física que já estivera na vida, não exatamente robusto, mas forte mesmo assim, e a garrafa explodiu em um chuveiro de brilhantes faíscas verdes contra o assento. O gato saltou para longe como uma flecha.
– MERDA! – gritou, com toda a força que conseguiu reunir. O gato encarou-o malevolamente, o rabo agitando-se ameaçadoramente de um lado para o outro, depois foi embora.
Em alguma casa, uma cortina foi puxada de lado, alguém espiou para fora e a cortina voltou ao lugar. Seguido disso, o silêncio.
Shisui arrastou-se até o banco e sentou-se, a cabeça entre os joelhos.
Isso é doentio, pensou. Tão fodidadamente doentio.
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Itachi estava terminando o dever de casa quando Shisui entrou no quarto. Ouvira-o chegar quando a porta da frente abriu e se fechou – Bah havia saído com o namorado fazia pouco e Nan Melda estava fumando na varanda dos fundos a última vez que a vira. Ele não adentrara o quarto, havendo ido direto para o chuveiro (Itachi escutou o barulho de água correndo pelos canos). Perdera a hora para o jantar, geralmente um sinal de que deveria ter passado um ótimo tempo lá fora, mas não desta vez, aparentemente, pois quando adentrou o quarto, o "você se divertiu?" que Itachi tinha pronto morreu em sua boca.
Shisui estava nu salvo a toalha enrolada na cintura, os cabelos úmidos, negros cachos aderindo ao rosto. Uma pequena parte do cérebro de Itachi registrou esse fato – a maior parte estava atenta aos olhos. Estavam fundos e, Itachi percebeu com nervosismo crescente, mais escuros que de costume. Pétreos, foi a palavra que lhe surgiu. Pétreos como diamantes negros.
Alguma coisa está errada, pensou. Jamais vira aquela expressão no rosto do amigo. Jamais a vira... bem, considerem-no o adolescente mais ingênuo da América, mas achava que jamais a vira em qualquer outro rosto.
– O que aconteceu? – perguntou, pondo-se de pé em frente a ele. – O que houve, Shisui?
Shisui apenas o olhava, aqueles olhos escuros parecendo deixar um sombreado embaixo, como uma marca de contusão. Total hermetismo. A espinha de Itachi transformou-se num fio de gelo.
– Foi algo com a Anko? – perguntou depois de um tempo, um pouco apreensivo. – Aconteceu alguma coisa entre vocês dois?
Aquilo trouxe alguma mobilidade a eles, afinal – desviaram-se para baixo. Shisui não aparentava estar propenso a dar resposta a qualquer de suas perguntas, tampouco falar algo. Itachi não sabia ao certo o que fazer. Deveria sacudi-lo até que voltasse ao normal? Mordê-lo? Ou simplesmente ir terminar o dever e deixá-lo plantado ali, até que Shisui resolvesse abrir o bico?
No final, não acabou fazendo nada daquilo. Ficaram os dois parados um de frente para o outro, sem nada dizer. Itachi baixou o olhar para o peito desnudo do amigo e se sentiu inesperadamente, estranhamente consciente de sua semi-nudez. Enquanto observava, uma gota de água rolou lentamente pelo tronco dele, passou à leste do umbigo e produziu um pontinho escuro no tecido da toalha. Sentiu o estômago sacudir sem razão alguma.
Foi quando silêncio entre eles estava ao ponto de se tornar intolerável que Shisui resolveu falar. Uma única e incompreensível palavra:
– Desculpe.
Itachi o encarou, sem entender. Shisui apenas continuava a mirar o chão com aquele mesmo olhar sério, melancólico e inflexível.
– O qu...
E o que aconteceu depois foi rápido, ah, é, Shisui costumava ser rápido assim, ninguém o detinha nos jogos de basquete, onde ele roubava a bola com a rapidez de um raio e a passava pelo arco sem grandes dificuldades. Num instante, ele pegara seu pulso; no seguinte, puxara-o para si, moldando seus lábios juntos.
O coração de Itachi disparou, batendo em ziguezague dentro de si. Tentou soltar-se, mesmo sabendo que não conseguiria; não porque Shisui pesasse uns bons 8 quilos de massa muscular a mais que ele – isso também –, mas porque suas forças pareciam tê-lo deixado, fazendo suas pernas ficarem bambas. Tentar lutar apenas fez com que Shisui aproximasse-os ainda mais, sem largar seu pulso, a outra mão subindo para seu pescoço como se fosse enforcá-lo, colando seus corpos. A umidade remanescente no peito dele molhou a camisa do seu pijama, e a
(excitação)
sensação saltou-lhe na barriga como uma confusão de fios elétricos quentes.
Emitiu um som baixo, consternado, e misericordiosamente, Shisui se afastou. Itachi respirou fundo. Conseguiu olhar o amigo nos olhos, vendo que o quadro não havia mudado, e se perguntou se ele não estaria bêbado. O hálito dele, porém, não tinha gosto de álcool, e sim de pasta-de-dente, gosto que Itachi sentia agora em sua própria boca.
– O que foi isso? – sussurrou, rouco.
– Foi que eu estou apaixonado por você – Shisui respondeu, as palavras saindo secas e simples de sua boca – e acho que é só isso. Não é o bastante?
Itachi estava mudo. Não conseguia encontrar nada – literalmente, não conseguia pensar numa única coisa – para dizer. O assombro latejava em sua cabeça, por ora demasiado grande para permitir pensamentos construtivos.
Shisui deu um meio-sorriso fraco e amargo.
– Isso te dá nojo?
– Não – disse Itachi, mas a resposta saiu rápida demais para soar como verdadeira, e ele viu que o amigo não acreditou nele.
– Se você nunca mais quiser olhar para minha cara, eu vou entender. Vou detestar, obviamente, mas entenderei. Só acho que você precisava saber, em respeito à nossa amizade, ou o que quer que tenha sobrado dela.
Itachi abriu a boca – Deus sabe o que teria dito –, mas Shisui continuou:
– Também acho que vou mudar de quarto. Talvez demore um tempo, mas pedirei para Nan Melda me avisar assim que vagar uma cama, então não...
– Pare, Shisui – cortou Itachi, agradecido por sua voz demonstrar uma firmeza que ele não sentia. – Isso é loucura.
– Não, Itachi, aí que está: não é. Não pense que isso é só pelo seu bem; é pelo meu, também. Como você acha que será todas as vezes que ficarmos juntos aqui dentro? Sozinhos?
– Você vinha conseguindo até agora.
– Sim, mas isso porque achava que era somente uma reação ao... ao que aconteceu no drive-in, e que iria passar. Mas agora sei que não é isso, estou terminante e ridiculamente apaixonado por você, e isso está acabando comigo, Itachi, acabando.
Itachi se lembrou da noite no drive-in. Dos lábios dele nos seus. O que sentira aquela hora? Choque, evidentemente, mas não repulsa (talvez fosse até mesmo incapaz disso, se relacionado à Shisui). Mesmo agora, com a paixão declarada pairando entre eles como uma nuvem escura, cheia de chuva, não sentia nojo dele, apenas espanto.
Mentira. Não era só isso. Espanto não o faria reagir ao beijo de minutos atrás do jeito que ele reagira, aquela coisa de suas pernas tremerem como varas verdes e o coração bater rápida e febrilmente dentro do peito.
– Por isso, não dá para eu ficar aqui. Eu não consigo me conter. Não consigo.
– Então – Itachi ouviu-se dizer – não se contenha.
Shisui o olhou, incrédulo por um momento, e então riu. Era um som frenético e triste, que não combinava com ele em absoluto.
– Você não sabe o que está dizendo.
Itachi deu um passo à frente e o beijou. Certo, ele não tinha muita prática, mas quando Shisui percebeu que falava sério e tentou recuar, ele segurou seus ombros, a boca insistente, até que Shisui o beijava de volta, quase que furiosamente (sem, no entanto, tentar alcançar sua língua). E, em algum ponto distante da mente, o pensamento: Realmente, ele não consegue se controlar.
Quando se separaram – não sabia dizer quanto tempo depois –, Shisui encostou a testa na sua.
– Jesus, Itachi – murmurou. – Você vai ser arrepender disso. Sei que vai.
– Talvez não – replicou ele, dando uma profunda tragada de ar –, e talvez sim. Mas eu jamais poderia me arrepender de você.
E de repente, Shisui pareceu voltar ao normal, e Itachi viu, aliviado, que seu amigo estava ali, familiar e aturdido, e o abraçou. Sentiu-o abraçá-lo de volta, incerto a princípio, depois com força, e pensou se aquilo poderia dar certo – e, mais ainda importante: aonde poderia levá-los.
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