Colecionadora de sonhos
3 Capítulo 2 — Novo Lar
— Hey cara — senti um soquinho no meu ombro. Era o garoto de cabelos escuros. — Vamos pra minha casa?
— Ok. — Tentei fazer a voz mais grossa que pude. Não pareceu muito bom, mas tinha que funcionar. Tinha que me disfarçar.
Edward não notou minha presença. Passamos normalmente por ele. Eu finalmente estava livre.
— Meu carro está parado no final da rua. — disse Luke. — Posso saber pelo menos o seu nome?
— Madison. Meu nome é Madison. — respondi.
— Ah, para. — disse o de cabelos encaracolados. — Era você quem aquele cara carrancudo lá atrás tava procurando? Você não é nenhum tipo de fugitiva ou criminosa não, é?
Dei uma risada. Repreendi-me na mesma hora. Mas do que eu estava com medo? Não podia rir na presença do Edward, mas ele não estava aqui.
— Cala a boca, Ashton — disse Luke, com um sorriso no rosto. Um sorriso não, o sorriso. MADISON! Estava fazendo aquilo de novo. Não, ia cravar no fundo da minha mente: nada mais de paixões na sua vida.
— Não sou criminosa. Fugitiva, em parte. Mas prefiro contar a história em um lugar com menos gente. — disse. — E eu que devia estar com medo da companhia de vocês. Não sei quem vocês são e nem pra onde vão me levar.
— Você já sabe que ele é o Luke, o engraçadinho ali é o Ashton, aquele é o Calum — ele apontou pro moreno de cabelos escuros — e eu, sou o Michael. — se revelou o rapaz de cabelos verdes.
Entramos no carro. Calum foi dirigindo, com Michael ao seu lado. Eu, Luke e Ashton fomos atrás. Chegamos em um prédio marrom com muitas janelas. Presumi ser onde eles moravam. Será que eram irmãos? Acredito que não, porque eles não tinham nada a ver.
— Desembucha logo, minha curiosidade ta me matando. — disse Ashton.
Então eu expliquei tudo. Desde minha chegada na Austrália, até o encontro com eles no restaurante. Não me interromperam nenhuma vez. Quando terminei, senti o peso se esvaindo.
— E você nunca pensou em denunciá-lo pra policia? — indagou Calum.
— Mais de uma vez. — respondi. — Mas o pai dele é rico, tira ele da cadeia em um instante. E se eu fizesse isso, Edward ficaria ainda mais irado comigo. Bem, eu sei que é pedir muito, mas eu gostaria que vocês me arranjassem algum lugar pra dormir até eu juntar o dinheiro necessário pra voltar pro Brasil.
— Claro. — disse Michael. — Você pode dormir aqui no nosso apartamento, no quarto de hóspedes. Certo pessoal?
Todos concordaram. Agradeci mentalmente. Não conseguiria me virar na rua. Sem dinheiro, sem roupa, sem comida. Saí do Brasil pra me tornar independente e aqui estou eu, morando de favor. Mas não tinha alternativa. Subimos de elevador e logo me mostraram meu novo quarto.
— Aqui tem uma toalha e uma camisa grande do Luke. — Ashton me entregou as duas coisas. — Não tem nada melhor porque apesar do Calum não demonstrar muito, somos todos homens. — escutei resmungos do fundo, provavelmente do Calum.
Tomei o banho e me lavei como não fazia há uns dois anos. Não que eu tivesse ficado sem me limpar, mas o chuveiro daquele lugar era tão precário que eu me sentia suja mesmo depois da limpeza. Lavei e sequei minha calcinha no secador, afinal não ia usar uma cueca deles. Olhei para o meu corpo. Nunca tinha sido muito fã dele, mas os roxos e os cortes só pioravam a situação. Que vergonha de mim mesma. A camisa deixava minhas pernas de fora, e eu não queria que eles me vissem naquele estado. Não queria que ninguém visse.
Olhei no relógio. Já eram oito da noite. Abri uma fresta na porta e disse que pros meninos que iria dormir. Ouvi gritos de acordo em outros cômodos. Deitei e fiquei pensando. 8:35. 8:41. 9:16. Mudei de posição. Nada. O sono não vinha. 9:58. 10:37. 11:00. Levantei e prendi meu cabelo. Liguei a televisão, mas não havia nenhum programa bom. Já era meia-noite, então achei que os garotos já deviam ter ido dormir. Abri a porta e vi um prato com biscoitos e um pedaço de bolo. Havia um recado também.
“Você não pediu nada pra comer, mas imaginei que estivesse com fome. Luke.”
Comi quase sem mastigar. Minha barriga estava roncando. Não me lembrava nem do que era biscoito, porque estava acostumada com pão velho. Sai do quarto em busca da cozinha, para deixar o prato na pia. Quando estava voltando, me deparei com Luke. Senti meu rosto queimar. Ele estava me vendo, estava vendo meus machucados.
— Eu só vim deixar o prato. Obrigada pela comida.
Atropelei as palavras nessas duas frases. Já ia sair apressada quando Luke me parou. Ele ia comentar sobre as marcas, tinha certeza.
— Você ficou linda na minha blusa. Pode ficar com ela.
Não sabia o que dizer. Tinha imaginado as desculpas pras perguntas dos machucados, então nem consegui processar o elogio.
— Ah, obrigada.
Ele sorriu e abriu a geladeira. Voltei pro quarto e deitei na cama, e tudo que eu via quando fechava os olhos eram aqueles dentes brancos e perfeitos.
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