Color The Sky
3 Ii

:: ::
II
::
::
Não é preciso dizer que Shisui pediu para tornar a troca de quartos permanente, de modo a dormir junto a Itachi. Nan Melda, para mantê-lo longe do garoto ruivo que ele agredira, já pensava em fazer isso de qualquer maneira, e consentiu. Logo na terceira noite como colegas de quarto, juntaram as camas e prenderam as cobertas nas cabeceiras como se armassem uma tenda, e ficaram até de madrugada lendo histórias em quadrinhos com a ajuda de uma lanterna-chaveiro de plástico.
:: ::
Foram tempos dourados aqueles anos que se passaram. O tempo revelou que eles podiam, sim, manter uma amizade, mesmo com as características peculiares de suas personalidades. Shisui desabrochou um rapaz jovial, sociável e jocoso. Tinha uma fauna de amigos no bairro e era assunto constante entre a sua fração feminina; não raro, quando voltava da escola junto de Itachi, cruzavam com um grupinho de meninas que, avistando-o, começavam a cochichar entre si e soltar risadinhas, apertando os livros contra os bustos em formação.
Itachi, por outro lado, quase poderia ser considerado seu oposto: conservava a quietude da primeira infância, mas somara a isso elevadas notas escolares e um pouco mais de predisposição para relacionar-se com os outros. Isso deu em grande parte pela amizade com Shisui, é claro, porém jamais teria progredido se não fosse pelo altruísmo que ele demonstrou possuir. Ao falar com alguém, por mais maçante que fosse o assunto, ele sempre escutaria atentamente, balançaria a cabeça nos momentos certos, nunca desviando os olhos, não muito expressivos na maioria das vezes, mas que também poderiam se mostrar compreensivos e serenos.
Houve uma vez em que Shisui viu-o segurando a mão de uma menina em prantos. Dirigiu-lhe um olhar interrogativo, ao que ele respondeu com um tranquilo balançar da cabeça. Está tudo certo, não se preocupe. Quando se encontraram mais tarde, não mencionou a cena e Shisui também não perguntou. Nos dias que se seguiram, a garota pareceu melhor, pois voltou a ignorar Itachi altivamente, como se não o conhecesse. Isso Shisui comentou (esbravejou seria a palavra correta), mas ele não pareceu se ressentir. Nem ao menos se importar. Ele parecia enquadrar-se perfeitamente naquele ditado de que o melhor indicador do caráter de uma pessoa é o modo como ela trata alguém que não vai lhe trazer benefício algum.
Shisui havia crescido bonito, e Itachi não ficou para trás – contudo, ao passo que um havia se tornado charmoso como um amante latino, o que o outro tinha de atraente nada tinha que ver com um peitudo salva-vidas, rei-do-baile-estudantil: era diferente, interessante e suave.
Desde que ele não sorrisse.
Ao completar oito anos, todos os dentes-de-leite já haviam caído, e sua boca estava cheia de “portelinhas”, alguns dentes já inteiramente crescidos. Contudo, houve um infeliz infortúnio: os dois dentes da frente cresceram separados na fileira de cima. Se fosse algo discreto, não seria caso para se alarmar, mas não era. Acontece que era um maldito abismo entre eles, algo que dava na vista de uma pessoa a léguas de distância.
Shisui travou uma longa e fervorosa discussão com Nan Melda à respeito de comprar um aparelho ortodôntico. E eu posso sabê cum que dinheiro?, ela havia indagado. Ele havia respondido que iria trabalhar, se fosse necessário. O máximo que vaum te dá de trabaio vai sê limpá banheiro de cantina, e issu, moleque, vai comprá um apareio quando tu tivé terminado o colégio.
Quando estavam entrando no ponto onde o nível da conversa começava a decair, Itachi interferiu. Levou seu amigo furioso para longe do sorriso cínico da governanta, e procurou acalmá-lo.
– Aquela gata velha – Shisui murmurou, passando a mão no rosto. – Se despejassem água fervente pela porra da sua garganta abaixo, aposto que ela mijaria cubos de gelo.
Era uma tenra idade para começar a falar palavrões, e mesmo Itachi nunca tendo censurado-o, notava-se que desaprovava os novos acréscimos feitos ao seu vocabulário pelo franzir do cenho.
– Chega, Shisui – disse. – Está tudo bem.
Mas Shisui podia ver que não estava tudo bem. Os risos abertos de Itachi, tão raros de se ver, cessaram por completo. Nas poucas fotos que tinham registradas, ele aparecia com um sutil curvar de lábios, uma expressão que era recatada ao mesmo tempo em que era misteriosa, e embora o papel amarelado da fotografia tornasse seus olhos desbotados, eles ainda brilhavam quando sorria. Isso, pelo menos, não havia mudado.
:: ::
Era permitido sair das dependências do orfanato os órfãos que atingissem a idade de 14 anos. Uma porção saía para não voltar, é verdade, mas era como Nan Melda dizia; se eles já sabem se vestir sozinhos, podem muito bem decidir o que iriam fazer da vida.
Os dois garotos não tinham o mínimo interesse na vida de menores sem-teto. Shisui havia, de fato, começado a trabalhar – cortava a grama dos vizinhos e lavava seus carros alemães –, mas Itachi havia tirado da cabeça a ideia de lhe comprar um aparelho para os dentes. Trabalhava para ter uns trocados no fim-de-semana e levar o amigo ao cinema, ou ao shopping, ou ao parque de diversões, se estivesse na cidade.
Sendo Itachi a criança mais calma e bem-educada que aquele orfanato já vira em anos, não encontraram muitas dificuldades em fazer com que deixassem-no acompanhar Shisui a despeito dos seus doze anos de idade. Sentado na sala escura, ele encarava as cenas reproduzidas na enorme tela do cinema, falhas brancas faiscando sobre as imagens coloridas dos filmes da década de 70, os olhos muito abertos sob o vinco entre as sobrancelhas, levemente inclinado para frente, o rosto tão compenetrado que alguém poderia até pensar que se preparava para enfrentar os exames da Ordem do Advogados. Às vezes, se sobrava dinheiro, passavam no Mister Softee e compravam dois sorvetes complicadíssimos, cobertos de um xarope artificial, e regressavam ao orfanato com estômagos tão abarrotados que por pouco não devolviam tudo quanto fora engolido ao som da palavra “jantar”.
:: ::
Olhando para trás e vendo todas essas coisas, Shisui se perguntou apenas como ele pudera se apaixonar por Itachi.
:: ::
Anko era filha do dono de uma academia de fundo de garagem, uma garota alta, atrevida, o cabelo sempre preso num rabo-de-cavalo alto. Foi curto o tempo que levou para ela e Shisui ficarem amigados, e também não demorou muito para que ela fosse a sua primeira (de muitas que ainda viriam). O fato de ela ser um ano mais velha, ou seja, dezessete anos, o atraía de uma maneira vagamente sexual, o que fez o ato ser rápido e bom, ainda mais porque ele não era um completo ignorante no assunto, já tendo se atracado com outras garotas ao ponto de reduzi-las a algo parecido com cadelinhas histéricas. Contudo, ele nunca havia “ido até o final”, como diziam.
– E como você se sente, agora que está oficialmente iniciado nos mistérios do sexo? – Itachi lhe perguntou.
Sentado nas camas de solteiro que eles haviam juntado (e nunca mais separado, desde aquela madrugada com revistinhas), ele deu de ombros.
– Normal, eu acho. As pessoas tagarelam demais sobre isso. Não é grande coisa.
Itachi fez um ruído de compreensão. Shisui olhou para ele. Aos catorze anos, continuava magricela como sempre fora, e os traços femininos de quando chegara ao orfanato não sumiram. Ao contrário – a boca cheia, bem desenhada, e os cílios cada vez mais compridos se acentuavam agora que havia deixado o cabelo crescer até abaixo dos ombros. Estranhamente, porém, tudo isso lhe assentava bem.
– Escuta, Anko conseguiu passagem liberada para mim na academia do pai dela. Vamos malhar enquanto o verão ainda não chega.
– Não acho que eu faça o tipo sarado, obrigado.
– É assim que você planeja conseguir garotas? – Shisui questionou, zombeteiro. – Se parecendo com elas?
Itachi lhe dirigiu um sorriso sabido, e ele não conseguiu evitar sorrir de volta.
– Vou levar você para o cinema hoje à noite – disse, levantando-se. Quando o fez, percebeu que não precisava mais baixar tanto o olhar para falar com ele. Estava ficando alto, também. – O velho da casa com jardim vietnamita me descolou 15 pratas a mais por lavar o interior do carro. Dá pra comprar uma pizza e uma Pepsi grande. O que acha?
O sorriso de Itachi aumentou, ainda que não mostrasse os dentes (ele não o faria enquanto pudesse evitar), e aquele brilho bem-humorado surgiu em seus olhos, especialmente no esquerdo.
– Parece bom.
:: ::
Eles eram jovens, cheios de energia para gastar, sem maiores preocupações que não fossem os testes finais. Ambos estavam velhos demais para despertarem interesse nos candidatos a papai e mamãe que de vez quando ali passavam, e o término do colégio era um futuro distante, irreal, que levaria centenas de anos para acontecer. O importante era que eles estavam vivos, tinham o tempo ao seu favor e o laço de amizade entre eles era brilhante e inquebrável.
Até aquela noite, quando Shisui o beijou e tudo em torno deles começou a ruir.
Fale com o autor