Cold Coffee
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Regina caminhava por aqueles corredores sentindo-se muito desconfortável. Não sabia bem o porquê de ter sido chamada ali, Henry nunca havia lhe dado trabalho algum em relação à escola, sempre tirava as maiores notas e comportava-se com toda a educação que havia recebido em casa. Qual o problema, afinal? Quando chegou à porta que fora direcionada, deu duas batidas suaves na madeira grossa, que logo fora aberta.
– Sra. Mills? — Regina deparou-se com uma loira de estatura alta e magra, que aparentava ter alguns anos a mais que ela, porém muito bem arrumada e de olhos incrivelmente azuis. Cruzes, ela até lhe lembrava alguém. Alguém que com certeza Regina não queria ver tão cedo.
– Olá, você deve ser a professora do Henry. — Estendeu a mão de forma gentil para a mulher que a apertou, meneando a cabeça em direção a grande sala.
– Ingrid! Entre, por favor. — Não era uma sala de reuniões ou coisa do tipo. As inúmeras carteiras iguais, enfileiradas e o quadro negro na frente, indicava que estavam em uma sala de aula comum. Regina passou pela mulher e esperou até que ela se sentasse e apontasse para a cadeira vazia de frente para sua mesa.
– Como a senhora está? — A mais velha perguntou, portando um sorriso amistoso. Sinceramente, Regina queria poder dispensar toda aquela formalidade e ir direto ao ponto, estava preocupada com o filho.
– Desculpe, mas estou muito preocupada. Está tudo bem com Henry? — Perguntou, referindo-se ao desempenho escolar do menino. Sabia que ele estava bem fisicamente, quando o buscou mais cedo no colégio e o deixou em casa com Mary Margareth.
– Bem, vamos lá. Desde que chegou, Henry tem demonstrado um comportamento que está me preocupando também, senhora Mills. — As primeiras palavras foram suficientes para fazer Regina morder os próprios lábios de preocupação. — Ele mal abre a boca pra falar com os colegas, faz as atividades teóricas, mas nunca se interessa quando tem que interagir com outros alunos. Senta-se sempre o mais distante possível do resto da turma e... — Fez uma pausa, fazendo a morena franzir as sobrancelhas.
– E? — Regina perguntou já impaciente. A descrição que a professora fazia, em nada lhe lembrava Henry. O garoto sempre fora extrovertido, sempre teve facilidade para fazer amigos e adorava falar, adorava expor suas opiniões. Aquilo era uma das coisas que Regina mais gostava em seu filho mais velho.
– Bom, eu não sei se ele sempre agiu assim, ou se é apenas no colégio, mas Henry desenvolveu um tipo de, como posso dizer? Mania esquisita. — Regina estreitou ainda mais os olhos. Ela estava chamando seu filho de esquisito na sua frente? — Quero dizer, algo que não é comum, principalmente para alguém de sua idade. É algo que se espera de um menino de seis anos, talvez, mas não de doze. — Regina respirou fundo, sentindo seu maxilar tencionar. As mãos se entrelaçaram em cima da mesa, segurando-se para não voar no pescoço daquela mulher.
– Que mania ele desenvolveu? — Perguntou, a voz firme, mantendo a postura. Ela sabia que Ingrid não estava fazendo de propósito, e que não queria ofender seu filho. Mas seu instinto materno e toda a proteção que tinha com seus dois filhos a deixavam daquela forma. Como se tivesse que protegê-los contra tudo o tempo todo, já que era a única responsável por eles.
– Sempre que está nervoso, que é geralmente quando abre a boca pra falar qualquer coisa em público, ele se enrola e começa a falar as frases de trás pra frente. — Regina torceu o nariz, que diabos aquela mulher estava dizendo-a? Henry falava perfeitamente normal. — Por exemplo, ao invés de dizer "bom dia", ele diz "dia bom". Entende?
Não, não entendo. Meu filho se comporta perfeitamente bem em minha casa, fala frases completas e lê livros em uma semana que eu aposto que a senhora jamais conseguiria ler em um ano. Teve vontade de dizer, mas não o fez, apenas balançou a cabeça negativamente.
– Não entendo o que possa estar deixando-o assim, ele sempre se comportou normalmente em minha casa. — Torceu os lábios em um biquinho, pensativa.
– Creio que deva chamá-lo para conversar, Sra. Mills, eu gostaria de poder ajudar mais, mas preciso contar com a intervenção da senhora. Ele não me diz nada. — Regina suspirou frustrada. Como falaria com Henry sobre uma coisa, que ela nem mesmo havia presenciado? O garoto agia normalmente em casa, como sempre fora.
– Talvez ele esteja assustado com essa mudança. — Continuou Ingrid. — Vocês vieram de uma cidade grande, onde ele provavelmente tinha amigos e estava se desenvolvendo no ritmo que estava acostumado. — Fez uma pausa, Regina recostou-se na cadeira, aliviando a postura ereta pela primeira vez. — Aqui é tudo diferente, talvez possa ser uma questão de adaptação, para ele e para os colegas.
– Como assim? — Interrompeu, arqueando novamente as sobrancelhas grossas e negras, intimidadoras. — Para os colegas se adaptarem? Quer dizer que eles não aceitam Henry? É isso?
– Não é isso, é só que viveram toda a vida em mundos diferentes, e talvez não entendam algumas coisas. São só crianças. — Regina engoliu a seco. No mesmo instante pensou em tudo o que poderia estar acontecendo, sem que ela sequer desconfiasse. E se Henry estivesse sendo vítima de bullying de outras crianças? E se seu filho estivesse sofrendo? Ela não sabia de nada. No mesmo instante, sentiu-se uma péssima mãe. Teve vontade de levantar daquela cadeira naquele minuto e correr até seu filho.
– Eu tive uma ideia. — Ingrid atravessou sua linha de pensamentos, ganhando sua atenção. Regina apenas meneou a cabeça, indicando que continuasse. — No próximo final de semana teremos o festival comemorativo ao aniversário de Storybrooke. É o maior evento da cidade, três dias de festa, as pessoas podem conferir as delícias da comida típica daqui, e existem jogos e parque de diversão montados especialmente para o festival.
– E onde ajudar o meu filho, se encaixa nisso tudo? — Regina perguntou, perdendo um pouco da paciência. Estava realmente preocupada com a situação de Henry, seu coração apertado e prestes a explodir em mil pedaços.
– Gostaria que levasse Henry ao festival, lá ele vai conhecer muita gente, pode participar de algum jogo e quem sabe não começamos a fase de adaptação para ele? — Havia uma pontinha de animação na voz de Ingrid, o que fez Regina pensar sobre o assunto.
– Tudo bem, vou falar com Henry e decidimos juntos se vamos ou não. — Ela fez menção de se levantar, e Ingrid a acompanhou. — Muito obrigada. — Agradeceu mais por educação, do que pela utilidade da professora que havia demorado tanto para lhe contar sobre seu filho.
***
– Posso entrar? — Regina encostou-se no batente da porta do filho, que estava entreaberta. Ele estava novamente jogado em sua cama, com o video-game nas mãos e parecia concentrado.
– Claro mãe. — Respondeu, voltando o olhar para o aparelho. Regina respirou fundo e se sentou na cama do pequeno, ao seu lado.
– Estive no seu colégio hoje. — No mesmo instante em que ouvira aquelas palavras, o menino parecia ter congelado. Automaticamente largou o video-game na cama e subiu seus olhos até a mãe. — Conversei com sua professora Ingrid.
– Ahh... — Ele fez uma pausa. — Pra que? — Pigarreou antes de responder, e Regina percebeu seu nervosismo.
– O que está acontecendo, amor? — Ela foi direta, não queria que Henry enrolasse-a mais uma vez e deixasse de dizer a verdade.
– Co-como assim, mãe? — Gaguejou, fazendo-a engolir a seco.
– Por que você está se fechando em uma bolha? Você não gosta daqui, é isso? Por que não me disse? — Mordeu o próprio lábio inferior e encarou a expressão perdida do filho.
– Mãe não, gosto eu. — Henry apressou-se a responder, e pela primeira vez, Regina notou que o que Ingrid dissera realmente era real. Henry trocava a ordem das palavras e se atrapalhava para falar. — Quer dizer...
– Filho, por que não me disse nada? Por que não me disse que não gostava daqui? Nós daríamos um jeito. Por que não me falou, Henry? — O menino levou as mãos ao rosto, confuso com a quantidade de perguntas que a mãe fazia.
– Você não me entende. — Gritou, pela primeira vez, de uma forma que Regina nunca havia presenciado. Henry sempre fora um garoto doce e calmo.
– Filho. — Ela levou as mãos até as dele, mas o garoto as afastou e olhou para Regina com um desespero estampado nos olhos.
– Desde que papai morreu é assim. — Fez uma pausa, enxugando com o pulso uma lágrima que havia escorrido pelo rosto pálido. — Você só se preocupa com trabalho, em fingir que tá tudo bem, em fugir de mim e do Roland, como se nós tivéssemos culpa do que aconteceu, ou porque nós te fazemos lembrar dele. Você não consegue seguir em frente, mamãe. — Regina sentiu seu coração disparar contra o peito. O que estava acontecendo ali? Desde quando Henry se revoltava contra ela daquela forma? O que ela havia feito de errado?
– Henry, tudo o que eu tenho feito nesses dois últimos anos é me preocupar com vocês, em cuidar e tentar dar o meu melhor para que vocês não sintam tanto a falta de Daniel...
– A gente ou você? — Ele a interrompeu, surpreendendo-a mais uma vez. — Eu sei que você chora todos os dias antes de dormir, pensando no papai. E que se culpa pelo o que aconteceu, mas mãe... — Ele fez outra pausa, puxando o ar com força para tentar conter as lágrimas que caíam copiosamente por sua face. — Você não teve culpa, tá legal? Você não podia fazer nada pra salvar o papai. Agora aceite isso e conviva com o que te sobrou. — Regina estava petrificada. Ela era uma mulher de trinta e dois anos, sentada em uma cama com desenhos de carros, tomando uma bronca do seu filho de doze anos, que aparentemente, sabia lidar muito melhor com sua dor, do que ela mesma.
Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas nada saiu. Como ela poderia responder àquilo? Como poderia argumentar, se Henry tinha razão em cada palavra? Ela fugia e tentava adiar o sofrimento, através do trabalho. Afundava-se em estudos e mais estudos, como se aquilo realmente importasse alguma coisa. Utilizando aquelas desculpas para criar uma nuvem em sua mente, prendendo-a ali e livrando-a das reais situações que a assombravam. Tinha medo.
– Henry, eu quero seguir em frente, eu quero esquecer isso, mas você precisa entender que...
– Não, mãe! Não preciso entender. — Ele se levantou, fazendo Regina o olhar assustada. — Eu só preciso ter a minha mãe de volta, já que eu não posso mais ter o meu pai. — Ela sentiu aquelas palavras como um soco no estômago. — Okay? — Antes que ela pudesse evitar, o garoto saiu em passos largos, e logo ela ouviu o som da porta do banheiro se fechando com força.
Pensou em ir atrás do filho e consertar as coisas. Mas o que ela diria? Que ele estava errado? Que ela não fazia nada daquilo? Ela fazia. Respirou fundo, tentando conter a pontada irritante na ponta do nariz, indicando o choro que logo escaparia por seus olhos. Deitou-se na cama do filho, e, agarrada ao seu travesseiro, chorou constantemente, até adormecer.
***
Aquela semana parecia nunca ter fim. Regina sentiu o peso do cansaço na sexta-feira, quando ia pra casa mais cedo e podia passar mais tempo com as crianças. Ela e Henry não conversaram mais sobre o ocorrido no início da semana, e o garoto não parecia se importar com isso. Era como se ele tivesse se livrado de um peso, dizendo tudo aquilo. Mas Regina sabia que ele continuava com problemas, e procurava desesperadamente uma forma de se reaproximar do filho, de ajudá-lo e ser a mãe que ele realmente queria e precisava.
– Vamos mamãe, por favor! — Roland pediu mais uma vez. — Só um pouquinho. — Fez um bico, aquele que deixava suas covinhas em evidência e era praticamente cometer um crime dizer não.
Regina estava no sofá da sala, cercada pelos filhos, com Mary sentada no sofá a sua frente, e todos os três lhe faziam o mesmo pedido. Queriam ir ao primeiro dia do festival comemorativo da cidade. Eram seis da tarde, e pelo o que Mary disse, o parque de diversões já estava funcionando e provavelmente quase todos da cidade estavam se divertindo com o evento.
Regina suspirou mais uma vez, estava cansada, com suas energias esgotadas e sem a menor vontade de sair de casa. Mas como dizer não àquilo? Como negar um pedido de seus filhos, quando tudo o que ela precisava era resgatá-los daquela bolha que eles próprios haviam criado para se proteger dela e de sua loucura?
– Só duas horinhas, e depois voltamos pra casa. — Cedeu, ganhando gritos eufóricos em agradecimento. — Mas preciso tomar um banho primeiro.
– Ahhh! — Henry e Roland disseram em uníssono, sabendo o quanto a mãe demoraria naquilo. — Não mãe, você vai enrolar muito. — O mais velho adiantou-se.
– Ou é isso, ou não vamos. — Impôs a voz da autoridade daquela casa. — E aí?
– Droga que, mãe! — Henry falou sem pensar. Outra vez ele havia trocado a ordem das palavras. Mary desviou o olhar e Regina sentiu-se incomodada com aquilo, lembrando-se do problema que tinha que resolver com o filho. Sentiu-se péssima e a pior mãe do mundo, outra vez.
– Olha, eu posso ir com eles agora, e você nos encontra lá mais tarde. — Mary propôs timidamente, recebendo um enorme sorriso de Henry, o que fez Regina se sentir melhor. — O que acha?
Regina torceu o nariz, avaliando a situação. Não queria deixar os filhos saírem assim, mesmo que confiasse em Mary, não era o mesmo que estarem acompanhados da mãe. Mas afinal, era só um pequeno festival, em uma cidade pequena. Que mal poderia ter?
– Tudo bem, vocês venceram. — Outra vez os gritos em comemoração foram ouvidos. Os meninos beijaram a mãe e foram embora com Mary.
Regina subiu as escadas lentamente, como se suas pernas pesassem três vezes mais cada. Tomou um longo banho quente, lavou os cabelos e se livrou de qualquer resquício do dia de trabalho. Secou-os da forma que estava acostumada, jogando-os para um único lado. Vestiu uma roupa confortável e quente, já que provavelmente o frio estaria castigando quem estivesse do lado de fora. Uma calça jeans que se ajustava perfeitamente bem em suas pernas e bunda, uma blusa segunda pele branca e o sobretudo preto por cima.
Calçou botas de cano alto, que lhe dava a impressão de ser ainda mais baixa. "Droga, eu poderia ser um pouco mais alta... Como Emma." Ela arregalou os olhos para seu reflexo no espelho. Por que diabos havia pensado naquela loira insuportável? Balançou a cabeça, livrando-se de seus pensamentos e passou um pouco de maquiagem, somente o básico, porque não gostava de sair de cara limpa.
Mais ou menos uma hora depois de os meninos terem saído de casa, ela estava pronta. É, talvez tenha sido melhor deixá-los ir antes, ou estariam surtando em seus ouvidos naquele momento. Riu de seu pensamento e saiu de casa, confirmando que o frio que fazia, realmente não estava para brincadeira. Caminhou pela trilha de paralelepípedos em seu jardim, até chegar à calçada de casa e entrou em seu carro, ligando rapidamente o aquecedor.
Dirigiu com calma e observou a quantidade enorme de pessoas que tinham na rua naquele dia. De onde havia surgido essas pessoas? Regina tinha quase certeza de que nunca vira metade delas por ali. Dirigiu somente alguns minutos para o Sul da pequena cidade, e logo encontrou o lugar da festa. Como se passavam das sete, e já havia escurecido, podia-se ver ao longe as luzes do lugar.
Era uma espécie de campo, bem grande, cercado por inúmeras barracas com comida, bebida e jogos. Um pouco mais atrás, algo cercado por grades, que Regina julgava serem quadras de futebol e tênis, mas estas estavam com as luzes apagadas. E logo ao lado, o parque de diversões que havia sido montado para a festa. Com carrossel, roda gigante e tudo o que havia direito. A música estava alta e havia definidamente muito mais pessoas do que ela esperava encontrar ali.
Estacionou seu carro em um espaço vazio, ao lado de outros veículos organizados em fileiras, do outro lado da rua. Quando desceu, afundou as mãos nos bolsos do sobretudo e obrigou os pés a caminharem em passos firmes em direção a onde acontecia a festa. Olhou para todos os lados, seria praticamente impossível encontrar Mary com as crianças, no meio de tanta gente. Passou os olhos pelos brinquedos que giravam e rodopiavam no ar, muito alto! Sentiu um frio no estômago ao imaginar um de seus filhos numa coisa como aquelas. Mary não seria capaz de permitir, ou seria?
Balançou a cabeça outra vez, se obrigando a não pensar naquilo, mas logo se arrependeu. Pisou em falso em um buraco na grama e se desequilibrou, jogando o corpo para frente e batendo com o rosto nos ombros de alguém. Sentiu-se tonta e suas pernas fraquejaram, mas braços fortes a impediram de ir ao chão.
– Meu Deus, sinto muito! Eu não olho por onde ando. — Sorriu um tanto quanto sem jeito, subindo o olhar para a pessoa que a segurava. O ar faltou em seus pulmões, seu coração acelerou e inconscientemente borboletas iniciaram uma dança em seu estômago. — Swan!
– Emma! — A loira corrigiu, um sorriso suave dançando em seus lábios. Regina viu-se hipnotizada pelas esferas azuis que a olhavam com divertimento. Emma estava tão próxima, seu cheiro delicado e o calor de suas mãos que rapidamente aqueceram a morena, fazendo-a se esquecer de onde estavam. Merda! Ela ainda estava em seus braços. — Toma cuidado, Regina, eu não posso estar por perto sempre para te segurar. — E soltou uma risada divertida, fazendo as bochechas da morena corarem e seu sangue aquecer.
Ela rapidamente se afastou, firmando os pés no chão e desviando os olhos de Emma. Droga droga droga! Poderia ser qualquer um, tinha que ser justamente ela? A mais baixa respirou fundo, passando uma mecha do cabelo negro para trás da orelha e mordendo seu próprio lábio inferior.
– Vá a merda, Swan! — Falou com cara de poucos amigos, fazendo a loira arquear uma de suas sobrancelhas.
– É assim que me agradece? — Aproximou-se novamente de Regina, com as mãos agora enfiadas nos bolsos da calça jeans preta, novamente usando aquela jaqueta vermelha que a morena já odiava. Inclinou seu corpo para frente, e disse as próximas palavras em um tom de voz mais baixo e provocativo. — Acho que eu merecia algo melhor. — E riu, fazendo aquele incômodo surgir outra vez no estômago da morena. Que diabos estava acontecendo ali?
– Obrigada, ok? Agora se me dá licença, preciso encontrar meus filhos. — Deu alguns passos em direção à festa, deixando Emma para trás, mas cessou a caminhada assim que a loira abriu a boca outra vez.
– Eu sei onde eles estão. — Falou, com a voz tranquila. Regina girou os calcanhares em direção a loira outra vez.
– Como você sabe quem são? — Franziu as sobrancelhas, deixando em evidência uma pequena ruga no meio da testa.
– Bom, levando em consideração que Mary não cuida de nenhuma outra criança, os garotos que estão com ela só podem ser seus filhos. — Ela deu de ombros, fazendo uma expressão divertida.
– Você conhece Mary? Como sabe que ela cuida dos meus filhos? — Swan revirou os olhos.
– Você já viu o tamanho dessa cidade? Você acha mesmo que eu não conheceria Mary? — Regina ponderou. Realmente, aquela cidade era um ovo, era óbvio que todos se conheciam.
– E onde eles estão? — Perguntou, voltando-se completamente para onde Emma estava parada.
– Eu posso te acompanhar até lá. — Emma esticou a mão em sua direção para que Regina segurasse, abrindo um sorriso sugestivo.
– Eu não vou andar por ai segurando sua mão. — A morena negou rapidamente, dando um passo para trás.
– Qual é, Regina? O que você acha que eu vou fazer com você? — Emma riu, divertindo-se com a careta que a outra fazia. — Por que me trata assim? E por que foge tanto de mim? Só por causa de alguns maus entendidos quando nos conhecemos?
A morena arqueou a sobrancelha. Swan estava lhe pedindo uma trégua? Estava tentando uma aproximação? Com que finalidade? Afinal de contas, o que ela queria? Cruzou os braços na frente do peito e pigarreou. Ela definitivamente não tinha motivos para alimentar aquela "guerra" entre elas, mas algo dentro de si disparava sempre que a loira estava por perto, com uma sinal de alerta pedindo que ela ficasse longe.
Emma despertava-lhe sentimentos confusos, que ela nunca experimentara antes. Ela gostava de olhá-la, de observá-la enquanto brincava com as crianças no hospital. Gostava da forma debochada como Emma ria ou tentava lhe tirar a paciência nas segunda-feiras. Ela inexplicavelmente gostava da loira. Mas não era da forma que gostava de Mary ou de Belle. Era diferente, confuso, e era isso que a mantinha naquela pose, em defesa.
– Eu não fujo de você. — Respondeu finalmente. — Só não quero correr o risco de receber outra jarra de suco em minha roupa, ou de ser acusada de furar a fila de velhinhos no supermercado. — Falou em um tom de voz sério, mas umedeceu os lábios e passou uma mecha de cabelo para trás da orelha, tentando conter a vontade de sorrir. Swan riu abertamente, finalmente ela havia lhe dado uma brecha.
– E se eu lhe fizer um pedido de desculpas melhor que os anteriores? — A loira propôs, fazendo com que Regina arqueasse as sobrancelhas outra vez. Ela fica ainda mais bonita desse jeito, droga. Emma pensou, admirando a morena cheia de pose à sua frente.
– Como? — Regina perguntou, deixando-se levar pela primeira vez.
– Hum. — Emma avaliou, levando uma mão até o queixo, como se estivesse pensativa. — Que tal isso? — Deu alguns passos rápidos em direção a um senhor que vendia balões e lhe deu uma nota, pegando um cordão amarelo que suspendia um balão em forma de coração. Caminhou de volta para onde Regina estava e fez um sinal de reverencia, entregando-lhe o cordão.
– O que é isso? — Regina perguntou, corando imediatamente com aquela cena. Algumas pessoas ao seu redor lhe observavam e riam, Emma sorriu, mantendo o balão esticado em sua direção.
– É um balão, oras, como pedido de desculpa. — A morena hesitou, mas finalmente esticou o braço e o pegou, incapaz de conter uma pequena risada.
– Você é uma idiota. — Mordeu outra vez o lábio inferior, não podia render-se tão facilmente às investidas toscas de Emma Swan. Ela ainda sentia-se estranhamente ameaçada na presença da loira.
– E você é linda. — Surpreendendo a si mesma, Swan a elogiou. Regina sentiu as bochechas corarem e engoliu a seco, novamente o incômodo no estômago estava presente. Ela desviou os olhos para o chão e Emma se arrependeu no mesmo instante, sabia que havia estragado o clima descontraído entre elas, com aquele elogio fora de hora. Droga!
– Mamãe! — Roland gritou, correndo para os braços de Regina. A morena sorriu e se abaixou para pegar o filho no colo. Mary, David e Henry vieram logo em seguida.
– Você demorou muito! Olha só o que eu ganhei. — Henry aproximou-se, mostrando-lhe os prêmios que havia ganhado nas barracas de jogos.
– Por que você estava parada aqui sozinha com esse balão? — Mary perguntou enquanto sorria, e Regina automaticamente olhou para o lado. Estava sozinha. Onde diabos havia se enfiado Swan?
– Eu... é... — Seus olhos rodaram todo o lugar, nem sinal da loira. Droga. Que diferença fazia? Ela viera por seus filhos, não? Então por que diabos seu coração batia tão rápido e seus olhos buscavam tão desesperadamente pela outra mulher? Ela respirou fundo e balançou a cabeça, estava mesmo enlouquecendo naquela cidade. — Estava procurando por vocês. — Sorriu, voltando-se para os filhos. Aquilo não podia ir por aquele caminho.
Fale com o autor