Notas iniciais
Olá! E aqui se inicia mais uma história, completamente diferente da outra que postei. Espero que curtam essa jornada, que não vai ser lá muito longa! Mas, mesmo assim, se divirtam!

Ainda processo essa ideia, maluca e ilógica demais. Vejo meu corpo, ali, a poucos metros de mim, do meu eu consciente. Estou coberto de sangue, pareço até um pouco torto, meio fora dos eixos. O celular que antes estava em minhas mãos e encostado ao meu ouvido, agora está jogado, embaixo do gigante caminhão. Posso ver uns respingos do meu sangue no para-choque enorme do veículo. Também observo as pessoas, olhando chocadas para meu corpo, estendido ali. Ouço alguém dando minha descrição pelo telefone, para o que posso entender, ao pronto atendimento.

‘Alto, moreno, roupas caras.’

A ficha só cai inteiramente quando alguém – da multidão envolta de mim, suponho – grita: É um Uchiha. Sasuke Uchiha.

Sou eu. Mas, então, se eu estou ali, como posso estar aqui? Observando, escutando, até mesmo sentindo um pouco de frio? Acho que morri. Sempre dizem isto: Quando você morre, fica vagando por aí. Só não sabia que essa coisa de morte era tão rápida, pensei que a vida nos deixasse uma retrospectiva, pelo menos. Vejo que me enganei, afinal, eu estou morto ali.

Uma ambulância chega, com as sirenes ligas, numa velocidade surreal. Três pessoas praticamente saltam do móvel, correndo em direção a mim, na verdade, ao meu corpo. Sinto tanto por não ter assistido aqueles seriados médicos, ou até mesmo pesquisado sobre o assunto. A única coisa que vejo é os três fazendo milhões de procedimentos no meu corpo, já meio pálido demais.

– Corram! Ele ainda está com pulsação! – Grita uma mulher morena, apontando para o motorista ajudar a trazer um tipo de prancha.

Por apenas cinco segundos, meu mundo despenca. Estou vivo. Meu coração ainda bate. Posso sobreviver. Posso morrer. Tento, com toda a minha eficácia, vasculhar uma conversa, um livro, um filme, um seriado dentro de minha mente que relate uma situação parecida a que eu me encontro.

Então lembro-me de uma conversa: Às vezes, tem pessoas que alegam ter saído de seus corpos durante um coma. São raros os casos das pessoas que lembram disso para contar. Vai saber se é verdade, né?

É verdade. Se estou realmente vivo – mais morto do que vivo – quer dizer que há uma grande probabilidade de que eu só vá acordar daqui a alguns dias, semanas, meses ou até mesmo anos. Isso se eu sobreviver.

Corro para ficar perto do meu corpo, e quando o carregam para dentro da ambulância, entro junto. Não sei como funciona isso, só sei que consigo sentir o clima quente da ambulância, então experimento tocar a lataria do móvel. Consigo senti-lo, gelado e liso. Toco a mulher – aquele do ‘Corram!” — que está sobre meu corpo na ambulância, verificando isso e aquilo. Então percebo a diferença. Ao toca-la, é como se minha mão estivesse anestesiada. Não a sinto, não como deveria sentir.

A ambulância não sacode tanto quanto pensei que sacodiria. As três pessoas, a mulher que tentei tocar, e os outros dois homens, fazem tantos procedimentos que sinto-me perdido naquele meio. Tão perdido que começo a observar da minúscula janelinha que estou sendo levado para um hospital particular, só pelo caminho que a ambulância travava.

Desligo-me um pouco do meu corpo praticamente morto, do cara ditando instruções, da mulher checando os números, do motorista que corre como louco para salvar a minha vida. Desligo-me e penso: Se eu morrer, quem vai sentir falta de mim?

(...)

No verão passado, eu ainda conversava com todos os meus amigos, sem brigas, somente eu, o Sasuke de sempre. Naquele verão tínhamos decidido que queríamos nadar, beber na praia e curtir o sol. Fomos todos, solteiros e desimpedidos.

– Vou caminhar! – Disse Sakura assim que chegamos no hotel.

Nos instalamos e depois fomos lá, para a praia. Estava um calor gostoso, nem tão quente assim, o vento batia em nós frequentemente. Ino e Hinata colocaram suas cadeiras mais próximas do mar, queriam sentir a água em partes.

– Ainda não estamos prontas para nos molhar. – Disseram elas.

Recordo-me muito bem desse dia, dessas férias improvisadas. Não por terem sido especiais demais, mas por terem sido boas. Tenho boa memória, acho que lembro de bastante coisa.

Neji, Shikamaru, Sai e Temari começaram a jogar bola, um pouco antes de chegar onde as duas garotas estavam molhando os pés. Tenten e Gaara tinham ido comprar bebidas, e eu estava no mar, nadando e observando nossa galera alegre. Senti a água espirrar no meu rosto, e as ondas calmas, ficarem sem ritmo. Naruto sorria do meu lado.

– Que bom que viemos para cá, Sasuke. Estávamos precisando de férias.

– É, estávamos começando a ficar estressados.

– Sim, sim. Acho que vou aproveitar que a Sakura-chan voltou, e pedir para ela me enterrar na areia. – Disse Naruto, começando a nadar em direção a costa, em direção a Sakura que acenava para nós.

Ah, essa época. Eu ainda não havia feito maldades cruéis com Sakura. Não havia discutido ferozmente com a pobre garota, praticamente arrancado lágrimas de seus olhos verdes, tirado seus sorrisos ingênuos. Não tinha feito ela odiar-me por completo.

Saí da água, e vi Sakura fazendo cosquinha nos pés de Naruto. O loiro enterrado até o pescoço, só deixando os pés e a cabeça descoberta. Hinata e Ino se divertiam com a maldade infantil da rosada.

– Sakura-chan, isso é maldade! – Gaguejou Naruto em meio as risadas.

– Realmente, não sabia que você era tão má, Sakura. Será que seria maldade demais enfiar uma maçã na boca do Naruto? Tipo, assim.

Nem tinha percebido que Gaara tinha chegado na brincadeira. Naruto, que além de se matar de rir, tinha uma maçã enfiada na boca. Acho que devo ter a foto do loiro desse jeito jogada por algum lugar da minha casa. Não gosto de fotografias. Evito tê-las por entre a minha vista.

No final do verão, Sakura deu um colar de conchas para cada um de nós. Cada um com uma cor diferente. Que eu me lembre, o meu era azul, o do Naruto laranja, do Neji branco e o do Gaara era vermelho. Os dos outros não lembro. Qual seria a cor do colar de Sakura? Acho que devia ser rosa ou verde, um dos dois.

Bem, só sei que quando voltamos para casa, naquele final de verão, eu me senti muito bem. Senti que tinha deixado meus problemas no mar no qual nadei, as dores na areia que pisei e as mágoas na cama em que deitei. Senti-me leve e livre, como nunca antes tinha me sentido.

Senti-me completamente bem.

(...)

A UTI do hospital é tão quieta e fria, que só é possível ouvir os passos das pessoas, ora ou outra se arrastando para cá e para lá. Estou com vários fios conectados a mim, acesso para o soro, meu rosto ainda está sujo de sangue e por alguma razão, continuo pálido como um cadáver. Eu nunca fui lá um cara bronzeado, mas há grande diferença entre ser branco e ser um cadáver ambulante.

Enfermeiras e médicos entram a todo instante no meu quarto. Verificando como estou, se tenho chances. Ouvi comentários de enfermeiras novas, dizendo que é um grande desperdício eu estar aqui, nesse estado. Não precisei passar por nenhuma cirurgia, mas quebrei a perna e o braço direito, o lado em que o caminhão bateu.

Não quero saber com o que estou, porque acredito que se eu souber, vou ficar irritado e pessimista. Mas, por alguns sussurros, percebo que aconteceu algo com a minha cabeça. E, quando ocorreu a troca de plantão, uma enfermeira fez questão de dizer:

“Ou ele acorda ou ele morre.”

Simples assim.

Não quero mais pensar nisso, contudo, considerando a situação em que estou, não pensar nisso é praticamente impossível. Estou encostado na janela do quarto, observando o cair da noite, quando a porta do local se abre. No início, não dou tanta atenção, pensando ser outro médico ou enfermeira. Entretanto, ao ouvir a voz, viro-me num instante.

– Ei, amigão.

Ela mantém o cabelo preso, como sempre, e seus olhos possuem um brilho nostálgico e magoado. Seu corpo está coberto por um casaco enorme, e percebo logo de cara que aquela roupa não pertence a ela, e sim ao seu namorado. Ela se senta na cadeira, e fica lá, observando meu corpo, meu rosto.

– Você só nos causa confusão, não é mesmo? Eu nunca pensei que te pegaria desse jeito, Sasuke. Justo você, sempre alerta a qualquer perigo. – Ela dá um suspiro longo antes de continuar – Só queria dizer que, estamos aqui, Sasuke. Naruto correu para cá, com Hinata, é claro. Aqueles dois não se desgrudam mais. – Ela riu um pouco – Tema e Shika estão lá embaixo, Sai e Ino também. Sua mãe e seu pai estão para chegar, e Itachi está quase aqui. Gaara e Neji estão telefonando para algumas pessoas, dando a notícia.

Surpreendo-me. Depois de tudo que aconteceu, eles ainda estão aqui, prontos para me amparar se eu acordar, e prontos para ampararem uns aos outros se eu me for. Ainda estão aqui porque se importam comigo. Acho que nunca deixaram de se importar. Observo Tenten acariciar minhas mãos, e desatar a falar.

– Você tem que acordar, Sasuke. Se você se for, não poderá pedir desculpas para nós, e voltar a falar com a gente. Eu sei que eu me afastei, mas foi você quem pediu. Eu não queria, Sasuke. Ninguém queria. Neji vai sofrer se você se for, e eu também. Todos nós vamos. Você precisa acordar, por nós, por todos nós. – Ela deu um tapinha na minha mão, como fazia a um ano atrás. – Acho que já vou, tem mais gente querendo ver você.

Ela se levantou, e deu as costas para ir. Porém, parou na porta, e fez uma piada com um fundo de verdade:

– Sasuke, se ela vier, e todos sabemos que vai, não derrube-a.

Um ano e três meses, acho eu, que não falo com todos os meus amigos, ou vou a uma festa com eles. Os últimos com quem falei foram Neji e Naruto, e foram os únicos que não se distanciaram, apesar que eu pedir, mandar e fazer todo tipo de falcatrua para os manter longe.

Voltei a olhar a janela, pensativo. Tenten disse que se eu me for, não poderei pedir desculpas e voltar a conviver com eles.

Mas, será que eu quero me desculpar?

Será que quero voltar a conviver com eles?

Será que quero voltar a conviver com alguém?

Se eu disser em voz alta que desisto, será que morro?

Por outro lado, não quero morrer. Tanta coisa para ver, sentir e crer, e se eu me for agora, não poderei fazer nada. Estarei morto, e a morte é permanente, sem revogação. A última frase de Tenten também deixou-me embaraçado, um pouco confuso e sentimental.

“Não derrube-a”.

Eu não quero, Tenten. Mas será que consigo? Será que não consigo machuca-la? Estou tão acostumado em quebrar seu pobre coração, que não sei se consigo deixa-lo inteiro. Ou melhor, não sei se consigo ficar longe dele o bastante para não quebra-lo.

Ainda observando a janela, vejo um carro estacionar, e meu irmão aflito sair correndo do veículo. Ele para por longos segundos enfrente a porta, olha para o céu, fecha os olhos e pede algo, porque consigo ler em seus lábios um por favor.

E essa é a primeira vez que vejo Itachi pedir por algo.

É a primeira vez que o vejo orar.

Notas finais
E então?Gostaram? O que acharam? Continuam ou já param aqui?Por favor, comentem, anjos!Nos vemos no próximo ou nos comentários! Beijos e beijos! ♥