Colapsos de um realismo
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Uma bela, ensolarada e quente quarta-feira se inicia. O sol lá fora estava sem piedade alguma de aparecer, e eram apenas 8:10 da manhã. O dia começava lindo, como todas as manhãs ensolaradas eram aqui em Tours.
Olho para a cama de Abra, que ainda dorme como um anjo, e me levanto vagarosamente e vou até o banheiro sem fazer nenhum barulho que pudesse acorda-la.
Tomo um banho, escovo os dentes e me preparo pra mais um longo dia, enquanto Abra continua dormindo. Quando termino de me arrumar, me sento no chão, e decido desenhar Abra, que ainda estava na mesma posição. Começo com um esboço, depois vou acrescentando detalhes,e só quando estou quase terminando o desenho, seu telefone toca, com o barulho de uma possível mensagem de Antonie, que faz com que, finalmente, ela acorde.
—Bom dia, Less. — Abra diz com sua voz rouca, olhando diretamente pra minha prancheta na qual ela estava representada na forma de um desenho. -Sou eu? — pergunta ela, com uma expressão confusa, querendo entender o porque de eu tê-la desenhado enquanto ela dormia.
—Bom dia, Abra. Sim, é você. Resolvi te desenhar, porque você é anjo enquanto dorme. E, sempre que um homem vê um anjo, ele procura representa-lo de alguma forma. Seja por palavras, pinturas, rimas... Eu resolvi representar através do desenho. — Abra sorri sem graça, tampa os olhos da luz do sol que invadia o quarto sem nenhum dó, e pega o celular pra visualizar a mensagem.
—Antonie falou que é pra nós descermos logo, porque daqui a pouco o café da manhã vai acabar. E, Logan não vai ficar nada feliz se você pular essa refeição.
—Tudo bem. Eu vou descendo, quando terminar nos encontre no refeitório.
Eu abri a porta, normalmente, esperando encontrar um lindo corredor vazio ou com uma ou outra pessoa, andando normalmente... Mas, aí, esse foi o exato momento em que eu cai na real e me lembrei que eu morava em um internato para loucos. Nesses últimos dias, foi um pouco difícil até de se lembrar desse fato, mas como nada que é bom dura muito, aconteceu. Eu abri a porta e, foi o suficiente. Um aluno desconhecido do terceiro ano caiu exata e calculadamente em cima de mim, e começou a gritar desesperadamente, como se eu estivesse machucando ele de uma forma absurda. Todos os alunos que estavam no corredor pararam pra observar a cena, e, juro por tudo que me é verdadeiro na vida, eu nunca vi esse corredor tão cheio a essa hora da manhã. Sem reação, eu fiquei lá, jogada no chão com um cara de mais de 90 kg caído por cima de mim, gritando desesperadamente a tão bela vogal "a".
Quando eu já sentia que minha audição tinha sido gravemente danificada, e os meus membros inferiores tinham perdido totalmente a circulação, surge Logan, que subia no exato momento pra perguntar o porquê da minha demora. Ao se deparar com a situação, Logan deitou o menino no chão, do meu lado, e deu um tapa em cheio na cara dele. De início, confesso que não entendi absolutamente nada. Mas, isso realmente funcionou, e o grandalhão do terceiro ano parou de gritar. O mais sem sentido de toda essa situação, onde sentido era a última coisa a se procurar, é que ele simplesmente levantou e saiu andando como se nada tivesse acontecido.
Logan se levanta, limpa os joelhos e logo em seguida me oferece a mão, em forma de ajuda para que eu possa me levantar. Eu levanto, e, ainda segurando a minha mão por ter me ajudado a me levantar, Logan me puxa em direção a um abraço aconchegante de bom dia.
—Bom dia, Less. Tá tudo bem aí?! — disse ele, com a voz mais agradável possível.
—Bom dia, Logan. Obrigada pela ajuda, foi realmente bem útil. — eu disse com um sorriso torto.
—Vamos descer pro café que hoje é mais um longo dia, pro qual você precisa ter forças pra enfrentar. — senti uma postura autoritária em Logan que não me agradou nem um pouco. Tudo bem, ele só queria me ajudar, mas, isso me deixava bem irritada, porque eu odeio que me tratem com superioridade. Mas, eu realmente poderia dar qualquer tipo de sermão que eu já tenho decorado pronto aqui no meu cérebro, porém, eu me contive e apenas olhei pro chão com uma expressão séria e que mostrava desaprovação. Mas, Logan pareceu não se importar.
Nós descemos juntos, mas eu não deixei Logan segurar minha mão, por questões que nem eu mesma sei. pegamos a bandeja, a aprontamos e logo em seguida, Abra aparece e faz o mesmo.
Observo o refeitório, onde vejo Dayanna e Dominique sentados em uma mesa, e, em outra Antonie, que estava com a cabeça abaixada à mesa, apenas com uma maçã em seu lado. Logan vê a cena, e logo depois olha pra mim. Eu aponto com o queixo para a mesa de Antonie, e então, eu e Logan nos sentamos com ele. Sem que ele veja quem é, ele simplesmente levanta a cabeça e diz com uma voz fraca e cansada:
—Vai embora, Leslie. Sai daqui, você por acaso não percebeu que eu não quero ninguém aqui?! — Logan olhou pra mim com uma expressão de medo, e, quando ia se levantar, eu coloquei a minha mão sobre a dele, e pedi para que ele continuasse sentado.
—Não vou embora. Quem sabe o que eu tenho que fazer ou não, sou eu, e você não tem nada a ver com isso. Você está sentado em uma mesa pública, em um refeitório onde qualquer um pode sentar aonde bem entender. — percebo que Antonie começou a chorar. Um choro forte e amargo, e, diria até desesperador. Logo em seguida, como em um passe de mágica, surge Abra, com uma expressão de confusão, que logo coloca a mão nas costas de Ant, querendo que o mesmo a abrace. Eu pude ter a plena certeza de que algo muito ruim aconteceria nessa hora, logo, eu simplesmente fechei meus olhos e abaixei a cabeça.
Como eu havia imaginado, Antonie simplesmente tira a mão de Abra de suas costas, se levanta, arremessa a maçã na parede e sai andando em passos muito pesados. Quando ele levantou, foi perceptível que em volta do olho esquerdo, Antonie tinha um grande hematoma escurecido, e que estava levemente inchado. Eu confesso que fiquei bem preocupada. Mas, tive que reagir com naturalidade, aliás, Abra no momento estava me olhando fixamente como se eu a devesse explicações.
—Recomendo que você dê espaço à Antonie. Não sei quanto tempo ele vai ficar com a postura agressiva, mas, só respeita, que tudo irá dar certo. — Abra balança a cabeça e não entristece a face, já que eu já a havia alertado sobre a possibilidade de isso ocorrer.
As coisas na escola estavam meio pesadas hoje, não sei exatamente o que esta acontecendo, mas, seja o que for, não é nada muito positivo. Todos estavam comendo, e eu só percebo que não estava fazendo isso quando Logan me pergunta o porquê. É como se eu me desligasse do mundo em que eu vivo pra pensar de vez em quando. Mais uma loucura que eu insisto em não reconhecer... A vida é realmente algo bastante irônico. -Estava meditando. Liberando energias positivas pro ambiente. — eu disse em resposta ao questionamento desconfiado de Logan, ironizando um pouco, porém falando sério.
O deixei sem resposta. O silencio dominou a mesa de um refeitório barulhento até que Abra, inocentemente diz: -Vou procurar Antonie, quero saber o que está acontecendo. — enquanto dizia, Abra preparou-se para levantar, e foi clara a expressão de revolta dela quando eu respondi: -Abra, lembra o que eu te disse quando você começou a gostar de Ant? Seu psicológico ainda está frágil, suas cicatrizes ainda nem se fecharam completamente, você não deve ficar se expondo a esse tipo de decepção tão atoa. Ele vai se arranjar com a cabeça dele, e quando ele estiver ciente de quem ele está sendo, ele vai procurar quem quer que seja que ele tiver que procurar. — Abra ficou visivelmente decepcionada. Mas, ao meu ver, me pareceu entender. Mesmo assim, ela pede licença e se levanta da mesa, dizendo que vai se deitar até a hora da aula que inclusive era daqui ha aproximadamente 15 minutos. Eu e Logan ficamos sozinhos na mesa, um de frente pro outro, sem fazer absolutamente nada além nos olharmos por mais ou menos um minuto, até que Logan finalmente resolve falar algo me diz: -Esse casal não vai dar certo... Abra sente muita necessidade de alguém que esteja sempre com ela. Eu percebi isso em apenas dois dias de convívio. — Logan disse com uma entonação de quem sabia o que estava falando. -Eu sempre soube disso. Abra já tentou outra vez com Antonie. Ele na verdade é o menino que mais já ficou com meninas do colégio inteiro. Talvez tenha alguma parte de culpa da bipolaridade dele, mas, nada muda o fato dele ser.
—Vocês já fic... — eu interrompo antes que Logan possa terminar a frase:
—NÃO! Nunca ficamos. Tem quem diga que ele era louco por mim, mas, acredito que ele só queira ficar comigo porque sou amiga dele e eu sou a única garota que ele nunca pegou daqui... Então, nem levo em consideração... Na verdade eu não sou muito de ficar com ninguém. Eu sou muito autossuficiente. — Logan da um sorriso torto, e mexe no cabelo que já estava ficando bem grande. O Visual de Logan era algo que chamava bastante atenção. Ele era grande, se cuidava bem, além de ser do time de basquete. Seus cabelos eram dos mais negros e brilhantes possíveis, e o sorriso dele era totalmente encantador. Seus dentes grandes e incrivelmente alinhados, seu nariz levemente empinado, sua barba crescendo, seus olhos verdes... Tudo entrava em harmonia formando algo bem confortável de se observar. E, é só ai que eu percebo que me desliguei enquanto olhava incessantemente pra Logan. Nada fazia sentido pra mim. O fato de eu ter alguém supostamente apaixonado por mim, o fato de eu estar acreditando que nós possamos criar algo juntos. Isso jamais faria sentido na minha cabeça... Ao perceber que o silencio não seria quebrado por nenhum comentário de Logan, eu resolvo fazer umas perguntas sobre o que aconteceu de manhã:
—O que foi aquilo no corredor?
—Esse é o Luchas. É da minha turma. Ele tem esse ataques loucos, ninguém sabe explicar. E, aparentemente passa quando ele leva algum tapa ou soco no rosto. Deve ter a ver com o cérebro dele.
—Entendi. Obrigada por ter me salvado, então. Eu nunca faria isso, e acho que ninguém dali também.
—O que foi isso com Antonie? Você me pareceu um pouco rude.
—Quando o Ant tem algum surto de personalidade, você deve devolver com a mesma postura que ele está tomando. Por exemplo, ele estava tomando a postura agressiva, eu tive de ser agressiva com ele. Se não, ele tende a se irritar cada vez mais. Ou se ele estiver triste e alguém o tratar de forma feliz, isso o deixa mais triste, e assim por diante.
—Bem louco. Você não acha melhor ir ver o que aconteceu?
—Nós estudamos na mesma sala. Qualquer coisa eu vejo com ele alguns detalhes durante as aulas. — o sinal soa, e todos os alunos começam a se dirigir para suas salas. Logan se despede de mim com um beijo na testa, e vai andando para a sua sala, enquanto eu sigo pra minha. A primeira aula de quarta-feira era de artes. Eu gostava das aulas de artes. Me sentia livre, completa, feliz. Aprendemos hoje mais um pouco sobre a historia da arte, e no final a professora incentivou os alunos a forçarem sua criatividade em um desenho. Eu desenhei um anjo deitado em uma cama, dormindo. Representava Abra. Foi a primeira coisa que me surgiu na mente.
Ao termino dos dois primeiros tempos, Antonie entra em sala. Abra estava sentada no canto, do meu lado direito, e havia uma mesa vazia ao meu lado esquerdo. Antonie, sem pensar muito, se senta ali. De óculos escuros e uma cara fechada. Não fala nada até entrar um professor em sala. Assim que o professor de geometria entra em sala, Antonie se deita na minha mesa e começa a chorar. Eu coloco uma das minhas mãos na cabeça dele, e começo a acariciar seus cabelos longos, delicadamente, em meio a soluços e uma pesada hiperventilação. Ant só para de chorar ao fim do tempo de geometria. Quando começamos a aula de geografia, ele levanta a cabeça e limpa o rosto. Eu olho pra ele, retiro seus óculos e examino o hematoma em seu olho. Estava bem mais feio de perto. Abra me olhava com olhos tristes, e foi claro o desejo dela por estar no meu lugar.
—Vou levar você até a enfermaria. Você precisa cuidar disso. — eu disse a Antonie e me levantei, o puxando, sem nem mesmo olhar pra Abra, porque o mínimo contato visual poderia causar um estrago máximo. Antonie estava agora com sua personalidade melancólica. O remédio que ele estava tomando não era dos melhores. A maioria dos remédios desse tipo, costuma amenizar a intensidade dos picos de Antonie, e fazer com que as emoções durem mais tempo. Porém, era claro hoje que o remédio não estava sendo útil.
Quando chegamos na porta da enfermaria, eu simplesmente abraço Antonie, segurando seus braços com os meus, e digo:
—Vai ficar tudo bem. Você tem muito a me contar. — Ant só assentiu, e se virou para sentar na maca. A enfermeira examina o olho dele, e começa com as mediações. Uma compressa de gelo para o inchaço, e uma pomada que prometia sumir com os hematomas em dois dias. Ele também ganhou um asterisco de observação. Era uma espécie de "advertência" que tinha que ser visto e assinado pelo nosso psicólogo. Se você tiver um asterisco em branco quando recebe algum tipo de atendimento na enfermaria, somos levados diretamente à sala do psicólogo, e tudo é falado à ele de forma bem pior do que a forma que seria se tivéssemos falado por conta própria.
Logo após a enfermeira terminar o asterisco de Ant, ele se levanta da maca, guarda o pequeno papel no bolso e vem caminhando para a sala de espera, onde eu estava.
—Vamos pra sala? — eu disse, e Antonie, claramente chateado com a possibilidade, abaixa a cabeça e não responde. Eu simplesmente seguro sua mão e o puxo. Fomos na direção da sala 20, quando como em um surto, eu decido matar aula e puxo Antonie pro jardim.
—O que houve? — disse Ant com uma voz rouca e bem baixa. O timbre de Antonie era muito agradável de se ouvir. Era bem grosso e aconchegante, trazia uma paz interior e uma sensação de confiança.
—Eu sei o que eu estou fazendo. Precisamos acertar algumas coisas. — Chegamos no jardim, e nos sentamos em baixo da sombra de uma mangueira. Eu me sento no chão encostada na árvore, e Antonie se senta do meu lado, com cara de quem só queria entender o porquê de eu estar o levando pra lá.
—Caro Antonie... Você me deve incontáveis explicações. Não porque isso me interfere, ou porque "eu tenho algo a ver com isso". Mas, porque eu sou da amiga, antes da Abra ser sua namorada, antes mesmo da Dayanna e do Dominique ganharem intimidade contigo. Eu estou aqui para te ajudar, assim como sempre estive nos momentos em que você precisou. Me disponibilizo a isso cem por cento dos meus dias e horas, mas, você precisa me ajudar a te ajudar, e se ajudar. Comece me explicando tudo o que aconteceu. Se você quiser chorar, eu não me importo. Se quiser gritar, esse é o lugar mais apropriado para isso. Se quiser rolar na grama, já temos tudo exatamente aqui onde estamos. Tudo agora só depende de você. O que você acha? — Ant começa a chorar. Enterra a cabeça nas pernas e fica assim durante uns cinco minutos. Entre soluços e suspiros, o choro ficava cada vez mais amargurado. Algo além da doença estava tomando conta da cabeça de Antonie. E, eu realmente queria ajuda-lo.
Depois de passados esses cinco minutos, Antonie levanta a cabeça, limpa o rosto com a camisa, e pigarreia.
—Desculpe. Eu não queria fazer isso. Eu pareço um bebê recém nascido. — Ant tropeçou nas palavras até conseguir dizer as frases que queria dizer.
—Prossiga.
—Eu briguei com um grandalhão ontem. — Ant disse olhando pro chão.
—Ontem? — seria simplesmente impossível Ant brigar com um grandalhão ontem, e suas manchar só aparecerem hoje. Nós o vimos até a hora do toque de recolher. Cada quarto tem de duas a três pessoas, com exceção dos alojamentos de times e etc. Eu sabia que ele estava mentindo.
—Não, hoje. Hoje de manhã. No caminho pro café da manhã. Você ainda não tinha saído do quarto ou sei lá. — Antonie percebeu a loucura do que ele tinha inventado. O que o fez gaguejar enquanto falava, demonstrando mais ainda a falta de sinceridade do que ele tinha acabado de me dizer.
—Ant, preciso que seja sincero comigo. Não vou te julgar.
—Eu me bati, Lesllie. Eu me bati. Não só no rosto, mas, elas estão em todo lugar. — disse Antonie, se referindo às manchas roxas espalhadas pelo corpo que ele mostrava enquanto falava.
—Por quê?
—Eu precisei. Foi necessário. Eu precisava acordar.
—Acordar pra quê? Por que precisou disso?
—Eu cometo muitos erros. As vezes precisamos sentir dor física pra entender algumas coisas.
—Que erros você cometeu?
—Abra Follin. — Ant disse naturalmente, como se não sentisse nada por ela.
—O que tem ela?
—Eu não gosto dela. Não gosto de ninguém com quem ja fiquei. Eu fiquei com elas por erro, porque eu queria quem não me queria, e pra mim, isso seria sarado com outras experiências, com outras pessoas... Erro meu pensar dessa forma. Nada muda. Nem nunca vai mudar.
—E, por que você acha que não pode ter nada com essa pessoa?
—Por causa disso... — Antonie coloca a mão no meu queixo, erguendo minha cabeça, coloca meu cabelo atrás das orelhas, e, de vagar, chega seu rosto pra perto do meu. Seus lábios encostam nos meus, e logo se encaixam, e, eu correspondo tudo isso. Antoine desce uma das mãos para a minha cintura, e outra põe em meus cabelos... Eu senti algo realmente bom. O cheiro dele agora era forte como nunca havia sentido. Suas mãos delicadas acariciando meu cabelo. Era algo surreal e inexplicavelmente confortável.
Quando paramos, Antonie olha nos meus olhos de forma angustiante e um tanto desesperada. Eu tinha certeza que algo ruim aconteceria agora, e eu também tinha certeza de que isso poderia me atingir de diversas formas. Fico preparada pra qualquer tipo de agressão que Antonie possa tentar agora. Mas não deixo isso claro, para que ele não possa se chatear, ou se magoar com o que eu penso dele. E, como esperado, Antonie ergue sua mão com o punho preparado para um soco que causaria um estrago enorme, por mais preparada que eu estivesse. O medo tomou conta de tudo que eu tinha no corpo e na alma. Eu poderia até mesmo morrer, se o ódio de Antonie estivesse muito grande, e se sua determinação fosse suficiente. Ele era capaz disso, e sabia.
Eu já estava com o rosto protegido com as mãos, quando eu ouço o som do soco, porém não consigo sentir a dor. Mais um soco, e nada acontece. Abro os meus olhos e livro minha visão, e percebo que na verdade, o ódio de Antonie era contra ele mesmo. Ele estava dando socos em seu próprio rosto e abdômen, e simplesmente não parava. Eu entrei em desespero e a primeira coisa que eu consegui pensar em fazer, foi abraça-lo. Quando eu fiz isso, ele continuou se batendo, mas, a força do meu peso sobre ele fez com que ele deitasse no chão. Eu peguei os braços dele, um de cada vez, e pressionei com força contra o chão. Antonie era bem forte, já eu nada perto disso, mas, mesmo assim eu consegui segurar os braços dele até que ele cedesse. Quando ele para de fazer força, eu estou por cima dele, meu cabelo encostando em seu rosto, e todo o meu corpo em contato com o dele. Eu tinha Logan, e ele tinha Abra. Eu não tinha nada sério com Logan, mas Antonie estava namorando Abra há apenas dois dias. Eu me senti horrível por tudo que tinha acontecido, mesmo que tivesse acontecido sem o meu consentimento ou planejamento. Quando me dou conta da situação, eu me jogo pro lado dele, e caio de bruços no chão. Antonie se senta, dobra as pernas e as envolve com os braços, e enterra o rosto entre os joelhos.
—Você pode ir embora agora? — Ant diz com uma voz rouca, e angustiada.
—E deixar você morrer? Nunca. — eu ponho a mão nos cabelos longos de Antonie, e começo a acaricia-lo. Ele começa a chorar, imediatamente. Eu levanto a cabeça dele, fazendo com que ele olhe pra mim, seguro-a na altura de seu maxilar, e, olho no fundo dos olhos de Antonie.
—Vai ficar tudo bem. Eu amo você. Você é uma das únicas pessoas que prestam nessa escola. Mas, você tem Abra. Que se descobre o que aconteceu aqui, tem um surto. Mas, fique tranquilo. Nada vai sair daqui. Passou, como tudo passa. E o que ainda não passou, vai passar.
Agora nós vamos pra sala azul, e não adianta lutar contra isso, se não eu chamo um assistente da sala azul e ele vem te buscar de forma pior. Você precisa disso agora, Antoine. — a sala azul era uma sala de tratamento psicológico emergencial. Quando algum aluno passava por uma situação de extremo descontrole, ele era encaminhado à sala azul. Lá tinha médicos preparados com sedativos, e todos os psicólogos 100% disponíveis para atender quem for, no horário que for. Até mesmo de madrugada.
Ant enxuga as lagrimas que deviam pesar um quilo cada uma, e faz que sim com a cabeça. Nós levantamos, eu o abraço por uns 5 minutos, e o encaminho até a sala azul. Lá, ele encontra uma das assistentes que já chega o analisando, e pede para que ele tire os óculos que havia colocado assim que eu propus entrar na escola. A assistente vê o olho dele, e logo se espanta. Ela manda que ele tire a camiseta, e todo o tronco estava com manchas vermelhas e roxas. Havia alguns ferimentos também, mas nada muito alarmante. As médicas são acionadas e pedem logo para que Antonie deite em uma maca, e ele assim o faz e é levado para dentro do tratamento intensivo da sala azul.
—Você sabe de onde vem essas manchas? — perguntou a senhora que estava na porta, com uma ficha na mão, anotando tudo o que estava acontecendo.
—Ele quem as fez. Ele tem transtorno bipolar. Está passando por umas crises com a atual namorada, e se agrediu por não concordar com algumas atitudes dele mesmo, com relação a ela.
—Tudo bem. Vamos cuidar dele aqui. Em aproximadamente duas horas ele estará livre para visitas. Vamos trata-lo com alguns remédios que podem causar sonolência e tontura.
—Obrigada. — eu dei um sorriso para a senhora, e, sem nem esperar para ver sua expressão, eu me virei de costas e fui andando em direção à sala.
Quando entro, o tempo de geometria já havia acabado. Agora estávamos na aula prática de química. Entrei na sala, todos me olharam, inclusive a professora, que parou a explicação do experimento que tinha acabado de realizar com a turma. Eu entro, me sento do lado de Abra, e a professora logo volta a falar.
Não entendi absolutamente nada do que a professora estava falando, só entendi que era uma mistura perigosa e corrosiva, que se nós não manipulássemos com cuidado, poderíamos ter algum tipo de acidente. Ela deu luvas, aventais e outros equipamentos esquisitos pra turma, dizendo que eram de uso obrigatório. Abra me pediu ajuda com o amarrador de seu avental, e eu a ajudei. O meu eu arrumei sozinha, o que a deixou bem irritada. O que era bem estranho, porque Abra não costumava ser assim. Ela estava com bastante raiva de mim. Estava inquieta com a situação, e eu logo caio em mim e percebo que eu a devia explicações quanto a Antonie.
—Abra, me desculpe. Eu fui levar Antonie na sala azul. Ele estava realmente precisando. E, talvez você não conseguisse fazer isso. E, eu estava sendo amiga dele. Não pense que eu queria algo além disso. Antonie sempre foi meu amigo, e não deixaríamos de ser por causa de um namoro. Me desculpe, mesmo. — eu disse baixinho, tomando cuidado com o tom para que não ofendesse Abra. Ela era como uma granada. A qualquer momento alguém poderia puxar o pino, e a jogar. Qualquer palavra mais rude, qualquer expressão não calculada. E eu não queria a machucar... Mesmo sendo uma pessoa tão difícil, Abra era minha amiga. Eu a considerava, de certa maneira.
Mas, ela com certeza não aceitou nada do que eu falei. Fechou a cara, e mostrou a pior reação que poderia no momento.
—Acontece que eu também poderia leva-lo na sala azul. Você especulou que eu não fosse conseguir, e o obrigou a ir contigo. Ele não gosta mais de você, Lesllie. Ele só precisava de carinho porque estava triste, e se você não tivesse feito com que ele ficasse com você, ele teria vindo para a namorada dele. Se é que eu ainda sou isso. Porque, pelo que me parece ele está preferindo ficar com a melhor amiga.
—Não somos melhores amigos. Eu não tenho dúvida dos sentimentos de Antonie por você, Abra. Se um dia ele terminar, não vai ser por minha causa, mas você, como ninguém sabe da doença que ele tem.
—A doença dele não vai o impedir de me amar, Leslie. Eu não cairia duas vezes no mesmo erro. — Abra estava de pé, aos berros. A aula tinha parado. Todos estavam concentrados na nossa conversa. Foi nesse momento em que seus olhos começaram a encher d'agua.
—Abra, você está descontrolada. Não era pra isso ser um escândalo. — ela olha pra sala, que está com a atenção totalmente voltada para a nossa conversa, e cai em si. pude ver o desespero correndo em suas veias.
—Isso mesmo que vocês ouviram. O meu namorado não vai deixar de me amar nunca. Nós vamos nos casar. Ele me ama mais do que ama Lesllie Marie Claire, mesmo que ela queira o roubar de mim, como sempre quis, ele sempre vai ser meu.
—Abra, sente-se agora mesmo, ou serei obrigada a chamar os agentes de controle! — disse a professora, bem preocupada, já pegando o acionador, que era uma espécie de bipe, que todos ganhavam quando estudavam ou trabalhavam aqui. Assim que acionado, uma mensagem chegava no sistema dos agentes de controle com a localização do problema, e a unidade de controle mais próxima do local, enviava agentes que chegavam em no máximo dois minutos.
—Eu não vou me sentar, porque eu estou cansada de seguir regras! Hoje eu não pude falar com o meu namorado doente, porque Lesllie não permitiu que eu o fizesse, para que pudesse se aproveitar dele. Eu odeio essa escola! Eu odeio a Lesllie! Eu odeio todos vocês! Quero que todos vocês morram, agora. — a professora já tinha acionado o bipe, quando Abra pegou dois tubos da substância que havíamos preparado na aula, e ingeriu um, por completo, e o outro jogou por completo no meu corpo.
Partes caiu no meu rosto, o resto pelo tronco, braços e axila. Eu pensei que tudo já tinha acabado, quando ela resolveu jogar mais dois tubos em todas as pessoas da sala. Foi pegando de mesa em mesa e jogando em todos que conseguiu. Dayanna foi atingida em cheio no rosto. Dominique conseguiu se esconder embaixo da mesa. A sala de química era equipada com um botão de emergência para quando houvesse algum acidente com substância química, que trazia enfermeiros até o local. A professora o acionou, e saiu correndo em disparada para buscar ajuda.
Enquanto isso Abra não parava. A catástrofe tinha tomado níveis absurdos. A queimadura na pele dos alunos estava ficando cada vez pior, com o tempo. Os equipamentos de segurança ajudaram a prevenir coisas piores, mas eles também ficaram quase que completamente corroídos.
Quando Abra viu um dos agentes de segurança entrando na sala, ela pegou um dos cacos de vidro dos tubos que haviam sido quebrados no chão, e ameaçou se matar, apontando ele para o pescoço. Os agentes estavam preparados para esse tipo de situação, mas, parece que com o choro dos alunos sofrendo queimaduras na pele, eles ficaram um tanto desesperados. Entraram mais dois agentes, que sem pensar foram pra cima de abra, contê-la. Ela fez um corte bem profundo em seu pescoço, mas não atingiu nada vital
Abra foi segurada, e amarrada. Logo depois a colocaram em uma maca, e começaram a tratar de seu corte, ingenuamente achando que era a coisa mais grave que havia ocorrido. Abra se contorcia, e gritava de forma perturbadora. Talvez a adrenalina que havia em seu sangue a estivesse amenizando a dor, mas, nada seria capaz de encobrir tudo o que ela estava sentindo.
—Ela engoliu a substância. Vocês precisam socorrê-la antes que morra! — gritou Aimeé. Uma das alunas da sala que não tinha sido afetada pelo ácido.
Os agentes de controle entraram em choque. Ergueram a maca e levaram Abra às pressas para a unidade de tratamento intensivo da escola. Logo chegaram cinco enfermeiros, devido ao botão, e ao ser explicada a situação, um deles pegou uma mangueira que havia preparada em um armário, e ligou a água. Foi recomendado que todos os alunos retirassem as roupas, e ficassem em fila, para serem "lavados". Os mais queimados obedeceram a ordem, ficando apenas com suas roupas de baixo. Era inacreditável. Eu me perguntei incontáveis vezes se aquilo realmente se tratava da vida real.
Pouco a pouco, um por um dos alunos foi sendo "lavado", e a ardência pareceu melhorar. Eu fui a mais atingida, porém a última a ser socorrida. Eu estava bem tonta, devido ao alto teor de dor que sentia, mas simplesmente me negava a tirar minhas roupas. Meu corpo jamais poderia ser exposto dessa forma. Um dos enfermeiros veio para cima de mim, querendo tirar minhas roupas a força. Eu o empurrei, e logo caí no chão. Eu não aguentava mais. A substância havia caído em grandes partes dos meus braços, pescoço, pernas, peito e rosto, onde não haviam equipamentos protegendo. Meu rosto parecia pegar fogo. O enfermeiro rasgou minha blusa e a tirou de mim, e logo tirou também tirou minha calça. Eu estava praticamente nua, no chão da sala, quando perdi a consciência. Eu pensei que fosse morrer ali. E, quase aceitei o fato. Mas, como tudo o que ocorria em minha vida, nada fazia sentido.
Eu acordei, quatro dias depois, por conta das queimaduras, que já estavam em tratamento, dentro de uma sala vazia, onde só havia som de equipamentos, e haviam muitos deles lá, e algumas luzes que piscavam. Perto da minha mão tinha uma corda, onde havia escrito "puxe quando precisar". E, eu senti que precisava. Provavelmente, eu havia sido acordada de forma proposital, mas eu queria que alguém me explicasse alguma coisa. Eu não sentia dores, ou mal-estar algum. Estava totalmente sob efeito de medicamentos, o que me deixou um pouco tonta. Foi difícil, mas eu consegui puxar a cordinha, e logo veio uma enfermeira, de aparência simpática e bochechas coradas, com uma bandeja nas mãos. Na bandeja havia um suco de caixinha e algo que me parecia ser um pão enrolado em um guardanapo.
—Olá, Lesllie. Te acordamos de um pequeno coma induzido, é normal você se sentir um pouco mal agora. Tivemos que te observar, para analisar o grau das suas queimaduras, e achamos que isso seria um pouco desconfortável para você se estivesse em consciência. A sua pele não foi muito danificada, e, estamos colocando remédios de efeito imediato, para que a sua pele cicatrize o mais rápido possível, sem deixar manchas ou algo parecido. A substância que te atingiu causa grande ardência, mas, a queimadura em si é bem leve, quando ocorre. Todos os seus colegas de classe já estão bem, e de volta para as devidas atividades. Agora são exatamente 15:35, e a atividade agora é no pátio, ao ar livre. Estão sendo usadas atividades para estimular o convívio e a comunicação. Em aproximadamente 30 minutos você vai ganhar alta e poder participar. Enquanto isso, descanse. — disse a enfermeira colocando a bandeja no meu colo, e me dando um controle de tv nas mãos.
—E Abra? O que houve com ela?
—Abra passou por uma lavagem estomacal. A substância não causou muitos estragos no organismo dela, porque como eu disse, a substância em questão causa muita ardência, porém a queimadura é bem leve, e como o estômago é preparado para receber ácidos, não foi tão prejudicial assim. Ela também teve uma sutura no pescoço e está sob efeito de ansiolíticos bem fortes. Ela teve um surto que vai ser estudado, e enquanto isso vai ficar em observação com duas horas diárias de sala azul por duas semanas.
—Obrigada. — a enfermeira saiu do quarto sem me dar mais nenhuma assistência. Eu comi o lanche que me havia sido oferecido, e, esperei ansiosamente por meia hora. Ao passar os exatos minutos, a enfermeira entra no meu quarto, e me da um vestido que havia sido pego no meu quarto, e me da para que eu vista. Eu me visto, e ela me ajuda a sair do lugar que parecia um labirinto interminável. Ao sair do hospital, vejo Logan que estava simplesmente deitado de bruços em um banco de madeira que ficava no pátio, puxando a grama do chão, e fumando. Era cigarro normal, não maconha. O que era bem estranho, porque Logan havia me falado que não fumava nada além de maconha.
Ao me ver, ele se levanta e vem na minha direção, sem deixar o cigarro de lado. Quando encontro com ele, eu pego seu braço, tomando o cigarro de sua mão, e o coloco em minha boca. O trago até o final, e logo depois o beijo. O gosto e o cheiro eram horríveis. Mas, eu queria que ele me visse me matando, assim como eu o vi naquele momento. As substâncias químicas nunca foram muito a minha praia. Eu odiava ver qualquer um usando qualquer tipo de entorpecente, ou coisas que pudessem causar vício químico.
—Pensei que eu fosse perder você quando me falaram. Disseram que você foi a mais ferida da sala depois de Abra. — Diz Logan assim que para de me beijar, e logo em seguida me abraça muito apertado.
—Sim. Mas, eu não me machuquei muito, por um milagre. Só algumas áreas mais sensíveis.
—Eu amo você, Lesllie. Não consegui lidar com o fato de que eu poderia te perder.
—O que você usou? — eu senti os batimentos de Logan acelerados, e as palavras que ele dizia estavam cortadas e altas demais.
—Nada.
—Me diz a verdade, Logan.
—Não sei. Só me deram e eu usei.
—Quem?
—Uns meninos.
—Que meninos?
—Lucio, Joseph e Claudie. — esses eram conhecidos como os piores alunos da escola. Os três haviam sido internados aqui por níveis diferentes de autismo, e Claudie tinha Asperger. Mas, todos eles traficavam drogas através de amigos que os traziam escondidas em suas bolsas, nos dias de visitas. Das mais às menos fracas.
—Como você está se sentindo?
—Tem algumas horas. Foi logo depois do café da manhã. Só estou suando muito agora. Nada visual, nem nada. — Logan parecia falar a verdade.
—Onde está Abra? Já a viu? Antonie saiu da sala azul? Eles já se encontraram? Ele melhorou?
—Abra está no quarto. Até onde eu sei, eles terminaram. Abra está desolada. Porém, Antonie foi calmo e brando com suas palavras. Aparentemente, eles tiveram uma discussão pura e saudável. — Logan disse pausando excessivamente entre cada frase. O que me fez quase responde-lo varias vezes, apenas puxando o ar.
—Loucura demais pra um dia só. Se eu pudesse sumir, assim o faria agora mesmo. Vou procurar Antonie. — eu disse enquanto dava um abraço em Logan, que aparentemente estava passivo a qualquer coisa, devido aos efeitos do que ele tinha usado.
Eu fui andando pelo pátio, olhando em cada canto, em cada detalhe do dia. Alguns alunos enfaixados, todos com bastante pomada. Minhas bochechas estavam completamente engorduradas devido à mesma. Mas, aparentemente era ela que estava aliviando as dores da área sensível, logo, era algo suportável. Depois de revirar toda a escola, acho Antonie, sozinho, no jardim dos fundos, deitado embaixo de um ipê lilás, olhando para o céu. Lágrimas caíam de seus olhos. Flores caíam sobre seu corpo...
—Você fez o que devia. Não sinta-se culpado. -eu disse, enquanto me dirigia à ele.
—Te beijar está incluído nisso?
—Foi sem querer...
—Infelizmente foi o que eu mais quis na vida...
—Ant, não. Você não sabe muito sobre o amor. Na verdade, nenhum de nós é capaz de saber. Mas, às vezes nós sentimos coisas que são completamente ilusórias. Achamos que sentimos, mas, é algo semelhante à uma planta sem raízes. É inegável que está ali, mas não possui profundidade. A primeira eventualidade que acontecer, vai destruí-la por completo. E, antes de você se envolver com qualquer coisa relacionada ao amor, você tem que analisar se há raízes ou não. Porque se não tiver, vai morrer o mais cedo que der... E foi isso que aconteceu com o seu sentimento por Abra. Pode até ter tido algo, mas não tinha raízes. Não se sinta culpado por isso. Mesmo. É melhor assim. Acredite. — eu disse enquanto deitava no chão ao lado de Antonie, olhando pras flores que caíam sobre nossos corpos, como se estivéssemos mortos, sendo enterrados por centenas de florezinhas que não paravam de cair.
Antonie vira de lado, e fica me observando. Ele repara desde o tamanho da minha orelha, até a cor da minha raiz loira que estava crescida, precisando ser pintada. Eu não sabia o que fazer. Não sabia se me virava também ou se isso poderia provocar alguma coisa. Talvez Logan não fosse gostar disso. Mas eu não tenho nada com ele. O que me deixa livre para contar a ele. Decido me virar. Fico deitada, olhando no fundo dos olhos verdes de Antonie. Nossas almas pareciam dançar juntas, uma calma e tranquila valsa. Antonie pega a minha mão que estava encostada em minha barriga, e a segura, acariciando-a. Ele a beija. Uma, duas, três... Dez vezes. Até que seu olhar é novamente dirigido aos meus olhos... E então a minha boca. E ele resolve me beijar. Mais uma vez eu estava beijando Antonie. E, mais uma vez tudo estava sendo perfeito... Paramos e voltamos a nos olhar. O sinal das 17:00h bate, e todos os alunos começam a se deslocar para o refeitório, porque aconteceria agora o lanche da tarde. Eu me viro pra cima, Antonie faz o mesmo, nos sentamos e vamos para dentro da escola. Em silêncio. Sem contato visual. Apenas fomos.
—Vou no quarto ver como está Abra. — eu disse assim que chegamos em frente ao refeitório. Antonie assente com a cabeça e continua andando, enquanto eu mudo a direção pra subir as escadas. Quando chego no quarto, encontro Abra. Com uma gaze no pescoço, totalmente nua, deitada na cama, olhando para o teto. O travesseiro dela estava encharcado. Ela parecia estar morta. Eu senti pena do que eu estava vendo e um certo medo de como ela poderia reagir ao me ver. Porque, ao que parece, Abra tentou me matar.
—Oi. — Abra diz antes que eu possa pensar em dizer nada, o que me faz ter um susto muito grande. O tom que ela usou era amigável, e um tanto convidativo.
—Oi.
—Eu te devo desculpas. Até onde sei, eu tentei te matar hoje de manhã. Mas, eu nem sei como. Mas, imagino que deva ter sido algo bem dramático. Minha psicóloga me deu muitas broncas.
—Você jogou ácido em mim.
—Não tão dramático quanto eu imaginei. Eu poderia ter usado uma faca samurai ou algo assim. — eu rio.
—Você não se lembra de nada?
—Não. Os psiquiatras que me atenderam disseram que eu tive um surto psicótico, e o que agiu ali não foi Abra Follin. Mas um ser místico, com sede por sangue e mortes.
—Uoou. Então eu já posso dizer que sobrevivi à um ser místico. — Nós duas rimos.
—Me desculpa. Mesmo. — eu cheguei a andar para cima de Abra, apara abraça-la, porém me lembrei que ela estava nua, e me direcionei a minha cama, e me deitei, e assim como ela, agora eu estava observando o teto.
—Tudo bem. Como você está se sentido?
—Não é um dos meus melhores dias. Mas, digamos que eu esteja me sentindo bem limpa por dentro. Devem ter passado até cloro em mim.
—E quanto ao término?
—Tudo bem. Tudo que eu tinha guardado dentro de mim, agora está guardado no meu travesseiro. E, foi o melhor a se fazer. Nós estávamos sendo ingênuos. Antonie ama você. E, foi por isso que terminamos da primeira vez, e agora... Não teria porquê algo ter mudado. — eu fico em silêncio. Antonie estava realmente falando a verdade quanto à seus sentimentos por mim. O que era bem louco. E, ele contou pra Abra. O que era mais louco ainda. E ela entendeu, e foi compreensiva com tudo. É louco demais até mesmo para o local onde estamos. Quando eu acho que nada de mais sem sentido poderia acontecer, Abra me surpreende...
—Você já contou a Logan? Talvez ele queira saber disso. — Antonie havia falado do nosso primeiro beijo. E Abra simplesmente aceitou isso.
—Ainda não. Eu iria conta-lo agora. Ele não vai se importar. Não temos nada, e, eu não o beijei. Fui beijada. — não sei se disse o que deveria. Se eu dissesse que eu o beijei, seria a amiga dela beijando o namorado dela, e, se eu dissesse a verdade, diria que o namorado dela beijou a amiga dela. De qualquer forma seria ridículo. Resolvi dizer a verdade, considerando o fato de que Antonie poderia tê-la falado antes.
—Entendi. — Abra vai para o banheiro e se veste com um vestido, que a deixou parecendo uma bonequinha. ela estava com uma trança, que por conta de seus longos cabelos, estava passando para a parte da frente de seus ombros. Abra se senta do meu lado na cama, e segura uma de minhas mãos. -Preciso fazer um teste... — ela põe a mão em meu maxilar e me da um selinho. Eu permaneci imóvel apesar do meu desconforto com a situação. Ela se levanta, e caminha em direção a porta. -Você precisa se impor mais, Lesllie. Você não está morta. — Abra sai do quarto e bate a porta sem me deixar falar absolutamente nada. E, aquilo foi um pequeno choque para mim. Aliás, o que raios tinha acontecido ali? Era tudo tão sem sentido, e eu não gostava do que isso significava.
Eu me jogo na minha cama, e pego o meu celular. Acho o número de Logan, e o ligo. Em menos de três toques ele me atende.
—Minha pequena Lessi. A que devo a honra? — disse Logan, e muitas pessoas riam envolta dele.
—Onde você está? — eu disse, preocupada.
—Estou no meu alojamento. E você?
—Estou sozinha no meu. Eu preciso conversar com você. Você pode vir aqui?
—Mas é claro! Conte até 100.
—Um, dois, três, quatro... — Logan desliga. Era como se ele estivesse sempre à minha disposição, e isso me agrada.
Eu, obviamente, não continuei a contagem, mas Logan apareceu em meu quarto em menos de dois minutos. Ele bateu na porta, e, eu me levantei as pressas pra ir atender. Quando abro, ele está sem camisa, apenas com uma calça de moletom, que me parecia realmente confortável.
—Vem... — eu puxei ele até a minha cama, e, ele me deitou, e começou a me beijar. Eu o empurro, e me sento, ao lado dele. -Conversar.
—Tudo bem. — ele ri. Os olhos dele me pareciam avermelhados, mas, por causa do quarto escuro, eu resolvi ignorar.
—Logan, nós somos alguma coia?
—Não ainda. Só somos pessoas tentando criar algo. Por que, pequena Lessi?
—Eu fui beijada... Várias vezes. Por pessoas diferentes. Eu não soube como reagir e achei que não tivesse problema, porque nós não tínhamos nada sério. — Logan olha para mim e começa a rir.
—Como que isso aconteceu? Quem foi o cara?
—Antonie. Eu fui leva-lo na enfermaria por causa do olho dele, depois fomos pro jardim conversar sobre o que tinha acontecido, e ele me beijou. Depois ele me beijou quando eu fui perguntar se ele estava melhor. Ele gosta de mim. Tipo, de verdade. E, aparentemente, tem bastante tempo. — dei uma pausa enquanto olhava pro chão, e Logan chegou a respirar para poder responder o que eu tinha acabado de falar, quando eu o interrompo. -E Abra.
—Abra??? — Longan falou bem alto.
—Abra... Quando eu contei a ela que o namorado dela havia me beijado, ela falou que tinha que fazer um teste, e me deu um selinho. Depois ela veio com um papo de que eu deveria me impor mais.
—Nossa. Mas, algum desses significou algo pra você? Você vai pedir pra a gente parar de ficar? Você está gostando de Antonie?
—Não, Logan. Eu já disse que não costumo gostar de ninguém.
—Adoraria poder dizer "que bom"... — Logan pareceu se entristecer.
—Desculpa...
—Tá tudo bem. Você foi sincera, e isso quer dizer que se importa. Eu entendo que sua cabeça esteja confusa agora. Até eu estaria. Mas, talvez seja melhor você tomar uma decisão. Quem sabe se permitir gostar de alguém. Você e Antonie poderiam ter algo legal. E, eu estou disposto a te fazer a garota mais feliz da face da terra, com tudo que eu tiver em mãos. A escolha é totalmente sua.
—E se eu quiser escolher a Abra? — Logan olha pra mim com uma cara estranha, de quem quer mostrar que está tudo bem, mas ao mesmo tempo quer gritar "mas o que raios você está dizendo?". Eu começo a rir, o que faz com que ele ria também. -Eu estava brincando.
—Ufa! Ia ser um pouco difícil de aceitar. — eu me levanto, dou um beijo na testa de Logan e olho a hora. São 18:47. Nós temos o horário livre até as 20h, quando acontece a janta, e depois a hora dos jogos. Aqui na Gaspar, os horários não costumam ser iguais. Alguns, inevitavelmente acabam sendo, mas, outros, são bem bagunçados... Eles dizem que a rotina faz mal para a saúde mental. Logan continuou sentado em minha cama, e ele olhava incessantemente para mim.
—Vamos andar no jardim? — Logan se levanta, e nós vamos em direção ao jardim. No corredor, nos deparamos com uma cena um tanto inusitada. Havia uma aluna vestida de calcinha e sutiã, rolando pelo chão da escola. Os agentes de controle já estavam indo para cima dela, e, daqui a alguns minutos, tudo estaria certo novamente. Logan segura a minha mão, e nós vamos direto para o nosso banco, no jardim. O céu ainda não estava escuro, e o por do sol estava quase acontecendo. Logan se senta no banco de ferro que tinha entre duas árvores muito bem podadas, e eu me sento do lado dele, porém logo me deito em seu colo. E, nós simplesmente ficamos ali. Olhando tudo o que acontecia no céu, nas nuvens, na grama. Nenhuma palavra foi necessária.
Quando ouvimos o sinal das oito, nós nos levantamos e vamos para o refeitório. O dia a partir daí, foi como se estivesse no automático. Todos sentamos juntos, ninguém chorou, ninguém gritou, nem se quer deu um pio. Tudo estava em preto e branco. Ninguém se olhava, nem nada parecido. Quando terminamos o jantar, todos se levantam ao mesmo tempo e vão pra sala de jogos. Antonie simplesmente se senta no sofá do canto da sala e observa tudo e todos com um pedaço de cadarço na mão, que ele não parava de puxar e fazer nós. Me pareceu algo terapêutico. Abra pegou um livro, e foi pro canto oposto da sala. A atividade de hoje era jogos de cartas. Tinham incontáveis jogos aqui na sala, desde os que exigiam o mais elaborado raciocínio, até os que requeriam sorte e maladragem. Logan me pareceu animado, mas eu estava totalmente exausta. O dia havia acabado comigo.
—Logan, eu vou dormir. Tudo bem? — eu disse, antes que ele me pedisse qualquer coisa.
—Vou te levar no quarto. — nós subimos. De mãos dadas. Acho que aquilo era desconfortável, mas foi a forma que ele arranjou de falar pra todos "ela é minha agora". E, eu achei que tudo bem.
Logan me leva na porta do quarto, e quando eu abro a porta ele a fecha e me puxa para o alojamento dele. Quando eu entro, o quarto está vazio e é claro o cheiro de maconha que domina o local. Cada cama é separada por uma persiana, que pode ser amarrada pelo lado de dentro, fazendo com que haja uma espécie de porta com fechadura. E, eu gosto da ideia de ficar ali. Logan tira a camisa que havia achado no meu quarto quando foi me "visitar", a joga no chão e se deita. Eu me deito, logo em seguida, olhando para ele. Ele agarra a minha mão, e começa a acaricia-la. Ele me beija a testa e da um selinho em minha boca, e logo fecha os olhos. Eu nos cubro, e ele coloca a mão em minha cintura logo em seguida. Ele vira de barriga para cima, e eu encaixo minha cabeça em seu peito. O som de seu coração e a temperatura de seu corpo foram como um ritual de ninar.
E, assim termina mais um louco, longo e cansativo dia. Da forma mais estranhamente perfeita que poderia ser...
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