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I

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Certa vez, houve uma família rica que se mudou para aquelas bandas para fugir da compulsiva industrialização que, naquela época, cobria o mundo como um manto cinza e malcheiroso. A poluição causada pelas fábricas têxteis e metalúrgicas não estava fazendo bem ao enfisema do patrão, que arrebanhou a família e partiu num trem para um lugar cujo ar ainda não tivesse sido envenenado pelo fedor do petróleo. Na época, a cidade era bem menor – não passava de um vilarejo, na verdade – e o sobrado que o patrão mandou construir com o dinheiro dos títulos que vendera equivalia a um castelo na visão dos aldeões que ali viviam, pessoas que nunca antes haviam visto gente tão endinheirada. Sabiam que elas existiam, mas era um conhecimento vago, adquirido de conversas com mercadores ambulantes que, vez ou outra, ali passavam, e dos relatos daqueles que iam vender a safra do ano nas cidades grandes e voltavam com olhares maravilhados e distantes, quase que drogados, de suas viagens.

Quando a última filha do casal faleceu de cólera, a cidade já havia aumentado e conquistado alguma importância, embora ainda fosse considerada rural. O governo se apossou da edificação e a transformou num orfanato. Nan Melda disse que ele foi construído em torno de 1920, mas por conta do mau zelo que o lugar recebia (as paredes descascando, portas que rangiam gemidos de mulher e pratos de metal completamente embaçados pelo uso), Shisui segredou a Itachi que achava que o lugar devesse existir desde o começo do mundo. O próprio patrão deveria ter sido Adão recém saído do barro.

Shisui estava ali desde que se dava por gente. Sua mãe, uma pobre diaba que não tinha onde cair morta, deu luz à ele ali mesmo, enquanto procurava abrigo para aquela fria noite de março de 1962. Ela morreu pouco tempo depois, após um curto, porém intenso acesso de febre que a fez delirar durante quase uma hora. Depois disso, os médicos legistas a levaram. Ninguém sabe que fim deram à ela, se a enterraram ou se a jogaram numa sarjeta para os ratos comerem, o fato é que ninguém veio dar falta do bebê, de modo que Shisui – nome sugerido por Bah, a cozinheira, naquela época uma jovem que havia apenas começado a trabalhar ali – ficou no orfanato e está ali desde aquele dia.

Itachi chegou depois. Nan Melda o achou parado na frente do portão do orfanato certo dia, quando se preparava para sair para o rancho semanal no supermercado. Já era noite e estava chovendo muito. Ela havia perdido a hora limpando o banheiro (dois garotos haviam feito o demônio ali dentro, entupindo duas privadas e alagando todo o piso do primeiro andar. Eles foram devidamente punidos com laços do cinto que sempre usava para segurar a saia, cinto que fora de seu pai e que ela mesma já havia sentido a dureza nas costas e nas nádegas) e tentava, sem muito sucesso, abrir o guarda-chuva com a bolsa debaixo do braço, quando percebeu a criança agarrada nas grades do portão. A princípio, o confundiu como uma das muitas sombras daquela noite escura, mas à medida que seus olhos foram se acostumando percebeu que não, era realmente uma criança parada ali, debaixo daquela chuva torrencial, e sentiu algo gélido subir do estômago para o peito.

– Santa Maria e o Minino Jesuis – murmurou sob o fôlego, finalmente conseguindo libertar o guarda-chuva com um clique e correu para lá.

Após uma breve luta entre a chave e a fechadura do portão, ela finalmente conseguiu abri-lo e gritou no seu sotaque de crioula do sul:

– Entra logo!

A criança virou a cabeça para ela, seus olhos brilhantes como duas pedrinhas de granizo, mas não se moveu.

– Vamu, o que tu taí isperando?

Ela deu-lhe um puxão no braço, e o bichinho chegou a soltar um gemido de dor, mas as mãos não soltaram a grade. Foi quando ela percebeu, com um lento alvorecer surgindo em sua mente, que a criança não se aferrava à grade por birra; ela realmente não conseguia tirá-las de lá. Os punhos haviam congelado em torno das barras de ferro.

Aquele algo gélido no peito de Melda solidificou-se em uma pedra de gelo. Tentou de novo murmurar "Santa Maria e o Minino Jesuis", mas nada saiu de sua garganta fechada. Há quanto tempo aquela criança estava ali? Duas horas? Três? Desde que começara a chover? Isso havia sido no início da tarde.

– Disculpa – ela lhe disse e, com o cabo do guarda-chuva preso debaixo do braço junto com a bolsa, ela começou a desgrudar os dedinhos do metal frio, um por um.

Ela nunca contaria a ninguém, mas os estalos que eles produziam (um som que ela não ouvia propriamente, mas sentia em nas suas próprias mãos) foi uma das coisas mais agoniantes que já presenciara em vida. Os gritos foram mais suportáveis, ouvia grito de criança desde que cuidava dos irmãos, mas aqueles estalos... Deus permitisse que ela jamais passasse por aquilo de novo.

Levou-o imediatamente para dentro. A locomoção causada pelos berros e por seus passos apressados no assoalho atraiu grande um número de olhinhos morbidamente curiosos, acompanhados de cochichos, e Melda conseguiu distinguir um "Cadê o sangue? Não consigo ver o sangue". Isso a tirou do sério.

– Muito beim, podi ir se afastandu, seus fedeio! – ela berrou, e a força altissonante de sua voz foi o bastante para fazê-los recuar. – Deixa espaço pra bichinha respirá!

As crianças se afastaram, resmungando. Shisui, que estivera dormindo antes de a barulheira começar, tinha o cabelo despenteado e os olhos inchados de sono. Olhava a criança encharcada e lamuriosa com um interesse vago. Afinal, isso é um menino ou uma menina? Ou será que é um daqueles hermafroditas bizarros que a gente vê nas revistas?

– Deixa eu vê a tua mão – Nan Melda pediu.

A criança ergueu os braços trêmulos, gemendo e soluçando, e visão de seus dedos tortos acordou Shisui completamente, como se tivessem batido em seu rosto com uma toalha molhada.

– O que aconteceu com os dedos dele? – Ele se adiantou, ansioso. – Estão quebrados?

– Shisui, cuida do teu própriu traseiro e vai me buscá um panu – ela retrucou, irritada, mas Shisui continuou olhando apreensivamente para aqueles dedos, virados em ângulos inéditos e horrendos. – Agora.

Ele correu para a cozinha e trouxe um pano de pia xadrez branco e vermelho. Nan Melda pegou e ofereceu-o à criança.

– Mordi issu – ordenou. O garotinho – Shisui achava que era um garoto, pelo menos – fez o que ela mandou, e fechou os dentes sobre o tecido, olhos quase impossivelmente brilhantes.

Nan Melda pegou uma mãozinha e a pressionou entre as suas, ajeitando os dedos para dentro do prumo. Os estalos secos dos ossos foram perfeitamente audíveis, como se o saguão fosse à prova de som, e Shisui sentiu calafrios percorrerem suas costas, passando a base de sua espinha e chegando às pernas. Nan Melda fez um careta; seu rosto, que era cheio de rugas já naquele tempo, contorcendo-se até se transformar em uma máscara de Dias das Bruxas, porém não soltou os dedos quando a criança deu um grito abafado pela obstrução em sua boca e tentou puxar a mão. Ela a manteve no lugar com uma determinação tão fria quanto pedra.

Os joelhos do garoto foram de encontro ao chão com ele ainda gritando. Seu rosto era tal personificação da dor e do medo que Shisui não conseguiu suportar e desviou o olhar, ele próprio com vontade de chorar.

Após pressionar por mais uns segundos, Melda libertou a pequena mãozinha. Os dedos haviam voltado às posições corretas como se jamais tivessem estado fora delas.

– Agora, a ôtra – pediu, estendendo o braço em direção para a criança.

Ela recuou, balançando a cabeça numa negativa, os olhos arregalados e petrificados.

– O qui qui foi? – Nan Melda questionou, impaciente. – Com certeza tu num qué ficá cu's dedo torto pelu restu da vida, num é?

Ela começou a chorar mais forte e tornou a balançar a cabeça, dessa vez com mais força, mechas molhadas de cabelo grudando em seu rosto, mas não deu-lhe a mão.

– Se tu num pará com esse berrero e me dé a mão, vai levá umas palmadas no trasêro, criança.

Ela levantou o braço como se fosse bater nele, porém Shisui sabia que era só uma intimidação, comum para os órfãos que não se comportavam. A governanta não era o tipo que perdia muito tempo dialogando e logo recorria ao braço levantado no ar – A Solução Nan Melda para fedelhos levados – que faria qualquer um limpar suas galochas com a língua se ela mandasse, temendo a visão daquela enorme mão calejada prestes a espalmar-se nas nádegas.

A reação da criança, porém, foi maior do que estavam esperando. Sua expressão foi tomada de pavor e sua boca se abriu, deixando o pano cair no chão.

Não!

Foi um grito surpreendentemente alto para alguém que não deveria ter nem três anos, e Shisui percebeu porquê. O medo nos olhos dele passou a ser algo semelhante a terror.

Nan Melda parecia quase comicamente surpresa.

– Ora, mas qui diabo...

– Não me bate! – a criança gritou, aparentando estar às raiais da histeria. – Não me bate, não me bate, não, não!

– Pare com isso – Shisui falou, assustado. – Chega, ela não vai te bater. Não é, Nan Melda?

Ele a olhou, suplicante. Ela baixou o braço cautelosamente, olhando para a criança com atenção.

– É, num vô, mas ainda acho mió tu mi dexá disintortá issu aí.

– Dê a mão para ela – ele disse. – Quanto mais cedo você der, mais cedo acaba.

A criança olhou para ele, e Shisui sorriu, rezando para que parecesse encorajador quando, por dentro, sentia-se profundamente nervoso. A verdade era que ela – a criança – o inquietava. Começou a se perguntar se não tinha os parafusos meio soltos e, se tivesse, como ele faria para não estar perto quando caíssem.

Sorrir aparentemente deu certo, porque ela estendeu os dedos tortos para Nan Melda, a cabeça baixa, o cabelo cobrindo-lhe o rosto como uma mortalha de penitente.

– Só não me bate – sussurrou, abatido. – Por favor.

Nan Melda, por sua vez, dispensou qualquer cerimônia e fez o serviço rápido. Dessa vez, houve apenas dois estalos, e nem foram tão fortes assim, só dando tempo da criança emitir um breve lamento.

– Pronto – disse, levantando-se. – Tu feiz uma baita cena por poca coisa, vê?

A criança contemplou os dedos, algo fascinada. Fora o inchaço que os deixavam roliços como as luvas do Mickey, estavam novos em folha.

– Shisui, dá-lhe um banho enquanto eu vô pegá uns pano pra fazê de atadura. Dispois falo com ela pra vê dionde que ela veio.

– E por que eu?

– Purque eu tô mandando, e tu ainda vai tê que comê muita culhé de angu pra me peitá. Andando.

Praguejando mentalmente, Shisui guiou a criança até o banheiro do primeiro andar. Ela o seguiu sem protestar, segurando cuidadosamente os dedos diante de si.

Ele ligou o chuveiro e depois arregaçou as mangas da camisa.

– Levante os braços.

Ela os levantou obedientemente. Shisui tirou a camisa e prendeu a respiração.

Enormes hematomas floresciam púrpuras, verdes e negros, como rosas malignas trepando em seu estômago e peito, tentando alcançar o pescoço. Sem dúvida haviam sido feitos ainda no dia anterior; estavam apenas começando a esmaecer.

Francamente horrorizado, abaixou as calças. Uma equimose já velha e amarelada na nádega direita e listras rosadas nas coxas e canelas – a marca registrada do couro de cinto na pele. Aquilo era café pequeno perto do horror que havia logo acima, e ele não ficaria surpreso se o garoto (porque era um garoto, ele viu com uma espécie de humor sombrio) estivesse com uma costela fraturada.

Não me bate. Por favor.

– Quem fez isso com você? – ele perguntou, já prevendo a resposta.

O garotinho fungou e deu de ombros, como se não tivesse importância.

– Papai. Ele estava muito bravo hoje porque foi de-mi-ti-do – ele pronunciou a palavra com bastante cuidado. – Disse que "os bostas" não reconhecem seu valor e que irão se foder sem ele lá.

Shisui decidiu que era só o que precisava ouvir. Colocou-o debaixo do chuveiro e começou a ensaboá-lo, tomando cuidado para não pressionar muito as regiões machucadas. Ele sabia que não estava tendo muito êxito nisso, mas o garoto permaneceu quieto fora uma ou outra fungada, resquícios do choro.

– Por falar nisso, ainda não sei o seu nome – ele comentou, num tom de conversa. Não queria realmente saber o nome dele, só queria preencher aquele silêncio desconfortável entre eles.

– Itachi.

– Itachi do quê?

O garotinho franziu as sobrancelhas, pensando. Pensando com força. Por fim, ele sacudiu a cabeça.

– Desculpe, moço, não sei.

– Tudo bem. Eu também não sei o meu. Nan Melda diz que não tem problema, já que vamos receber o nome da família que for nos adotar, de qualquer jeito. A propósito, meu nome não é moço, é Shisui.

Itachi assentiu e não disse mais nada.

Definitivamente, ele não regula bem. Tentou terminar o banho o mais depressa possível de modo que se livrasse logo dele. Enxaguou o xampu e o sabonete com a água morna do chuveiro – ela nunca passava daquilo – e secou-o com uma das toalhas ásperas da estante. Em seguida, o levou para seu dormitório. Seu colega de quarto na época (um fedelho que recém largara a mamadeira) desviou os olhos do trenzinho de brinquedo que tinha nas mãos e estudou-os disfarçadamente, enquanto Shisui abria o armário e revirava as roupas dentro dele. Aparentemente concluindo que não eram nada demais, voltou a brincar.

Shisui tirou uma camiseta do armário, mediu-a com os olhos, e jogou-a em cima da cama.

– Quanto tempo vou ficar aqui? – Itachi perguntou.

– O tempo que levar até seu pai vier buscar você – respondeu, arrependendo-se logo em seguida.

Itachi pareceu aflito.

– Você acha que ele vem? Porque eu nunca estive tão longe de casa antes, isso com certeza vai me meter numa encrenca braba.

Vai meter você num hospital, isso sim.

– Talvez ele acabe não vindo. Quem sabe ele tenha se esquecido de você?

Era algo realmente estúpido e ridículo de dizer. Mesmo que fosse um monstro, pai é pai, e se a cria não está por perto, ele haveria de saber. Contudo, como o garotinho era praticamente um bebê (talvez grande para três anos, mas certamente ainda não tinha cinco), não achou que haveria muito problema.

– Ele vai vir – sussurrou Itachi. – Uma vez, ele disse que iria me procurar até no fim do mundo caso eu fugisse. E quando me achar, ele... ele disse que iria...

– Itachi, cale a boca.

As palavras saíram de sua boca involuntariamente. Os dois ficaram imóveis por um momento. Itachi pareceu quase espantado, então, aos poucos, sua expressão foi endurecendo, e ele endireitou as costas, o olhar absolutamente vazio, como se tivesse... recuperado a compostura. Foi uma transformação curiosa e também inquietante de se ver.

Querendo terminar sua tarefa mais do que nunca, Shisui afinal encontrou uma camiseta branca que serviu nele, embora assumisse a forma de um velame em seu peito magro e cobrisse os joelhos redondos. Ela escorregava para fora de um ombro e, por mais nervoso que estivesse, não pôde deixar de notar como ele pareceria até mesmo bonitinho, se não fosse aquela expressão de peixe morto.

– Vá e procure Nan Melda, a mulher de antes. Ela vai saber o que fazer com você.

Itachi virou-se, hesitou, certamente se lembrando de que "a mulher de antes" era a mesma que o fizera berrar de dor contra um pedaço de pano velho, mas acabou saindo.

– Tipinho esquisito – seu colega comentou, os olhos brilhando malevolamente por trás dos óculos.

– E ninguém te perguntou – Shisui retrucou, ríspido. Pegou a revistinha do Homem-Aranha que deixara pela metade e jogou-se de bruços em sua cama, tirando os tênis com os pés. Não sabia o que aconteceria ao garotinho, e tampouco se importava.

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– U qui vai cuntecê cum eli é qui eli vai ficá aqui até alguém vi buscá, ora essa – respondeu Nan Melda quando foi perguntar a ela, menos de meia hora depois. – Agora vai pra cama, guri, antis qui eu dê uma vassorada nessa tua bunda.

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Aconteceu que ninguém jamais veio buscá-lo, e os dias se passaram sem que Itachi falasse ou interagisse com ninguém no orfanato além do estritamente necessário. Comia quando lhe punham um prato à sua frente e ia dormir quando ordenavam, não exatamente vivendo, mas sim existindo, pálido e apático, como um coelho mantido bem alimentado numa gaiola.

Era quase inevitável que as outras crianças, notando aquele seu comportamento quieto, recluso, começassem a implicar com ele e empurrá-lo para as margens do convívio social. Era o jeito delas de eliminar um estranho, aquele garoto um pouco esquisito, que se não afina bem com o grupo. Faziam comentários, apontavam os dedos, esticavam a perna à sua frente para que tropeçasse, colavam adesivos nas suas roupas – até que chegou a um ponto em que Itachi sumiu do radar. Shisui raramente o via e, quando isso acontecia, o encontrava se esgueirando pelos corredores como um criminoso, ou sentado em um canto como se desejasse fundir-se às sombras (e talvez quisesse mesmo, não duvidava disso).

Até que certa vez, enquanto desenhava na sala de brinquedos, Bah entrara com seu corpanzil nada desprezível e pediu um minuto com ele. Estava com a aparência de sempre, os músculos se destacando sob o vestido florido e a pele negra brilhando de suor e vapor. O fantasmagórico aroma do almoço de duas horas atrás se infiltrou pela porta aberta.

– O que foi? – Shisui perguntou, receoso, repassando em sua mente todas as coisas que fizera de errado até aquele momento e quem poderia tê-lo dedurado.

– Será que ele poderia lhe fazer companhia? – ela perguntou, e só então percebeu Itachi atrás da enorme cozinheira, segurando a barra de seu vestido e olhando fixamente para o chão.

A palavra não já estava pronta em sua boca, mas alguma coisa no olhar de Bah impediu-o de pronunciá-la. Era um olhar amistoso, solícito, um olhar que dizia Deixe-o ficar com você, Shisui. Ele não vai mordê-lo nem incomodá-lo, sim?

Isso, Shisui pensou, grunhindo e puxando uma cadeira para perto, gesticulando para Itachi sentar nela, é uma maldita chantagem emocional.

Bah sorriu, mostrando seus dentes quase anormalmente brancos em contraste com seus lábios escuros, e empurrou Itachi levemente para a frente. Ele se aproximou lentamente, espiando o desenho de Shisui, e sentou-se ao seu lado.

Bah balançou afirmativamente a cabeça e afastou-se, saracoteando até desaparecer de vista.

Um pequeno silêncio instalou-se entre eles depois que as pisadas da cozinheira sumiram. Shisui continuava com sua tarefa, preenchendo atentamente os espaços em branco com lápis de cor azul, tentando ignorar o garotinho, mas não conseguindo de fato.

– O que... – Itachi começou. Shisui desviou os olhos para ele. Itachi arrancava pedacinhos de plástico da cadeira, um gesto de ansiedade que Shisui viria a conhecer muito bem, e tentou de novo. –... o que você está desenhando?

– O Homem-Aranha. Não dá para perceber?

– Oh. – Foi tudo o que ele disse. Sua expressão deixava claro que não.

Shisui voltou ao desenho. Estava meio desproporcional, e ele tivera que usar o lápis laranja já que o vermelho havia terminado, mas dava para reconhecer o Homem-Aranha ali, claro que sim. Perfeitamente bem.

Recomeçou a rabiscar. Itachi tornou a desfiar a cadeira, e nenhum dos dois disse mais nada.

O sol penetrava na sala escura, quente como azeite e doce como a infância. A hera de abril farfalhava na janela. Os gritos das outras crianças brincando do lado de fora chegava fraco até eles, parecendo vir, na verdade, de uma antiga conexão telefônica de longa distância. Chegando de Beirute, ou até mesmo de Saturno.

Largou o lápis de cor sobre a mesa e espreguiçou-se estirando os braços para cima, em forma de Y. Um instante depois, Itachi perguntou bruscamente:

– Quer jogar scrabble?

– Quê? – A pergunta o pegou de surpresa. – Ah... hã... acho que não tem esse jogo aqui.

– Tem, sim. – Ele apontou para a última prateleira de brinquedos. – Ali em baixo.

Shisui olhou e, de fato, havia uma caixa achatada com os dizeres SCRABBLE em letras perfeitamente claras, embora desbotadas. Visto que ninguém se dispunha a jogá-lo, já que era o jogo mais velho e gasto do orfanato, estava ali acumulando pó há anos, invisível aos olhos das crianças.

– Caraca, nunca tinha visto – exclamou, soando mentiroso, e o que era ainda pior: sentia-se mentir. – Mas você sabe ler?

– Minha mãe vem me ensinando desde que fiz cinco anos. Não sei ler tudo, mas nós tínhamos scrabble em casa e eu conseguia jogar direito.

Então, ele tem mesmo cinco anos, talvez até mesmo seis, pensou, só que é muito franzino.

– Ok, mas só uma partida, porque eu ainda tenho que fazer meu dever de casa.

A mentira tornou a insinuar-se em sua voz, e ele sentiu-se contrafeito e um pouco envergonhado. Itachi, por sua vez, não deu pela coisa (ou fingiu não dar). Foi pegar a caixa, depositou-a sobre a mesa e começou a tirar as peças. Shisui colocou o desenho debaixo de sua cadeira e aguardou, relutante, ele arrumar o tabuleiro.

O início do jogo transcorreu vagarosamente. Itachi era um jogador lento, embora persistente, e até mesmo bom. Formava palavras corretamente e até mesmo marcou um bônus de 24 pontos por formar oblíquo. A desconfiança de Shisui de que debaixo daquele cabelo de menina havia uma massa muito boa de miolos funcionando aos poucos ia se tornando certeza à medida que a partida evoluía, e ele cerrou o cenho, procurando evitar não ficar para trás.

O inexistente dever de casa não voltou aos seus pensamentos.

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Eles voltavam aos dormitórios caminhando em silêncio um ao lado do outro. Bah havia retornado ao quarto de brinquedos quando já era noite adentro e a lua ia alta lá no céu, para chamá-los para jantar. O som energético de sua voz quebrou a profunda concentração de Shisui, que pulou da cadeira como se tivesse sido mordido. Ele se virou, agitado, encontrando o olhar cúmplice de Bah. O que foi que te falei, hã?, ele dizia. Ele se comportou direitinho ou não?

Olhou para Itachi, que meramente encolheu os ombros e começou a recolher as peças. Parecia ter um fiapo de sorriso no rosto, mas Shisui não estava certo disso.

Sentaram juntos no refeitório, sem nenhum motivo em particular, e não trocando uma única palavra durante todo o tempo que estiveram lá. Nos pratos havia salsichas mixurucas com um pedacinho de pão e molho de soja – um banquete –, e ele viu ali um pretexto para não precisar falar, mantendo a boca cheia o máximo de tempo que conseguiu. Por mais que ele comesse devagar, contudo, Itachi conseguia ser ainda mais vagaroso: rolava as salsichas de um lado para o outro, espetava-as e levava para a boca, mastigando pensativamente, demorando para terminar mesmo depois de Shisui ter limpado o prato.

Quando estavam em frente ao quarto de Shisui, um silêncio ficou suspenso entre eles, como se decidissem a maneira correta de se despedir. Aquela tarde juntos os tornara amigos? Ou seria uma daquelas ocasiões que não teriam importância no dia seguinte, quando uma longa noite de sono tornaria os acontecimentos nebulosos e irreais à luz da manhã?

– Bom, hã... Nos vemos amanhã, então?

Itachi se limitou a olhar para baixo, soturno para uma criança que havia (Shisui achava que havia) se divertido durante toda a tarde.

– Se estiver a fim, podemos jogar scrabble de novo. Ou outra coisa, se você quiser. Aqui tem...

– Você não precisa fazer isso – Itachi sussurrou baixinho.

Shisui piscou.

– O quê?

– Isso. De ficar tentando me entreter. Eu agradeço, mas não precisa.

– Você não gostou de hoje? – perguntou, confuso.

– Eu gostei! – Itachi exclamou, agora um pouco desesperado, além de triste. Baixou o tom de voz. – Eu gostei, sim, porque ninguém nunca brincou comigo antes. Nenhuma outra criança. Mas só por causa de hoje você não é obrigado a ficar comigo. E sei que você não quer.

– Isso não é verdade – Shisui retrucou imediatamente, mas não seria mesmo? No fundo, não podia negar que ainda achava Itachi o tipo de garoto com quem não gostaria de se relacionar e que não teria permanecido no mesmo aposento que ele se não fosse por Bah.

Contudo, não era apenas isso. Havia também outra coisa nele que o perturbava: o olhar. Toda vez que ousava espiá-lo, sempre via olhos tão tristes, tão terríveis e perdidos no espaço, que desviava o rosto – pois neles estava refletida sua própria solidão. Toda vez que brincava sozinho; toda vez que voltava caminhando da escola, enquanto os colegas eram buscados pelos pais de carro; toda vez que deitava-se na cama, em meio ao silêncio opressivo da noite. Era difícil encará-los.

– É verdade, sim.

Shisui não respondeu. Não sabia o que responder, já que não podia – não conseguia – contestar aquilo.

Itachi deu meia volta, e Shisui o deixou ir. Entrou no seu próprio quarto, fechando a porta delicadamente.

O luar entrava pela janela, tornando o quarto um lago prateado; seu colega de quarto era um amontoado de cobertas que respiravam, e ele foi tateando com os pés em direção à sua cama, tirando os sapatos e deitando-se ainda de roupa, sem nem mesmo escovar os dentes. Estava cansado, contudo não conseguiu pregar o olho. Virava-se de um lado para o outro, sem encontrar uma posição confortável. Sentia-se não só inquieto, mas também asqueroso, e detestou Itachi por isso. Não era culpa do garoto, porém Shisui tinha que direcionar sua raiva para alguma coisa.

Igualzinho ao resto da garotada do orfanato.

Virou a cabeça tão depressa no travesseiro que era como se tivesse levado um tapa de uma mão invisível. Cale a boca.

Nenhuma resposta... nenhuma resposta... então, maliciosamente: Ora, e o que tem demais nisso? Acho que todo orfanato tem alguém assim, como nas escolas. É como uma lei nacional. Seu dia foi ruim? Falhou em uma prova importante? Discutiu com seus velhos e ficou o fim de semana a pé? Não há problema. Encontre um desses pobres coitados nos corredores, antes do sinal para as aulas, e vá direto ao infeliz.

Ele havia virado a cabeça de volta para o outro lado. Não adiantava ficar pensando naquilo. Se Itachi não queria sua amizade, Shisui não podia fazer nada quanto a isso. Quando topasse com ele no dia seguinte, não iria dirigir-lhe a palavra ou acenar, e então as coisas voltariam ao eixo da normalidade e ele estaria bem consigo novamente.

Foi o que pensou antes de finalmente conseguir dormir, mas não por muito tempo.

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Acordou com uma baderna incrivelmente alta ocorrendo no andar de baixo, escandalosa o suficiente para que ele se sentisse impelido a dar uma espiada rápida, mesmo com olhos pesados e a cabeça enevoada de sono, antes que Nan Melda chegasse e desse um basta naquele carnaval.

E uma vez no andar debaixo, viu Itachi saindo do banheiro (o recinto de origem do barulho), os cabelos cobertos de papel molhado, que escorria pelas costas e esparramava-se no chão, chorando. Entretanto, não era nada parecido com quando teve de endireitar os dedos. Era o tipo de choro sem fôlego que uma criança cansada choraria. Uma criança que está acostumada a ser castigada.

Ele não pareceu notar sua presença ali, apenas subiu depressa a escada, tropeçando num degrau no caminho. Shisui ouviu seus passos rápidos no teto, e em seguida, o bater de uma porta. Ficou um tempo parado, olhando para o banheiro. As crianças pareciam mais calmas, e a gritaria havia arrefecido para uma conversa casual. Suas sombras se moviam na parede de cerâmica branca.

Seus pés moveram-se; caminhava para lá como se estivesse num sonho. O quadro se desenhava nitidamente em sua mente: algumas crianças (Sr. Ruivinho incluso) fazem uma segunda tentativa de emporcalhar o banheiro sem serem pegos. Itachi escolhe uma má hora para dar cabo das suas necessidades fisiológicas noturnas. Indivíduo B topa com grupo A. O resultado desse encontro desembestou pela escada alguns momentos atrás e, mesmo assim, Shisui não sentia nada; nem contentamento, nem raiva, nem indiferença. Um grande vazio havia tomado conta de suas emoções.

Ali dentro estava uma zona. O piso estava encharcado, pequenas ilhas de papel molhado aqui e ali, e uma das pias de plástico estava entupida daquela massa cinzenta, que escorria pelas beiradas. Seu colega de quarto, o ruivinho de óculos

(tipinho esquisito)

tinha as mãos metidas nela enquanto conversava com um outro garoto. Havia ainda uma garota mais atrás, mas Shisui não reparou no que ela estava fazendo.

– Ei, Shisui – ele disse. – Já estávamos de saída. Nan Melda deve chegar a qualquer momento, e você também não quer estar aqui quando ela mostrar as caras, não é?

– Óbvio que não – disse. As palavras caíam de sua boca como cubos de gelo. – Itachi deve ter ido contar a ela.

– É, com certeza foi. – Ele pegou um punhado de papel seco e, enxugando as mãos, segredou em voz baixa: — Você viu o estado dele? Saiu chorando daqui feito uma garotinha.

– Eu acho que ele é bicha – seu amigo opinou.

– Claro que é, você ainda tinha dúvidas disso? De qualquer jeito, acho melhor picarmos a mula, porque quando Nan M...

Ele jamais terminou a frase. Shisui retraiu o soco no último segundo, mas ainda foi um belo golpe no queixo, e ele sentiu o impacto subir até o ombro, tudo ainda acontecendo naquela lentidão de sonho ruim. Os óculos saltaram do nariz comprido, avançando através do ar que parecia ter-se tornado tão denso quanto puxa-puxa, indo cair com estupenda suavidade dentro da pia. Viu os malévolos olhos azuis perderem o brilho antes de o menino tombar no chão quase graciosamente, como se eles estivessem participando de um balé aquático.

Durante um momento de silêncio absoluto, que pareceu conter toda a eternidade, ficaram assim. Foi quando o grito da garota (Shisui tinha se esquecido completamente dela) atravessou o banheiro, cortando aquela viscosidade como uma flecha, deixando o tempo transcorrer normalmente outra vez.

Ele olhou em volta. A garota ainda esganiçava-se, apoiada na parede dos fundos. O queixo do amigo tinha caído até quase tocar o peito. Os óculos continuavam pousados no purê de papel molhado dentro da pia, intactos. O ruivinho grunhiu, e um braço agitou-se no ar, querendo agarrar algo.

Tarde demais para querer voltar atrás agora, amigão, pensou, e lançou-se sobre o menino que se debatia cegamente no chão de cerâmica.

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Suas costas doíam como o diacho. Nan Melda viera não com seu cinto, mas uma maldita vassoura para apartar a briga, além de ter que golpear Shisui sete vezes até conseguir fazer com que saísse de cima do garoto. Ele próprio não entendia por que não parara de bater no momento em que ela irrompeu no banheiro, parecendo colossal dentro de um velho penhoar acolchoado, fios grisalhos de cabelo escapando da rede que os prendia, berrando Mais qui MERDA tá cuntecendo aqui? Incrivelmente, pela primeira vez desde que se dava por gente, não tivera medo dela. Tudo o que conseguia pensar era no ruivinho debaixo de si, em machucá-lo, fazê-lo chorar e implorar para que parasse (coisa que já estava fazendo, mas Shisui ainda não havia se contentado). O motivo nem parecia mais importar, havendo se perdido no meio da espessa névoa vermelha que era a raiva consternada que o possuíra.

Nan Melda decidiu separar os dois garotos por aquela noite, mandando-o dormir no quarto – oh, adivinhe só? – da última pessoa que desejava ver naquele momento. Ela estava sentada na cama junto à janela, o luar iluminando e também descolorindo um lado do rosto, o outro tomado pelas sombras.

– Tá olhando o quê? – Shisui sibilou no escuro. O pequeno vulto se encolheu, mas não deixou de encará-lo.

Ele grunhiu e foi se arrastando até a cama ao lado, nada os separando exceto um tapete esfarrapado. Acomodou-se nela com os mesmos modos extravagantes que uma mulher idosa teria, deitando-se com a barriga contra o colchão.

Estava cansado, dolorido, esgotado mentalmente, e ainda assim, incapaz de dormir. A noite estava silenciosa, qualquer som era ouvido nitidamente dentro do quarto. Será que faltava muito para o amanhecer? Sentia o olhar de seu mais novo colega de quarto sobre si.

Ouviu o farfalhar de lençóis e, em seguida, seu colchão cedeu um pouco quando Itachi se sentou ao seu lado.

– O que você quer? – ele perguntou, sua voz abafada pelo travesseiro.

– Vim te fazer companhia.

– Vá dormir, Itachi – disse, exausto. Pressentia uma dor de cabeça encubando, e esfregou a têmpora. – Você não precisa me fazer companhia.

– É, eu não preciso. – Mas ele não saiu dali.

Shisui ergueu-se nos cotovelos e, de alguma fora, conseguiu deitar de costas. Não doía tanto, desde que procurasse não se mexer muito. Itachi o olhava mansamente, já tendo livrado os cabelos daquela massa pegajosa. A luz da lua cintilava suavemente neles, prateando-os.

– Por acaso você está querendo expiar sua culpa pelo gelo que me deu?

– Não sei o que quer dizer "expiar".

– Significa consertar uma coisa fazendo algo que você não goste. Que nem ficar aqui comigo para tentar compensar por antes.

Itachi desviou os olhos para baixo.

– Não estou tentando compensar nada.

– Então o quê é?

Ele não respondeu.

– De qualquer jeito, se planeja ficar acordado até que eu durma, está perdendo a sua cama. – Ajeitou os braços sob a cabeça, fechando os olhos. – Sem sono para mim esta noite.

Breve farfalhar da roupa da cama, e ele se perguntou se era realmente tão fácil assim persuadir Itachi a deixá-lo sozinho. Aparentemente não, pois no momento seguinte as bases macias de suas mãos eram pousadas sobre suas pálpebras.

– Opa, ei – ei – o que...

– Minha mãe faz isso comigo quando não consigo dormir – Itachi lhe disse, o verbo casualmente conjugado no presente fazendo Shisui sentir-se mal por ele. Você deveria começar a dizer fazia, pensou. Ela nunca mais vai pôr as mãos sobre seus olhos, e isso ou ainda não passou pela sua cabeça, ou você não deixa passar pela sua cabeça; mas ela se ela ainda não veio buscá-lo, quer dizer que nunca virá, e será melhor para você se acostumar com a ideia, mas as palavras pareciam não achar o caminho para fora de sua boca. – Acalma?

– Hum, é, valeu. – Na verdade, o fazia se sentir esquisito pra diabo, contudo não podia negar que suas pálpebras começavam a pesar, e a sonolência foi aos poucos tomando lugar da inquietação. – Ei...

– O quê?

Sua consciência finalmente começava a afundar, as palavras saíram meio embaralhadas, mas ele se esforçou para torná-las minimamente coerentes.

– Não deixe aqueles imbe-e-e... – Um longo bocejo escapou de sua boca. -... cis te zoarem de novo. Fica esperto e... fica longe...

– Tudo bem – sussurrou Itachi.

– E vê se... não me arranja mais encrenca...

Em meio à treva luminosa, os olhos de Itachi se arregalaram minimamente.

– Como assim? – indagou, inclinando-se sobre sua cabeça. – O que quer dizer?

O silêncio foi a resposta.

– Shisui?

Devagar, retirou as mãos dos olhos dele. Shisui nem ao menos se moveu, a respiração cadenciada movendo lentamente seu peito. Seus cabelos estavam desalinhados sobre a testa, e Itachi os tirou para o lado, observando os cílios que se destacavam contra a tez suave.

Após alguns segundos, deixou a cama com movimentos cuidadosos e deitou-se na sua. Estava um pouco perplexo, é verdade; afinal, parecia um pouco improvável que Shisui, o garoto que havia lhe dado banho sem nem ao menor olhar para seu rosto (e que havia lhe mandado calar a boca logo depois, vale a pena lembrar) houvesse se metido numa briga por sua causa.

Era um pensamento um tanto constrangedor, mas não o suficiente para lhe tirar o sono, de modo que ele veio rápido e pesado; porém, o melhor de tudo foi que veio sem sonhos.

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O dia estava claro quando Shisui desceu as escadas e saiu para o pátio. Estava deserto, salvo por uma pequena figura no topo do escorregador.

– Ei.

Itachi se virou para ele.

– Olá – respondeu. – Dormiu bem?

– Sim, obrigado. – Disse isso encarando fixamente seus sapatos. Quando levantou a cabeça, trazia uma expressão séria e decidida. – Quero perguntar uma coisa.

– O quê?

– Quero saber se você gostaria de terminar aquela partida de scrabble.

Uma pergunta simples, que pedia uma resposta simples: sim ou não. Mas havia um significado a mais por trás daquelas palavras, e ele apenas esperava que Itachi, que demonstrara ser tão esperto ao jogar no dia anterior, pudesse senti-lo nas entrelinhas.

Eu fui um idiota. Desculpe-me. Julguei você como um mané antes mesmo de conhecê-lo. Serei seu amigo, se você ainda quiser. Jogue scrabble comigo.

Ao que tudo indicava, Itachi percebeu, pois quando respondeu, não foi com a exultação jubilosa da criança que é finalmente incluída, mas com um tom igualmente grave e olhos solenes.

– Sim, eu gostaria.