Cogito, ergo sum

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Ao observar Pino imitando Vincent — agarrando o pé que havia acabado de bater na porta da cabine e gemendo de dor —, um Autoreiv modelo criança vestido numa roupa de coelho, fingindo um sentimento que não fora programado para ter, Re-l escreveu no diário:

Talvez seja como dizem, talvez Autoreivs infectados pelo vírus Cogito passem mesmo a ter uma alma. Não como humanos, mas uma alma diferente. Uma alma artificial.

Pino se parece em tudo com uma criança humana e age como tal.

Irritante.

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Às vezes, Re-l se perguntava por que Vincent não deixara aquele Autoreiv para trás. Pino não era como Iggy, não sabia consertar coisas e nem mesmo servia para pentear seus cabelos quando ela tinha preguiça de fazê-lo. Totalmente inútil.

— Pino, feche a porta da cabine. — ela mandava. — Está frio lá fora.

Mas acontecia de Pino estar entretida com o livro infantil que encontrara no domo abandonado e não prestar atenção no que lhe diziam. E, se insistissem em chamá-la, ela simplesmente fazia cara feia — uma bem parecida com a de Re-l — e respondia:

— Pino está lendo um livro!

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Outras vezes, no entanto, Re-l sentia que Pino era quase como eles. Quase humana. Sabia que se a abrissem, tudo o que encontrariam no corpo de Pino seriam engrenagens e sistemas elétricos. Metal ao invés de carne. Mesmo assim, havia momentos em que era impossível não imaginar a existência de um coração ali.

Como quando a ouviu conversando com Vincent.

— Vince está triste?

— Não estou triste...

— Você está com uma cara assim.

E imitou uma expressão de desânimo que, em outra situação, seria engraçada. Os dois estavam sentados do lado de fora do barco que seguia em frente sobre aquela terra seca.

Re-l os ouvia de dentro da cabine.

— É mesmo?

— É por que a Re-l brigou com o Vince?

— N-Não... Não diga besteiras.

— Vince ama a Re-l.

Não tinha sido uma pergunta.

— Pino... — ele suspirou. — Por que você não vai fazer um desenho, hein?

— Uhun!

E enquanto saltitava em direção à cabine para pegar seus papéis e lápis coloridos — aqui Re-l afastou-se da porta e fingiu ocupar-se com um dos mapas —, Pino sorriu e disse, como se falasse consigo mesma:

— Pino ama o Vince porque o Vince gosta dos desenhos da Pino!

Como uma máquina poderia amar alguém? Que parte de seu sistema teria sido afetada pelo vírus para que ela pudesse entender sentimentos como amor e tristeza? Re-l imaginou que, depois da aniquilação total daquele mundo, surgiria um outro. E nesse novo mundo as máquinas seriam os humanos.