Cogito, ergo sum
3 Ill - 25D02M3021A
Vincent sonhou coisas estranhas naquela noite — sonhou que havia dois dele e que os dois se confundiam ao ponto de não se saber mais quem era quem, ou se os dois eram o mesmo — e acordou antes do despertador de Re-l tocar. Então ele sentou-se na beira da cama, ainda meio perturbado, e ficou a observá-la dormir.
Durante dois minutos, ele olhou-a em silêncio.
E pensou que agora, de lábios entreabertos e uma mecha de cabelo caída sobre o rosto, ela não parecia tão assustadora. Agora Re-l era apenas uma garota humana dormindo. E era linda. Vincent pensou que gostava de tudo nela, do rosto pálido e dos olhos escuros, das mãos de dedos finos, das curvas graciosas dos seios e até mesmo de toda a sua agressividade. E enquanto listava mentalmente todas as características de Re-l que o deixavam de pernas bambas, não percebeu que estava sorrindo.
Faltando quinze segundos para as oito horas, Vincent desativou o alarme do despertador — porque ela era tão bonita dormindo e ele não queria que ela começasse a xingá-lo logo que abrisse os olhos. Em silêncio, vestiu-se e saiu para a popa do barco.
Lá fora, havia apenas a mesma terra inóspita da destruição.
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— O que você acha? — Re-l perguntou.
Vincent, mantendo firme o leme apesar do vento que o açoitava, a olhou de cima. Ela estava agachada diante do mapa estendido no chão, impedindo-o de voar para longe. Percebendo que uma das pontas do papel ia de um lado para o outro com as rajadas de vento e que Re-l praguejava baixinho, ele prendeu-o ao chão com a ponta do pé.
Ela espiou para cima, para seu rosto gelado de frio, e pensou que Vincent até servia para alguma coisa.
— Bem... Eu não tenho certeza. — ele disse.
— Mas você veio do domo de Moscou, você fez esse caminho um dia.
— Eu não consigo lembrar de nada... Me desculpe.
Re-l enrolou novamente o mapa e olhou-o com aquela cara feia que Vincent já conhecia bem. E ao invés de dizer o quanto ele era inútil e idiota ou de bater-lhe com o mapa no rosto — como ela geralmente fazia e como ele já esperava que ela o fizesse, porque era assim que Re-l Mayer era —, ela apenas tocou-lhe a testa com a ponta do dedo.
— Está tudo aqui dentro.
E desapareceu dentro da cabine.
Apesar do frio, Vincent sentiu um calor estranho dentro do peito.
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Naquele dia, Re-l escreveu apenas uma coisa em seu diário:
Por que ele me atrai tanto ao ponto de eu estar aqui?
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