Cogito, ergo sum
11 Xl – 08D03M3021A
No dia seguinte, quando Re-l acordou, Vincent não estava mais na cama — o que explicava o frio que ela sentia, apesar do cobertor. Depois de vestir-se e de escovar os dentes, abriu a porta e espiou para fora da cabine, para o branco interminável que fazia doer os olhos. E percebeu que havia parado de nevar.
Pino estava sentada perto do leme com sua roupa de coelho de sempre e desenhava qualquer coisa com seus lápis coloridos. A neve que costumava se acumular sobre o barco havia sido tirada, assim como o gelo que endurecia em volta do corrimão e da escada de saída. Re-l decidiu que aquilo não tinha sido trabalho de um Autoreiv como Pino.
— Onde está o Vincent?
— Vince está a 104,028 metros à direita.
Re-l olhou na direção indicada, mas não viu nada além de neve.
— O que ele foi fazer?
— Procurar.
— Procurar o quê?
Pino apenas deu de ombros, a cabeça meio inclinada para o lado, e continuou a desenhar. Re-l agachou-se diante dela e observou o desenho feito sobre o verso de uma folha com instruções sobre como fazer a manutenção dos circuitos elétricos do barco. No desenho de Pino, ela estava de mãos dadas com um homem vestido de preto e cabelos penteados para trás.
— Quem é esse?
— Esse é o papai de Pino.
— E onde ele está agora?
— Pino não sabe.
Re-l sentiu pena dela, apesar de Pino ser apenas um Autoreiv.
— Você sente saudades do seu papai também? — Pino quis saber.
— Bem... Eu não o conheci.
— Pobrezinha da Re-l.
Ela torceu a boca numa careta e levantou-se. Não gostava que sentissem pena dela. Durante todos aqueles anos, havia se comportado de modo que os outros a temessem e respeitassem. E agora estava ali, sendo alvo da piedade de um Autoreiv.
Aquele mundo era mesmo imprevisível, apesar de todas as suas regras.
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Sentada na parte mais alta do barco enquanto esperava que o tempo passasse, Re-l escreveu em seu diário. Achava importante registrar o que acontecia — um hábito que ela havia internalizado quando se tornou Inspetora da Área de Investigação de Romdo e que permaneceu mesmo depois de ter abandonado o cargo — e, além do mais, aquilo era como uma terapia que a ajudava a manter-se coerente consigo mesma.
Vento.
Precisamos de vento, e precisamos logo. Se não houver vento, tudo o que restou será destruído, esquecido para sempre, e não poderemos descobrir nada para salvarmos a nós mesmos. Se não houver vento, ficaremos aqui até que saqueadores ou Autoreivs nos encontrem e nos matem. Se não houver vento, Vincent não poderá retornar à Moscou e se lembrar de quem realmente é. Se não houver vento, nos perderemos junto com esse mundo sem sentido.
Volte logo, vento idiota.
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Vincent apareceu depois de vinte minutos. Gelado por ter caminhado tanto tempo no frio, ele ouviu em silêncio as reclamações de Re-l sobre como tinha sido irresponsável em sair sozinho sabe-se lá para onde e então se deixou levar para dentro da cabine quando ela o puxou por um braço.
— Re-l...
— Cale a boca.
Ela mandou que ele tirasse as botas molhadas e jogou um cobertor por cima de seus ombros, forçando-o a sentar-se na beira da cama. Em seguida, aqueceu um pouco de água no fogão e fez-lhe um chá. O calor do copo entre suas mãos o fez soltar um longo suspiro.
Sem avisar, Re-l sentou-se sobre suas pernas e abraçou-o.
— Idiota. — ela disse. — Agora tenho que te esquentar.
Vincent não pôde evitar abrir um sorriso. Com um braço, puxou-a para mais perto, e terminou de beber o chá. Em pouco tempo, já conseguia sentir os próprios dedos outra vez. Então se lembrou de que tinha andado o mais longe que seu corpo pudera ir e não encontrara nada. Absolutamente nada.
— Não há nada lá fora.
— Eu avisei. — Re-l tirou-lhe o copo vazio da mão e colocou-o no chão.
— É como se tudo tivesse desaparecido.
Silêncio.
— Será que esse mundo já acabou? — ele perguntou.
— Não seja idiota, Vincent.
— Por quê?
— Porque se esse mundo tivesse acabado, nós saberíamos.
— Como?
— Sabendo.
Vincent pensou e achou que Re-l tinha razão. Ele sentiria se o fim tivesse chegado. Ele era uma parte daquele mundo em decadência e sua existência estava condicionada ao destino daquela era. Se o humano nele não sentisse quando a realidade começasse a ruir, o Proxy certamente o sentiria.
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