Dulce

:- Au, Any!! – Exclamei sentindo dor da alfinetada. – Cuidado!

:- Desculpe, Dul. Mas, você está agitada eu não consigo controlar minha mão. – ela tirou um alfinete da boca e prendeu no meu vestido, mais um figurino criado por ela. – Ou talvez seja um castigo por essa sua língua venenosa. – ela comentou anotando algo em seu caderno.

:- Castigo? Por favor Any! – eu bufei batendo os braços no corpo – eu apenas estou falando a verdade.

:- Dulce, você não a conhece, como pode saber as intenções dela?

:- São as piores possíveis, está claro. — Any me olhou confusa pelo reflexo do espelho.

:- Ai, Dulce eu vou repetir mais uma vez. Por que acho que entrou por um ouvido e saiu pelo o outro. – ela apontou para minha orelha, ainda me olhando pelo reflexo – Maite é uma das mulheres mais ricas desse país, sua família é nobre e italiana, uma chefe de cozinha internacional e ela e Poncho estão muito bem juntos, seja lá o que eles tenham. É visível, portanto mocinha — ela me abraçou pela cintura – não existe nada de errado nessa relação dos dois.

:- Ai, claro que existe – devolvi ignorando todo esse discurso dela.

:- E o que é então?

:- Ela o roubou de mim! – Exclamei exaltada, por que ninguém entendia isso?

Any ficou me encarando séria e piscou os olhos duas vezes em seguida para depois soltar uma gargalhada sonora e típica dela. Apenas fiquei a encarando tentando achar o motivo desse ataque, por que eu não achava graça nenhuma em ter meu melhor amigo roubado por uma ladra de melhor amigo.

:- Ai, Dulce, só você mesmo. – ela se desgrudou de mim. – Possessiva como nunca vi, deixa o Poncho em paz, você sempre implicou com as namoradas e amigas dele. Por causa do seu ciúme. Não a amizade que aguente, aliás, você não se contenta com o Christian, não?

Suspirei ao me lembrar de Christian.

:- Você que não entende Any. Tudo mudou depois da chegada de Maite, o Poncho se afastou completamente de mim. Vive grudado com ela de cima para baixo, ele chega a dormir várias noites na casa dela, Any. – olhei para ela com os olhos arregalados para ela compreender de uma vez por todas a gravidade da situação – Ele mal fala comigo. Até minha relação com o Christian mudou, ele está distante, aéreo, parece que só eu quero esse namoro. – molhei a boca antes de finalizar – Maite quebrou um elo que havia entre Christian, Poncho e eu.

Any me olhou sem aquele ar de deboche que tinha antes e ficou séria antes de voltar a falar.

:- Escuta Dulce, não coloque uma culpa que não existe em Maite, você não a conhece. – ela me olhou com aqueles olhos azuis – Não seja egoísta, não pode se ter tudo. Deixa o Poncho conhecer outras pessoas e se dedique ao seu namoro, não foi isso que sempre sonhou? — e depois que eu assenti, pegou sua bolsa e suas coisas – Queria poder ficar, mas vou almoçar com Chris. Você deixa o vestido com a Joana que depois te mando pronto. Tudo bem? — se aproximou para me abraçar.

Estava pensando no que ela disse e quando comecei a tirar o vestido colorido figurino de Colombina, Any me chamou.

:- Dulce? — voltei para onde ela me encarava parada na porta – Não seja egoísta com um dos caras que mais te apoiou incondicionalmente, independente do sentimento dele por você, eu sei que você sabe sobre o que eu estou falando.

E ela saiu deixando essa frase de impacto no ar, para eu refletir. Eu sabia, terrivelmente sabia, sobre do amor que o Poncho sentia, que eu nunca consegui retribuir, não louca pelo Christian do jeito que eu sempre fui.

Sempre busquei não machuca-lo, não dar esperanças a ele. Mas, hoje vejo que essa não foi a melhor saída, por que as minhas decisões tomadas só o fizeram afasta-lo de mim.

Passei a mão no rosto chateada, talvez eu tenha sido mesmo a minha vida inteira egoísta e ciumenta. Talvez todo esses sentimentos excessivos vieram desde os tempos do orfanato, quando eu estava sozinha sem familiar algum e nem amigos isso até a chegada de Poncho. Porque as coisas tinham que ser tão complicadas na minha vida.

Em meio todas essas reflexões confusas eu troquei de roupa voltando a ser Dulce, deixando de encarnar Colombina, pelo menos no figurino por que com o coração eu ainda estava confusa.

Afinal de contas eu consegui realizar um sonho, viver o meu amor com Christian, mas por que nada do que eu idealizei não é o mesmo, se o Poncho não está do meu lado, sendo parte da minha felicidade.

Sai da sala de Any e fui à busca de Joana.

Ao pensar em Any, dei um sorriso, era uma contradição em pessoa, por que desde quando ela era somente uma espectadora das nossas peças de teatro, passando a ser nossa figurinista e mesmo colocando Christopher, seu marido, no mesmo barco o colocando para escrever nossas peças. Nos apoiando como poucos.

Ela demonstrou ser diferente, Any sempre teve uma vida de princesa de conto de fadas aquela que eu mesma sempre sonhei para mim. Até mesmo um casamento arranjado entre sua família e a de Christopher houve ambas as famílias da elite mexicana. Riu toda vez que ela conta a sua história com ele, passou do ódio ao amor de um destino traçado, ela era simpática, sincera, irônica e tinha comentários ácidos para qualquer situação.

Nos tornamos amigas tão rapidamente, não tínhamos vivência como eu e Christian e Poncho, isso eu não teria com ninguém somente nós sabemos o que passamos, mas ela me conhecia de uma forma impressionante. Eu realmente havia sido egoísta com o Poncho.

Lembrando disso, eu avistei não só Joana como Poncho também. Corri para entregar o vestido para Joana e pedindo para ela guarda para Any, eu corri mais para alcançar Poncho que caminhava em direção a um dos camarins. Antes que pudesse chama-lo eu escutei sua conversa ao celular.

:- Está sendo difícil seguir assim, mas eu vou continuar sim. – ele falou na minha frente sem saber que eu escutava tudo – Ok, eu vou dormir na sua casa pode confirmar com Pablo, que vou jogar vídeo game com ele e brincar com a Maria também. – ele riu abrindo a porta do camarim entrando e deixando ela aberta – Não vou demorar, não se preocupe comigo assim que acabar aqui eu vou correndo para aí, beijo. – desligou a chamada sorrindo e guardou o celular assobiando.

Mesmo ficando parada na porta ainda escutando sua ligação que provavelmente era com Maite, eu não pude conter ser dominada pelo ciúme aquilo era maior que eu. Então, mais uma noite ele passaria lá? Tão íntimo que eles estavam.

:- Mais uma noite fora de casa, Poncho, meu deus. Acho que sua cama não sabe o que é alguém deitar nela há muito tempo. – entrei já descontando meu ciúme, eu não mudo mesmo e agora não adiantava me arrepender depois de ter falado e ainda mentido por que eu toda noite que ele passava fora ia ao seu quarto e chegava deitar na sua cama, com saudade dele.

:- Dulce? — perguntou surpreso.

:- Não, Maite. – eu revirei os olhos e ele fechou a cara.

:- Sim, eu vou dormir lá e isso não é da sua conta, Dulce. – ele parou de fazer seja lá o que fazia e cruzou os braços me encarando de lado, daria briga na certa, sempre foi assim.

:- Pode não ser, mas eu como sua amiga que ainda me considero ser. Acho que isso tudo está ficando sério demais.

:- Dulce eu nunca me meti com os caras que você ficava, mesmo não aprovando eles, ao contrário de você que sempre fez isso, sempre afastou as garotas de mim. – eu diria que aquilo era mentira, mesmo sendo verdade. Porém, ele seguiu falando. – eu nem me intrometi no seu namoro com Christian, então me deixa em paz um pouco. – ele terminou rude.

:- Eu até deixaria, mas ela não é pessoa certa para você, Poncho.

:- Não é? Como não é? Você sequer a conhece, como pode falar algo assim, por que não fala a verdade, somos amigos para isso. Para você nenhuma mulher vai ser perfeita para mim.

:- Não é bem assim... – comecei sem ter o que realmente falar.

:- Ah, não é?

:- Não, eu não me importo de você namorar ou ficar com seja lá quem for, desde que isso não o afaste de mim. – ele mudou a postura que tinha – Isso é um fato, Poncho, eu sinto sua falta. – agora ele perdeu total a postura – E olha que foram alguns dias ou semanas que ficou afastado? Eu e o Christian...

:- Não! – ele me cortou voltando a pose ameaçadora de antes, eu já tinha visto várias vezes aquela postura, mas nunca comigo. Poncho mudou, interrompi o que eu pensava quando ele voltou a falar. – Não me venha falar de vocês dois ainda mais juntos. – ele fez uma careta. – eu sinceramente estou cansado de tudo isso Dulce.

Ele parou para me encarar, nunca seu olhar foi tão raivoso e escuro lançado contra na minha direção.

:- Eu suportei durante anos, eu calei meu amor durante anos por você. – ele apontou para o seu peito esquerdo. – durante anos escutei você falar do Christian. Anos, Dulce. E você sabe como é se senti rejeitado dessa forma, até o Christian gostar de você. – ele parou respirou fundo e voltou a falar. – Eu fui burro. Tonto de verdade, por ter sido tão romântico a minha vida inteira, por ter priorizado vocês dois a minha vida inteira. Egoístas! – ele gritou me assustando – vocês dois são egoístas que sabiam dos meus sentimentos e mesmo assim, ignoraram o meu amor por você.

A primeira vez em anos nós atingimos um ponto profundo da sinceridade, aquele que fazia com que ele revelasse seus sentimentos e eu não os ignorasse. Eu poderia retrucar, mas aquele era o momento dele, e ele estava certo. Como eu não pude enxergar e dar valor a tudo àquilo que ele passava.

Ficamos nesse tempo em silêncio eu me recuperando pelo susto e pelas verdades ditas e ele pelo sentimento cuspido.

:- E agora que eu tenho alguém em que posso me apoiar, sem que ela faça parte desse ciclo que nós três formamos. Você quer tirar isso de mim? — ele me olhou – Não está bem com o Christian, o que mais você quer Dulce?

:- Você do meu lado, como sempre foi. – antes que ele me interrompesse de novo eu segui falando rápida. – Sei que fui injusta, ciumenta, egoísta com você, hoje eu tenho consciência disso. Me perdoa! – também encarei seus olhos fixamente – mesmo sabendo que você me amava, eu não podia te dar esperança, Poncho. Não amando o Christian, eu não queria te magoar de forma alguma, não você, menos você.

:- Não adiantou muito seu esforço. – ele falou justamente magoado, fazendo parti meu coração de culpa. – Sabe o que é o pior. – ele abriu e fechou as mãos na frente do seu rosto. – eu entendo os seus motivos, até mesmo do Christian, você é apaixonante Dulce. Impossível não amar você. – ele agora passou a mão no rosto me encarando.

Fiquei estática escutando ele, uma coisa era você desconfiar que seu melhor amigo ama você, de uma forma diferente da sua, outra é você confirmar e ainda escutar declarações dele. Me senti num beco sem saída ainda mais quando ele cruzou a nossa distância e ficou muito próximo a mim.

Me encarando ofegante de tão perto, eu nunca tinha reparado nele assim, o quanto ele havia crescido, no homem que ele se tornou. Talvez na minha cabeça ainda enxergasse aquele garotinho gordo que me protegia de quem quer que fosse no orfanato e julgo pensar que essa visão foi quebrada quando ele se declarou.

Poncho e eu já tínhamos nos beijado em cena, eram beijos calmos muitas das vezes, normal para mim. Mas, naquele camarim abafado com Poncho grudado no meu corpo, respirando sobre meu rosto, me olhando com olhos que chegavam a estremecer. Eu não me hesitei em colocar uma mão sobre seu peito sentindo seu coração disparado.

Nem pensei quando fechei os olhos e senti sua língua invadir minha boca, tudo era diferente do que eu já tinha experimentado. Ele começou firme chegando quase a ser violento com o passar do tempo, deixei que ele apertasse minha cintura com força. Subi minha mão por sua nuca e antes que eu aprofundasse o beijo ele mesmo o fez.

Não sentia nada além das sensações estranhas daquele beijo quente com o Poncho, era a primeira vez que alguém tomava a iniciativa de me beijar assim, talvez por isso eu esteja surpreendida que nem percebi quando Poncho nos encostou na parede partindo o beijo bruto. Ele tinha descontado toda sua raiva ali e ofegante e tonto foi cambaleando para longe de mim.

Mantinha os olhos fechados sem acreditar no que havíamos acabado de fazer, sim nós dois fizemos, o encarei também ofegante ele com camisa branca amassada pelos puxões que eu dei. Engoli saliva com a garganta seca, o silêncio era quebrado por nossas respirações e depois pelo riso alegre que escapou de sua boca vermelha.

Abriu os olhos sem sinal de arrependimento algum e me olhou como nunca antes.

:- Eu sinto saudade de algo que nunca existiu. Mas, que agora eu posso imaginar como seria. – tocou com uma mão a boca dele e se referiu ao beijo dado.

Chegou até a porta ainda sorrindo e saiu me deixando ali sozinha e ofegante encostada na parede, ainda me recuperando das sensações sentidas.

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