Codinome: Estrela da Noite

8 VIII {ou quase fim do mundo, part. 2}


Notas iniciais
Estrela da Noite e Estelar se encontram depois de vários anos. Enquanto isso, o mundo acaba ao redor delas.

Mar’i

Meu pai havia sido levado por um dos lagartos alienígenas para não sei onde.

Eu estava sem poderes, trancafiada em uma sala blindada.

Tamaran seria destruído a qualquer momento. A Terra era o próximo alvo.

A mãe que eu nunca havia visto, exceto pelas fotografias, estava bem ali na minha frente, entregue ao relento.

Concluí que: não deveria ter saído da faculdade.

Engoli a seco. O que diabos eu devia fazer? Ajudá-la? Interrogá-la até sua morte? – que, pelo estado em que se encontrava, provavelmente não demoraria muito a chegar – Deixá-la para lá e pensar em uma maneira de tirar tanto eu quanto Batman da furada em que tínhamos nos metido?

No fim das contas, meus joelhos escolheram por mim. Simplesmente caí como se tivessem cortado minhas pernas na metade. A expressão de Estelar não foi de surpresa, de afeto, de nada. Era como se já estivesse morta, apenas mantinha os olhos abertos, olhos cheios de olheiras e histórias.

O vestido que usava parecia muito bonito antes de ser rasgado e quase arrancado de si. O máximo que havia de pano só lhe cobria as partes íntimas e uma pequena porção dos seus seios fartos. Era mais fácil tentar supor o que não haviam feito com ela, em partida dos milhares de hematomas espalhados por seu corpo. Os cabelos, contudo, continuavam tão impecáveis e brilhantes como nas fotos. A respiração dela mantinha-se pesada, como se houvessem grades em seus pulmões. Onde estava todo o seu poder? Não era ela a mulher capaz de destruir planetas inteiros?

— Seu olhar me machuca. – Ela falou após um tempo. Só então me toquei que estava ali caída por vários minutos. Balancei a cabeça, desviando minha atenção para qualquer outra coisa que não fosse Estelar. – Mas não se preocupe... Acho que nada mais pode me machucar.

Não adiantaria perguntar se ela lembrava de mim. Duvidava que tenha sequer uma imagem minha na mente. Voltei a ficar de pé, analisando o máximo cada detalhe daquele lugar em busca de uma saída. Já que não poderia falar com ela sobre assuntos de meu interesse pessoal, decidi sanar toda a minha curiosidade acerca do que estava acontecendo.

— Quem são esses bichos idiotas e por que eles estão tomando posse do seu planeta? — Meu tom de voz e a seriedade com a qual pronunciei a frase devem ter a assustado um pouco, mas não a impediu de me responder.

— Eles são Psíons, uma raça alienígena que habita toda o sistema Vega, principalmente nas partes mais escuras de Tamaran. São conhecidos pelo título de Povo da Cidadela. Já haviam causado confusões por aqui, mas nada de proporções tão gigantes quanto isso... — Estelar mordeu o lábio inferior, como se algo de seu passado viesse em sua mente a fazendo sentir um gosto amargo na boca.

— Eles estão invadindo outros planetas de outros sistemas. A Terra é o próximo alvo. Por que diabos estão fazendo isso?

Seus olhos se arregalaram em um sobressalto.

— Vo... Você é da Terra?

Ignorei a esperança que enxerguei em seus olhos. Eu não queria, muito menos poderia sentir pena dela.

— Estou aqui para descobrir um meio de parar esses tais Psíons e quem sabe salvar Tamaran junto com todos os outros sistemas que estão em risco. Preciso saber exatamente o que eles querem com tudo isso, e por algum motivo, desconfio de que você saiba.

As fotos que tio Victor me mostrava passavam a ideia de que Estelar era uma super heroína centrada, confiante de si e muito poderosa. O que estava na minha frente não passava de uma mulher assustada e nem um pouco ciente do que seria o controle das suas próprias emoções. Ela teve de suspirar bem fundo, ignorando tudo o que tinha construído em sua mente para só então conseguir me responder.

— Eles se instalaram em Tamaran desde eras mitológicas e nunca aceitaram a monarquia. Rebelaram-se uma vez a mais de 30 anos atrás, mas não demonstraram revolta nem nada após o resurgimento do planeta. Tudo estava em sua mais perfeita até alguns meses atrás, quando os Psíons atacaram ao castelo e vários outros pontos de Tamaran. Eles estavam muito bem armados, mais inteligentes e fortes. Tomaram tudo em menos de um mês. — Lágrimas rolavam do seu rosto. Ela não parecia se importar em demonstrar fraqueza, o que me deixou ainda mais raivosa. — O mestre de todos eles chama-se Kaoth'El. Ao que pude entender, eles querem o Córtex Vega.

— Que seria...?

— Todos os planetas que se integram no sistema Vega possuem, em seu núcleo, uma espécie de chave chamada de Córtex Vega. Essa chave contém o poder de mil sóis. É essa chave de sustenta todas as formas de vida do planeta, é ela que nos dar força, que nos dar a cor da nossa pele... Com todas as Córtex Vega, os Psíons terão poder para destruir milhares de outros planetas, até mesmo galáxias inteiras.

É.

A coisa tava bem feia.

— Mas isso não faz o menor sentido! Por que sair destruindo planetas como se estivesse limpando a bagunça de um porão?! Qual o motivo deles? — Indaguei mais para mim do que para ela, perdida em meu próprio jogo mental. — Se eles nunca foram bem organizados bélica e intelectualmente, então há alguém por trás. Quem será esse maldito?! Seja quem for, quando eu encontrá-lo, irei fo...

— Quem é você? — Sua repentina pergunta feia em tom doce me fez parar com tudo para encará-la com olhos confusos.

Até então, a impressão que eu estava a guardar de minha mãe ia de mal a pior. Deveria deixá-la saber da verdade? Ao menos tentaria poupar seu sofrimento? Antes que eu pudesse falar alguma coisa, a porta que nos mantinha presas naquela sala azul explodiu, me jogando para o outro lado do local.

Ao menos, deveria agradecer e muito a Estelar pela boa resistência que a genética tamaraneana me proporcionava. Com o impacto contra a parede e dele para o chão, um ser humano comum quebraria, em média, algumas várias costelas. No mais, somente meu cabelo bagunçou.

A fumaça tomou conta de todo o recinto, fora o cheiro horrível e os vários disparos de armas laser. De repente, uma mão grande e grossa puxou-me pelo braço e me arrancou dali, fazendo-me correr com uma velocidade que nem mesmo eu com todo o meu treinamento possuía.

Trajando remendos do que seria seu disfarce de tamaraneano fora os vários hematomas que coloriam sua pele, papai parecia estar bem o suficiente para acabar com todo o exército de lagartos gigantes que corriam atrás de nós. Não fazia a menor ideia de como ele havia arrebentado as correntes que prendiam Estelar de maneira tão ágil ao ponto de estar carregando tanto sua mulher quanto boa parte das correntes, tudo isso em suas costas.

— Preciso que voe, Mar'i! NOS TIRE DAQUI! — Ele gritava para mim.

Eu nunca me senti tão mal em toda a minha vida. Na primeira vez em que meu pai precisou de mim, eu não pude ajudá-lo.

Do que adiantou então toda uma vida tentando impressioná-lo, toda uma vida querendo apenas algumas migalhas de sua atenção? Do que adiantou escolher um caminho o qual eu nem sabia do que se tratava ao fundo.

Ser um herói ia além da fama, do prestígio dos cidadãos, etc.

Abaixei a cabeça e me deixei ficar no chão, pronta para abraçar a morte e o fracasso, ambos de uma só vez.

— NÃO ENCOSTEM NA MINHA FILHA! — O grito ensurdecedor da mulher de cabelos de fogo ecoou por todo corredor. Cheguei a jurar que até quem estava fora do castelo podia ter escutado tudo em claro e alto som. De repente, Estelar se pôs de frente a mim, atacando todo bando de moradores da Cidadela com seus raios verdes e golpes de luta precisos.

— Rápido, Mar'i! Temos que sair daqui e voltar para a nave! — Olhei para o lado, quase sendo levada no braço pelo meu pai.

— Mas ela havia perdido os poderes... — Balbuciei, ainda impressionada com o tamanho poder que eu estava a presenciar.

Foi uma das primeiras vezes em que vi meu pai sorrir de lado.

— Eles não fazem a menor ideia do que ela é capaz de fazer.

Seguindo os passos de papai, continuei correndo, entrando de corredor em corredor, fugindo como uma louca daquele campo minado. Atrás de nós, era possível escutar os gritos dos Psíons que iam morrendo pouco a pouco atingidos pelos raios de Estelar.

Mesmo estando incrivelmente impressionada com toda a capacidade de força da minha mãe, eu não estava com tempo para pensar — nem a situação ajudava — no que aconteceria caso escapássemos todos com vida dali. Após descermos um enorme lance de escadas, estávamos bem perto do que seria a entrada principal do castelo. Logo o último sopro de chance de sobrevivência foi-se em vão quando vários lagartos gigantes ainda mais armados começaram a aparecer de todos os lados, atirando contra nós.

Eu desviava de grande maioria quando os mesmos quase tendiam a me acertar, contudo, já estava ficando cansativo para mim ao ponto de eu somente engolir a seco e contar com a ajuda de algum deus das minhas rezas malucas. Duvidava até que Estelar conseguisse nos tirar daquela.

Como em uma explosão silenciosa, várias gotas de sangue se espalharam pelo meu rosto e meu traje. Meu pai caía o resto da escadaria abaixo imerso em escarlate, a expressão da morte já habitava seus olhos...

Foi então que Estelar chegou ao local, e não somente um, como dois gritos ensurdecedores foram ouvidos por quem sabe a galáxia inteira.

Notas finais
Mar'i está a mercê de uma quase morte ao lado do que seria o fim do Batman, sem contar com uma mãe enlouquecida pela fúria. Cabe a família Grayson o destino de Tamaran e quem sabe, da Terra?