Colisão
2 As lágrimas de uma mãe
Notas iniciais
"Tenho que ir e deixá-lo sozinho."
Goodbye — Avril Lavigne
As lágrimas de uma mãe
Certa vez, eu fui para a casa de minha vó, nas férias e a ajudei na cozinha. Enquanto fazíamos um bolo, vovó escutava um canção no rádio, e lembro-me muito bem que a canção falava algo sobre amar e ser amado. Num surto de curiosidade, perguntei, com as seguintes palavras, para minha avó:
– O que é amor?
Vovó parou o que estava fazendo, abandonando tudo, para dar-me atenção. Seus olhos vasculharam meu rosto, e um sorriso encantado surgiu em seus lábios. Ela juntou as mãos, como se fosse rezar, e olhou para cima, agradecendo.
– Pensei que nunca me perguntariam isso! – Exclamou ela, muito contente – Esperava que sua mãe perguntasse, mas... Bem, ela descobriu sozinha.
Com sua mão gordinha e adorável, vovó colocou uma mecha do meu cabelo para trás, sinalizando que eu deveria prestar atenção, por esse motivo, parei de bater a massa do bolo para ouvir atentamente suas palavras.
– Querido, nem eu e nem o mais puro ser humano, sabe, definitivamente, o que é amor. Mas, eu sei como você pode saber quando está amando. – Disse minha avó, com um sorriso jovial e travesso.
– Você é mágica? – Arrisquei, mas ela negou com a cabeça – Bruxa? – Tentei novamente, sem sucesso – Hm... Já sei! Fada madrinha?
– Não! De onde tirou essas ideias? – Perguntou surpresa.
– Os filmes da Disney sempre dizem que se você sabe de algo é porque está envolvida com mágica. – Respondi, dando de ombros.
– Oras, não posso ser, simplesmente, sábia?
– Isso é mágico? – Por favor, qualquer criança já teve sua fase de ‘mágica é tudo’.
– Não. É só uma pessoa esperta, creio eu.
– Então, não pode, não.
– Ah, vamos deixar isso para lá. – Disse ela, afastando o assunto dramaticamente com a mão — A questão é que o amor é mágico, Sasuke. Ele é mágico, porque é algo que a ciência não pode explicar, algo que ninguém pode explicar.
– Se não tem explicação, como sabem que existe? – Pensei mais um pouco, esforçando minha mentalidade infantil – Como sabem que é ... Real?
– Podemos senti-lo, meu querido. – Ela suspirou e voltou a atenção para o forno que apitava.
– Mas, sentimentos são só... Sentimentos. Então, isso quer dizer que eu amo minha cama? E minha bicicleta? – Respondi atônito com a declaração tão simples de uma coisa que antes parecia tão complicada.
– Não, não. Estou falando do amor que mexe conosco, o amor que nos dá força para mudar e sermos pessoas melhores. Esse tipo de amor é tão forte, que você deixa até de se colocar em primeira pessoa. – Explicou ela, lavando as mãos.
– Como assim, vó? – Agora, eu prestava atenção sem nenhum esforço.
– Você coloca a pessoa que você ama acima de tudo, Sasuke. Você não se importa tanto com você, não mais. Amar faz bem para o corpo e para a alma. Amar, acima de tudo, é prezar pela felicidade da pessoa amada, nem que isso signifique se afastar, e viver longe.
Jamais me esquecerei desse dia, não só pelas palavras de minha vó, mas por sua postura. Quando explicou sobre o amor, vovó estava encostada no balcão da cozinha, o pano de prato pendendo em seu ombro e seu olhar vagando janela á fora, procurando algo ou alguém. Assim que encontrou, seu olhar brilhou e um sorriso involuntário surgiu em sua face. Estiquei-me um pouco e vi para quem olhava. Para o meu avô.
– Então, eu amo minha mãe. E meu pai. E meu irmão também. – Concluí, satisfeito.
– Ah, esse amor a que me refiro é outro, mas... – Ela travessou a cozinha e bagunçou meu cabelo, pegando a massa de minhas mãos – Nesse momento, esse tipo de amor é mais do que o suficiente.
Naquela tarde, quando minha mãe veio me pegar, abracei seu esguio corpo e minhas bochechas coraram ao pensar no que eu estava prestes a dizer. Mas, mesmo assim, eu disse.
– Eu te amo, mãe.
(...)
Admito, o hospital ficava meio macabro a essa hora da madrugada. Macabro e muito frio, como se qualquer resquício de calor fosse drenado para fora do local, de propósito.
Estou sentado no chão, embaixo da janela, e observo calmamente meu corpo deitado na cama, parecendo mais um pedaço de pano jogado. Como eu gostaria de poder me comunicar com algum médico ou enfermeira, pediria, simplesmente, que subissem as cobertas, na tentativa de fazer o frio diminuir.
Depois de Tenten, ninguém mais veio falar comigo, ou melhor, com meu corpo acidentado. Foi então, que como um baque surdo, a porta se abriu e minha mãe entrou, juntamente com meu pai.
Sinto dizer, mas ela estava arrasada. A maquiagem que antes envolvia confortavelmente os olhos de minha mãe, agora lhe escorriam pela face, parecendo que ela chorara lágrimas pretas. Seu corpo estava meio curvado, como se faltasse ar para ficar ereta, e ela tremia junto com os soluços, que vinham freneticamente, interrompendo sua respiração. Assim que pôs os olhos no meu corpo, pálido e entubado, seu choro piorou, e ela tentou, inutilmente, controlar os soluços enfiando a cabeça no peito de meu pai.
Meu pai afagou seu cabelo, negro como a noite, puxou uma cadeira e a fez sentar. Ela chorava, sem nem conter as lágrimas grossas que caiam, e num movimento calmo e hesitante, ela pegou minha mão e a acariciou. Minha mãe levou minha mão até seu rosto, como se quisesse que eu a sentisse.
Mas nada. Eu não a senti.
Ela fechou os olhos tentando sentir o meu calor, contudo, quando viu que o mesmo não estava presente, se desesperou um pouco mais. Ela olhou com cautela para meu corpo, e vi que estava tentando achar um ponto em que pudesse se conectar comigo. E então, ela se debruçou pelo meu corpo e encostou sua testa na minha, e pediu, com sua voz doce, porém abalada.
– Por favor... Por favor, por favor, por favor. – Lágrimas caiam em meu rosto – Por favor, meu Sasuke. Por favor, acorde. Acorde, e venha para a mamãe. Estou esperando por você, sempre esperarei.
Levantei, e fui para perto da cama. Numa tentativa falha, tentei toca-la, entretanto, nada aconteceu. Ela não se mexeu, continuou lá, pedindo e implorando. Olhei para o meu pai, que mantinha a cabeça abaixada, como se estivesse em uma guerra, e seu melhor soldado estivesse baleado. Ele estava com os punhos fechados, e os mesmos tremiam. Aquele era o jeito de meu pai controlar as lágrimas, então?
Fugaku levantou a cabeça, foi em direção a minha mãe, com passos sossegados, e colocou uma mão em seu ombro. Sinalizando que aquilo não adiantaria, e minha mãe o abraçou.
– O que vamos fazer? – Perguntou ela, o abraçando com força.
– Desta vez, querida, não cabe a nós resolver.
Mamãe chorou ainda mais, como se admitisse a verdade. Surpreendente, ela se soltou de meu pai e veio na minha direção – não na do meu corpo, na minha direção – como se sentisse minha presença. Contudo, ela parou ao meu lado, olhou pela janela, fechou os olhos e fez seu um último pedido.
– Por favor, eu imploro... Traga meu bebê de volta.
Se eu estivesse presente ali, fisicamente, repreenderia sua atitude com um: Mãe! Eu já sou um homem. Entretanto, eu não estava. Abaixei os olhos, e minha mãe abriu os dela.
– Mãe? Mãe! Não chore, por favor. Estou aqui. Desculpe, desculpe, mãe...
Eu sabia, ninguém podia me ouvir, assim como não podiam me ver. Mas, de alguma maneira, perece que minhas palavras trouxeram algum conforto para minha mãe, mesmo ela não as ouvindo.
Como despedida, ela se curvou e beijou minha testa, ainda meio suja de sangue. Ela costumava fazer isso todas as noites, quando eu era menor e ia dormir. Lembrei-me de várias coisas, como se essas memórias estivessem, antes, bloqueadas.
Lembrei de minha mãe empurrando-me no balanço, de seus lábios beijando meus machucados após cair de bicicleta, suas mãos afagando meu cabelo, suas palavras confortando-me, seu carinho aconchegante. Seu abraço, preenchendo-me. Lembrei de que quando eu ficava doente, ela faltava ao trabalho para cuidar de mim.
Lembrei de seu amor, mais vivo do que nunca. E, eu sabia, que o amor de minha mãe jamais se apagaria, porque ela me amava desde o dia em colocou seus olhos sobre mim, na sala de parto. Talvez, até muito antes.
“- Você era tão calminho... Seu choro era bem baixinho, e no começo ficamos preocupados, mas depois, o médico disse que você era assim mesmo. Um garotinho calmo.”
Antes de saírem, minha mãe perguntou:
– Itachi não vai vir visita-lo?
– Você sabe como Itachi é, Mikoto. Ele vai esperar quando todos já tiverem vindo... Ele está sofrendo. – Suspirou pesadamente.
Assim que saíram, desabei na cadeira que minha mãe tinha sentado. Meus pais estavam sofrendo, meu irmão estava sofrendo, meu amigos estavam sofrendo. Não seria bem mais simples, eu deixar esta vida? Pois, ora, todos estavam sofrendo porque eu ainda estava aqui e meu estado era indefinido. Você preferia um filho sumido ou morto? Ah, essa foi uma comparação horrível.
Só sei que, se eu for embora, não terão mais o que lamentar. Estarei morto, e nada poderá ser feito. Eles ficarão livres para seguir em frente, porque irão saber que nada pode me salvar. Sei que estão sofrendo, mas isso é porque eles tem o peso da minha vida em suas costas, alguns arrependimentos não ditos e despedidas feitas mentalmente.
Suspiro, será que se eu desconectar os fios dos aparelhos conectados a mim, morrerei?
Esse pensamento faz um frio descer pelo meu estômago e parar nas minhas entranhas. Como será a morte? Será que irei para o Céu ou para o Inferno? Anjos virão me julgar? Não sei, nunca pensei nisso ou levei esse assunto a sério. Não é muito saudável pensar na morte quando se está vivo.
Atormentado, decido ir à sala de espera, mas logo desisto da ideia ao ver que mais uma pessoa cruzava a porta de entrada.
Seus cabelos estavam soltos, como uma cascata em seus ombros. Seus lábios finos e rosados, se mexiam de uma forma inquietante. Seu olhar vagando pela sala, procurando por algo. Seu corpo tremia, até mais que o da minha mãe, e seus olhos estavam inchados, indicando o choro recente.
Senti um tremor estranho, e saí da cadeira, para que ela pudesse sentar. Ela passou a mão pelo meu braço, como se estivesse tentando acalmar uma criança machucada, sorriu, mesmo que vagamente, e pronunciou, com sua voz perfeita:
– Olá, Sasuke-kun.
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