Cogito, ergo sum
5 v - 02D03M3021A
O vento havia desaparecido.
Quando saíram da cabine naquela manhã, perceberam que o barco estava parado e que não havia o menor sinal de uma brisa qualquer. Pelo descampado enegrecido que se estendia até onde os olhos podiam alcançar não havia nada além de um vazio aterrador.
Então eles se sentaram e esperaram.
Durante dias.
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Assim que percebeu que o barco não iria a lugar algum tão cedo — porque operava num sistema que gerava energia em função do vento —, Re-l verificou a munição da R-SCG12* e saiu em busca de qualquer coisa que pudesse salvá-los daquele marasmo. Mas não havia nada além de pedras soltas num raio de quilômetros e ela acabou voltando para o barco num humor ainda pior.
À noite, não se importou que Pino tocasse a escaleta. Qualquer coisa era melhor do que aquele maldito silêncio que parecia envolvê-la numa aura angustiante de sono — como se ela pudesse de repente dormir para sempre. Vincent também estava calado, e às vezes seus olhares estranhos se cruzavam. Durante o jantar, comeram carne e ervilhas enlatadas e beberam uma das garrafas de Ginger ale de Re-l. Como ainda era cedo e não havia o que fazer, ela deixou-se cair de costas na cama. Pretendia registrar no diário o que acontecera — ou, no caso, o que não acontecera —, como fazia todos os dias, mas então sentiu que alguém sentava ao seu lado e encarou Vincent sem entender o que ele estava fazendo.
E percebeu que ele se inclinava sobre ela.
— Mas o quê...
— Re-l... — e cobriu-lhe os lábios com um dedo.
Proxy.
Aquele toque a fez lembrar-se do dia em que seu mundo ruíra.
— Eu amo você. — ele disse. — Eu amo você há muito tempo e...
Vincent parou de falar quando um estalo metálico ecoou pela cabine. Então olhou para baixo, para o espaço entre seu corpo e o de Re-l e viu que ela tinha uma pistola destravada e apontada para sua barriga. Pronta para disparar.
Ele não duvidou de que ela tivesse coragem para atirar.
— Saia de cima de mim.
Vincent soltou um suspiro decepcionado e afastou-se.
— Por que você precisa ser assim? — ele perguntou, embora não esperasse resposta.
Ela ainda manteve a arma apontada para Vincent durante algum tempo, olhando-o fixamente nos olhos como se tentasse descobrir o que havia por trás deles, para só então ativar novamente a trava de segurança e guardar a pistola debaixo do travesseiro. Bem ao alcance da mão.
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