Notas iniciais
Tá grande, eu sei. Mas, custa nada ler. Boa leitura, até o capítulo 3

Mais um dia. Mais uma terça-feira para a minha coleção de dias extasiantes na Gaspar... Hoje é dia de consulta psiquiátrica. Temos dessas de 10 em 10 meses, pra detectar melhoras de quadro psicológico, ou piora se for o ocorrido. Todos ficam ansiosos e até um pouco agitados nesse dia. São cerca de 25 médicos pra consultarem a escola inteira, então o dia é todo voltado para isso na escola. Eles costumam fazer as consultas por turma, indo das menos avançadas para as mais avançadas. Considerando que aqui temos desde as classes infantis, até pós graduações de faculdade, podemos considerar que demora bastante.

Ainda na cama, observo o meu celular que está batendo 8:00 da manhã. Me sento, e vejo que Abra ainda está dormindo. Estranho como ela parece um anjo enquanto faz isso. Seus longos cabelos de fogo domados em um coque, seu rosto despido de qualquer maquiagem. Tão angelical que me arranca um sorriso torto. Tomo um banho, escovo os dentes, e me visto com uma roupa tradicional do dia de consulta. Eles tem regras pra que nós não tomemos nenhum banho durante o dia antes de ser consultado, — o da manhã sempre é aceito — também pedem que vistamos roupas fáceis de serem retiradas e sem metais e bla bla bla. Eu simplesmente vesti uma blusa de botões e xadrez vermelho, e uma calça de moletom. Quando saio do banheiro, Abra já está acordada, e se sentou na cama. Sua expressão estava bem melhor do que no dia de ontem. Ela parecia animada pra mais um dia longo de exame psiquiátrico.

—Bom dia, Lessi. — disse ela ainda com a voz rouca e grossa de sono. A voz de Abra era habitualmente rouca, e das mais suaves possíveis. Eu sei que em algumas pessoas essa rouquidão é normal, mas algo me diz que em Abra não seja. É interessante como a rouquidão intensa quase não permite que a voz dela saia. Apesar de Abra ser bem magra, eu nunca desconfiei que ela pudesse ser bulímica, mas, talvez a depressão pudesse a causar isso. Estou bem determinada a descobrir isso de qualquer forma possível, mas agora não parece ser a melhor hora para perguntar.

—Bom dia, Abra. Seu rosto está ótimo! Apesar do início de dia pesado de ontem, sua noite te fez muito bem. Como estão os pontos?

—Estão começando a cicatrizar... Vou trocar o curativo, você pode me ajudar?

—Claro. Mas, toma um banho primeiro, porque hoje é dia de exame. Vem cá pra eu poder tirar esse curativo pra você poder lavar a ferida. -Abra se aproximou, sentou do meu lado e me deu primeiro o braço direito. Eu retirei cuidadosamente a gaze enquanto ela olhava diretamente nos meus olhos, de uma forma bem estranha. Quando retiro toda a gaze e os curativos que a prendiam, vejo a ferida. Estava realmente começando a cicatrizar em alguns pontos. Parecia um pouco surreal por causa da rapidez, mas era compreensível considerando a quantidade de remédios que Abra tomou. Tiro os curativos da mão esquerda, e percebo vários cortes com profundidade média, que estavam bem abertos. Eu passo o dedo em alguns deles, e olho para Abra em seguida. Ela simplesmente encara o chão com uma expressão entristecida. Eu dou um beijo em seus cortes, e com um sorriso bobo, e uma voz bem suave, digo:

—Vai sarar. — isso faz com que ela de um sorrisinho bobo me encare da mesma forma constrangedora que estava fazendo antes. Eu olho de volta pra ela que fica me encarando em silêncio por 10 segundos, e depois se levanta da cama com rapidez como se tivesse acabado de acordar de um sonho.

Como da última vez, ela demora bastante em silêncio no banheiro, com o chuveiro desligado. Abra tem o costume de deixar a porta do banheiro apenas encostada, nunca totalmente fechada, para o risco de que ela tente se suicidar, ou se ela desmaiar por conta dos remédios pra depressão. Ao ficar curiosa e um tanto preocupada, eu olho pela brecha da porta.

Foi o que eu imaginei. Abra estava nua, chorando, sentada num vaso sanitário usando uma lâmina pra tracejar o pulso. Minha vontade de entrar lá e abraça-la pra que ela parasse foi intensa. Mas, eu não queria que ela pensasse coisas ruins sobre mim. Tipo, o fato de eu observar ela pela brecha da porta enquanto ela toma banho... Foram os segundos mais agonizantes da minha vida. Eu não sabia o que fazer, algo que pudesse ajuda-la sem prejudicar nada com isso. Eu me sentei na cama em um quase estado de desespero, e tentei dizer calmamente, mas foi completamente frustrada a minha intenção.

—Abra, ta tudo bem? Ouvi um som de metal caindo no chão.

—S-i-m, Lessi. — Abra disse com a voz trêmula, e eu quase pude sentir a dor que ela transmitira por ela.

—Você está demorando. Fiquei preocupada. — ela não responde. Passaram-se uns 40 segundos até que ela sai, com sua lingerie, e procura uma roupa em seu guarda-roupas. É estranho como Abra sai do banheiro quase nua, sempre que toma banho. Não sei se ela tinha esse hábito com Liss, quando ela estava aqui. Mas, é estranho como, mesmo com depressão ela é confiante com seu corpo. Mas, sinceramente, ela realmente não teria porque não ser. Abra é dona de um corpo mega escultural. Seus seios enormes, sua cintura fina, e suas coxas no tamanho perfeito, parecem até um pouco surreal. Isso me faz voltar a pensar sobre o fato da voz dela ser tão rouca. Eu tenho muitas coisas a tratar com a pequena Abra, porque tem coisas que realmente ainda não foram respondidas.

—Lesllie? — diz ela com um sorriso de constrangimento no rosto. Só então que eu reparo que estava olhando fixamente para seu corpo enquanto viajava nos meus pensamentos. Eu costumo viajar bastante, mas geralmente eu faço isso desenhando.

—Desculpa. Eu viajei. Não é o que você está pensando. Eu posso jurar.

—Tudo bem. — disse ela seguindo de uma risada gostosa, como de uma criança.

—Você devia fazer mais isso. Sua risada é encantadora. Pode alegrar o dia de alguém. — convenhamos que não tenha sido a melhor hora pra se dizer uma coisa desse tipo. Abra apenas ri com o canto direito da boca.

Ela se veste de forma bem lenta, depois vem até mim pra eu ajuda-la a colocar o curativo. Mais uma vez, ela me da primeiro o braço direito. Eu ponho o remédio, enrolo a gaze, e depois coloco os esparadrapos. Quando vejo a situação do braço esquerdo, está bem ferido e sangrando... Eu olho pra Abra com desaprovação, e vejo que talvez seja a melhor hora pra conversarmos sobre isso.

—Me explica uma coisa. Por que você faz isso? Não estou te dando uma bronca, até porque, quem sou eu pra fazer isso, eu só quero realmente saber os seus motivos.

—Lessi, é complicado... Não é simplesmente, ter um motivo, do tipo, a minha mãe ter morrido na minha frente quando eu tinha 7 anos, que me fazem querer fazer isso. No início pode até ter sido. Mas, depois, tudo vira motivo. Qualquer coisa que aconteça que me cause algum tipo de sentimento ruim, me é motivo para fazer essas coisas...

—Sinto muito pela sua mãe, Abra. E, eu acho que consegui entender. — nesse momento eu não sei nem imaginar se haviam lágrimas em meus olhos, mas, Abra havia me deixado tocada. Com o coração pesado por de repente tê-la feito se sentir pior.

Eu simplesmente termino de colocar os curativos nos pontos de Abra, enquanto ela encara o chão de forma obsessiva.

Quando termino, eu sugeri que nós descêssemos para o café, e Abra aceita.

Enquanto descemos, Abra encontra Antonie, que a cumprimenta com um selinho delicado. Não sei porque razão mas eu sentia algo muito estranho na relação dos dois. Algo me incomodava. Antonie tinha acordado irritado. Eu percebia pelo suor em sua testa, e suas bochechas avermelhadas. Qualquer faísca o faria explodir da forma mais dramática o possível. Talvez eu devesse avisar Abra, mas na frente dele, pode ser a faísca necessária para que isso aconteça... Antonie sabia que eu tinha o analisado, e, talvez possa ser um motivo que contribuiu pra que ele ficasse mais irritado.

—Bom dia, Lesslie. — disse ele com um tom bem seco.

—Bom dia, Ant. Está radiante. — eu disse com um tom de ironia, e nem sei te responder o porque de eu ter feito isso. Ant não percebeu a ironia e reagiu como sempre reage aos elogios constantes de menininhas apaixonadas que recebe. Era tão convencido, que mesmo tendo levado no sentido de um elogio sincero, não me dirigiu palavra alguma de agradecimento.

Nós chegamos ao refeitório, onde Dominique e Dayanna já estão comendo. O prato de Dominique está bem cheio, queijo, pão, iogurte, maçã e pera, o que me faz ficar super surpresa com o milagre que meus olhos contemplavam. Dayanna deve te-lo feito se sentir bem consigo mesmo. A alma de Dominique estava bonita nessa manhã. Então, ao olhar no espelho ele deve ter percebido que podia comer mais um pouco pra ter um pouco de felicidade.

Pegamos nosso café da manhã e nos sentamos na mesa. Por um momento desejei estar morta, me vendo na furada que me meti. Era nojento a forma como se abraçavam, como se davam comida na boca um do outro. Por um momento me imaginei sentada, sozinha em uma mesa, tendo perdido todos os que eram meus amigos...

Ao me cansar dessa situação, viro meu banco de costas para a mesa, comendo meu pão como se fosse um animal que eu tivesse estraçalhando enquanto como. Até que do outro lado do refeitório, avisto algo que me acalma imediatamente, como um antídoto de paz, com uma prancheta em mãos, olhando fixamente pra mim, me desenhando. Eu sorrio de uma forma boba, e olho direto pro chão, ajeitando o cabelo.

Eu não era das mas bonitas, mas eu gostava do que se refletia no espelho, especialmente por causa dos meus cabelos. Eu tinha lá minhas curvas, mas o que me fazia gostar de mim mesma, era nada mais ou menos que os meus cabelos. Um tom de azul turquesa, num corte bem bagunçado, e a lateral um pouco mais curta devido a um sidecut recente. Logan me fazia gostar de mim como um todo. Me fazia gostar de cada parte de mim que ele valorizava com os traços. Eu amava a forma como ele dava ênfase apenas ao meu rosto. Mas, ele já me desenhou o corpo todo, e como qualquer desenho que ele faça ficou lindo. Confesso que isso era uma das coisas mais mágicas pra mim.

Ao dar uma melhor observada em Logan, percebo que ele estava sentado à só numa mesa com espaço pra 10 pessoas. Simplesmente decido me levantar e ir até ele, sem prestar satisfação, ou falar com ninguém. Simplesmente me decidi. Andei com determinação até a mesa onde ele estava, e quando chego lá, algumas pessoas me olham com uma expressão um tanto quanto esquisita.

—Senhor Logan. — chego com um sorriso de canto de boca, algo que por sinal, Logan era profissional em fazer, e me sento na cadeira em frente a ele.

—Senhorita Lesllie. — Logan estava com olheiras fortes e com as pupilas bem dilatadas. Seria quase imperceptível se o sol não estivesse emanando luz em seu rosto, de forma que naturalmente, as pupilas tinham que se fechar ao máximo pra proteger os olhos. Em consequência disso, Logan estava praticamente com os olhos fechados. Eu olho seu desenho, ele havia me desenhado de costas. A parte em que ele tinha se concentrado, foi meu cabelo, e ele fez minha cintura da forma mais delicada o possível. Era incrível a habilidade que ele tinha de cada vez mais me trazer confiança.

—Belo desenho.

—Vindo da mais bela inspiração, não havia como não ficar. — Logan disse com um de seus sorrisos de canto de boca, e fincou seu olhar no papel. Eu só sorri, não agradeci nem nada.

—Como vai o dia da consulta psiquiátrica?

—Animado. Ficou sabendo que hoje vai começar da ordem decrescente? Vão começar das pós graduações. Então o nosso horário vai ser no máximo o início da tarde.

—Ainda não tinha ficado sabendo. Mas, que bom. Tem planos pra fazer alguma coisa hoje? — eu disse, na intenção de saber se ele queria passar o dia junto comigo, ou com seus amigos do basquete que eu ainda não conhecia.

—Nada muito inovador. — disse Logan se aproximando dos meus lábios vagarosamente. Eu abaixo a cabeça de forma que deixei a situação meio grosseira. Eu não queria aquilo assim.

—Eu gostaria de conhecer o estranho com quem fugi da sanidade ontem. Bom, eu não sei nada de você, Logan.

—Tudo bem. — disse Logan novamente cravando os olhos no desenho. Ele não pareceu furioso, mas estava bastante agitado. Falava alto, e parecia não pensar muito no que fazia. Até, que num gesto rápido, e friamente calculado, Logan estende a mão pra que eu aperte, e diz:

—Logan Exuperri Obsession. — logo após da um de seus sorrisos tortos, e olha diretamente para os meus lábios.

—Leslie Marie Claire. — disse sorridente, apertando a mão de Logan que me puxa e me rouba um beijo indesejado.

—Tenho 18. Nasci em Julho, numa tarde chuvosa, numa pequena casa na grande Paris. Viajei pra cá em busca de tratamentos melhores, que por incrível que pareça, eram bem mais acessíveis em Tours. Já te contei sobre minha família.

—Seus amigos?

—Bom, agora eu tenho você.

—E quem mais?

—Ninguém, pequena Lesllie. Sou um solitário jogador de basquete. Sou amigo da arte. Irmão dos livros e parceiro das músicas. Fora isso, costumo ser sempre sozinho.

—Que horror!

—Não é tão horrível assim quando é sua própria realidade. Acredite. Eu já até tive alguns amigos no ensino fundamental, mas era por interesse. Eles me queriam nos seus grupos, porque eu era o mais inteligente. Mas, não passava disso. E, quando eu descobri, simplesmente me afastei. — disse ele observando as mãos, passando os dedos entre as linhas das palmas. — Mas, e você, Lessi? Me diga mais alguma coisa sobre você. — disse Logan seguido de várias piscadas de olho frenéticas, como se tivesse alguma coisa dentro dos seus olhos, o incomodando.

—Eu tenho 16. Sou de maio, segundo o sistema, mas não faço ideia de onde ou como nasci.

—Bom, você estava no útero da sua mãe, daí você ficou pronta pra sair, e então a bol... — Já entendi! Pode parar. — interrompi antes que ele começasse a falar detalhes demais. Ele havia me arrancado o primeiro riso do dia.

—Tudo bem, tudo bem. A proposta de te ajudar a descobrir isso ainda está de pé, okay?

—Okay, senhor espião. — eu ri um pouco, mais uma vez. -Logan, tá tudo bem? Você tá meio agitado, pupilas dilatadas, falando alto... Eu conheço esses sintomas. -Logan olhou pra mim, fechou as mãos de forma bem forte, o que me deu bastante medo, socou a mesa e levantou.

—Será que ninguém nessa droga de inferno consegue confiar em mim?! — ele disse, num tom alto, mas quase ninguém ouviu porque o refeitório estava bem barulhento. Eu levantei também, segurei os ombros de Logan, olhei nos olhos dele e disse:

—Ei, calma. Eu confio em você. Queria saber se tinha algum problema acontecendo e independente do que você dissesse eu ia confiar em você. Não estou te acusando, ou criticando por nada. Qualquer coisa que estiver acontecendo, eu posso te ajudar, okay? — sem dar nenhum tempo pra que ele reagisse, eu abracei ele bem forte, e acariciei suas costas chegando até a nuca e indo para a cabeça, fazendo carinho então em seus cabelos. Logan estava chorando. Foi ai então que eu percebi que tinha algo acontecendo.

—Não quero falar disso agora, tudo bem? Depois eu posso te explicar tudo. — disse Logan, com a voz trêmula e um pouco afinada.

—Tudo bem. Como quiser, eu entendo. — eu disse, apoiando minhas mãos nas laterais de seu rosto, e enxugando-lhe as lágrimas com os polegares. Dei um beijo em sua testa também, e disse que ia ficar tudo bem.

Depois de alguns minutos chorando com a cabeça deitada no meu peito, Logan se acalmou e parou de chorar. Quando levantou, minha camisa estava encharcada, mas depois de alguns minutos, foi secando sozinha;

Conversamos durante muitas horas seguidas, e eu descobri coisas sobre um Logan encantador que eu ainda não sabia. Quando chegamos no início da tarde, lá estava eu. No jardim da escola, embaixo da deliciosa sombra de uma árvore, aconchegada no colo de Logan. Tudo parecia mais poético. Tudo de fato estava mais colorido. O canto dos pássaros parecia mais bonito, mas, eu sabia que em pouco tempo algo de ruim iria acontecer. Eu esperava por isso. Apreciava as cores enquanto analisava a verdade por trás delas. Ouvia os sons tentando entender uma mensagem. Era patético, mas realista e encantador. Eu estava em estado de transe enquanto observava Logan, até que algo me tira rapidamente desse estado de relaxamento e calma.

—Abra Follin Larue. — Um frio que começou na barriga, e antes que eu me desse conta percorreu todo meu corpo ao soar desse nome. Era o primeiro nome da minha turma e ainda eram 14:38. Eu havia me esquecido de almoçar. E, pelo que parecia, Logan também. Eu nunca havia sido possuída por tanta curiosidade antes na vida. O que será que diriam dessa vez? Nessa consulta teremos médicos diferentes. Médicos que nunca vimos antes em nossas vidas, e que provavelmente vamos ver por longos e longos tempos. A ansiedade, a curiosidade e as possibilidades de mudança nas coisas que eu sei sobre mim mesma, me deixavam cada vez mais inquieta. Médicos que não sabiam que eu era a única paciente sem ter algo realmente diagnosticado numa escola de mais de mil pessoas. Médicos que fariam todos os tipos de exames possíveis pra diagnosticar o meu caso e depois descobrirem que não tem evolução ou piora alguma pra anotar na minha ficha, onde já não tinha doença nenhuma registrada. Eu acho que talvez espero um ano em que eles digam que eu já sou grandinha o suficiente pra sair da Gaspar, ou que eu posso decidir o que fazer da minha vida, já que sou perfeitamente sã. Mas, pra onde eu iria? Como eu ficaria? Na ausência respostas para essas perguntas, prefiro ficar aqui sobre qualquer circunstância. Mesmo que eu tenha de fingir uma condição desconhecida, ou algo típico. Ficarei aqui.

Mais ou menos uma hora depois de chamarem por Abra, ela sai da sala de consulta. Me dirijo rapidamente a ela, mas não rápido o suficiente pra não encontra-la abraçada com Antonie.

—Abra. Como foi sua consulta? Como são os novos médicos, eles te trataram bem? Você teve alguma evolução clinica? Me diz tudo, por favor.

—Lessi. — Abra sai do aconchegante colo de Antonie, e me puxa pela mão pra um canto mais reservado. — Os médicos foram ótimos. São super educados. Eu evoluí pra um grau mais leve da depressão, segundo eles. Mas, eu não tive apenas melhoras... Eles diagnosticaram outras coisas, como ansiedade e uma outra babaquice que eu consegui esconder dos outros médicos em cinco anos que eu tenho. Tenho três novos remédios para tomar agora, mas, segundo eles, eu estou melhorando.

—Bulimia... — eu disse num tom quase inaudível.

—O que?

—Bulimia, Abra. Você sabe. Agora, eu você e os médicos sabemos. Eu soube desde as primeiras vezes que ouvi sua voz rouca. Mas, Abra, você é tão linda, tem um corpo tão perfeito, e se alimenta tão bem. Pra que isso?

—Lessi, você nunca entenderia. Assim como jamais entenderia os cortes, ou as tentativas de suicídio. São coisas que pra se entender, você precisa de vivência, ou anos e anos de estudo psicológico, e mais pós graduações em transtornos psíquicos. Desista de tentar entender algo que jamais vai passar perto dessa sua mente sã. — "sua mente sã". Não sabia se isso me agradava ou me magoava. Na realidade, eu era mesmo sã? Talvez eu estivesse pra descobrir isso agora, mas era mais provável que fossem só mais alguns médicos que vão passar pela minha vida pra dizer as palavras que mais me questionei. "Você não tem nada, o que está fazendo na Gaspar Sain't?"

—Tudo bem, Abra. Espero que com os remédios e o diagnóstico correto, você possa ser curada. — Abra ficou chateada. Fez um sinal com a cabeça, e voltou pra Antonie. Eu não gostava nada da situação. Ant e Abra me faziam ficar levemente chateada. A propósito, depois da volta com Abra, eu não falei mais com Ant. Com nenhum dos "Antonies" que existem dentro dele. E agora que Day e Dominique também estão juntos, me deixaram sozinha também. Eu me enxergava agora como Logan. Alguém sozinha, sem amigos que agora tinha ele como um amigo. Sim, amigo. Apesar de eu estar um pouco apaixonada por Logan, eu jamais me permitiria passar disso. Ficar como Abra e Ant, ou como Dominique e Day...

Não era isso que eu queria, não era assim que eu me imaginava. Meu realismo não permitiria que eu fizesse uma viagem tão grande assim. Mas, Logan queria isso intensamente e eu via isso pela forma que ele me olhava. Talvez, podia até ser que algo acontecesse, mas eu teria sempre o cuidado de fazer com que não se aprofundasse, e que ele não se entregasse por completo.

Quatro horas se passaram, eu estava sentada no chão desde quando acabei de falar com Abra. Provavelmente, Logan já havia sido chamado e diagnosticado. Ele pode até ter me procurado, talvez, mas com tanta gente aqui, eu estou escondida, camuflada no meio da multidão... Em um canto, sozinha, esperando. Nem sabia mais o que eu estava fazendo. Estava me sentindo um pouco tonta por não comer desde as 7 da manhã, e, eis que às 18:54, eu ouço o que mais esperei durante todo o meu dia.

—Lesllie Marie Claire. Dirija-se à sala 4.

O sentimento que tomou conta de mim naquele momento não podia se quer ser nomeado. Eu me levantei com muita dificuldade, porém rapidez e fui correndo para a sala 4.

Eram 4 médicas. Todas de aparência simpática, e rostos bonitos.

A sala gelada e com um suave cheiro de morango me acalmou bastante.

O clima na sala de consulta estava tenso e cortante até que uma das enfermeiras quebra o silêncio.

—Lesllie Marie, correto?

—Sim. Posso saber o nome de vocês?

—Adele Husteir. — disse a ruiva de olhos verdes que eu diria ter uns 30 anos.

—Emmy Juliet. — negra, com cabelos bem cheios penteados em um Black. Aparentava 43.

—Teresa Müller. — loira dos olhos azuis que aparentava 27.

—Emma Claire. — a mulher de voz estridente, cabelos castanhos claros, e nariz empinado disse. Senti um enjoo ao ouvir a voz da mulher, e algo em mim se bagunçou. Foi um sentimento estranho, de como se eu já a conhecesse de muitos tempos atrás, mas, eu não me lembrava dela nem ao olhar em seus olhos.

—Sente-se aqui, por favor. Vamos começar a examinar você. Com o que você foi diagnosticada pra entrar na Gaspar? A gente olhou sua fixa, mas queremos confirmar o que está escrito ali. — disse Emma, mais uma vez me causando desconforto. Eu me sentei, mas continuava olhando-a como se ela não fosse capaz de perceber isso. Meus olhos estavam exacerbadamente arregalados, e meu coração batia num ritmo muito acelerado. O som do ar condicionado, do rádio e da conversa dos alunos lá fora, ficaram insuportavelmente altos. Um desconforto foi percorrendo meu corpo a ponto de que eu comecei a enxergar as coisas como vultos, e escuridão era a única coisa que tomava conta do meu olhar. Eu desmaiei. Caí ao chão como uma pétala encapada pelo mais rígido cimento. Acho que o medo me deixou tão eufórica que meu corpo resolveu simplesmente fugir... Aquela situação estava tão estressante e massacrante, que era a melhor coisa que se podia fazer. Desmaiar, pra que tudo passasse, e no final das contas eu se quer soubesse o que tenho.

Acordei em outra sala, que me parecia ser da enfermaria aproximadamente meia hora mais tarde. Logan, Ant, Abra, Dominique, e Dayanna estavam na sala. A sala estava completamente escura, a não ser pela luz de uma TV no canto da sala, que prendia a atenção de todos no canal sobre as notícias do país. Viro minha cabeça para olhar Logan, que estava sentado na poltrona ao lado da maca, debruçado sobre meu cabelo, com a mão sob a minha, num sono que foi quase criminoso interromper. Mas, eu precisava olhar em seus olhos pra entender melhor o que acontecera. Precisava que ele me dissesse, mesmo que só através do olhar, tudo que eu tinha feito, e do que eu tinha acabado de fugir. Eu apertei sua mão que estava encima da minha. Ele levantou a cabeça num susto, porém em silêncio total de forma que nenhum dos que estavam no sofá da TV viram. Logan olhou no fundo dos meus olhos e abriu um sorriso que me trouxe paz instantaneamente.

Ele se aproximou de mim, e foi notável que ele tentaria me dar um beijo. Ao perceber que eu tinha inclinado o rosto, ele mudou sua direção, e me beijou a testa da forma mais encantadora possível. Com o "estalo" do beijo, todos os que estavam no banquinho da TV me olharam. Abra foi a primeira a dizer alguma coisa, depois de haver percebido que eu tinha acordado.

—Bom dia, Lessi. — disse Abra, me fazendo me confundir se era apenas uma piadinha por eu ter acordo depois de bastante tempo, ou se realmente tinham me dado algum medicamento pra que eu virasse o dia dormindo.

—Que horas são agora?

—Sete e quarenta. Você ficou aí por mais ou menos meia hora. — disse Logan com uma voz baixinha e suave. — As médicas disseram que você desmaiou por falta de comida no organismo. Você não come ha quanto tempo, Lessi? Eu almocei quando você foi falar com a Abra, e imaginei que por você ter ficado lá direto, você também tivesse feito o mesmo...

—Não, Logan. Eu não conseguiria nem olhar um prato de comida sem sentir enjoo. Eu comi por último às sete da manhã. No café da manhã. Mas, eu já fiz isso outras vezes, tá? Nunca aconteceu nada.

—Mas dessa vez aconteceu. Isso significa que você não pode fazer mais, ok? Estamos entendidos? — eu me senti uma criança recebendo ordens de seus pais. Mas, era perceptível que Logan se importava demais comigo pra deixar que qualquer coisa ruim acontecesse. Então eu não protestei, e aceitei tudo que ele disse. Me levantei da cama e fui direto ao refeitório. O horário da janta aqui na Gaspar é de 6 às 9. Você escolhe o melhor horário pra você. Por incrível que pareça, logo hoje, todos escolheram jantar às 7:30. O refeitório estava lotado, e a fila estava enorme. Perdi completamente a vontade de comer assim que bati os olhos na situação. Expliquei pra Logan da forma mais detalhada possível, e ele topou subirmos e esperarmos no meu quarto até 8:30, quando essas pessoas já tiverem terminado.

Subimos eu e Logan para o meu quarto. O resto do povo foi todo enfrentar a fila, já que estavam em condições pra isso. No meu quarto comi uns bombons que tinha guardado dentro de uma caixinha. Me fez me sentir bem melhor. Logan se senta na minha cama, e eu em seguida me deito no colo dele. Ele começa a passar os dedos no meu cabelo, e então, quando eu estava quase dormindo, ele faz uma pergunta nada fácil de se responder.

—Como vai ser? Digo, entre nós dois. Eu nunca te perguntei se você gostava de fato de mim. Eu preciso que você seja sincera, mesmo se isso for me machucar. Não tenha medo disso. Só seja sincera.

—Logan, eu amei. Amei tudo, os momentos juntos, a paz que você me traz com cada coisa que você faz, e eu me apaixonei por cada detalhe de você. Mas, eu sou inconstante. Eu acho que, eu nunca conseguiria passar mais de meses com alguém e continuar sentindo amor por ele. Eu aprendi a não me apegar a nada nessa vida. Nos dias de visita dos pais, eu simplesmente repetia em alta voz de debaixo da cama do meu quarto que eu não precisava disso. Que eu era forte o suficiente pra sobreviver o resto da minha vida sem um pingo de amor, e sem um pingo de importância pra isso. Com o tempo me vieram os amigos, claro, mas são amigos pros momentos bons. Eles sempre me trocavam por algo mais interessante quando viam nuvens carregadas sobre a minha cabeça, perturbando meu dia. Então, por todos os segundos da minha vida eu repeti pra mim mesma que eu não precisava amar nem ser amada por ninguém pra sobreviver. E, chegar do nada e falar pra minha cabeça, "hey, agora você pode amar, mas ame só o Logan, okay?" seria algo meio esquisito. Eu amei tudo que aconteceu, e não tenho dúvidas de que foi algo muito forte. Mas, por causa da minha cabeça, eu acho que não duraria muito...

—Eu entendo. Mas, Lessi, enquanto isso existir dentro de você eu quero aproveitar cada segundo sendo feliz e te fazendo feliz ao seu lado. Eu quero ensinar você a amar, quero mostrar pra você o lado bom que existe nisso, e acredita em mim, existe um lado mais do que bom. Mas, se eu não conseguir, e, se você desistir, eu vou entender e vou te apoiar.

—Ai, Logan... Me de um tempo pra eu pensar, eu não posso decidir isso em poucos segundos... Amanhã de manhã conversamos. Eu juro que te dou uma resposta. — eu acabei dizendo isso com a testa franzida e uma certa agressividade. Quando terminei de falar sem nem ter percebido eu tinha me sentado na cama, saindo então do colo de Logan. Um certo peso me sobreveio, e eu senti que precisava me desculpar... -Olha, desculpa. Eu sempre acabo falando demais, mas quando eu não faço isso, eu sempre falo besteira. Eu esqueço que não devo usar essa minha forma agressiva com as pessoas que não merecem, mas as vezes acaba saindo sabe? Agora, você percebe, eu to por mais uma vez falando dem... — Logan encostou seu dedo na minha boca, e, bem de vagar, se aproximou de mim, colocando as mãos no meu cabelo, e me beijou. Me senti imobilizada, como se eu não pudesse fazer nada naquele momento além de beija-lo. Foi como um feitiço. Logan estava fazendo com que eu me enrolasse cada vez mais em sua teia. Estava quase num ponto onde eu não podia mais sair.

Eu precisava falar. Precisava de uma opinião, precisava, de um conselho. Abra diria que era pra eu namorar com Logan, porque não haveria problema algum nisso. Dayanna diria que quem teria que decidir seria eu... Eu costumava falar com a Dulce quando tinha dúvidas tremendas, ou quando eu precisava desabafar sobre alguma coisa. Porém, a escola mudou todos os funcionários, e ainda não vi Dulce por aqui. Antes que eu me esqueça de explicar, mais uma coisa que prova que eu sou uma pessoa completamente normal, e não deveria estar aqui, é que até alguns dias, a única pessoa pra quem eu desabafava, era a faxineira da escola pra loucos na qual eu estudo... Mas, Dulce era diferente de cada aluno daqui. Não só pelo fato de ela não ter nenhuma enfermidade psicológica, mas, era como se ela me entendesse. Ok, talvez isso seja um pouco impossível, mas digamos que ela era quem melhor tentava fazer isso.

Logan encarava meus olhos como se buscasse uma resposta. Como se buscasse mergulhar na minha alma e ligar os fios que me fariam ama-lo pra sempre...

—Vamos descer? Você precisa se alimentar. — disse ele, desviando o olhar pros seus próprios pés. Eu me aproximei de seu rosto, beijei sua bochecha. Depois disso, levantamos da cama e fomos direto pra o refeitório que já estava 60% mais vazio. Achamos meus amigos que ainda não tinham acabado de comer e nos sentamos com eles. Só tinham lugares separados, o que me fez me sentir mais aliviada, já que eu não teria que dar nenhuma explicação pro fato de nós estarmos parecendo um casal. Logan não parava de me encarar por meio segundo. Apesar de constrangedor, eu já estava até achando isso engraçado. Dominique estava com o prato cheio, e de aparência, estava aproximadamente com mais cinco quilos.

—Dominique, você quem fez seu prato? — eu perguntei com um explícito e intencional tom de felicidade na voz.

—Sim, Lesllie. Eu quem fiz. Eu quem tenho feito. Não preciso mais de uma babá. — disse Dominique rindo de forma irônica.

—Férias!!! — eu levantei as mãos pro alto em comemoração.

—Nossa mesa tem estado tão parada ultimamente que acho que estamos perdendo a fama de "os esquisitos". — disse Antonie. Todos concordaram.

—Digam-me como foi o Diagnóstico de vocês! Começando por você, Ant. — eu disse, com um rosto otimista de quem preparava uma surpresa.

—Me passaram um remédio mais forte na minha última consulta. Hoje foi mais a análise pra ver se ele tinha feito efeito, e, as enfermeiras disseram que fez, e que, esse vai ser meu remédio definitivo, já que me deixa uma pessoa praticamente normal. — eu dei um grito e aplaudi, e a mesa toda fez a mesma coisa, fazendo com que todo o refeitório lotado olhasse pra nós.

—Sua vez, Abra. — disse Antonie.

—Também tive melhoras, os remédios que me deram foram eficazes demais. — fizemos a mesma coisa que fizemos pra Antonie, e decidimos que faríamos isso pra cada diagnóstico falado.

—Dayanna, eu escolho você! — disse Logan.

—Eu não tive a mesma sorte que vocês. Me parece que eu estou com depressão também, e ganhei mais remédios pra minha lista... Fiquei meio decepcionada, mas já ficou tudo bem. — nos olhamos um para cada rosto, e todos começamos a rir, inclusive Dayanna. Então todos gritamos e aplaudimos, como o combinado.

—Pelo menos você tá bem, garota! — disse Abra. — Sua vez, Dominique.

—Eu engordei nove quilos nesse último mês, e elas disseram que eu tive uma melhora significativa por isso. Me passaram remédios novos, e disseram que se eu continuar assim em alguns anos eu posso sair daqui. — gritamos e aplaudimos mais forte do que em todos os outros diagnósticos.

—Senhor Obsession, sua vez. — eu disse pra que ele se sentisse importante para mim.

—Meus diagnósticos sempre são os mesmos. Porém, elas disseram que os outros remédios pra tratar do autismo tinham efeitos colaterais bem negativos, e me receitaram outro mais eficaz e sem efeitos. — tivemos a mesma reação. -E, você, senhorita Marie, vamos na sala das médicas assim que terminarmos de comer. — disse Logan.

Jantamos, conversamos, e, a atividade de hoje seriam jogos de xadrez. Era sempre opcional participar dessas atividades, e, eu quase sempre participava, porque era uma das coisas mais significativas que aconteciam na Gaspar... Mas, Logan não me deixou participar pra irmos ver o meu tão misterioso diagnóstico. E, fomos lá. Ao chegarmos, Logan perguntou às médicas se poderia ficar comigo durante a consulta pra que eu ficasse mais calma, apesar de dessa vez eu estar tranquila. As médicas permitiram, e nós entramos lá juntos, e, contra a minha vontade "racional", de mãos fortemente dadas. Logan estava apertando a minha mão de forma meio assustadora, porém delicada. Como se eu fosse um papel que ele não poderia perder durante uma ventania. As doutoras eram as mesmas mas com expressões bem mais cansadas agora. Olheiras, rostos oleosos, pálpebras caídas. A voz estridente da doutora Claire estava fraca e quase rouca, mas ainda me dava calafrios...

Eu me sentei onde ela tinha me indicado da última vez, e as doutoras estavam examinando minha fixa. Sem paciência pra perguntas que poderiam ser totalmente evitadas, resolvi falar logo de uma vez.

—Sou a Lesllie. A única aluna da Gaspar Sain't que não tem diagnóstico de doença psicológica. Talvez eu esteja aqui sem ter o direito de estar aqui, mas a última equipe médica, a qual me acompanhou desde quando entrei, sempre dava um jeito de me manter aqui, porque eles sabiam que eu não tinha ninguém lá fora que pudesse me abrigar, ou me dar comida. E, também, hoje eu sou muito velha pra ser internada num orfanato então eu imploro pra que me diagnostiquem com uma depressão, ou um autismo qualquer, eu posso fingir um ataque epilético, ou alguns choros repentinos se vocês passarem por algum tipo de inspeção ou fiscalização. — eu falei isso com lágrimas nos olhos. Não porque eu tinha me sentido tocada, ou triste, mas, foi uma das minhas técnicas para ser mais convincente. É bem legal fazer isso quando se quer conseguir alguma coisa. Tem sempre um percentual maior de chance de dar certo.

As médicas se olharam com um ar de pena, e meu discurso parecia ter funcionado, mas, sem nem pensar por muito tempo, a enfermeira Claire se sentou do meu lado, e olhou no fundo dos meus olhos pra dizer a coisa mais esquisita que eu poderia ouvir, principalmente tendo vindo dela:

—Tudo bem. Nós sabíamos que haveria alguém como você na escola. Seu caso é um tanto quanto especial. Mas, vamos examinar você como examinaríamos qualquer outro paciente, ok?

—Ok. — eu disse com um pouco de medo do que isso poderia significar.

—Venha, vamos te levar à sala dos exames. -Disse Claire, segurando meu braço e me puxando pra outra sala branca, do lado da sala branca da qual eu acabara de sair.

Lá, passei por uns exames um tanto engraçados. Me foram feitas algumas perguntas, que sinceramente me fizeram rir. Dentre elas estão "Você tem algum amigo que as outras pessoas ao seu redor não conseguem ver?" foi a mais engraçada. Fizeram também um exame de sangue que pela primeira vez eu vi ficar pronto em 20 minutos.

Enquanto esperava o exame, fui "apresentada" à doutora Dulce. Isso mesmo, aquela faxineira Dulce que foi demitida, que era a minha maior confidente. Ela me abraçou e me contou que faxinava a escola pra poder pagar a faculdade de psicologia. Ela seria a minha mais nova psicóloga, até segunda ordem. Isso me deixou extraordinariamente feliz, e eu me dei conta que todas as decisões iriam ser bem melhores agora.

Tenho uma breve consulta com Dulce, que me pergunta como tem sido meus dias ultimamente, se eu tenho me alimentado direito, se eu tenho me sentido bem, feliz e essas coisas. E, eu digo a verdade. Digo que os dias tem sido bem estranhos, e que eu tenho me alimentado bem sim, e que hoje foi um acidente. Ela confia em cada palavra que sai da minha boca. Eu me sinto tão amada por ela, que chega a ser esquisito. Ficamos um pequeno tempo conversando, e no final da "consulta" ela me abraça e diz que vai ficar tudo bem.

Logo depois disso, me levam de volta pra sala branca do lado da sala branca, que tinha mais outras portas brancas que provavelmente levam pra mais salas brancas... Era meio depressivo, e... assustador. A cor branca sempre me assustou. Como se fosse o nada. Alguém nascendo, ou, quem sabe morrendo e dando mais uma parede branca pra alguém que nasceu preencher. E isso é esquisito.

Logan estava lá. Aparentemente preocupado, aparentemente cansado. Mas estava lá. Assim que me vê, ele levanta e eu digo que está tudo bem. As médicas me dispensam, e me desejam uma boa noite, e disseram que era pra que eu confiasse nelas.

Logan e eu saímos, não mais de mãos dadas, mas um do lado do outro, em silêncio, e, sem falar nada, nos dirigimos exatamente pro mesmo lugar. Assim que paramos, eu falo:

—Você me seguiu? — eu perguntei, séria, porém brincando.

—Não. — respondeu ele com a mesma expressão. -Você me seguiu?

—Não.

—Então esse será o nosso lugar. As pessoas não curtem muito aqui, não sei porque. Então qualquer pessoa que pisar nas redondezas do jardim da escola, estando nós aqui, ou não, será considerado oficialmente intruso. Fechado? — disse Logan.

—Fechado! — eu disse, apertando a mão dele, que num ato cruel me puxa e me faz abraça-lo. Logan sabe exatamente com me abraçar. É como se o peito dele tivesse sido feito exclusivamente para a minha cabeça se encostar ali. Minha altura era perfeita pra encostar exatamente no meio do peito dele, onde eu podia ouvir cada batida de seu coração. E era o ponto mais aconchegante. Seus músculos eram rígidos, porém não o suficiente pra ser desconfortável. E o ritmo de seu coração era estranhamente aconchegante.

Nós nos sentamos no chão, encostados na mesma árvore de sempre, e eu mais uma vez deito em seu colo.

—Logan, como isso aconteceu? Como se apaixonou por mim sem nem falar um oi comigo, quando começou a me desenhar, por que começou a me stalkear pela internet... Por quê?

—Não sei quando começou, Lessi. Você meio que foi algo que sempre existiu aqui dentro. Mesmo antes de eu reparar em você, quando eu te via, algo mudava. E, isso foi crescendo até que me vi apaixonado. Tentei descobrir coisas sobre você, descobri seu nome e sua idade, e logo então estava decidido a falar com você. E, ontem foi o melhor dia pra que isso acontecesse. Porque, foi perfeito. Como uma cena de um livro romântico, sabe? Eu me senti o próprio personagem.

—Entendi... Eu meio que acho que isso está me contagiando. Mas ainda é cedo demais pra definir qualquer coisa. — Logan me olha de forma incrivelmente apaixonada, e da um de seus sorrisos tortos. Eu percebi que ele iria me beijar, e, seria cruel eu esquivar agora. Logo, eu levantei do colo dele, e fiquei sentada. Ele colocou a mão no meu pescoço, ajeitou meu cabelo, e, bem de vagar, me beijou. Me beijou da forma mais envolvente que ele já tinha feito e eu me senti voando. Me senti saindo daquela atmosfera pra outra, fugindo da minha realidade pra outra completamente louca; completamente diferente.

Nós paramos, e Logan continua com a mão no meu pescoço. Ele me olha, e começa a passar a mão na parte debaixo do meu cabelo enquanto faz isso, e logo depois me beija mais uma vez. Só um selinho. Só pra fechar aquele momento. Só pra não acabar de forma não tão romântica quanto ele é.

—Eu amo você, Lessi. Não precisa responder. — disse ele de forma fofa. Eu voltei pro colo dele e eu estava convicta de que estava sonhando, mas eu não queria mesmo acordar.

—Quer me contar o que aconteceu de tarde? — eu perguntei depois de uns 10 minutos em silêncio, ele passando a mão no meu cabelo, e acariciando minha bochecha.

—Eu tenho envolvimento com umas coisas meio ruins... É inevitável. Meu último amigo me indicou, me achando que eu seria esperto o suficiente pra não usar, mas, eu me deixei levar. Aliás, o que teria de mal, alguns miolos destruídos de um cara que perde amigos por ser inteligente? Aí eu comecei a usar maconha. Começou como uma brincadeira de adolescente revoltado, hoje em dia eu preciso dela. Preciso dela pra comer, pra dormir. Pra me divertir. Mas, nunca saí da maconha. Sei que as drogas sintéticas podem me fazer muito mal, então eu fico só com a maconha, que é natural. Existem outras, mas se essa me satisfaz. Não teria porque...

—Você não me parece tão inteligente assim, senhor Logan.

—Eu sei que não foi a escolha mais sábia que tomei, mas... Foi inevitável naquela época.

—Eu acho que consegui compreender. Mas, quero que saiba que vou te ajudar a parar com isso, tá bom?

—Tudo bem. — disse Logan com algumas lágrimas nos olhos.

Depois de algum tempo com Logan lá fora, decidimos entrar pra escola, pra ver se ainda dava pra jogar um pouco de xadrez. Quando entramos na sala de jogos, estava completamente vazia e apagada, assim como toda a escola. Quando olhei o relógio faltavam 15 minutos para 00:00, que inclusive, também era o horário de inspeção dos quartos. No meu celular, também estavam indicadas 4 mensagens que eu não achei um momento muito oportuno para lê-las. Logan estávamos andando normalmente pelos corredores, em direção aos nossos quartos que ficavam no mesmo andar, até que paramos, nos olhamos e começamos a correr e gritar pelos corredores, agindo como devidos loucos, numa merecida escola para loucos. Os agentes de controle já tinham ido dormir a algum tempo, então nada além das câmeras podia ver o que nós estávamos fazendo. Quando chegamos no nosso andar, Logan me levou até a porta do meu quarto, olhou nos meus olhos e me beijou a testa, seguindo então com um abraço quente e aconchegante. Eu pude ouvir mais uma vez cada batida do coração dele enquanto nos abraçamos. Ficamos lá por 10 minutos. Abraçados. Corações batendo, minutos passando... Até que paramos. Nos olhamos mais uma vez e soltamos as mãos.

Eu entrei no quarto. Depois de um dia longo, turbulento, pesado e chato, mas lindo. Lindo como nunca antes tinha acontecido. Lindo como eu nunca antes havia podido imaginar. Quando entro no quarto, Abra está dormindo. Logo, tomo um banho breve, penteio os cabelos, trajo meu pijama, e vou dormir. Sinto que amanhã será um dia diferente.