Cogito, ergo sum

7 Vll - 04D03M3021A


Naquele dia, quando Vincent saiu da cabine, percebeu que tudo estava coberto de neve e que flocos brancos caíam lentamente do céu. Fazia tanto frio que ele pensou que o próprio ar poderia congelar dentro de seus pulmões, mas mesmo assim, Vincent pulou para fora do barco — uma camada fofa de neve afundou debaixo de seus pés —, tirou as luvas e afundou as mãos no gelo. Era macio. Por um momento, lhe pareceu que já havia feito aquilo antes. Enquanto sentia os dedos ficando duros de frio, Vincent imaginou lembranças cobertas de neve.

Será que ele tivera dias assim na Moscou de seu passado?

Vincent não conseguia se lembrar.

— Vince!

Uma bola de neve acertou-o num dos ombros e salpicou gelo por todo o seu rosto. Pino estava mais à frente, formando outra bola com ambas as mãos. “Então você quer guerra, hein?”, ele sorriu e atirou de volta, embora ela tenha desviado facilmente. Não tinha tanta graça em competir com um Autoreiv, mas eles continuaram jogando bolas de neve um contra o outro e rindo daquilo como se fosse a coisa mais divertida do mundo.

Foi assim que Re-l os encontrou ao espiar para fora. Como aqueles dois podiam ser tão idiotas? Pensou em simplesmente voltar para a cabine e para o calor confortável de sua cama, mas então uma bola de neve acertou-a em cheio no rosto e houve um momento pesado de silêncio.

— P-Pino! Olhe o que você fez!

— Pino não fez nada! Foi o Vince!

— Foi você!

— Foi o Vince! A Pino viu quan... Ah!

Re-l acertou primeiro Pino — que caiu sentada para trás, com o rosto branco de neve — e depois Vincent. E percebeu, enquanto corria atrás deles com as mãos cheias de neve, que aquilo era de fato bastante divertido.

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Como medida preventiva para que não ficassem numa situação ainda pior dali para frente, Vincent sugeriu que racionassem a água e a energia que ainda tinham no barco, e Re-l concordou — a última palavra era sempre dela. Os banhos foram reduzidos para cinco minutos e, à noite, não ligavam as luzes da cabine. Sentados frente a frente enquanto comiam, Vincent e Re-l se olhavam através da chama trêmula de uma vela. E, às vezes, conversavam.

— Me pergunto até quando vamos ficar presos aqui. — ela disse.

— Não é tão ruim. — ele deu de ombros. — Pelo menos temos água e comida.

— Não tenho intenção de ficar brincando de casinha com você para sempre.

Ela mexia o resto de sopa no prato com a colher.

— E eu nem sei o que você é.

— Eu sou isso que você está vendo.

— As verdades dependem de como nós as vemos.

Vincent ficou pensando sobre aquilo enquanto olhava para a mão dela que segurava a colher e por fim se perguntou como ela o via naquele momento. Achou melhor não pedir que ela lhe desse uma resposta, porque provavelmente não teria nada além de palavras afiadas.

— Algumas verdades continuam as mesmas, não importa o que aconteça ou como você as veja. — ele acabou dizendo.

Como a verdade de amá-la, pensou.

Re-l abriu a boca para dizer que não, que nenhuma verdade era absoluta e que ele era um tolo se acreditava naquilo, mas então Pino saltitou até a mesa gritando “Vince, Vince, Vince!” e mostrou o desenho que havia feito. O desenho deles, sentados ali, olhando-se através de um círculo amarelo que era a luz da vela. Exatamente como estavam. Era como se Pino tivesse fotografado aquela imagem.

— Pino... Você é mesmo muito boa nisso. — Vincent disse.

— Pino sabe. — e sorriu.

Mais tarde, quando ninguém estivesse vendo, Re-l pegaria o desenho, o dobraria ao meio e o guardaria dentro de seu diário. No verso da folha, ela escreveria:

04D03M3021A. Eu não sou assim tão magra.