Cogito, ergo sum
9 lX – 06D03M3021A
Quando o alarme do despertador tocou naquela manhã, Re-l esticou o braço até o painel na cabeceira para fazê-lo parar. Sentindo o corpo lento e pesado, ela aconchegou-se melhor no calor dos braços de Vincent — seu peito nu contra as costas dela — e só então abriu os olhos.
E viu Pino de pé ao lado da cama, olhando-a sem entender.
— O que você fez com o Vince?
— Eu não...
— Vince!
— Fale baixo!
Mas ele apenas resmungou um “hum” sonolento e ajeitou-se melhor na cama. Seu rosto escorregou para trás do pescoço de Re-l e sua mão tocou-lhe um seio por baixo do cobertor — o que a fez enrubescer ao pensar que Pino ainda estava ali. Será que ela os havia visto ontem à noite?
— Pino, ainda está nevando lá fora?
— Uhun.
— Então acho que você deveria fazer um boneco de neve.
— Por quê?
— Porque o Vince gosta de bonecos de neve.
Pino cruzou os braços e pensou sobre aquilo. E quando Re-l imaginou que a ideia não tinha sido das melhores e que Pino ficaria ali falando sem parar até que Vincent realmente acordasse e saísse da cama, ela sorriu e correu para fora da cabine prometendo fazer um boneco de neve tão grande como Vincent nunca tinha visto antes.
Re-l suspirou aliviada e virou-se para Vincent, que ainda dormia. Sentiu a respiração dele sobre seu rosto e se deu conta de que estava completamente nua debaixo do cobertor — embora ele ainda vestisse a calça que usava para dormir. Pensou que devia estar ficando louca e que a culpa de tudo aquilo era do tempo que não passava, dos dias sempre iguais, daquela situação que quase a levava ao desespero. E se nunca mais houvesse vento e eles acabassem morrendo no meio do nada? Mas então pensou que havia gostado do que eles tinham feito, gostado muito, e se surpreendeu ao perceber que, num mundo em que os humanos não precisavam mais do sexo — porque a reprodução era feita em laboratório, em úteros artificiais que selecionavam os genes mais apropriados e descartavam os inconvenientes —, eles haviam encontrado prazer em estarem juntos daquela maneira.
Haviam sentido algo verdadeiro.
Humano.
Re-l se lembrou de como Vincent tinha sido tão gentil ao mesmo tempo em que pareceu querer comê-la por inteiro.
— No que está pensando?
Ela ergueu os olhos e viu que ele a observava.
— Pensei que você estava dormindo.
— Eu estava.
Vincent segurou-lhe o queixo e trouxe o rosto dela para mais perto do seu. E beijou-a com um carinho e um cuidado que ela nunca havia conhecido. Os lábios dele eram quentes e logo ela se sentiu quente também.
— Você quer mesmo saber? — ela perguntou. — No que eu estava pensando.
— Quero.
Re-l tocou-lhe a ponta do nariz com o indicador e desceu lentamente o dedo por sobre seus lábios, queixo e pescoço.
— Estava pensando que podíamos ficar até mais tarde na cama hoje.
— Ou o dia todo.
— Não.
— Por que não?
— Porque depois você precisa ir lá fora ver o boneco de neve que Pino está fazendo pra você.
Vincent pensou em perguntar que história era aquela de boneco de neve, mas então achou melhor deixar para descobrir mais tarde e aproveitar o resto da manhã com Re-l de um modo bem melhor. Um modo que incluía beijos por todo o corpo e costas arranhadas.
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Enquanto Vincent e Pino tiravam a neve que tinha se acumulado ao redor do barco, Re-l recostou-se ao corrimão gelado da popa e abriu o diário. Tinha a intenção de registrar que ainda não havia vento e que continuavam encalhados ali, mas acabou escrevendo outra coisa.
Vincent e eu ficamos juntos. Como homem e mulher.
Foi a primeira vez que fiz isso.
Por algum motivo, não foi estranho como eu imaginei que seria. Foi como se estivéssemos destinados a isso desde sempre, embora eu não consiga imaginar como tal coisa poderia ser possível. Natural e espontâneo.
Ele disse outra vez que me ama.
Então isso é o amor?
Raison d’être é o amor?
Mesmo que consigamos chegar à Moscou e que tudo fique claro, que todas as perguntas dentro de mim sejam respondidas, sinto que jamais poderei deixar Vincent Law. É impensável, depois de tudo, voltar a viver como antes, numa existência vazia.
Ela fechou o diário quando ouviu as vozes deles que vinham da parte da frente do barco. E sentiu o rosto ficando quente, apesar da neve que caía, ao perceber do que eles estavam falando.
— Vince e Re-l são namorados! Vince e Re-l são namorados!
— Pino! Pare com isso!
— Re-l, Re-l! — Pino acenou enquanto corria em sua direção. — Não é verdade que...
— Pino! — Vincent gritou, irritado. — Se não calar a boca, eu te deixo aqui fora durante a noite. No escuro!
— Mas, Vince! A Pino tem medo do escuro...
— Então calada!
E quando Pino fechou a cara e foi para dentro da cabine como uma criança que tivesse sido colocada de castigo, Vincent apoiou-se no cabo da pá que tinha usado para cavar a neve e suspirou desajeitado.
Namorados?
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À noite, Pino não ficou do lado de fora porque Vincent disse que ela tinha se comportado como uma boa menina durante o resto do dia. Mas nem ele nem Re-l se sentiam à vontade para dormirem na mesma cama — e para fazerem outras coisas — se Pino estivesse olhando. Então Vincent atravessou uma corda pela cabine e pendurou nela um lençol, isolando assim a parte em que ficavam as camas. Como Pino “dormia” num colchonete perto da porta, não prestou atenção à cortina de lençol.
— Pronto. — ele sussurrou assim que terminou de ajeitar tudo e foi para junto de Re-l na cama. — Agora ela não poderá nos ver.
— Mas ainda poderá nos ouvir.
Vincent abraçou-a debaixo do cobertor e sentiu seus seios contra o peito.
— Então tente não gemer muito alto.
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