Cold Coffee
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Seis e trinta e cinco da manhã. O despertador soou estridente pelo quarto todo. Regina acordou num pulo, completamente assustada. Observou o aparelho barulhento alarmar em cima da mesa de cabeceira ao seu lado e suspirou frustrada. Esticou a mão para desligá-lo e esfregou os olhos algumas vezes, ainda não tinha certeza se estava acordada realmente ou se aquilo era só mais um pesadelo.
Logo sentiu a falta do cobertor em seus braços, que estavam completamente arrepiados. Que frio era aquele? Outra vez, sentiu falta de Chicago e de ser acordada pelo banho da luz quente que adentrava suas janelas todas as manhãs e lhe acaricia a pele.
– Essa cidade é tão no fim do mundo, que nem o sol quer vir. — Ela passou a mão pelos cabelos que estavam amassados e se levantou, vagarosamente. Demorou-se um pouco na frente da janela, fitando o céu sem graça, como se uma criança o tivesse desenhado em uma folha de papel branco e colorido-o com um lápis cor de cinza.
Quando despiu-se no banheiro para tomar seu banho, sentiu novamente o ar frio cobrir-lhe todo o corpo de arrepios. Correu para debaixo da ducha quente e deixou que a água — tão quente que saia fumaça, aquecesse sua pele. Agradeceu mentalmente por aquela maravilhosa invenção do homem. Se ela não fosse médica, com certeza queria ser a pessoa que inventou os chuveiros elétricos.
A sensação da água quente lhe acariciando a pele era tão boa, que lhe permitiu cair em devaneios. Fechou os olhos e fez uma organização mental de tudo o que deveria fazer naquele dia. Conversar com a babá de Roland, deixar Henry no novo colégio, passar no chaveiro para fazer uma cópia das chaves de casa para a babá, ir até a loja de jardinagem e contratar alguém para dar um jeito naquele, bom, aquela floresta na frente da casa, que por enquanto não podia ser chamada de jardim. E finalmente, ir para o seu primeiro dia de trabalho no hospital.
– Meu Deus, quanta coisa. — Ela suspirou. Sentia-se exausta pelo fim de semana agitado, mas tinha que se animar um pouco mais. Hoje tudo iria mudar. Hoje começaria sua nova vida. Precisava animar-se.
Depois de sair do banho, outra vez praguejando a temperatura de Storybrooke, "preciso me lembrar de comprar aquecedores melhores", pensou. Vestiu uma das dezenas de calças brancas que tinha, e a regata por baixo do suéter, tudo muito branco e impecável. Pegou um casaco mais quente, caso precisasse — o que obviamente aconteceria, e o jogou por cima do ombro, pegando sua bolsa já arrumada em cima de uma poltrona.
Desceu até a sala de estar e deixou o casaco e a bolsa no braço do sofá. Consultou seu relógio de pulso mais uma vez. Seis e quarenta e oito. Havia sido mais rápida do que precisava. Abriu um sorriso satisfeita com a própria eficiência, e subiu até o quarto de Henry. O menino dormia com a cabeça enfiada debaixo do edredom azul.
Regina puxou delicadamente o edredom para ver seu rosto. Passou a mão pelos cabelos castanhos do garoto, acariciando-o algumas vezes antes de se aproximar para beijá-lo na testa.
– Acorda, meu amor. Hora de se arrumar pro colégio novo. — Sussurrou com a voz doce, usando um tom que só os filhos conheciam. Digamos que ela não costumava ser tão adorável com o resto do mundo.
Henry se remexeu na cama, abriu os olhos e fitou a mãe por alguns segundos. Pela cara que fez, estava tão animado quanto ela para aquele dia. Virou-se para a parede e tentou puxar novamente o edredom para cobrir a cabeça. A médica suspirou e se levantou, acendendo a luz.
– Vamos Henry, pare de ser preguiçoso. Vou preparar o café e te esperar lá embaixo, não demore, está bem? — Quando notou que o garoto não lhe dava a menor atenção, aproximou-se novamente da cama e puxou o edredom azul para longe do corpo pequeno, que se encolheu no mesmo instante.
– Não, mãe! Que frio! — Henry reclamou, fazendo com que ela soltasse uma risada vitoriosa. Quanto achou que ele já estava disperso o suficiente, desceu novamente as escadas da grande casa e se dirigiu à cozinha. Preparou os ovos que Henry gostava, e sua tigela de cereais coloridos.
Para ela, apenas a costumeira xícara de café preto sem açúcar. Em alguns minutos, o menino desceu as escadas. Parecia outra pessoa. Estava com uma expressão animada, e correu para fazer sua primeira refeição do dia. Como crianças têm esse pique? Regina se perguntou, observando por trás do balcão, o menino que devorava os ovos, enquanto mordia uma maçã e remexia o cereal na tigela.
– Filho, já disse pra comer uma coisa de cada vez, a comida não vai fugir do seu prato. — Henry a ignorou, continuando com o ritual que havia criado para aquela manhã. Uma garfada nos ovos, uma mordida na maçã e uma colheradas de cereais mergulhados no leite. A médica franziu o nariz, imaginando qual seria o gosto daquela mistura na boca do filho.
Mas, para sua felicidade, não ficou muito tempo ali assistindo aquele ataque de terror ao bom paladar. Ouviu o som da campainha e bebeu o último gole do café em sua xícara, antes de se encaminhar até a porta.
– Bom dia! – Uma adorável jovem de cabelos negros, mais curtos que os seus, lhe sorriu a porta. Regina já sabia de quem se tratava. Só poderia ser a babá com quem havia feito uma entrevista por telefone.
– Olá, bom dia! – A médica não fazia ideia do porque aquela mulher estava sorrindo tanto, àquela hora do dia. Limitou-se a retribuir o melhor sorriso que podia naquele momento, e deu passagem para que a moça entrasse em sua casa. — Mary Margaret, certo?
– Sim, mas a senhora pode me chamar só de Mary. — Respondeu a jovem adorável de bochechas rosadas. Ela passou os olhos pela enorme sala de estar, admirada. Agora que tudo estava arrumado, Regina podia se orgulhar da nova casa. Era ampla e elegante, a decoração de extremo bom gosto.
– Oras, e você não precisa me chamar de senhora, acho que temos quase a mesma idade. — Como que por um milagre, a senhora Mills estava fazendo uma piada àquela hora do dia, em plena segunda-feira. Mary soltou uma risada forçada, era evidente que não tinham a mesma idade.
– Onde estão os garotos? Adoraria conhecê-los. — Regina permitiu-se rir da forma como havia deixado a moça constrangida. Apontou com a cabeça para o lado, onde podia-se ver Henry ocupando uma das seis cadeiras ao redor da mesa redonda, ainda entretido com sua comida.
– Aquele é o Henry, mas ele não vai ficar com você agora. Vou levá-lo para o colégio e o trago para casa na hora do almoço. Você quer sentar e tomar café com ele, enquanto busco Roland? Ele ainda está lá em cima dormindo, mas vou buscá-lo para te apresentar. — Regina deu um passo em direção às escadas, mas parou no meio do caminho, quando a voz da babá lhe chamou.
– Na verdade eu já tomei café, e acho melhor eu subir com você para busca-lo, assim já me mostra onde ficam seus quartos. – Regina assentiu e fez sinal para que Mary a acompanhasse até o quarto do filho mais novo.
Quando Regina se aproximou de sua cama, sorriu involuntariamente. Roland, diferente de Henry, dormia como um anjo, abraçado a um macaquinho cinza de pelúcia, que havia ganhado de presente da mãe em seu último aniversário. Com cuidado, ela sentou-se ao seu lado na cama e afastou as mechas de cabelo que caíam por seu rosto. Já está na hora de cortar esse cabelo, mocinho. Pensou, suspirando.
– Principezinho, acorda... — Ela chamou baixinho, aninhando o rosto ao do menino e enchendo-o de beijos pelas bochechas. — Mamãe tem que ir trabalhar. — Quando o pequeno abriu os olhos e encontrou Regina ali, esticou os bracinhos em sua direção e a mãe lhe puxou para um abraço.
Ele ainda estava um pouco adormecido em seu colo, o corpinho quente entre os braços de Regina lhe transmitia uma sensação de conforto inexplicável. Ela afagou os cabelos do pequeno mais um pouco, até que ele estivesse desperto. Roland voltou a se sentar em sua cama, olhando de Regina para Mary várias vezes, aparentemente confuso e assustado com a presença da desconhecida. Regina riu e segurou suas pequenas mãos.
– Essa é a Mary, amor. Ela vai ficar com você quando a mamãe estiver fora. — Quando começou a falar, notou os olhos do pequeno começarem a se encher de água. — Pegou-o no mesmo instante e o trouxe para seu colo outra vez. — Não precisa chorar, a mamãe vai voltar logo.
– Prometo que vai ser bem divertido, Roland. A gente pode tomar café e assistir um monte de desenhos na TV, o que você acha? — Mary havia se sentado de frente para Regina, que mantinha o pequeno em seus braços. Uma sombra de sorriso passou pelos lábios do pequeno Mills.
– Agora pode voltar a dormir, e se comporta, tá? Se você obedecer a tia Mary, mamãe te traz um presente depois. — Regina o colocou novamente em sua cama, cobrindo-o com o edredom repleto de desenhos do Toy Story.
– Um presente? — Os olhos do menino brilharam em animação.
– Uhum, mas só se você for um bom garoto. — Regina afirmou, inclinando-se para colar a testa na testa do filho. — Promete?
– Prometo! — Ele abriu o primeiro sorriso daquele dia, fazendo com que as covinhas adoráveis surgissem em suas bochechas. Ela aproximou-se e beijou o filho com um "selinho", como costumava fazer com ele e com Henry desde que nasceram. Mary sorriu observando a cena.
***
Quando saiu da loja de jardinagem, cinquenta por cento de seus problemas estavam resolvidos. A morena entrou em seu carro e seguiu em direção ao hospital da cidade. Observava atenciosamente tudo o que acontecia através das janelas. Viu pessoas passeando com seus animais de estimação, pais levando os filhos à escola, e até um carteiro fugindo de um cachorro. Não pode evitar uma risada, estava começando a gostar de estar ali.
Quando chegou ao hospital, estacionou o seu carro em uma vaga que fora lhe indicada pelo porteiro e suspirou. O motor de sua Mercedes já estava desligado, mas as mãos ainda estavam ao volante e ela fitava a enorme construção a sua frente, imóvel. Quando cruzasse aquelas portas, tudo estaria mudado. Não seria mais só uma cardiologista trabalhando em um hospital qualquer de Chicago. Ela seria uma das únicas a exercer aquela profissão ali, era uma responsabilidade muito grande.
Quando finalmente se moveu, abriu sua bolsa, que estava no banco do carona e tirou sua carteira de lá. Quando a abriu, retirou a pequena fotografia que estava guardada entre algumas outras coisas importantes. Sorriu de forma nostálgica. Ela, Daniel, Henry e Roland ainda bebê. Aquela foto fora tirada na semana seguinte ao nascimento do filho mais novo. Todos esboçavam sorrisos tão grandes, que denunciavam a felicidade que estavam sentindo.
Regina beijou a foto e a guardou novamente na carteira. Depois de pegar a bolsa, destravou o carro e se obrigou a sair. O vento frio da manhã logo a castigou, soprando forte contra seu rosto e bagunçando os cabelos negros. Caminhou em passos largos e decididos em direção à entrada do hospital. E, quando passou pelas portas de vidro, surpreendeu-se outra vez. O lugar transmitia completa paz.
Não havia crianças chorando, burburinhos ou falatórios. Tudo o que se ouvia era o som baixo da TV que ficava em um canto da recepção, transmitindo o jornal local. Havia duas pessoas na recepção, e alguns pacientes sentados nas cadeiras de espera para serem atendidos. Todos estavam distraídos em seu próprio mundo.
Lembrou-se do caos que encontrava todas as vezes que chegava no hospital San Matteo em Chicago. Aquilo ali era surreal. Cumprimentou as recepcionistas, dizendo seu nome, e logo uma delas se prontificou a ajudar Regina. Ela seguiu a mulher em direção à diretoria do hospital, observando as salas por onde passava, todas com as portas entreabertas e silenciosas. Encontrou algumas enfermeiras pelo caminho, que lhe cumprimentaram com a cabeça e lhe deram sorrisos gentis.
– Você deve ser a doutora Mills. — Gold, o diretor do hospital a cumprimentou, quando ela chegou a porta de sua sala.
– Olá, sou eu, muito prazer. — Regina sorriu um tanto quanto sem jeito. A sala do homem era muito bem organizada e sua expressão lhe passava total seriedade. Sentiu-se pequena na frente dele. O homem fez menção para que ela se sentasse de frente para ele, e assim ela o fez. Sentia-se analisada de cima a baixo. Engoliu a seco aquele nervosismo, não queria fazer um pré-julgamento de ninguém, mas já sabia que não iria gostar de passar muito tempo na companhia daquele homem.
– Seja bem-vinda, doutora. — Ele lhe abriu um sorriso, igualmente ensaiado e pouco amistoso, como sua postura. — Pedi a enfermeira Belle que lhe ajudasse nos primeiros dias, para que você não fique perdida no hospital. Ela vai te mostrar sua sala, a UTI, a ala infantil, os leitos de internação, e todo o resto que você precise saber.
– Tudo bem, muito obrigada senhor Gold. — Alguns segundos de um silêncio constrangedor dominaram o ambiente. Quando Regina pensou em dizer mais alguma coisa, uma bela mulher apareceu ao seu lado. Alguns centímetros mais alta que ela, com a pele clara e os cabelos castanhos presos em uma trança.
– Bom dia, doutora Mills. Sou Belle. — Quando a médica olhou-a nos olhos e sentiu que seu sorriso era verdadeiro, sentiu-se salva. A presença daquele homem estava lhe dando calafrios. Belle fez um sinal com a cabeça para que saíssem, e Regina se despediu de Gold com um aceno.
– Ele costuma ser sempre assim... Assustador? – Ela disse a última palavra enquanto fazia sinal de aspas com os dedos, e Belle não pode evitar uma risada.
– Ele não é má pessoa, só é muito sério e exigente. Mas você vai se acostumar com isso, acredite. – Ela tranquilizou a doutora, dando-lhe mais um de seus belos sorrisos. – Preparada para conhecer o hospital?
O restante da manhã fora exatamente assim. Estranhamente tranquilo. Belle lhe mostrou sua sala, que apesar de pequena, havia agradado Regina. Ela era bem equipada, com tudo o que a médica precisaria para examinar seus pacientes. Tinha uma grande janela atrás de sua mesa, que deixava tudo muito iluminado, além da bela vista que tinha, para um lado da cidade que ela ainda não conhecia.
Belle também mostrou-lhe as salas de cirurgia, que eram pouco usadas. A população de Storybrooke era pequena e, geralmente quando alguém era diagnosticado com doenças sérias, preferiam tratar daquilo em outro lugar, em cidades maiores e mais preparadas. Regina também fora apresentada a outros médicos e enfermeiros. E, no final da manhã, havia começado a gostar da ideia de trabalhar ali com aquelas pessoas.
Talvez aquela tranquilidade não fosse assim tão assustadora. Era bom. Nos horários que não tivesse consultas a fazer, poderia dedicar-se a estudar mais, como gostava de fazer quando tinha mais tempo. Logo criaria uma nova rotina e estaria totalmente adaptada ao trabalho, pensou.
– Bom, agora só falta você conhecer a ala infantil. Fica do outro lado do hospital. — Belle disse, enquanto caminhavam por mais um corredor bem iluminado e silencioso.
– Vai me dizer que lá também é tranquilo? — Regina perguntou, fazendo Belle franzir o cenho, sem entender. — Não, sério, porque eu tenho dois filhos e eu não consigo mesmo associar tranquilidade e crianças na mesma frase. — A médica disse de forma divertida, arrancando uma risada de Belle.
– Não, na verdade não é. É um ambiente mais descontraído, mais colorido também. Afinal, são crianças, e todo mundo sabe que crianças não gostam de hospital, elas precisam de alguma distração. — Belle parou, consultando o relógio em seu pulso. — São onze da manhã, Emma ainda deve estar aqui. Você vai adorar conhecê-la. — Belle puxou a enorme porta azul, dando passagem para Regina.
– Quem é Emm... — Antes que Regina concluísse sua frase, fora interrompida por alguém que havia trombado de frente com ela, derramando-lhe uma jarra de suco de laranja sob a roupa branca. A médica havia ido parar no chão, completamente encharcada de suco. Mal teve tempo de pensar, ainda estava assustada e perdida quando sentiu braços fortes lhe envolverem pela cintura para levantar-lhe.
– Ai está ela. – Disse Belle, em um tom de voz mais baixo.
– Meu Deus, eu sinto muito, eu não percebi que estava vindo alguém, foi sem querer, eu te molhei toda, ai meu Deus, perdão! — Quando Regina reconheceu a voz que lhe pedia desculpas constantemente, não pode acreditar. Subiu seu olhar no mesmo instante e revirou os olhos.
– Tinha que ser você! Meu Deus, isso é uma perseguição, não é possível! — A doutora bufou, enquanto olhava para Emma como se ela fosse uma praga maligna que precisava urgentemente ser exterminada do mundo. — Olha só o que você fez, garota!
– Doutora, eu sinto muito, como eu disse, eu não vi que você estava vindo! — Emma tentou desculpar-se, mas quando notou a fúria no olhar de Regina, suas roupas molhadas e manchadas de amarelo, os cabelos bagunçados pela queda no chão e a "falta" da postura que a morena tinha, sentiu-se nervosa e não pode conter uma risada.
– Do que você está rindo? Está achando isso engraçado? Você fez de propósito, não fez? — A doutora conteve os gritos quando lembrou-se de onde estavam. Olhou ao redor e notou alguns olhares assustados em direção a elas. Igualmente o de Belle, que assistia aquela cena pasma.
– Vocês se conhecem? — A enfermeira perguntou, atraindo o olhar de Regina. Emma havia contido sua risada, mas tinha um sorriso travesso no rosto, o que só deixava a raiva de Regina ainda maior. Ela queria tirar aquele sorriso dali com uns bons tapas na cara da loira. Abusada! Pensava, desejando poder voar em seu pescoço.
– Não fomos formalmente apresentadas. Eu sou a Emma. Emma Swan. — Emma provocou-a, esticando uma de suas mãos em direção à doutora, que respirou fundo e revirou os olhos uma segunda vez. — Eu juro que isso não foi por querer, doutora... — Emma parou para ler o nome que estava impresso no crachá da morena. — Regina.
– Mills! Doutora Mills! — A morena bufou. — E eu não quero saber qual o seu nome, isso não me interessa. Só me interessa que você pare de surgir no meu caminho todas as vezes! — Belle ainda observava aquilo assustada. Até agora, a doutora havia lhe mostrado uma postura calma e educada, ela não conseguia associar a Regina que estava vendo agora, com a simpática doutora que conversava há alguns minutos.
– Olha, eu já me desculpei por ontem e por hoje também, eu não fiz de propósito! Mas se você não quer acreditar, eu também não me importo. Você que fique com esse seu nariz empinado! — A loira esbravejou, juntando as coisas que havia derrubado no chão com a batida que dera em Regina, e saindo dali o mais rápido que pode.
Regina engoliu a seco, sentindo-se ainda mais envergonhada. Lançou um olhar mortal para os curiosos que a observavam, fazendo com que todos se dispersassem e voltassem ao trabalho. Belle não disse mais nada, nunca havia visto Emma, que costumava ser doce, falar daquela forma com ninguém.
– É, talvez você não vá adorar conhecê-la. — Ela comentou receosa, atraindo mais uma vez o olhar de Regina. — Vamos dar um jeito nisso, doutora. Vem comigo. — Mudou de assunto rapidamente, segurando Regina pelas mãos e levando-a para a lavanderia do hospital.
***
– Que cara é essa? – Ruby perguntou, enquanto sentava-se ao lado de Emma, em cima do capô do fusca amarelo que a jovem loira dirigia pela cidade. Estavam em frente a casa da morena, e se passavam das nove da noite quando Emma chegou.
– Que cara? A única que eu tenho. – Ela respondeu em tom de brincadeira, soltando uma risada baixa. A amiga revirou os olhos. – Hoje o dia não foi muito legal.
– Por que não? – Ruby franziu as sobrancelhas. – Hoje é segunda-feira e, geralmente esse é o dia da semana em que você está mais feliz, por causa das crianças. – A morena de cabelos compridos remexeu o canudo no milk-shake que Emma havia lhe trazido. – O que aconteceu? – perguntou, depois de algum tempo em silêncio.
– Tem uma mulher na cidade, que chegou esse fim de semana. Ela é médica, e por acaso nos esbarramos duas vezes, e eu fui uma idiota nas duas. E agora acho que ela me odeia. – Riu pelo nariz, prendendo a respiração, sentindo-se estranhamente nervosa. Não havia motivos para aquilo.
– E por que isso te preocupa? Quer dizer, que diferença faz se ela a odeia ou não? Você se importa? — Ruby perguntou distraída, enrolando uma mecha dos enormes cabelos negros em seu dedo.
Emma sabia que não deveria se importar. Mas, por alguma razão ainda desconhecida por ela, se importava.
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