Cogito, ergo sum
6 Vl - 03D03M3021A
Assim que abriu os olhos, Re-l tateou o escuro debaixo da cama e pegou o diário e a caneta. E escreveu sobre o sonho que tivera antes que ele desaparecesse da memória.
Romdo está ardendo em chamas e desmoronando. É o fim do último domo dessa era, o fim da linha para tudo o que conhecemos. Humanos e Autoreivs engolidos pelo caos que eles mesmos criaram. E o culpado de tudo isso é Vincent.
Não. O Proxy.
Ele está no alto da Torre do Conselho observando a destruição.
Ele tem sangue nas mãos — mas de quem?
Então eu e outra mulher estamos diante do Proxy, uma mulher que é igual a mim. Nós duas temos o mesmo rosto e o mesmo nome. Ele olha para nós e não sabe mais qual das duas é a verdadeira.
Vincent.
Só então ela se lembrou de onde estava e olhou ao redor. A cabine estava vazia e o único som ali era o de sua respiração alterada. Re-l fechou o diário. Tinha sido apenas um sonho esquisito, mas ela sentia que um dia ele faria sentido.
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Do lado de fora, ainda não havia vento e o barco continuava no mesmo lugar, embora tivesse ficado especialmente frio ali. Enquanto estreitava os olhos na tentativa de enxergar o que Vincent e Pino estavam fazendo ao longe, Re-l apertou melhor o casaco em volta do corpo. Então percebeu — a boca se tornando gradativamente uma linha tensa no rosto — que eles estavam brincando de caminhar com latas sob os pés.
Inaceitável.
Ela estava perdida no meio do nada com duas crianças, sendo que uma delas tinha até mesmo barba no rosto.
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Re-l pensou que, já que não havia o que fazer sobre o barco, ela poderia gastar seu tempo cuidando de si mesma. Primeiro, tomou um banho morno e demorado. Lavou o cabelo com calma, usando xampu e condicionador — tudo sem a voz insistente de Vincent reclamando sobre o tempo que ela levava no chuveiro. Depois, vestiu a blusa e o short que usava para dormir e, com o cabelo enrolado na toalha, cortou as unhas dos pés e das mãos. Diante do espelho, espalhou um creme pelo rosto e o massageou. Quando estava secando o cabelo, tirando o excesso de água com a toalha, Vincent entrou na cabine.
— Bem na hora. — ela disse.
E jogou-lhe um pente.
Vincent olhou para o pente caído aos seus pés e então olhou para Re-l sentada sobre a cama, de costas para ele. Com aquela roupa. Foi como se, de repente, tivesse ficado quente ali dentro.
— Vamos. Penteie meu cabelo.
— Re-l...
— Ou será que nem pra isso você serve?
Ele nunca havia tocado no cabelo de uma mulher, e ao postar-se às suas costas com o pente no ar, sentiu que faria tudo errado — como se houvesse qualquer mistério naquilo. Mas afinal Re-l não reclamou. E enquanto alisava seu cabelo lentamente, Vincent não pôde evitar escorregar os olhos por suas pernas dobradas debaixo do corpo, por seus ombros delicados e pelo contorno dos seios sobre a blusa fina. O cheiro de sua pele despertava nele coisas que Vincent não sabia se eram certas.
O que Re-l queria?
— Assim está bom.
Antes que ela tivesse tempo de se virar para pegar o pente de volta, ouviu que ele havia caído no chão ao lado da cama e viu — por uma fração de segundo — Vincent desaparecendo do lado de fora do barco e batendo a porta da cabine atrás de si. E esboçou um sorriso que era ao mesmo tempo sarcástico e decepcionado.
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