Notas iniciais
O caos que está a ameaçar não só a Terra como o universo inteiro finalmente é explicado. O problema é encontrar quem será capaz de deter esse martírio.

Mar'i

Quando vi Dick Grayson estirado no chão em meio sangue, por mais estranho que pareça, eu só consegui pensar no que estava se passando pela cabeça dele naquele momento. Dizem que quando morremos, um filme da nossa vida passa por diante dos nossos olhos, certo? A dura, porém divertida infância no circo, a trágica morte de seus pais, a vida como Robin, como líder dos Jovens Titãs, como Asa Noturna... Será que eu estava entre suas lembranças? E Estelar? Ela seria tão importante ao ponto de ser lembrada.

O fogo se abriu não mais para a minha direção, e sim para a de Estelar, a qual voava pelo recinto riscando o ar. Seus raios de energia iam em direção a todos os Psíons, atingido-os fatalmente quando os mesmos eram abatidos. Uma parte estava vindo em direção a mim e outra ao meu pai, provavelmente para me prender mais uma vez e acabar com os restos que sobraram do que seria o fim do Batman.

Eu não deixaria que aquilo acontecesse. Não mesmo.

Estendi meu olhar, levantando-me e descendo o resto das escadas, indo de encontro ao corpo aparentemente sem vida. Eu sabia que não podia fazer muito como Estelar já que meus poderes não estavam ao meu alcance. Contudo, já estava farta de fraquejar, de me sentir tão impotente. Eu havia sido treinada para ingressar no maior grupo de super heróis que o universo já tinha visto. Era hora de pôr tudo em prática.

Meu "cardápio" de luta era incrivelmente variado e adaptado para uma vasta gama de situações. Não estava lembrava se havia aprendido algo que pudesse me ajudar contra alienígenas com cara de lagarto e carne extremamente dura, porém, mesmo sentindo dor nos punhos e nas pernas com todos os socos e chutes que eu dava, tentando ao menos afastá-los de meu pai, eu não parava por nenhum segundo sequer. Os golpes não causavam muito efeito além de fazê-los cambalear, e a situação ficou pior quando percebi que os Psíons voltaram a sacar as armas e mirá-las em minha direção.

Foda-se. Eu precisava proteger meu pai. Ou o que tinha sobrado dele.

Proteger... Seria isso então?

Em um piscar de olhos extremamente rápido, todos os infelizes já estavam no chão, deixando o chão do salão coberto por uma mistura nojenta de sangue humano com... Algum tipo de líquido verde estranho. Cabeças e outros membros eram encontrados fora de seus corpos em um cenário de guerra horripilante.

O choro de Estelar tornou-se ainda mais audível quando a mesma pôs meu pai em seus braços, sacudindo-o em um ato desmedido de esperança.

— Por favor, Dick... Não faça... Não faça isso comigo... Não parta... — Ela dizia freneticamente enquanto sujava todo o seu corpo com sangue.

Aproximei-me da cena, sem saber se estragava o momento ou se realmente fazia o que tinha de ser feito. Entre as situações, preferi centrar-me e suspirar fundo para não derramar nenhuma lágrima sequer. Com um gesto de cabeça, pedi para que ela parasse de balançá-lo e Estelar me obedeceu com certa relutância. Em uma tentativa quase que em vão, procurei pelo pulso de Dick.

Nada.

Tentei mais uma vez. Peguei-me rezando mentalmente para quem quer que fosse.

Nada... Até que uma pequena palpitação fez o meu coração bater loucamente.

— Ele ainda está vivo! — Gritei. Só depois de um tempo percebi que as lágrimas escapavam dos meus olhos como se houvessem ligado uma torneira. Ahn, foda-se!! — Rápido!! Vamos embora daqui antes que os cuzões voltem atrás da gente!!

O olhar de Estelar ainda estava perdido, ora me encarando ora pousando seu olhar sobre seu já pálido ex amante. Só depois de mais tiros serem chicoteados para o alto que ela conseguiu agir, segurando-me pela cintura sem que eu esperasse por aquilo e levantando voo, atravessando o teto dos vários andares até chegar ao lado de fora.

Confesso que se eu não estivesse treinando meu controle emocional desde antes do meu pai receber um tiro, eu provavelmente estaria em pânico naquele momento.

— Não vamos conseguir! — Explodi quando começamos a nos distanciar do castelo. — Eles têm a guarda do seu castelo por dentro e por fora de uma maneira que...

— Eles não irão nos pegar, confie em mim.

Sua voz passou uma seriedade e poder tão grande que não falei mais nada, apenas apontei as coordenadas de onde estava a nossa nave. Por um milagre o qual nem sei descrever, conseguimos chegar.

Com o programador que havia no relógio de pulso do meu pai, desativei a camuflagem da nave, deixando-a visível.

— Ko... Kori... — De repente, a quase apagada voz de meu pai quebrou o silêncio, fazendo com que eu e Estelar o colocássemos cuidadosamente no chão e tentássemos o ouvir, ambas com o coração apertado.

— Estou aqui, meu amor! Estou aqui! — Jogando-se em cima de meu pai, o rosto de Estelar já se encontrava manchado de vermelho, como se seus cabelos e a mesma fossem um só. Ela parecia não se importar.

— Cuide... Cui... Mar'i... Por favor...

— Você vai sobreviver, Dick Grayson! Eu sei que vai! Você já passou por coisas bem piores e... — Após alguns segundos em silêncio, o olhar dela foi de encontro ao meu. — Ele realmente não irá resistir uma viagem até a Terra. Dick terá de ser tratado aqui.

— Mas como diabos quer fazer isso? — Manifestei-me.

— Eu tenho um plano.

Entramos todos na nave. Tive de rasgar um pedaço do meu disfarce de escrava tamaraneana para limpar os ferimentos de meu pai além de tentar acelerar o processo de estancamento. Estelar pilotava a nave como se ela mesmo tivesse a projetado, o que me fez perceber do seu vasto conhecimento para com essas coisas. Apesar dos pesares, ela mostrava seu valor nos pequenos atos, isso quando não estava tomada por seus sentimentos. A viagem foi conturbada e silenciosa, coisa que vi que era realmente de família. Ao fim, conseguimos chegar no tal local com pouca danificação na nave além de termos vida.

O local em específico era uma espécie de caverna.

— Estamos na parte mais isolada do planeta, a qual fica um tanto quanto distante da Córtex Vega, por isso esse lugar é tão... Sem luz.

"Sem luz" era o tipo de eufemismo próprio para quem não queria passar medo com a situação. O lugar era totalmente obscuro, imerso no breu. Nem havíamos saído da nave e já podia sentir as paredes lodosas e o aspecto de mofo.

Mal coloquei os pés no chão e já senti uma fraqueza sem igual, como se tivessem me batido novamente com a mesma força. Respirei fundo várias vezes para poder continuar acompanhando Estelar, a qual também parecia um pouco mais fraca, mas não deixava de caminhar em direção ao nada com meu pai caído e todo sujo de sangue em seus braços. Depois de andarmos por mais de minutos na escuridão sem fim, Estelar parou abruptamente e começou a pronunciar palavras bastante esquisitas em forma de sussurro. Em menos de segundos, uma chama de fogo vívida apareceu em meio ao negro, aproximando-se de nós. Várias outras chamas apareceram, nos deixando ver o que havia por trás de toda a escuridão.

Tamaraneanos de todas as idades e tamanhos. Agrupados nos interiores daquela caverna que até que era grande em comparação para o tanto de gente que havia ali dentro. Tochas feitas de um material escuro e aparentemente resistente queimavam grudadas nas paredes de pedra. Alguns comiam umas criaturas estranhas, outros estavam somente encolhidos no canto. Quando perceberam que era Estelar quem estava a chamar por eles, todos se curvaram instantaneamente.

De repente, um dos que estavam sentados no canto mais escuro aproximou-se de nós. Tratava-se de uma tamaraneana bastante idosa, com os cabelos brancos arrastando no chão, mais parecendo um vestido do que o próprio cabelo. Seu olhar era extremamente doce. Após trocar algumas outras palavras estranhas com Estelar, dois robustos guerreiros — ao menos era o que eles pareciam — se juntaram a conversa, estendendo os braços para que pudessem carregar meu pai e levá-lo para algum lugar. Em uníssono, todos gritavam algo como "Kihia'pak".

— Ei, ei, ei! — Exclamei várias vezes, me metendo entre Estelar e a idosa. — Para onde estão o levando? O que diabos estão dizendo?

— Oh... Você não entende, não é mesmo? — A expressão da mesma foi serena, como se realmente achasse que eu saberia do seu idioma esquisito. — Vamos cuidar disso agora mesmo.

Mais palavras foram trocadas, o que me deixou ainda mais furiosa. De repente, a velha puxou a ponta do meu vestido, fazendo minha atenção se voltar para ela. Com um gesto delicado vindo de sua mão trêmula e esquelética, ela pediu para que eu me abaixasse para poder ficar no mesmo nível. Tive de me ajoelhar e ainda pender um pouco a cabeça para baixo para que pudesse realizar seu desejo — que pensando bem, não sei porque o realizei sem mais nem menos -. Sem que eu pudesse esperar, a velha puxou-me pelo rosto e me tascou um beijo bem na boca.

Por incrível que pareça, ainda consegui empurrá-la com cuidado para não machucá-la. Quando voltei a ficar de pé, tive de ser detida por Estelar para não chutar aquela bizarra para longe. Foi então que Estelar após rir um pouco pediu para que eu falasse.

E lá estava eu falando o tal idioma estranho o qual só o tinha escutado ali mesmo.

Arregalei os olhos. Aquilo era uma espécie de poder?! Era só beijar e eu aprendia uma outra língua?! Estava cheia de perguntas e obviamente muito surpresa, mas no fim das contas só consegui pensar se voltaria a falar meu inglês normalmente.

— Sim. — Estelar não conseguia esconder o riso. — É só dizer isso para a sua mente. Essa técnica é comum em todos os tamaraneanos...

Senti-me um tanto boba por não saber daquilo. Eu nunca tinha tido curiosidade de pesquisar sobre minha descendência nem nunca tinha sido informada sobre aquilo por meu pai ou tio Victor. Eles me pagariam por todos os segredos escondidos.

Todos ainda falavam Kihia'pak e encaravam o nada escuro para o qual meu pai havia sido levado. Só então eu entendi.

— Quer dizer "príncipe que retorna"... — Era para aquilo ser um pensamento, mas acabou saindo mais alto do que eu gostaria.

— Sim, exatamente isso. — Havia certo pingo de orgulho nos olhos de Estelar, o que me deixou totalmente desconfortável. — Estão indo tratar do seu pai para que ele sobreviva. Sobraram poucas ervas medicinas desde o início dos ataques dos Psíons, mas a sacerdotisa Karan'u disse que temos o suficiente para salvá-lo.

Senti-me um pouco menos preocupada, o que me fez respirar melhor. Consegui enxergar algumas partes daquela situação com clareza. Outras, nem tanto.

— Onde estamos? O que é isso tudo? — Apontei com o queixo para o povo surrado da caverna.

— Não fazíamos a menor ideia de que esse ataque iria acontecer. Quando ele começou, guiei meu povo, ou pelo menos a única parte que estava ao meu alcance, para este lugar. Como eu falei, estamos na parte mais afastada do Córtex Vega. O povo da Cidadela não tem interesse nenhum aqui, o manteria todos seguros. Infelizmente, poucos conseguiram escapar. — Sua cabeça baixou por alguns instantes. Indicou com a mão um canto mais afastado de todas as pessoas, onde uma fogueira crepitava fracamente. Formos até lá e nos sentamos no chão. Lutei contra meus instintos de nojo por estar sentada em lodo gosmento. — O sistema Vega, o qual está inserido Tamaran e mais 3 planetas, é dono de uma das maiores fontes de energia de todo o universo. Por isso os tamaraneanos são de uma cor tão dourada e possuem poderes voltados ao calor, a paixão... É como se as pessoas do signo de Áries na Terra pudessem ganhar poderes baseados em sua personalidade. — Não consegui deixar de rir daquilo. — Nós, tamaraneanos, além dos outros habitantes dos outros planetas do sistema Vega somos bastante parecidos fisicamente. Enfim. — Estelar pôs sua atenção nas chamas que vinham da pequena fogueira. — Como eu te falei no castelo real, todos os planetas do sistema estão conectados pelo Córtex Vega. Estes ficam alojados no núcleo do planeta. — A sua mão fechou-se em punho. — Antes de me prender, Kaoth'El, em uma tentativa estúpida de vangloriar seu plano, contou-me seu objetivo.

— Deixe-me adivinhar: pegar todos os Córtex Vega e em seguida acabar com os planetas e todo o sistema? — Ela concordou. — Ok, mas qual o motivo isso? E outra, ao que tudo indica, os Psíons foram os mesmos que destruíram OA e são os mesmos que estão tentando acabar com a Terra.

— O planeta Terra não possui tal tipo de informação por ser um dos únicos planetas do universo a não fazer parte ao conjunto de interligação galáctica. — Seus olhos encontraram os meus, e só com aquele olhar eu pude sentir todo o peso do que ela estava para dizer. — O que acontece, Mar'i, é que todo o universo está em guerra. Uma guerra que começou há muito tempo, mas só agora resolveu começar com os estragos. Os Psíons pretendem criar uma arma poderosíssima que possa destruir galáxias inteiras em menos de segundos. Tudo isso para depois venderem para os verdadeiros chefões da guerra. Eles não se importam se precisam aniquilar planetas inteiros para conseguir tal poder. — Mordeu os lábios como se estivesse segurando o choro. — Eu soube da destruição de OA. Eles também possuíam um tipo de energia similar com a do Córtex Vega... Mas eu não sabia que o povo da Cidadela estava atacando a Terra. Desde que formos atacados, não recebi mais nenhum tipo de comunicado da Liga da Justiça...

— Isso porque todos estão na fronteira da atmosfera com o espaço protegendo a Terra, além da outra parte que se encontra em outros planetas prestando socorro. — Falei rispidamente mesmo sem perceber. Sua virada rápida de cabeça em minha direção me fez perceber a revolta que ela sentiu ao escutar aquilo.

— Por que fala como se eu tivesse culpa em alguma coisa?

— Vai mesmo querer continuar com todo esse seu teatrinho de que não sabe quem eu sou? — A boca de Estelar permaneceu aberta, como se quisesse ter dito alguma coisa, mas logo após o meu afronte, a mesma fechou-se quase que instantaneamente. — Acha que não sei de tudo o que você fez? De quem você abandonou? De como abandonou? De como se mostrou fraca e totalmente despreocupada com suas ações?

— Você parece não saber de nada, Mar'i.

— Como é?! — Gritei, erguendo-me em um salto. Fiquei de frente para ela, sem me importar se estava sem meus poderes totalmente indefesa contra a grandiosa Estelar de quem todos falavam. Foda-se isso. Foda-se tudo o que diziam sobre ela. — Durante minha vida inteira eu ouvi histórias de como a poderosa Estelar foi uma heroína fundamental na Terra, de como a Terra, o país que está nas mãos desses caras que surgiram no seu planeta imundo, — Gritei aquilo com toda a força dos meus pulmões. Pena que os maltrapilhos não iriam ouvir nada. — a acolheu como uma de nós, de como o seu amor por meu pai foi lindo e todas as outras babaquices que aposto que inventaram ao seu respeito só para que eu não crescesse com uma ideia errada a respeito de quem me deu a luz. Mas adivinha só! Por mais que fantasiassem sua pessoa, eu sempre soube que tipo de ser você é, Koriand'r. Você foi a mulher que abandonou o homem que te amava, o país que te acolheu quando todos de Tamaran te viraram as costas, os amigos que tanto zelaram por você e te ajudaram, a filha que você somente pariu e deixou para lá como se não significasse nada. É isso mesmo o que você é para mim. Não uma mãe, não uma heroína, não uma rainha. Você é simplesmente nada.

Quando me dei conta, todos os olhares da caverna estavam voltados para nós. Estelar não havia movido nenhum músculo nem sequer levantou o olhar para mim. Escutou todo o meu escândalo de cabeça abaixa, digerindo palavra por palavra da sua maneira. Depois de um bom tempo, quando eu já estava sentindo dor de cabeça e medo da aproximação dos tamaraneanos que obviamente estavam a me ver como uma ameaça, ela levantou-se de onde estava e ficou tão próxima a mim que pude sentir o cheiro das lágrimas que começaram a nascer em seus olhos.

— Me... Me descul...

Era isso o que eu queria? Que ela se arrependesse de tudo o que fez e ajoelhasse diante de mim beijando meus pés? E se ela fizesse aquilo, o que aconteceria depois? Eu seria capaz de perdoá-la? Eu sabia o que eu queria: queria fazer parte da Liga da Justiça, queria estar recebendo glórias comparadas as recebidas pelo Super Homem, queria mostrar a Richard Grayson, ex Robin, ex Asa Noturna e atual Batman que sua filha, Mar'i Grayson, de quem tanto duvidara, havia conseguido se tornar o ser mais poderoso a Terra, centro de todas as atenções. A meta era essa desde o início, e não entrar para o grupo babaca dos Jovens Titãs ou enfrentar uma ameaça alienígena capaz de destruir tudo o que conhecia, muito menos dar de cara com a idiota que eu infelizmente tinha como mãe.

Tudo estava errado. Minha vida parecia estar deslizando como pedras de gelo no topo de uma montanha. Eu era uma avalanche.

A atenção mudou de foco quando a caverna tremeu durante alguns milésimos de segundo. Passos eram escutados desde o início da caverna até a parte em que estamos, e quando o fogo iluminou a grande letra S estampada em seu peito, pude sentir não só a fraqueza por estar longe da fonte de poder dos meus descendentes, como também a mistura de ódio e esperança que todos ali estavam sentindo, inclusive minha mãe.

— Batman nos contatou antes de sumir pedindo reforços. — Super Homem falou. — Bom, eu sou a cavalaria.

Notas finais
Super Homem entra na jogada. Batman está entre a cruz e a espada. Estelar, totalmente desolada, tem um povo para governar. E tudo o que Estrela da Noite precisa fazer é aprender a controlar-se. Muita coisa pela frente é o que se pode esperar.