Cogito, ergo sum

14 XlV – 11D03M3021A


— Por que você não usa seus poderes de Proxy pra fazer vento? — ela perguntou.

Estavam de pé sobre a popa do barco, observando o nada que os rodeava.

— Re-l... — Vincent suspirou, desanimado. — Eu não posso fazer coisas assim.

— Por que não?

— Porque eu não controlo essas coisas.

— Então o que você faz?

— Bem... — ele segurou o queixo enquanto pensava. — Eu não sei ao certo.

Um Proxy que não sabia seu propósito naquele mundo.

Inaceitável, Re-l pensou.

E com o pé, empurrou-o para fora do barco. Vincent agitou os braços no ar e acabou caindo sobre aquela terra ainda ensopada de água pela neve que derretera. Desapontado, ele ia virar-se na direção de Re-l e perguntar por que ela havia feito aquilo — ela era sempre tão má quando não estavam na cama —, mas então percebeu que a terra estava mole debaixo de suas mãos e que seus dedos afundavam nela. Vincent ficou de joelhos e pegou um punhado daquela terra escura. E surpreso, a observou cair por entre os dedos. Pela primeira vez desde que ele se lembrava de viver naquele mundo, o solo não era mais uma coisa dura e seca, inóspita feito pedra, mas algo vivo.

Por algum motivo, a terra ganhara vida.

— Re-l...

— Eu estou vendo. — havia o mesmo tom incrédulo na voz dela.

— O novo mundo já começou a nascer.

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Depois de ter lavado as roupas sujas de terra e de tê-las pendurado para secar do lado de fora, sobre o corrimão da popa, Vincent recostou-se à parede da cabine e observou Re-l a pentear os cabelos diante do espelho do banheiro. Embora ele vestisse apenas uma blusa sem mangas e a calça de dormir, não sentia mais frio. Aquilo também estava mudando.

Ela o olhou através do reflexo do espelho do mesmo modo que ele a olhara na noite em que estiveram juntos pela primeira vez.

— No que você está pensando? — Re-l quis saber.

— Na transição.

— Transição?

— Transição do antigo mundo para o novo.

Ela baixou os olhos para o pente em suas mãos. E perguntou:

— Você acha que nós chegaremos a conhecer esse novo mundo?

— É claro que sim. — ele se aproximou e abraçou-a por trás. Seu queixo sobre o ombro dela enquanto seus rostos eram emoldurados pelo espelho. — Não podemos simplesmente deixar nosso filho sozinho em um mundo desconhecido.

— Vincent, você nem sabe se...

Eu sei.

Ela o olhou surpresa.

— Como?

— Eu apenas sinto. — e sorriu. — Foi você mesma quem disse.