Colhedores
3 Maçaneta
Notas iniciais
Mais alguns anos se passaram, era um de setembro de dois mil e vinte e seis, dia do casamento de Elizabeth.
Eu não compreendia, sempre que Elizabeth se casava, mesmo que sempre com a mesma alma gêmea, ela sempre fazia uma cerimônia incrivelmente grande e cheia de convidados, com todos os doces que ela gostava e ela sempre estava escandalosamente linda.
Estávamos no salão de beleza, atrasados.
O homem que fazia sua maquiagem levantou e disse:
– Pronto!
Finalmente! Ela estava pronta!
Ele saiu da frente dela e o resultado de duas horas no salão tinha dado ótimos resultados.
Algumas das partes mais claras de seu cabelo loiro e curto estavam envolvidas numa pequena trança, logo acima uma pequena tiara que não chamava muita atenção, mas Elizabeth era assim, não gostava de chamar atenção, mesmo chamando.
Tinha um laço na cintura de seu vestido, que tinha um azul no mesmo tom da cor de seus olhos, bem clarinho, mas hipnotizante.
Elizabeth adorava azul, era a cor tema do seu casamento. Ela tinha passado dias organizando cada detalhe daquilo e ela amou fazer aquilo.
Algumas horas depois, ela estava casada.
Edward era sim um bom partido. Um rapaz bonito, alto, forte, ruivo, formado em Oxford e vindo de uma ótima família.
Ele estava com um terno preto caro, uma gravata azul que Beth mesmo tinha escolhido e um sapato novo que só seria usado para esta ocasião, mas ele não se importava com o que estava vestindo, estava feliz demais por ter se casado com ela para se importar com a lã que cobria o seu corpo.
Foi uma festa que Beth jamais se esqueceu. Um dia que pela primeira vez... Deixou-me triste.
O pai de Elizabeth, Christoff, se recusou a ir com a filha para Londres, a deixar a casa a qual tinha investido tanto dinheiro e tanto amor com sua falecida esposa.
Anos e anos se passaram. Elizabeth agora era mãe de dois jovens saudáveis e muito parecidos com o pai, que estudavam num dos melhores internatos da Inglaterra.
E embora Edward amasse passar o tempo com a sua amada esposa, ele sempre tinha que viajar á trabalho. Ele sempre foi muito ocupado.
Isso deixava Beth sozinha, a solidão a fazia pensar demais – Pobres humanos, eles não entendem que pensar demais os leva a loucura.
E eu queria fazer algo sobre isso, então decidi que estava na hora de ela fazer uma visita ao pai, que depois de tantos anos, agora estava num asilo.
A viagem não era tão longa, em um dia ela chegou lá:
– Eu vim ver o Christoff.
Ela disse para uma das enfermeiras, mas antes que a enfermeira a respondesse, ela viu o pai num cantinho ali mesmo daquele grande salão.
Elizabeth se sentiu triste por deixar o pai lá, ele parecia tão solitário e tão triste.
Maçaneta estava logo atrás dele, mas não usava o tradicional terno preto com gravata preta dos Colhedores, ele usava um terno acinzentado, os olhos negros não tiravam o foco da cadeira de rodas, que tinha um certo brilho e até fazia um leve reflexo no cabelo preto impecavelmente arrumado para trás.
Eu não era assim, quer dizer... Eu era, porque nós somos quase que completamente iguais, mas eu não arrumava meu cabelo, ele era branco, meu terno estava sempre desabotoado, minha gravata ia de um lado para o outro, nunca ficava no lugar certo.
Isso porque eu nunca me preocupei com a minha apresentação, não tinha ninguém para eu me apresentar, ninguém se preocupava em olhar para mim enquanto falava.
Maçaneta estava lá, sem quase nenhuma utilidade, apenas esperando o tempo passar.
Eu e Beth chegamos mais perto:
– Como estão?
Perguntei, fazendo-o ficar brevemente feliz por me ver.
– Estamos esperando.
– Brilhante! Ham... Por que o terno cinza?
– Vou “entrar de férias”, ele não vai reencarnar por um bom tempo. O terno só ficou dessa cor.
– Quanto tempo ele tem?
– Cinquenta e nove dias.
Ele engoliu seco e me olhou.
Nós dois sabíamos o que aquele olhar significava. Nós não voltaríamos a nos ver quando a vida de Christoff deixasse aquele corpo. Nunca mais.
Ficamos calados por um tempo, vendo Beth conversar com o pai.
Até que eu decidi perguntar a ele, algo que me assustava:
– Maçaneta, o que você acha que acontece depois da morte?
– Eles reencarnam.
Ele respondeu rápido:
– Não a dos humanos... A nossa.
– Ora essa Colhedor – Ele riu – Somos imortais.
– Mas o Conselho pode nos matar.
– Não me venha com perguntas bobas, diga logo o que está aprontando.
– Só estou perguntando.
– Eu não faço a mínima ideia. Acho que vamos para outro lugar.
– O que é outro lugar?
– Eu tenho uma hipótese... Mas prometa Colhedor, que não vai contar á ninguém. Podem me chamar de louco e me invalidar para o serviço.
Olhamos em volta. Os colhedores dos outros humanos estavam apáticos, olhando cada um para o seu humano, a visão era deprimente.
Cheguei mais perto de Maçaneta:
– Prometo.
– Já ouvi alguém dizendo que nós virávamos humanos. Eu acreditei na hora, mas e se não for verdade?
Eu estranhei a ideia, mas pensei nisso durante dias, eu estava cogitando a possibilidade, para poder ficar com Elizabeth.
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