Cold Coffee
4 Capítulo 4
Notas iniciais
– Doutora? — Ouvi a voz de Belle me chamar, estava distraída com alguns papéis em minha mesa e mal vi o tempo passar. Consultei o relógio em meu pulso que indicava quinze para as seis da tarde. — Já estou indo, vai ficar por aí? — Ela perguntou, chamando minha atenção outra vez.
– Não, também já estou indo. — Abri um sorriso para a minha mais nova colega de trabalho, e me levantei para pegar minha bolsa. Faziam treze dias que eu havia começado a trabalhar ali, e já havia me acostumado com a rotina. Mas sempre acabava me distraindo com alguma coisa, e era Belle quem me chamava de volta pro mundo real.
– Você precisa de uma carona? — Perguntei a ela, enquanto caminhávamos pelo enorme corredor silencioso que nos levaria até a saída do hospital. Aquele era o horário em que a maioria dos enfermeiros e médicos trocavam os turnos, então sempre encontrava algum rosto novo.
– Não precisa se incomodar, não vou pra casa ainda. — Ela abriu um sorriso doce nos lábios. Belle era uma garota educada e bonita, e apesar de ter alguns anos a menos que eu, nos dávamos muito bem. Gostava de sua companhia.
– Ah, eu faço questão, você sabe disso. Pra onde você está indo? — Perguntei, acenando com a cabeça em direção ao meu carro no estacionamento. Ela sabia que não adiantaria nada discutir comigo, então assentiu e caminhou ao meu lado.
– Vou encontrar minha irmã no café. Tenho que esperar ela sair, vamos para a casa dos meu pais depois. — Ela disse enquanto entrávamos em meu carro. — Quer tomar um café comigo antes de ir para casa?
– Ah, claro, por que não? Eu adorei o café daquele lugar. — Sorri de forma gentil, por alguma razão, Belle era uma das poucas pessoas com as quais eu conseguia ser assim. Além do mais, eu não queria espantar a coisa mais próxima que eu tinha de uma amiga naquela cidade, além da minha babá e seu namorado abobalhado que sempre aparecia em casa para buscá-la. — Ariel está bem?
– Está sim, meus pais continuam insistindo para ela fazer uma faculdade, mas ela diz que não quer, que vai juntar o dinheiro que ganha no café e ir embora pra Londres. — Belle soltou uma risada baixa. E aquilo me fez pensar nos sonhos que eu cultivava quando era mais nova.
– Sabe? Acho que ela tem um pouco de razão nisso. Se ela quer tanto... Não devemos abrir mão dos nossos sonhos, Belle. — Afirmei, encarando-a nos olhos por algum tempo.
– A senhora já desistiu de algum sonho, doutora? — Ela me questionou, me pegando de surpresa.
– Ora, já disse que não precisa me chamar de senhora e nem de doutora o tempo inteiro, Belle. Sem o meu jaleco, sou apenas Regina. — Tentei mudar o assunto que me incomodava, e Belle riu sem jeito.
– Está bem, vou tentar. Regina! — Eu afirmei com a cabeça e ela abriu mais um sorriso. — Mas então? Sobre os sonhos?
– Nunca desisti de nenhum, mas às vezes nós apenas não estamos predestinados àquilo. Entende? Quando não é pra ser. — Belle pareceu avaliar a situação.
– Mas você sempre quis ser médica, certo? — Confirmei com a cabeça, enquanto prestava a atenção no trânsito calmo e monótono de Storybrooke.
– Sim, e é uma das coisas das quais mais me orgulho. — E me orgulhava mesmo. Estufava o peito e arrebitava o nariz sempre que dizia aquilo.
– Eu também gosto do meu trabalho, por mais que minha função não seja tão importante e nem salve vidas como a senhora. — Ela comentou distraída, e eu senti meu coração se apertar e inflar, como se fosse explodir em mil pedacinhos que eu jamais poderia juntar. Eu não era uma salvadora. Eu deixei Daniel morrer. Eu não fui capaz de ajudá-lo.
Respirei fundo, puxando o ar com toda a força para meus pulmões quando senti minha visão ficar levemente embaçada. Não podia chorar ali. Não queria chorar na frente de ninguém. Não podia demonstrar minha fraqueza. Eu sou Regina Mills.
– Doutora? Está tudo bem? — A voz de Belle me acordou daquela tortura para onde meus pensamentos haviam me levado, e eu forcei um sorriso, afirmando com a cabeça.
– Está sim, chegamos. — Eu disse, antes de estacionar meu carro em uma das vagas em frente ao lugar. Uma pequena placa com luzes verde-neon piscava um "Bem-vindo" na frente da porta, indicando que o café estava aberto.
Passei uma mecha de meus cabelos para trás de minha orelha e enfiei as mãos nos bolsos de meu casaco, que era a única peça preta em minhas roupas. O sol já havia se posto e as ruas de Storybrooke já haviam sido iluminadas pelas luzes dos postes. E como sempre, o frio incomum se fazia presente. Entramos no café e eu me sentei em uma mesa no canto, enquanto Belle ia para os fundos atrás da irmã.
Suspirei, sentido o peso daquele dia cheio cair sob meus ombros. Encostei na cadeira macia para descansar e fechei meus olhos. Sentia como se duas pessoas martelassem minhas têmporas, elas latejavam. Fiquei ali por algum tempo, até ouvir um barulho em minha mesa que me fez dar um pulo.
– Vamos ver se eu acertei. — Disse o homem do café, qual sempre me dirigia sorrisos simpáticos — um tanto quanto simpático demais, todas as vezes que eu aparecia por ali. — Um cappuccino forte, sem creme e sem açúcar. — Abaixei meu olhar para a mesa, onde ele segurava uma enorme caneca branca com o símbolo de um cisne com uma coroa desenhado. O mesmo emblema colado nas paredes e na entrada.
– Acho que acertou, muito obrigada... — Puxei na memória por seu nome, mas nem mesmo sabia se ele já o tinha me dito alguma vez.
– Robin. — Ele sorriu. — Robin Swan, muito prazer! — Estendeu sua mão em minha direção e eu a apertei. Swan? Swan? Onde foi que eu ouvi isso antes? Meu Deus, Regina. Você precisa urgentemente de vitaminas para a memória.
– Rob! — Uma voz gritou atrás de nós, e, assim que o homem se virou, pude ver quem o chamava. Engoli a seco. Ah, claro. Se fosse qualquer outra pessoa nessa cidade, eu juro que estranharia. Mas é claro que tinha que ser a loira maluca destruidora de roupas brancas e inconveniente do supermercado.
– O dever me chama, espero que aproveite seu café. — Ele me deu uma piscadinha e voltou para trás do balcão. Nem consegui tocar em meu café. Por alguma razão, a presença daquela mulher me dava arrepios. Eu queria dar uns bons tapas nela por todas as vezes que nos encontramos, mas, além disso, sentia-me tão instigada por ela. Sentia uma estranha, bizarra eu diria, vontade de conhecê-la. De perguntar sobre ela e esse jeitinho maluco e livre que ela parecia viver. No fundo, a achava engraçada.
Os dois conversaram por alguns instantes, então Robin sumiu por trás das portas vai-e-vem. Emma Swan. Então é isso. Peguei minha caneca e tomei um generoso gole do meu café, aproveitando-me para esconder meu rosto atrás dela. Emma parou seu olhar em mim por algum tempo, e eu posso jurar que ela estava sorrindo.
– Boa noite, doutora Regina. — Ela cumprimentou, como se fôssemos amigas. Aquilo me irritou, nem Belle tinha aquela liberdade comigo. — Está gostando do café? Está forte o suficiente para vossa majestade? — Ela perguntou em tom de deboche e aquilo me deixou ainda mais irritada.
– É doutora Mills pra você, senhorita Swan. — Eu a respondi, sustentando o olhar furtivo que ela me direcionava, e que em nenhum momento ela pensou em desviá-lo. Como essa garota pode ser tão abusada assim? Respirei fundo, sentindo meu pescoço queimar.
– Você se lembra do meu nome, olha só. — Soltou uma risadinha pelo nariz. — Mas Regina é tão bonito. Gosto de Regina, prefiro Regina. — Ela abriu um sorriso ironicamente bonito, e se inclinou por cima do balcão, apoiando-se pelos cotovelos em cima da madeira. — Acho que vou te chamar de Regina, mesmo. — Piscou para mim, de uma forma tão petulante, que preferi tomar mais um gole de meu café e ignorar aquilo.
– Está tudo bem aqui? — Belle surgiu junto com a irmã, pela mesma porta que Robin havia passado há alguns segundos. Eu apenas afirmei com a cabeça e me levantei.
– Eu já estou indo pra casa, Belle. Nos vemos amanhã. — Caminhei até o balcão, onde a loira-maluca-irritante e debochada continuava apoiada, e joguei uma nota de cinco dólares ao seu lado. — Acho que isso paga meu café. — Disse, outra vez sustentando seu olhar. Ela curvou os lábios em um pequeno sorriso, sem mostrar os dentes, apenas um gesto simples para me irritar ainda mais, tenho certeza.
– Volte sempre, Regina. Nos vemos amanhã no hospital, boa noite. — Eu ainda estava decidindo o que mais me irritava em Emma. Se eram seus sorrisos debochados, o tom de voz debochado, ou os olhares debochados que ela me direcionava. Eu simplesmente queria voar em seu pescoço e enforcá-la.
Não fiquei mais nenhum segundo ali, ou certamente seria isso que eu faria. Acenei para Belle e Ariel, e sai correndo para meu carro, para fugir do frio que fazia. Quando entrei e tranquei as portas, não pude evitar um sorriso. Sem motivos, simplesmente tive vontade de sorrir.
***
– Mamãe! — Rolland gritou, correndo em minha direção, quando entrei pela porta da frente de casa. Não pude conter meu sorriso, me abaixei e o recebi em meus braços, abraçando-o e tirando-o do chão.
– Oi meu amor, que saudade. — Beijei suas bochechas, por cima das covinhas que eu tanto amava, e afaguei seus cabelos. — Você se comportou direitinho hoje?
– Uhum, eu fiz uma coisa pra você. — Ele se debateu em meu colo, para que eu o colocasse no chão, então o fiz. Logo ele saiu correndo em direção às escadas. Eu iria gritar para que ele não corresse, mas meu cansaço não me permitiu. Deixei meu corpo cair no macio do sofá de minha sala, largando minha bolsa de lado.
– Boa noite, dona Regina. — Mary me cumprimentou de algum canto, que não pude ver, pois estava de olhos fechados, massageando minhas têmporas outra vez. Maldita dor de cabeça.
– Boa noite, Mary. Tudo bem? — Perguntei mais por educação, do que vontade de saber se ela realmente estava bem.
– Tudo sim, os meninos já tomaram banho e comeram. Henry está lá em cima com o vídeo game. A senhora precisa de mais alguma coisa? — Ela perguntou, receosa de que eu respondesse sim, e estragasse sua noite com o namoradinho. Soltei uma risada baixa com meu pensamento.
– Não, tudo bem. Pode ir, não se preocupe. — Abri meus olhos e lhe direcionei o melhor sorriso que eu podia naquele momento. — Mas, por favor, pare de me chamar de senhora. Você me faz sentir mais velha do que realmente sou. — Ela riu.
– A senhora não é velha, desculpe. Vou tentar. — Ela disse, e eu apenas afirmei com a cabeça.
Depois de se despedir, Mary se foi. Peguei minha bolsa e me dirigi às escadas, precisava de um banho urgente, e de minha cama confortável e quente. Esbarrei com Roland no meio dela, ou melhor, fui atropelada por ele, e quase cai para trás.
– Cuidado, amor! — Eu gritei, me segurando no corrimão de madeira e gargalhando. Me abaixei para pegá-lo no colo outra vez. — O que é isso, hum? — Perguntei, notando uma folha de papel dobrada ao meio que ele segurava.
– Toma, é pra você mamãe. — Peguei o pedaço de papel e o abri. Senti um aperto no peito no mesmo instante. — É a nossa família. Olha, eu, você, o Hen e o papai. — Ele disse, enquanto apontava para cada um no desenho. Havia um garotinho pequeno, uma mulher, um garoto maior e... Um quadrado com um rosto, que eu tinha quase certeza de que simbolizava um porta-retratos. Esse era o pai que Roland conhecia. As fotografias, as lembranças de Daniel. Meus olhos ficaram marejados e tive que respirar fundo para não chorar na sua frente.
– Ficou lindo, bebê. A mamãe vai guardar, tá bem? — Beijei sua bochecha, me demorando um pouco com o nariz colado em seu rostinho, para sentir seu cheiro. — Eu te amo. Eu sempre vou cuidar de vocês. — Sussurrei, mesmo que ele não entendesse a importância daquilo.
– Também amo você, mamãe. — Ouvi sua voz doce massagear meus ouvidos e sorri, deixando que uma lágrima teimosa me escapasse.
– Agora vai, que mamãe vai tomar banho pra te colocar na cama. — Pedi, colocando-o de volta no chão.
Fui até meu quarto e lavei meu rosto, antes de ir ver Henry. Ele já era maior e conseguia facilmente perceber as coisas. Sempre sabia quando eu não estava bem. Não queria preocupá-lo sem motivos. Tirei meus sapatos, largando-os aos pés de minha cama e me livrei do casaco mais pesado.
– Toc toc. — Eu disse, quando me apoiei na porta de seu quarto, que estava entreaberta. Ele me olhou e sorriu, largando o vídeo-game e correndo para me abraçar. — Oi meu príncipe. — Sussurrei, apertando-o nos meus braços, e sendo quase esmagada pelos dele. — Você tá fortinho, hein? — Brinquei, quase sem ar.
– Desculpa, mãe. — Ele riu e afrouxou os braços ao redor de meu corpo. — Eu tava com saudade. — Disse, enquanto caminhávamos até sua cama, onde ele se jogou, e eu me sentei em seus pés.
– Eu também, amor. Como foi o seu dia? Está gostando do colégio novo? Tem alguma gatinha? — Perguntei, vendo-o revirar os olhos para mim.
– Mãe, para. Você me pergunta isso todos os dias, eu já disse que não quero saber de nenhuma garota. — Ele respondeu, fazendo-me rir.
– Mas aposto que todas elas são loucas pelo seu corte de cabelo. — Brinquei, esticando o braço para bagunçar os cabelos de meu filho.
– Para! — Ele gargalhou, segurando minha mão e fazendo-me parar com aquilo. — Deita aqui comigo. — Ele pediu, deitando-se mais para o lado e me dando um espaço. — Vamos jogar!
– Estou suja do hospital, filho. Vou tomar um banho e a gente joga, pode ser? — Perguntei, arqueando as sobrancelhas. Ele sorriu e concordou com a cabeça.
Me levantei e beijei sua testa, voltando para o meu quarto. Tomei um banho quente e demorado, como sempre. Como se a água que escorria pelo ralo, pudesse levar junto todo o stress, o sentimento ruim e a saudade que estava sentindo naquele dia. Saudade de Daniel. Saudade da minha antiga vida. Saudade de ser feliz.
Quando sai do banho, desci as escadas para preparar algo rápido e fácil para comer, e encontrei Roland brincando sozinho na sala. Depois de comer, o peguei em meu colo e o levei para cima comigo. Passamos no quarto de Henry, e eu também o arrastei junto conosco, até o meu quarto.
– Mamãe não quer dormir sozinha hoje. — Disse, jogando Roland em minha cama, que era grande e espaçosa o suficiente para que nós três dormíssemos bem. Henry franziu o cenho, achando confusa a minha atitude, mas não questionou, e eu o agradeci mentalmente por isso.
Me deitei e puxei Roland para os meus braços, e logo Henry se juntou a nós, deitando-se do meu outro lado. Senti o vazio em meu peito ser preenchido naquele momento. Esses garotos eram tudo na minha vida, e eu não podia me queixar de nada, enquanto eu os tivesse.
***
– Você também quer um desenho? Tudo bem, mas não pode se mexer, fique bem ai! — Quando passava pela ala infantil do hospital, vi Emma brincando com várias crianças, sentada na beira da cama de uma delas, com um bloco de papel nas mãos e um estojo cheio de lápis coloridos. Ainda não sei o porquê, mas encostei-me na porta, de longe, de onde ela não pudesse me ver, e fiquei ali por algum tempo observando aquela cena.
No começo, achei que ela estivesse desenhando flores e montanhas para as crianças, coisas bobas. Mas só depois notei que na verdade o que ela fazia, eram seus auto-retratos, apenas com um lápis. Ela desenhava incrivelmente bem, e tenho que admitir que levava jeito com crianças. Ela trazia uma leveza ao ambiente e as fazia rir o tempo inteiro.
Me peguei sorrindo involuntariamente ao observar aquela cena. Apesar de ter a capacidade de me irritar, apenas com um olhar, eu no fundo sentia que Emma não era uma pessoa ruim. Não entendia o porquê de toda aquela implicância comigo, já que todos pareciam gostar dela, por ser doce e simpática. Comigo era diferente, e aquilo me deixava intrigada.
– Estava me admirando? — Sua voz me pegou de surpresa, e quase cai para trás. Rapidamente corrigi minha postura e mudei meu semblante para sério outra vez.
– O que? Nem tinha visto você por aqui. Estou procurando por Belle. — Inventei a desculpa mais rápida que pude, olhando para todos os lados, como se realmente procurasse por algo.
– Uhum. — Ela riu, encostando-se do outro lado da porta, de frente para mim. — Posso fazer um desenho seu também, se você quiser. — Abriu um sorriso no canto dos lábios, não tão debochado como das outras vezes. Mas seu olhar era fixo em mim, e aquilo me sufocava, como se alguém estivesse me impedindo de respirar, todas as vezes que ela o fazia.
– Não, muito obrigada. — Sorri de forma irônica, virando-me de costas para sair dali o mais rápido possível.
– Doutora? — Sua voz me chamou, fazendo-me virar outra vez.
– O que foi? — Perguntei já impaciente.
– Belle está ali. — Ela apontou para o lado, onde Belle estava sentada ao lado de uma senhora, conversando e rindo. Senti minhas bochechas corarem. Ela estava ali o tempo todo? Ótimo, na próxima penso em uma desculpa melhor. Nem tive a ousadia de olhar para Emma novamente, apenas caminhei em passos firmes em direção à enfermeira, pensando em qualquer coisa que pudesse dizê-la para disfarçar.
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