Notas iniciais
Peço perdão pela demora. Provas e coisas acontecendo na escola que têm me preocupado, sem contar a formatura daqui a uma semana, meio que não me deixaram escrever. Mas aqui está o capítulo. Bon appétit.

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V

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– Parece que você foi expulso de casa com um chute no rabo.

– ... uhn?

– Eu disse – Kankurou repetiu com paciência – que você parece meio aborrecido.

Eles estavam no quarto período e a aula era de Clássicos da Literatura Inglesa, uma das poucas que Shisui gostava. Naquele momento, no entanto, ele simplesmente não conseguia prestar atenção no Sr. Sarutobi discorrendo sobre Morte d'Arthur.

– Ah, é. – Na verdade, não estivera aborrecido até aquele momento, quando Kankurou espantou a fantástica lembrança dos lábios de Itachi contra os seus. Shisui o beijara com vontade na noite anterior. Quando se afastaram, Itachi tinha o rosto colorido de manchas vermelhas que era a sua versão de rubor virginal, e pela primeira vez indagou se alguma vez o amigo já havia beijando alguém a valer. O embaraço impedira-o de retomar os beijos, e ele rispidamente mandara Itachi ir dormir.

E, como se beijar o amigo – o amigo homem, ressaltando – não fosse nada de mais, ao cabo de alguns poucos minutos Itachi dormia a sono solto do seu lado da cama, o peito arfando suavemente. Shisui o observara durante um bom tempo, aquele rosto de traços indefinidos, delicados, certamente não muito másculo, e que ainda era motivo de eventuais chacotas no colégio. Dentro de alguns meses, ele concluiria o ensino médio um ano mais novo do que toda a sua turma e com alguma gratificação por ter tirado nota máxima em todos os exames que prestara ou coisa que o valha, e então ele faria parte da nova safra de calouros ali no Ginásio Darby, onde Shisui agora estava cursando o 2º ano.

– Talvez aborrecido não seja a melhor palavra – Kankurou ponderou, examinando-o atentamente, deixando Shisui algo desconfortável. – Você parecia concentrado em alguma coisa.

Ah, sim, eu estava muito concentrado, Kankurou, meu chapa, nos beijos que troquei com meu amigo ontem à noite, e agora fico me questionando se sou ou não viado, porque eu senti algo bem no fundo do meu peito, algo que eu nunca senti com nenhuma das sessenta garotas que eu já devo ter agarrado, percebe? E me deixa tão assustado o que pode vir dessa realização (de que estou apaixonado por um outro garoto), como por exemplo, o que vai ser da minha vida daqui para frente? Eu não ouso pensar que terei um futuro feliz com Itachi, porque primeiro: não acho que ele seja gay. Ele só me deixa fazer o que faço com ele porque sabe que eu gosto. E mesmo que fosse, pense em como é longa a lista das coisas que haveríamos de enfrentar, caso ficássemos juntos. Pense nos olhares. Nas gozações implacáveis. Nas pessoas que dispensariam seu diploma simplesmente porque divide a cama com outro homem. Mas o pior, Kankurou, é saber que eu faria a mesma coisa, se fosse eles; acharia asqueroso e mandaria o sujeito com uma desculpa esfarrapada qualquer. De fato, companheiro, eu me sinto asqueroso. Não entendo como um maldito e mísero encontrão de bocas num drive-in pode transformar todas as certezas que eu construí ao longo da minha existência numa merda de uma tempestade, e isso faz sentir-me tão enfurecido, tão confuso e acossado, tão... tão...

Tal jorro de palavras, é claro, jamais deixou seus lábios.

– Entendo que algo está acontecendo e que você talvez não queira contar – Kankurou continuou –, mas ultimamente você parece estar perdido nos próprios pensamentos o tempo todo, e isso meio que está enlouquecendo o pessoal. Eles querem ajudar, porém não sabem como. – Ele rabiscava o topo da folha de caderno, serenamente. – O que eu quero dizer é que, se algum dia resolver abrir o jogo, só quero que saiba que estamos por aí, entende?

Shisui olhou para ele. Kankurou já tivera sua própria carga de merda, Deus era testemunha disso; o pai controlador, a irmã mais velha que largara os estudos para se casar com um preguiçoso imprestável (nas palavras do pai), o irmão mais novo preso num reformatório como principal suspeito de um crime bizarro pra cecete, envolvendo o assassinato em série de pelo menos 14 pessoas. Kankurou não falava muito nisso, mas quando falava, dizia que não dava para ficar questionando muito os limões que lhe eram lançados – se questionasse, acabava ficando doido. Você tinha que pegá-los, fazer um mojito e procurar ignorar o azedume. Aceitar que há coisas que simplesmente não se consegue mudar, por mais que você queira. O que se pode fazer é seguir com sua vida, por mais embaralhada que ela esteja.

Shisui se virou gravemente para ele.

– Você promete não contar à ninguém?

– Prometo – Kankurou respondeu, sem desviar os olhos.

– Palavra?

Ele levantou a mão, visivelmente interessado agora.

– De uma família de três gerações de escoteiros.

Shisui mordeu o interior da bochecha, e antes que se arrependesse, soltou:

– Suspeito que Yahiko seja bicha.

Mentira!

O Sr. Sarutobi interrompeu-se, e cabeças viraram na direção deles.

– Quer compartilhar algo conosco, Sr. Sabaku? – ele perguntou, sério. – Com toda a certeza, não estava se referindo à minha análise do livro.

– Não, Sr. Asuma – disse Kankurou, humilde e encabulado.

– Pois bem. – E recomeçou o falatório.

Kankurou se inclinou excitadamente para a Shisui.

– Isso é verdade? Jura mesmo?

– Não juro nada, porque eu disse que só suspeito – Shisui retrucou, começando a desenhar ondas em seu próprio caderno. – O jeito como ele olha para Nagato... não sei, não, cara.

– Cacilda – Kankurou sussurrou.

– E não vá você sair cacarejando por aí.

– Diabos, não! Mas que batata quente, hein, Shisui? Não me admira você estar tão preocupado. Ele é do time de basquete, não?

De fato, Yahiko era do time da escola, e um dos melhores atletas que tinham. Entretanto, Shisui nunca conversara propriamente com ele – as poucas palavras que haviam trocado se resumiam em comentários sobre os jogos, nunca passando daquilo. Nagato era o melhor amigo dele, um garoto que tinha uma pele cor de arroz que se chocava violentamente contra os cabelos tingidos de vermelho. Até onde sabia, Kankurou não tivera nenhum contato com os dois que não fosse se cruzarem nos corredores.

– Pois é. Vim pensando bastante a respeito disso, sabe, e não consigo chegar numa conclusão.

– Conclusão sobre o quê?

– Se isso é ruim. – Shisui errou o movimento do lápis e estragou uma onda, quebrando o padrão, porém não parou o movimento contínuo do pulso. – Digo, se ele está realmente a fim de Nagato, ele não está incomodando ninguém, não é?

Kankurou pensou longamente sobre isso. Shisui aguardou, sentindo vontade de começar a bater com o pé no chão, mas se contendo.

– Não, acho que não – respondeu, por fim. – Mas não deixa de ser esquisito. Não sei o que se passa na cabeça dessas pessoas. Quando imagino dois caras se pegando, não vou mentir que acho o sexo... complicado de se fazer.

Você ia dizer nojento, Shisui pensou, sentindo um embrulho na boca do estômago. Admita isso.

– Mas não adianta ficar esquentando a cabeça com isso. – Kankurou deu palmadinhas amigas em suas costas. – Afinal, não é você.

– Exatamente – Shisui disse, a voz enrouquecida. – Não sou eu.

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O sinal encerrando as aulas daquela quinta-feira, que parecia interminável, soou finalmente, e eles saíram para o pátio de estacionamento dos estudantes. Passaram por Yahiko no caminho, e Shisui viu, abatido, Kankurou lançar um olhar cauteloso e curioso a ele.

Despediram-se e ele se mandou para o orfanato, pensamentos sobre normal e enfermidade, certo e errado, bons e maus sujeitos, se colidindo e rolando em direções diferentes. Mas, ao fechar a porta do quarto atrás de si, eles orientaram-se em uma única direção: "Superei isto". Não deixaria mais aquela maluquice tomar proporções maiores do que já havia tomado. Já tinha sacaneado bastante. Ele ainda tinha muita coisa para fazer, não iria estragar tudo.

E é claro que, quando Itachi voltou da sua aula no meio da tarde e perguntou "Como foi seu dia?", o simples som de sua voz expulsou todo pensamento coerente de sua mente, e ele desviou o rosto, sentindo-se corar. Deus, aquilo era ridículo. Ridículo.

– Legal – forçou-se a dizer.

Itachi pôs sua mochila ao lado da cama e começou a tirar os sapatos. Shisui o observava inquieto, uma luta tomando lugar dentro de si. Vá, diga, uma voz ordenou de seu íntimo. Desculpe-se e diga que jamais o assediará novamente, que você não sabia onde estava com a cabeça, que gostaria de deixar tudo isso para trás; diga logo!

Mas ele não conseguia fazer-se falar. Engoliu e ouviu um clique seco na garganta; nada sairia dali, e se saísse, seria uma torrente confusa de palavras que pareceria o ataque de um homem com síndrome de Tourette.

Itachi, ao invés de permanecer de meias, calçou um par de chinelos de feltro, um deles tão gasto ao ponto de ter um buraco aberto no dedão direito.

– Você vai a algum lugar? – perguntou Shisui, subitamente alerta.

– Sim. Nan Melda pediu para que eu fosse pegar uns sapatos no Sr. Hobbes, que havia ficado de engraxá-los. Também tenho que entregar a mochila de Tommy para ele costurar. Abriu um rombo nos fundos quando ele escorregou o livro de Química Básica para dentro.

– Mas a sapataria dele fica a uns cinco quilômetros daqui. À pé, você vai levar um século para ir e outro para voltar.

Itachi o observou atentamente, e o estômago de Shisui contraiu-se.

– Sim, eu sei – disse ele, lentamente, como se falasse a uma criança. – É por isso que eu vou de ônibus.

Foi naquele momento que ele se deu conta do quanto desmerecia Itachi. De repente, a imagem que tinha dele, um garoto de aparência fraca, feminina, que Shisui precisava levar para cima e para baixo para que ele pudesse ter um mínimo de contato com o mundo exterior que não fosse numa sala de aula – aquela imagem se desmanchou, e ele viu o amigo como realmente era: fraco e delicado, sim, mas que não dependia de Shisui. Talvez, percebeu perplexo, nunca houvesse dependido. Ele jamais devia ter pegado um ônibus sozinho (não até onde Shisui sabia), mas havia resolução na expressão dele. Não deve ser difícil, ela dizia. Posso nunca ter feito isso antes, mas se Nan Melda me disse para ir, é porque eu consigo chegar lá. Não sou nenhuma criança.

Estranha e confusamente, aquela realização (de que Itachi conseguia se virar muito bem sem ele, obrigado) fazia seu melhor amigo, de algum modo, ser menos seu.

Quando despertou dessa percepção, Itachi já havia saído do quarto.

Shisui saiu correndo atrás dele e agarrou seu braço:

– Ei!

Itachi parou no último degrau e se virou.

– O quê?

A sala de brinquedos ficava logo à frente deles, entupida de crianças, suas vozes elevando-se estridentes no ar. É agora, aquela voz disse dentro dele. Se você planeja algum dia falar para ele, a hora é essa.

O que saiu, inexplicavelmente, foi:

– Cinema hoje à noite?

Itachi abriu a boca, então ergueu a mão como um guarda de trânsito. A abaixou, começou a falar, ergueu-a mais uma vez. Do seu lugar, dois degraus acima dele, Shisui aguardava ansiosamente. Por fim, Itachi disse:

– Você está me chamando para sair?

Shisui quase jogou os braços para cima.

– Não é óbvio?

–Não, Shisui. – Itachi o olhou sem recriminação, sem paixão, sem confusão. Apenas o olhou. – Estou perguntando se você está me convidando para um encontro.

Num primeiro momento, não respondeu. Não achava que fosse conseguir, de qualquer jeito. O que deveria dizer? O que não deveria dizer? Sabia apenas que era uma pergunta que não deveria deixar no silêncio, pois não responder seria a resposta mais clara de todas: independente se fosse um encontro ou não, Shisui gostaria de que fosse um.

O jeito era ser evasivo.

– E se eu estivesse? – perguntou. – O que você diria?

Era pedir demais que ele o encarasse nos olhos. Shisui mirava o bolso do blusão dele, onde estava bordado o brasão da escola. Seu rosto deveria estar vermelho como uma cereja agora, o que só o fez esquentar ainda mais.

– Se você estivesse me convidando para sair – Itachi disse, lentamente –, isto é, só como amigos, eu diria sim, como sempre fiz.

Shisui aventurou um olhar para seu rosto. Itachi, por sorte, não o olhava. Tinha o rosto baixo e pensativo.

– Se você estivesse me convidando para um encontro... eu...

A cabeça dele pendeu para o lado, e Shisui quase conseguia ouvir as engrenagens girando dentro dela.

– Eu... acho que... iria... dizer... que sim. – Ele levantou a cabeça, e seu olhar confirmava as palavras. – Sim, eu aceitaria.

– Por quê? – Shisui perguntou, finalmente soltando seu pulso. – Por quê, Itachi?

Itachi pareceu vacilar, quanto à falar algo mais naquele sentido, e decidiu contra. Às vezes Shisui odiava aquilo nele, essa coisa de não se abrir, muito a ver com sua introspectividade – não falando o que pensa, só recebendo o que os outros acham como um jorro incessante, sem nunca questionar, guardando para si opiniões e ideias que Shisui daria um ano de vida para saber.

– Quer saber? Que se foda. Encare como quiser. – Subiu as escadas, se controlando para não parecer apressado. Aos poucos ia notando a que ponto sua bipolaridade havia chegado: ansiava por Itachi e buscava vê-lo sempre que podia... contudo, ficar perto dele o fazia se sentir mal, e logo Shisui queria se ver depressa longe dele, como quando se conheceram, há tantos anos atrás. A diferença era que, ao invés do desprezo infantil que sentira na época, o que ele agora tentava afastar era uma sensação de confusão, talvez até mesmo medo, que nunca fora tão amorfa, tão pouco concreta.

E quanto à Itachi... seu próprio torvelinho emocional se resumia a ficar a sós com os pensamentos, embora seus olhos raramente revelassem o curso que levavam. Questionava-se as mesmas coisas e chegava sempre às mesmas conclusões:

1) Shisui estava apaixonado por ele? Isso já havia ficado bastante óbvio.

2) Como ele, Itachi, se sentia em relação à isso? Não poderia dizer que estava totalmente bem com aquela situação – a ideia de dois garotos namorando era de fato algo esquisito, mas era só isso. Ao contrário de Shisui, ele não via nada de extremamente horrível naquilo.

3) Como as coisas iriam ser dali pra frente?

Para isso não havia resposta. Olhou para o lado e viu uma bebê puxando a toalha da mesinha ao lado da porta, um vaso de flores falsas equilibrando-se perigosamente na beirada. Ele foi até lá e a fez largar a toalha, ajeitando-a novamente sob o vaso. A criança começou a chorar, mas calou-se quase imediatamente quando Itachi a pegou no colo e catou um chocalho do chão, sacudindo-o em frente aos seus olhos. Ela olhava o brinquedo com esplêndida fascinação.

– O que vai acontecer agora? – Itachi perguntou-lhe. – O quê?

Não recebeu nem mesmo um olhar em resposta, a menininha apenas esticou os dedos gorduchos, e ele entregou-lhe o chocalho, o qual ela começou a sacudir violentamente para cima e para baixo.

Andou um pouco com ela e a deixou num lugar sem objetos que oferecessem perigo. Então pegou o dinheiro com Nan Melda e saiu do orfanato. Apesar das muitas nuvens no céu, o dia estava bom. Era a única pessoa na parada de ônibus. O som do vento nas árvores atrás lembrava um pouco o da brisa no milharal do drive-in, e ele se viu (não pela primeira vez, nem pela última) de volta àquela noite. Era engraçado ele pensou, sorrindo um pouco, como o seu primeiro beijo havia sido com outro garoto. E também o havia conseguido ainda mais novo que Shisui. Pelo menos uma vez Itachi havia ganhado dele em alguma coisa que não fosse os estudos. Mesmo assim, nunca havia sentido muito curiosidade em saber como era beijar/ser beijado e

(não esperava também que fosse bom)

O sorriso desapareceu do seu rosto. Levantou-se e olhou para os lados, como se fosse possível alguém ter ouvido seus pensamentos. Era ridículo, claro, e não havia ninguém ali além dele.

Hesitando, tornou a se sentar. O pensamento o deixara um pouco... surpreso. Nunca havia passado pela sua cabeça se havia gostado ou não, mas agora que o sentimento mostrou-se, ele não podia refutá-lo. Tudo bem, tudo bem, talvez ele tenha mesmo gostado. Os lábios de Shisui eram quentes e a boca, úmida. E daí? Não era assim a boca de todo mundo? Qual seria a diferença dos beijos de Shisui para os de uma garota?

Exatamente. Qual a diferença?

Agora ele não estava apenas surpreso, mas agitado, e veio-lhe a súbita lembrança do outro beijo, na claridade mórbida do abajur do quarto deles, e também da sensação do peito nu de Shisui molhando a camisa do seu pijama. De repente, seu ventre e peito ficaram arrepiados. Depois de olhar novamente para os lados, enfiou a mão dentro da camisa e tocou um dos mamilos. Parecia uma pequena pedra, e então recuou apressadamente com o dedo, respirando profundamente.

Meu Deus, o que é isso?, pensou, passando a mão no pescoço. Estou doente?

Claro que não estava doente, e ele sabia a palavra para aquilo: excitação. Estava excitado, e o lugar não podia ser menos adequado. A primeira ereção é sempre a pior, pois o simples fato de estar excitado o excitava; não havia como escapar dela, e de súbito ficou receoso de pegar o ônibus.

Mas ele não podia simplesmente voltar, podia? Shisui estava lá. Shisui sempre via quando havia algo de errado. Ele faria perguntas, insistiria que precisava ir ao médico, possivelmente depois de encostar a testa na sua para checar a temperatura.

Itachi sentiu o rosto esquentar. Não, não podia voltar.

De modo que esperou. Tentando ignorar o incomodo entre suas pernas, ele esperou. Não levou muito mais para o ônibus chegar. Ele se deteve um momento antes de entrar, apenas olhando o veículo, se perguntando se eles sempre foram tão grandes assim.

– Você planeja ficar parado aí por quanto tempo, garoto?

Era o motorista. Itachi abaixou os olhos.

– Desculpe.

– Não precisa se desculpar, mas se vai subir, suba logo.

Ele entrou. Algumas pessoas olharam-no, desinteressadas. Itachi dirigiu-se rapidamente ao fundo do ônibus e sentou-se. Recostou a cabeça, tentando normalizar a respiração, pedindo ao seu coração que por favor, por favor, se acalmasse.

O ônibus rodava, e ele olhava pela sua janela. Concluiu que tinha de focar unicamente no que tinha de fazer, sem deixar espaço para mais nada. Se estivesse concentrado o suficiente, eventualmente esqueceria aquele "pequeno contratempo", que seria risível se ele não estivesse tão nervoso. Ele se acalmaria, e então tudo ficaria bem. Seria o retorno do juízo.

Era uma esperança inocente e absolutamente falsa, e se ele soubesse o que aconteceria a ele em seguida, teria regressado ao orfanato e tomado um banho de água gelada. Mas claro que não era algo que se poderia prever, e o ônibus o levou embora.