Cogito, ergo sum

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Assim que colocou os olhos nele naquela manhã, ela soube que Vincent estava estranho. Ao acordar, Re-l encontrou-o deitado ao seu lado, apoiado sobre um cotovelo, olhando-a em silêncio — por quanto tempo ele estivera ali? Em seu rosto havia uma linha tensa de sorriso, como se ele estivesse lembrando de algo que era, ao mesmo tempo, amável e perturbador.

— O que foi? — ela quis saber.

— Hum?

— Por que você está com essa cara?

— Que cara?

Essa.

Vincent fingiu que não havia prestado atenção ao que ela dissera — ou talvez não houvesse mesmo, ele estava muito estranho — e tocou-lhe os lábios num beijo breve. Depois beijou-lhe o pescoço, os bicos dos seios e a barriga, para então sair da cama e ir tomar banho.

Re-l observou-o desaparecer por trás da porta do cubículo que era o banheiro e teve certeza de que ele escondia alguma coisa. E ela descobriria que coisa era essa.

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Mas antes que conseguisse entender que diabos estava se passando na cabeça de Vincent, outras coisas esquisitas aconteceram. Coisas que primeiro a deixaram pensativa e depois irritada.

Como quando Re-l quis sair da cabine e espiar para fora, porque Pino não parava de gritar que a neve estava derretendo e que seu boneco havia desmoronado. Mas tudo o que conseguiu foi aspirar um pouco de ar gelado antes que Vincent a empurrasse para dentro outra vez, dizendo que o tempo estava muito ruim e que ela poderia ficar doente.

Ou como quando ele a encontrou de pé diante do fogão, cozinhando um pouco de macarrão, e fez questão de sentá-la junto à mesa enquanto ele mesmo terminava de preparar a comida.

— Não quero que você se queime. — ele disse.

— Vincent!

— O que?

— Você acha que eu sou tão inútil assim?!

Ele desligou a chama do fogão e escorreu o macarrão, despejando fora a água.

— É claro que não. Apenas quero evitar que você se machuque.

— Só uma idiota se machucaria cozinhando macarrão!

— Além do mais, não acho que você deva se cansar com essas coisas.

Ela cruzou os braços e o perfurou com aquele olhar.

— Cansar? Como se tivesse qualquer outra coisa pra se fazer aqui.

— Mesmo assim... — ele deu de ombros.

Vincent serviu-lhe o macarrão num prato e sentou-se diante dela. E ficou ali, quieto, olhando-a como se não a estivesse realmente vendo, como se enxergasse alguma coisa que só existia em sua mente.

— Não vai me dizer o que você tem? — Re-l tentou outra vez.

— Eu apenas amo você.

E segurou-lhe uma das mãos sobre a mesa, sabendo que ela não havia acreditado.

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Mais tarde, enquanto Vincent discutia com Pino — porque ela havia feito desenhos sobre os mapas que o guiavam de Romdo a Moscou —, Re-l achou relevante registrar seu comportamento sem sentido:

Vincent está estranho comigo hoje e tem agido como se fosse um Autoreiv infectado. Talvez ele tenha descoberto alguma coisa sobre o Proxy dentro de si e não queira me contar. Ou talvez esteja ficando louco. Eu não sei.

Então ele passou pela cortina de lençol e ela guardou o diário. Sentou-se muito ereta na cama para que ele percebesse que não, não estava tudo bem, e observou-o despir-se até estar apenas com a calça desbotada que usava para dormir e entrar debaixo do cobertor. Vincent tentou abraça-la e trazê-la para mais perto, mas Re-l manteve-se firme como uma rocha.

— Está brava? — ele suspirou.

— Talvez.

— O que há de errado então?

— Você.

Ela encarou-o de cima com aqueles olhos gelados e Vincent se deu conta de que não poderia continuar guardando aquilo só para si. Porque, apesar de agora estarem juntos, Re-l ainda sabia ser assustadora quando queria.

— Por que não posso cuidar de você? É algo ruim?

— É ruim se você me trata como uma doente.

— Mas eu não...

— Pare. — ela cortou-o. — Se não vai me contar, não precisa falar mais nada.

E virou-se para o outro lado.

Vincent deixou os ombros caírem, derrotado, e virou-a de volta para que pudesse olhá-la. Suas pernas voltaram a se tocar debaixo do cobertor e ele abraçou-a pela cintura.

— Tudo bem. Mas não fique preocupada ou...

— Vincent.

— Ou nervosa... Foi só uma coisa que eu pensei.

— Vincent.

— E pode ser que não aconteça...

Vincent!

Ele respirou fundo, os olhos baixos e a mão aberta sobre a barriga dela. Enquanto esperava que ele dissesse qualquer coisa, Re-l pensou que o calor da mão de Vincent era único e que nada naquele mundo se comparava a isso. Um calor que, de algum modo, a fazia sentir que estavam no caminho certo.

— Re-l... Eu pensei que talvez...

Silêncio.

— Que talvez possa haver um bebê aqui dentro.

Aqui dentro?

Então ela percebeu onde a mão dele estava. E entendeu o que ele queria dizer.

Durante um minuto que pareceu se estender por toda uma eternidade, ela pensou nas vezes em que havia se entregado a Vincent, pensou em como aquilo tinha sido intenso e incrível e então pensou que não haviam se prevenido de forma alguma porque era como se estivessem sonhando, pensou nos humanos reproduzidos em laboratório, nas mulheres programadas geneticamente para não engravidarem de forma natural — se uma dessas mulheres quisesse ter um filho, bastava enviar uma solicitação à Central e, se o pedido fosse aprovado, um bebê pronto seria entregue em sua casa — e, em seguida, pensou em Daedalus dizendo que as chances tinham sido reduzidas, mas que não era impossível. Pensou que, naquele momento, poderia existir dentro dela uma criança que ela não sabia se era humana.

Um filho seu e de Vincent.

— Re-l?

— O quê?

— Você está bem?

Ela pensou sobre aquilo também. O esperado seria que sua reação fosse de preocupação, aflição e até mesmo de desespero. Mas Vincent estava ali, ele nunca a deixaria, e o calor de sua mão era real. E tudo o que Re-l sentiu foi amor.

Agora ela entendia.

— Vincent?

— Hum?

— Me beije.