Cold Coffee
2 Capítulo 2
Notas iniciais
– Bom dia, Ariel. — Robin Swan cumprimentou a funcionária com um sorriso amistoso, assim que chegou no café. O relógio de ponteiros grandes acabara de indicar oito horas da manhã. A ruiva organizava alguns cestos com pães em cima da bancada e ainda não havia notado a presença do homem. Além de Emma e Robin, Ariel e Leroy também trabalhavam no Swan Café há muitos anos.
– Bom dia, Robin. — Ela o sorriu de volta quando o viu. — Assinei uma entrega de chocolate mais cedo, as caixas estão lá no fundo. — Entregou-lhe uma folha de papel, antes de voltar sua concentração para os pães.
– Obrigado, Ari. — Robin disse distraído, enquanto vestia seu avental por cima da blusa quente de moletom. — Está bem frio hoje, acho que venderemos bastante chocolate-quente. — Ele concluiu, dirigindo-se para os fundos do café.
– Você já viu a nova médica de Storybrooke? — A ruiva disse em um tom de voz mais alto, para que o chefe pudesse ouvir dos fundos da loja. — Está todo mundo comentando sobre ela.
– Como é? Médica nova? — Robin franziu as sobrancelhas, voltando lá de trás com algumas embalagens de chocolate nos braços e pousando-as sob o balcão. — Não, ninguém me disse nada. Mas que bom que contrataram alguém.
– Sim, pelo que fiquei sabendo, ela chegou ontem. Se mudou com a família. — Ontem? Robin se lembrou da mulher que havia visto na noite anterior e lhe ocorreu de fazer uma ligação com a médica que Ariel descrevia.
– Você sabe como ela é? Baixinha, morena, cabelos nos ombros? — Ele roçou a barba, tentando conter um sorriso ao lembrar-se do quão bonita e diferente era aquela mulher.
– Não sei, não a vi. Por que? — Ariel abriu um sorriso desconfiado, observando as expressões surgirem no rosto do amigo. Conhecia muito bem aquela cara. — Quem é essa baixinha morena que te deixou com essa cara de bobo?
– Eu não estou com cara de bobo, nem vem com essa! – Ele negou com a cabeça, aproximando-se e bagunçando os cabelos ruivos de Ariel.
– Claro que está, olha só! Agora eu quero saber, pode começar a falar. — Ela se apoiou pelos cotovelos no balcão do café, e fitou Robin com os olhos verdes semicerrados, fazendo-o rir com toda sua curiosidade.
– Não vou te falar nada, e você tem muito trabalho a fazer, não tem? Vá logo, antes que eu te demita. — Robin disse em tom de brincadeira, apontando o dedo em direção aos fundos. A ruiva riu e lhe mostrou a língua, antes de sumir por trás das portas vai-e-vem que separavam a frente do lugar com a cozinha.
– Bom dia. — Emma entrou no café no mesmo instante em que as gargalhadas cessaram. Seus cabelos loiros e compridos dançavam — fora do ritmo, com o vento que entrava pela porta atrás de si, antes que ela a batesse. — Do que estão rindo? — A loira passou para trás do balcão e pendurou a jaqueta vermelha no cabide que tinham num canto.
– Bom dia! Nada demais. – Robin a respondeu, puxando a mais nova pelo braço para salpicar-lhe um beijo na bochecha gelada. — Acordei hoje e não te vi, passou a noite fora de novo, sua peste? – O irmão perguntou em tom de brincadeira, fazendo com que Emma inconscientemente corasse as bochechas.
– Estava ajudando a Ruby com algumas coisas e acabei dormindo por lá. — Ela comentou, puxando seu avental e vestindo-o, como o irmão havia feito mais cedo. — Que foi? Para de me olhar com essa cara! — Robin soltou uma risada pelo nariz e negou com a cabeça.
– Você e Ruby não tem jeito, não é? Deveriam assumir logo esse namorico. — O mais alto disse de forma espontânea, enquanto abria a caixa registradora e contava o dinheiro que estava sendo posto ali.
– Não tem namorico nenhum, o que você quer que a gente assuma? Somos apenas amigas. — Emma fitou-o com um olhar irritado. Robin sempre achava um jeito de pressioná-la e colocá-la contra a parede, quando se tratava do assunto namoro. Ela não queria namorar ninguém, ela sentia-se bem assim, e ponto final. — Você que deveria arrumar uma namorada, está ficando cada dia mais velho e chato!
– Amigas que se comem, pra mim não são apenas amigas. — Ele riu outra vez, recebendo um soco fraco no ombro. — E eu tenho uma namorada. Quer dizer, quando eu voltar para Nova Iorque, eu e Marian iremos reatar nosso namoro, você sabe que eu a amo.
– Ama, mas vive de olho em outras por aí o tempo todo. — Emma arqueou as sobrancelhas, e, sem perceber, acabara de se lembrar da mulher misteriosa de ontem à noite. A morena havia deixado o irmão babando, e... Bom, ela também. Um frio lhe percorreu o estômago sem aviso.
– Oras, existe uma grande diferença entre amar alguém e ser cego. E, como você pode ver, meus dois olhos funcionam muito bem. — Ele piscou, provocando a irmã e fazendo-a soltar sua primeira risada naquele dia.
– Acho que isso está no sangue dos Swan. — Emma comentou distraída, observando um par de garotos que havia acabado de entrar no café. Sorriu para eles, que se sentaram em uma mesa no canto e pegaram os cardápios para folhear.
Mais um longo dia estava para se iniciar, e os domingos costumavam ser ainda mais movimentados que o restante da semana. Emma debruçou-se sobre o balcão e fitou as portas de vidro do lugar, desejando, inconscientemente, que certa morena cruzasse a entrada.
***
Do outro lado da cidade, com as mangas da camisa xadrez puxadas para cima e dezenas de caixas espalhadas ao seu redor, prontas para serem organizadas, Regina Mills acabara de se jogar no sofá de sua nova casa. Olhou ao redor, já havia feito bastante coisa, mas ainda faltava muito. A ampla sala de estar pintada em tons de branco e creme, que até o momento tinha todos os móveis vazios, lhe dava a impressão de que havia sido assaltada no meio da noite.
– Meu Deus, eu não aguento mais abrir essas caixas. Vocês poderiam me ajudar, não é, queridos? — Ela disse em um tom de voz mais alto, olhando em direção às escadas e esperando que os meninos a ouvissem. Esfregou o rosto com as mãos, tentando livrar-se do sono que sentia. Não havia dormido mais que cinco horas na noite anterior.
Quando os garotos dormiram ao seu lado, na grande cama de casal em seu quarto – que por acaso era também uma das poucas coisas que estavam em seu devido lugar na enorme casa, ela não conseguiu pregar os olhos. Sabendo que seus filhos ficariam bem, saiu para dar algumas voltas em seu carro pela pacata cidade. Queria observar, queria sentir-se mais a vontade por ali. Mas não vira nada que lhe deixasse muito animada com a mudança.
No fim da noite, fora parar em um café, com pessoas estranhas lhe observando como se ela fosse um pedaço de carne exposto em um açougue. Sim, fora dessa forma que se sentira, com tantos olhares curiosos, a cada vez que ela entrava em algum lugar. Voltou para casa e tentou organizar algumas coisas. Eram tantas caixas, tantas sacolas. Acabou adormecendo no sofá e só acordou às cinco da manhã, sentindo uma dor no pescoço pelo mal jeito que havia pegado no sono. Foi para a cama com os garotos, mas, como já era de se esperar, Roland a acordou antes das oito, pedindo colo e leite.
Depois de alguns minutos jogada no sofá, refletindo sobre a péssima noite que havia tido, Regina ouviu um barulho vindo do andar de cima. Henry desceu as escadas com rapidez, contrariando o que a mãe havia lhe pedido no dia anterior, para que não corresse dentro de casa. Regina apenas suspirou e deixou a cabeça pender no encosto do sofá outra vez, sabia que não adiantaria em nada falar.
– Que foi, mãe? — O menino se jogou no colo da morena, praticamente matando-a sufocada, já que ele já estava quase de sua altura. Regina permitiu-se rir, quando conseguiu recuperar o fôlego, é claro, e deu alguns tapinhas nas pernas do menino, jogando-o para o lado no sofá.
– Você quer me matar esmagada, não é? — Ela levou a mão até o peito, arfando. Henry gargalhou e se aproximou para beijar a bochecha de sua mãe inúmeros vezes. O garoto já sabia que não havia nada que ele não pudesse resolver com um pouco de carinho.
– Você está ficando velha, mamãe. Lembro que não se importava que eu pulasse em seu colo antes. – Ah, se ele não fosse tão adorável, eu já estaria lhe arrancando essa língua que fala demais, Regina pensou, brincando.
– Deve ser porque você tinha um metro de altura e não pesava quarenta quilos, né meu filho? – Ela respondeu, mostrando-lhe a língua. – Eu não estou velha coisa nenhuma. Sua mãe ainda vai viver muito para lhe puxar as orelhas. – Henry riu outra vez, aconchegando-se mais perto do corpo da mãe, para lhe abraçar. – Agora, ajuda a mamãe com essas caixas? Olha, aquelas com etiquetas azuis são do seu quarto, as verdes são do quarto do Rolly e as vermelhas são minhas. Eu vou terminar de arrumar aqui embaixo e já subo para te ajudar.
– Hum... — Henry levou a mão até o queixo, como se estivesse pensativo. — O que eu vou ganhar se eu fizer isso? — Arqueou as sobrancelhas, da forma que Regina costumava fazer para lhe intimidar.
– O que? Não vai ganhar nada, quem te ensinou a ser desse jeito, hein? — A morena cutucou as costelas do filho com os dedos e começou a lhe fazer cócegas. O garoto se jogou as gargalhas no sofá, até que ela cessasse a brincadeira.
– Ah, mãe, por favor! A gente chegou aqui ontem e ainda não conhece nada da cidade. — Ele agora havia apelado para o bico, sempre funcionava. — Que tal um sorvete e uma volta perto das docas? Quero ver o mar! Por favor, por favor. — Henry juntou as mãos como se fizesse uma oração e fitou a mãe com olhos de um cachorrinho sem dono.
– Quando foi que eu criei um filho tão chantagista, Deus? — Ela perguntou, rendendo-se a fofura do menino. — Está bem, nós vamos. Mas só quando essa casa estiver organizada! Eu já estou ficando louca. — Henry riu e abraçou a mãe mais uma vez, enchendo-a de beijos pelas bochechas.
Depois de caminhar até as caixas com etiquetas azuis, onde estavam as suas próprias coisas, ele se abaixou e pegou uma delas, notando o quanto estavam pesadas. Franziu a cara, imitando uma expressão de quem estava fazendo um grande esforço e caminhou em direção às escadas.
– Olha, isso aqui vale um sorvete bem grande, só pra deixar claro. — E subiu, fazendo Regina rir mais uma vez.
No fim da tarde, quando tudo – ou boa parte daquelas caixas infinitas, parecia finalmente estar em ordem, Regina estava um caco. Subiu lentamente as escadas até seu quarto e tomou um longo banho quente e relaxante. Quando lavou os cabelos e os secou, agradeceu mentalmente por serem curtos e tão fáceis de cuidar. Vestiu-se de seu pijama favorito, que era quente e confortável.
Quando olhou no relógio outra vez, ainda eram sete horas da noite, mas o clima já começava a ficar mais frio. Esse era o maior problema em se mudar de Chicago para o Maine. Estava acostumada com a temperatura alta de sua cidade, a vestir-se de suas saias e camisetas sem mangas, mas ali em Storybrooke aquilo parecia quase impossível.
Quando estava pronta, foi até o quarto de Roland, onde o pequeno brincava com alguns brinquedos que havia espalhado pelo chão e o tomou em seus braços.
– Oi meu amor, tá com fome? — Perguntou-lhe, enquanto afagava os cabelos finos e negros do menino, bem parecidos com os seus.
– Eu tô, mas o Hen falou que a gente vai sair pra tomar sorvete. — Regina negou com a cabeça e soltou uma risada baixa.
– Acho que está um pouco frio para tomar sorvete, você não acha? — O garotinho torceu a boca, como se avaliasse a situação.
– Acho. — Respondeu com a voz inocente e doce, que sua mãe tanto amava.
– Que tal ficarmos por aqui e fazermos aquelas panquecas que vocês adoram? Hum? — Ela arqueou as sobrancelhas, sorrindo quando o menino fez que "sim" com a cabeça inúmeras vezes.
Ela apagou a luz do quarto do pequeno e o levou até o quarto do irmão. Henry estava jogado em sua cama, com seu gameboy nas mãos, aparentemente concentrado. Regina abriu a porta e colocou a cabeça para dentro, espiando o garoto gritar em euforia com o que quer que estivesse acontecendo naquele jogo.
– Filho, vamos descer e fazer panquecas, quer vir com a gente? — Henry continuava concentrado em seu jogo, se havia lhe ouvido, não demonstrou isso, o que fez Regina suspirar de frustração. — Henry?
– Oi mãe! Já vou, espera ai! Deixa só eu acabar com mais esse aqui. — Ele se inclinou na cama, como se os movimentos que fazia fossem ajudar no jogo. — MATEI! — Gritou, fazendo Regina apertar os olhos com a voz estridente do garoto de doze anos, e o pequeno que estava em seus braços gargalhar.
– Vem Hen, vem! Mamãe vai fazer quecas! – Roland recebeu um beijo na testa. O menino tinha apenas três anos, mas era tão esperto que Regina orgulhava-se a cada frase que ele dizia. Henry finalmente acabou seu jogo, e lá se foram os três a se aventurar na cozinha, como adoravam fazer.
Sempre era uma aventura. Regina nunca fora a melhor cozinheira. Sabia fazer as coisas básicas que havia aprendido com sua mãe, mas ninguém reclamava. Suas mãos com certeza levavam mais jeito para a profissão que havia escolhido: cardiologista.
A morena havia se casado muito jovem. Ainda quando tinha vinte anos, descobriu que estava grávida de Henry. Ficou apavorada, com medo do que aconteceria dali para frente. Sua família sempre fora muito tradicional e quando souberam da notícia, não teve outra escolha, teve que casar-se com seu namorado Daniel para criarem o filho.
No começo tudo fora muito estranho. Ela não fazia planos para aquilo, não pretendia casar-se e muito menos ter filhos. Queria dedicar-se aos estudos, queria formar-se em medicina e fazer o que gostava. Mas o destino havia lhe pregado uma boa peça. Quando Henry nasceu, as coisas começaram a melhorar. Regina pode voltar para a faculdade e Daniel e ela começaram a lidar melhor com o casamento.
Quando ela se formou, três anos mais tarde, especializou-se em cardiologia e pode começar a exercer sua profissão. Estava realizada. Tinha o que mais almejou durante toda a sua vida, a sua profissão. E, para completar-lhe tinha um marido perfeito e um lindo filho. Nunca achou que pudesse se sentir mais feliz, até que, quando Henry completara nove anos, viera a notícia de que a família iria aumentar. Estavam esperando um novo bebê, e assim chegara Roland.
Sua felicidade fora completa durante o ano que se passou. Regina e Daniel mudaram-se para uma casa maior, Henry era uma criança incrível, e eles sabiam que Roland também seria. Daniel exercia a profissão de advogado, então podia trabalhar em casa e ajudar a esposa no que fosse preciso. Mas, não fora assim por muito tempo. Depois de alguns meses, algumas dores de cabeça e desmaios, o marido fora diagnosticado com uma doença que atacou-lhe o coração depressa.
Fora um grande choque para todos, e não havia muito o que pudessem fazer. Em menos de um ano ele se fora, deixando a esposa e os filhos. Regina sentiu seu mundo desabar. Toda a sua força, toda a coragem que tinha, havia ido embora com o único homem que amara em sua vida. E culpava-se por aquilo. Sentia-se inútil por ser uma cardiologista tão renomada e não ter sido capaz de salvar o coração do próprio marido. Dormia com aquile peso em sua cabeça todas as noites. Já faziam quase dois anos desde que ele se fora, mas, apesar de se manter forte na frente dos filhos, ela ainda sentia doer, como se tivesse sido ontem.
Quando recebeu a proposta para trabalhar naquela cidadezinha, Regina riu e a ignorou por algum tempo. O que ela iria fazer naquele lugar? Ele nem mesmo aparecia no mapa. Longe de seus pais, longe dos pais de Daniel, e de todas as pessoas que lhe apoiavam. Sempre fora acostumada com a agitação de uma grande cidade. Chicago tinha tudo. Mas então, depois de algum tempo, analisando melhor a situação, tornou aquilo uma possibilidade. Ganharia o dobro que recebia em Chicago, daria uma qualidade de vida e um futuro muito melhor para os filhos, e não precisaria da ajuda de ninguém.
E, principalmente, tentaria deixar aquela dor e aquela culpa para trás. Já estava na hora de se mover para mudar aquilo. E então, começou enxergar Storybrooke como um recomeço. Queria esquecer-se dos fantasmas que a assombravam o tempo todo. Queria libertar-se. Imaginou a vida que poderia ter ali, criar os filhos em um lugar mais calmo talvez fosse uma boa opção.
Vendeu sua casa em Chicago e aceitou a proposta, sentindo que Daniel aprovaria sua decisão. E agora naquele momento, olhando para os filhos sujos de farinha, rindo ao seu redor na cozinha, ela sentiu que havia feito a coisa certa. Ela merecia, e eles mereciam aquela chance.
– Mãe? — Henry chamou sua atenção, fazendo-a olhar confusa. Havia se perdido em seus pensamentos mais uma vez.
– Oi amor, desculpa. O que foi? — Ela abriu um sorriso sem jeito e jogou os cabelos para trás.
– Não tem chocolate, como vamos fazer as panquecas? — O menino arqueou as sobrancelhas. Roland estava sentado do outro lado da bancada, com o rostinho repousado entre as mãos, encarando a mãe com expectativa.
– Não tem? Oras, eu tenho certeza que comprei. — Ela se abaixou e começou a revirar os armários da cozinha, com a ajuda de Henry. — Tem que estar aqui em algum lugar.
– Ou talvez esteja em alguma daquelas caixas que sobraram na dispensa. — O filho mais velho a lembrou, apontando para a porta da dispensa entreaberta pela falta de espaço. Regina franziu a testa, não estava com a menor vontade de revirar aquela bagunça outra vez.
– Ai, não. Não vou mais mexer com aquilo hoje. Escuta, fiquem aqui. Henry toma conta do Rolly, eu vou sair pra comprar e já volto, está bem? — Ela se levantou e Henry concordou com a cabeça. Regina passou os olhos pela casa, em busca das chaves do carro. Quando as encontrou em cima da mesa de centro da sala, as pegou, junto com sua carteira, e caminhou em direção à porta da frente.
– Mãe? — A voz de Henry a fez parar e se virar.
– Sim, querido?
– Você vai assim? — O menino apontou para ela, que, só então se lembrou que estava com roupas de dormir. Não seria uma boa ideia sair para comprar chocolate com um pijama cheio de patinhos, com certeza. As crianças gargalharam, enquanto sua mãe subia as escadas para se trocar.
***
Regina estava há mais ou menos trinta minutos na fila do supermercado, com o pacote de chocolate nas mãos. Olhava de dois em dois segundos para o relógio em seu pulso, batendo a sola do sapato preto insistentemente no chão. Não era a pessoa mais ansiosa do mundo e nem importava-se em ter que esperar um pouco, mas já estava há um bom tempo fora de casa e preocupava-se com os meninos, eles estavam sozinhos.
Esperou mais um pouco e, quando chegou a vez do casal a sua frente, eles se viraram para ela, deixando-a confusa.
– Pode passar na nossa frente, moça. Notamos que está com pressa! — O senhor disse, de forma gentil. Eles aparentavam ter por volta de seus sessenta anos, e Regina achou adorável a forma com que seguravam as mãos.
– Obrigada. — Agradeceu, surpreendendo-se com a gentileza que as pessoas daquela cidade haviam lhe mostrado até agora. — Mas não precisa, os senhores estão aqui há mais tempo que eu, eu posso esperar mais um pouco, sem problemas. — Lhes ofereceu um de seus sorrisos mais bonitos e sinceros.
– Imagina, você só está com um pacote de chocolate, vai ser rápido, nós vamos passar muitas coisas. — A senhorinha de cabelos grisalhos, um bocado mais baixa que o marido, respondeu meneando a cabeça em direção ao seu carrinho de compras lotado.
– Tudo bem, então. Eu fico muito agradecida! — Regina sorriu novamente e eles acenaram com a cabeça, dando passagem para a morena seguir para o caixa.
– Ei você! — Um grito atrás de si, fez com que Regina se virasse imediatamente. Ela encarou a mulher com o dedo apontado em sua direção — com uma cara nada amigável.
– Eu? — Ela perguntou, apontando para o próprio peito.
– Sim, você! — A jovem loira afirmou. — Não tem vergonha, não? — A mulher, que aparentava ser alguns anos mais nova que Regina, tinha o peito estufado e mantinha a mão apontada para a médica, que começara a se aborrecer com aquela situação. Quem ela pensa que é, pra gritar assim comigo na frente de todo mundo? Pensou, fechando a cara.
– Vergonha de que? Posso saber o que eu fiz? — Regina arqueou as sobrancelhas, intimidando a mais alta.
– Vai se fazer de boba, agora? – A mulher passou os olhos de cima a baixo pelo corpo da morena, e, se Regina não estivesse tão surpresa com aquele “ataque”, chegaria a conclusão de que acabara de ser devorada com os olhos. E que olhos. Aquele tom em verde claro, quase azuis, jorrando uma luz hipnotizadora para todos os lados. Regina sentiu uma familiaridade com eles. Já havia os visto antes. Mas onde?
– O quê? Do que você está falando? – Fitou-a por uma enorme fração de segundos, antes de desviar o olhar para a mão tão próxima ao seu rosto. — Você pode tirar essa mão apontada para mim, por gentileza?
– Oras. — A loira pretensiosa soltou uma risada carregada de sarcasmo. — Fura a fila de um casal de idosos no supermercado e quer falar em gentileza, vossa majestade? — Regina franziu o cenho, não acreditava que estava vivenciando aquela cena ridícula.
– O que? Eu não estava furando a fila de ninguém, eles me cederam a vez! — Sem que notasse, havia alterado levemente seu tom de voz. Mas logo se recompôs, empinou o nariz e semicerrou os olhos, adotando a postura superior que adorava demonstrar.
– Eu não acredito em você. — A loira deu um passo à frente, cruzando os braços. Regina revirou os olhos, aquilo já estava passando dos limites. Todos naquele cubículo cujo povo de Storybrooke chamavam de supermercado, havia parado, literalmente, todos os seus afazeres para prestar atenção na discussão das duas.
– Se não acredita, então pergunte a eles! — A morena imitou seu gesto, cruzando os braços na altura dos seios. A loira hesitou um pouco, mas virou-se para o casal de velhinhos assustados ao seu lado.
– Isso é verdade? Vocês deram o lugar de vocês para ela? — E, quando acenaram positivamente com a cabeça, Regina abriu um sorriso vitorioso no canto dos lábios, fitando constantemente a loira abusada a sua frente. — Me desculpa por isso, é que...
– Ei, eu conheço você! É a garota do café! — Emma sentiu uma estranha pontinha de felicidade surgir em seu peito, apesar da vergonha que acabara de passar, a morena misteriosa havia se lembrado dela. — A que estava com os pés enormes em cima da mesa! — Emma torceu o nariz, o tom sarcástico da médica não havia lhe agradado. — Não se preocupe, já percebi que nem todos nessa cidade podem ser gentis e educados. Passar bem, sua maluca. — E lhe deu as costas, sem chances de que a loira revidasse a chuva de elogios.
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