Eles vão até a casa do senhor Phipps. A entrada continua cercada pelas faixas amarelas, mas o movimento diminuiu bastante. Restando apenas um policial para supervisionar a cena do crime.

Eles tocam a campanhia e uma mulher atende. Era loira, jovem, seus cabelos estavam bagunçados e seus olhos inchados. Olhou para eles um pouco confusa.

—Quem gostaria?

—É a senhora Phipps?- Lucy perguntou.

Ela assentiu.

—Gostariamos de falar com a senhora. — Skytte disse mostrando seu distintivo. -Sou o agente Skytte e essa é a doutora Reine.

—Claro — disse dando espaço para eles entrarem- Desculpem-me a bagunça, mas esses dias tem sido uma loucura...

—Tudo bem — Lucy disse — Deve estar sendo bem dificil para você.

—Você nem imagina...

Eles chegam na sala. Um menininho loiro que nem a mãe jogava video-game.

—Luke, querido, porque não vai brincar no seu quarto? Mamãe tem que conversar com essas pessoas.

Ele concordou e foi para o quarto. Eles se sentaram e começaram a conversar.

—Seu filho é bem comportado senhora Phipps.- Lucy disse.

— Ele é um bom garoto... Ainda não consegue entender o que está acontecendo... — Falou visivelmente abalada. -E eu sinceramente não sei como vou explicar para ele.

—Às vezes a melhor forma é ir diretamente ao assunto. — Skytte disse sério. -Senhora Phipps, poderia me dizer o que se lembra daquele dia?

—Bem... — pensou- Não muito, tomamos café da manhã juntos, Henry saiu, mas não me avisou para onde ia, disse que voltaria para ver a apresentação do Luke. Falou para que eu já fosse indo. Eu achei estranho quando ele não apareceu, e quando cheguei em casa as viaturas estavam aqui.

—Seu marido costuma sair sem avisar?-Skytte perguntou.

—Ele gostava de ter um momento sozinho...- Ela disse desconfortavel.- Não gostava quando eu fazia muitas perguntas.

—Havia alguém com motivos para matar seu marido?

Senhora Phipps ficou surpresa com a pergunta e demorou um tempo para responder.

—Não consigo imaginar porque alguém o mataria...

—E quanto ao seu ex...- Lucy perguntou.

—Hunter?- Falou surpresa.

—Conversamos com a sua sogra e ela disse que você tinha um ex-namorado ciumento. -Lucy disse.

—Ahnn... -Suspirou. — Hunter era ciumento. Ele foi meu primeiro namorado, ficamos juntos por muitos anos, mas ele começou a se meter em coisas erradas e eu decidi que aquilo não era para mim.

—Coisas erradas?

— Gangues, drogas, tráfico... Não nascemos no melhor bairro do mundo.

—Desculpa interromper...- Skytte disse.- Mas posso usar o banheiro?

—Claro... -A senhora Phipps falou. — Fica no segundo andar á direita.

— Obrigada.- ele se levanta e sai.

Lucy observou aquilo abismada. Não imaginava que Skytte interromperia um interrogatorio só para ir ao banheiro.

—Bem...- Lucy disse tentando retomar o assunto.- Você viu seu ex-namorado recentemente?

—Não.

—E quanto o ciúmes que a sua sogra mencionou?

—Isso...- Ela disse com uma voz cansada.- No dia do meu casamento, Hunter apareceu na cerimonia. Fez um escandalo, gritava que havia se tornado uma pessoa melhor e pediu para a gente voltar... Tiveram que tirar ele a força.

—Só mais uma pergunta... -Lucy disse pensando em como diria.- A senhora tem chá?

—Como? -A senhora Phipps perguntou ainda mais confusa.

—Sabe... Apesar de andar com um agente... — Ela disse sem graça. — Eu ainda sou médica e a senhora está claramente exausta... Então, se você não se importar, eu poderia preparar um chá para você?

A senhora Phipps não conseguiu aguentar e acabou rindo do jeito atrapalhado de Lucy. Ela a levou até a cozinha, onde Lucy começou a preparar a bebida.

—No começo eu estava preocupada que uma pessoa tão jovem seria a responsavel pelo o caso do meu marido... — A senhora Phipps disse com um sorriso amigável. -Mas agora eu vejo que apesar da idade você deve ser uma ótima medica.

— Ultimamente as pessoas têm duvidado muito da minha capacidade. — Disse rindo enquanto selecionava as ervas que encontrara na dispensa da senhora Phipps e esquentava a água no fogo. — Essa receita foi minha mãe quem me ensinou. Ela é perfeita para relaxar e melhorar a fadiga se quiser eu posso deixar a receita.

—Obrigada...

Enquanto preparavam o chá elas tiveram uma conversa corriqueira, sobre coisas do cotidiano. Lucy falou sobre a sua infância e da sua mãe solteira. E Kitty, como passou a chamar a senhora Phipps, contou sobre seu bairro e a sua vida antes de conhecer Henry.

—Então você e o senhor Phipps tiveram um casamento feliz?- Lucy perguntou bebendo um gole do chá.

—Mais ou menos... — Kitty falou experimentando o chá. -Nossa isso é uma delicia!

—Obrigada.

—Então... — retomou o assunto. -Nos tínhamos as nossas brigas, mas ultimamente ele tem agido estranhamente... Saia a noite, voltava tarde. Não me contava mais nada.

—Não se preocupe, quando descobrirmos o que aconteceu iremos lhe contar...

—Espero que sim.

Lucy percebeu que Skytte ainda não havia voltado.

—Estranho. Skytte ainda não voltou.Tudo bem se eu for procura-lo?

—Tudo bem, deixa que eu te mostro o caminho.

Elas subiram as escadas e no corredor, ao lado do banheiro, Lucy presenciou uma cena que a deixou chocada. Skytte estava brincando de carrinho com o filho da senhora Phipps, e parecia estar se divertindo.

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Skytte subiu as escadas e foi ao banheiro. Olhou nas prateleiras e gavetas. Encontrou calmantes e aspirinas. “A senhora Phipps devia estar estressada já há algum tempo...” pensou olhando para o frasco praticamente vazio de calmantes. No kit de primeiro socorros as ataduras estavam abertas e quase no final. “Será que alguém se machucou recentemente?”

Depois de dar mais uma olhada no banheiro, decidiu voltar. Não sabia se ia dar certo deixar a Lucy seguir com o interrogatorio sozinha. “Provalvelmente ela vai se confundir e começar a falar coisas esquisitas e acabara assustando a senhora Phipps” Pensou enquanto lembrava-se em como a Lucy ficava nervosa quando ficava sozinha com pesssoas desconhecidas. Nessas horas ela começava a agir por impulso e muitas vezes acabava se metendo em problemas por isso.

Saiu do banheiro, mas antes que pudesse continuar o caminho, uma pequena criaturinha loira entrou na sua frente.

— Você é policial?- Luke perguntou.

—Sou. -Tentou continuar o caminho, mas Luke o impediu novamente.

—Você tem uma arma?

—Sim. — Disse sem paciência.

—Já matou alguêm com ela?

Skytte suspirou percebendo que não seria facil sair dessa situação.

— O que você quer?

—Me ajuda a montar meus trilhos de trem... -Falou fazendo cara de cãozinho abandonado. — Por favor?

Skytte suspirou novamente.

—Promete me deixar ir depois disso?

Luke concorda e os dois vão até seu quarto montar os trilhos. Skytte começa a montar, a ferrovia era bem grande e dava a volta pelo quarto.

—Eu tinha um desses quando mais novo...- Disse se lembrando das horas que passara tentando montar aquilo.

Sem perceber Skytte perdeu a noção do tempo. Montou os trilhos, colocou os trens para funcionar e continuou ali brincando com o Luke. Apostavam qual trem chegaria primeiro á estação e em meio as risadas Luke repetiu a sua pergunta.

—Skytte, você já matou alguem?

—Já... -Skytte disse sem saber como falar. -Mas ele era um homem malvado, não tive escolha senão ele continuaria a machucar as pessoas a sua volta.

—Então você deveria matar o papai.

Skytte ficou surpreso ao ouvir aquilo, mas antes que pudesse perguntar viu a senhora Phipps aparecer na porta. Ela e Lucy tinham um sorriso divertido no rosto.

—Vocês parecem estar se divertindo -disse a senhora Phipps.

—Desculpe-me senhora Phipps, seu filho me pediu para montar os trilhos...

—E você acabou se empolgando.-Disse Lucy contendo o riso.

—Não!

— Perdoe o transtorno Kitty, mas agora temos que voltar ao trabalho...- Lucy interrompeu Skytte.

Eles foram até a porta.

—Cuide-se bem Kitty.-Lucy se despediu.

—Eu vou- ela disse.- Prometo te avisar se encontrar alguma coisa.

—Digo o mesmo.

Skytte se desculpou e eles foram para o carro. Mas foi só a porta do carro se fechar para o som das gargalhadas de Lucy ecoar.

—Não começa... – Skytte tentou impedi-la.

—Nunca imaginei que veria o senhor Rabugento se divertindo enquanto brinca de trenzinho.-Lucy disse.

—Eu não estava brincando...- Disse bravo.- Era parte da investigação.

—Sei... — Falou cinicamente. — E o que descobriu?

—Bem...-Skytte ficou pensativo.- Além do obvio, que a senhora Phipps está exausta. Também descobri que o santo senhor Phipps não era um bom pai...

—Como assim?

—O filho da senhora Phipps parece ter medo do pai. Disse que ele era um monstro...

Skytte olhou para Lucy para ver a sua reação. Ela olhava para o horizonte, parecia preocupada.

— Você não devia se torna tão intima dos envolvidos no caso... — Disse tentando esconder a sua propria preocupação com ela.

—Eu sei... — Ela suspirou. -Eu só sinto que ela não está contando tudo, parece que ela vive com medo...

—Vamos resolver esse caso.- Disse firme.- Preciso que você esteja concentrada para isso.

—Sim, senhor...- Falou sorrindo um pouco.

Eles ficaram em silencio por um tempo até que Lucy se pronunciou.

—Droga!- Falou brava.- Deveria ter tirado uma foto. Ninguém vai acreditar em mim quando eu contar que vi você brincando com uma criança.

—Cala boca!- Disse constrangido.

—Não fique envergonhado Skytte. Você ficou extremamente fofo brincando com trens.

Skytte resolveu nem responder.

—A proposito aonde a gente está indo?

—Hunt quer nos encontrar no IMC para discurtimos como localizaremos o traficante do senhor Phipps.

—Ahn...

Encontraram Hunt na cafeteria do IMC, que aquela hora estava praticamente vazia .

—Olá super-dupla. -Hunt falou enquanto bebia café. — O que descobriram?

—Que Skytte vai ser um ótimo pai. — Lucy disse se sentando em frente a ele.

Ao ouvir aquilo, Hunt cuspiu todo o café.

—Você está gravida?- Falou assustado.

—Como?!- Lucy disse chocada. — De onde você tirou isso?Acha que eu sou louca?

Skytte que ouvia tudo aquilo não sabia se ficava ofendido com o comentario de Lucy ou abismado com a ideia de ser pai do filho dela. “Será que teria os olhos dela?” Esse pensamento passou pela cabeça de Skytte, mas foi afastado rápidamente.

—Não é nada disso Hunt...- Skytte se pronunciou.- Nós não temos nada. É só uma brincadeira da Lucy porque ela me viu brincando com o filho da esposa da vítima.

—Porque você me pareceu decepcionado?- Hunt disse com um sorriso malicioso.

—Vamos falar do caso!

Lucy olhou confusa para Skytte sem entender nada.

— Okay, okay...Vamos trabalhar.- Hunt disse desistindo da discução.

—Faz alguma ideia de como vamos encontrar o traficante?- Skytte pergunta.

— Isso não é mais um problema. Usei a minha fonte na narcoticos, e descobri o nome do traficante naquela área. Se chama John Daniel Thompson conhecido como J.D.

Você o encontrara em um beco perto de um prédio abandonado duas ruas do trabalho da vítima. Peixe pequeno, vive entrando e saindo da cadeia. Nunca foi preso por assassinato mas a sua lista de pequenos delitos é bem... Extensa.

—Legal. Quando vamos atrás dele?- Lucy pergunta animada.

—Nós?- Skytte fala olhando cético para ela.- Você não vai comigo de jeito nenhum. É perigoso, e eu não quero ter que ficar de babá.

— Eu sou sua parceira! É claro que eu vou.- Falou brava.

—Não mesmo. — Insistiu.

Os dois olham para Hunt esperando um veredicto.

—Skytte.- Ele fala coçando a cabeça. Se sentia um pai interferindo na briga de irmãos- Deixe a Lucy ir com você. Se não ela nunca vai aprender.

—Mas é perigoso!

—Eu acredito que você consegue protege-la de um traficantizinho de merda. Não é?

Os dois olham para ele.

— Sim...- Fala desistindo.

— Eeeeeh!- Ela comemora.

— E você senhorita Reine, se não se comportar nunca mais irá á campo.

—Sim, senhor!

— Agora que nos resolvemos, me contem o que descobriram...

Eles contaram tudo o que aconteceu.

— Parece que vão ter que ir atrás do ex-namorado...- Hunt fala pensativo.

—Em minha opinião não faz muito sentido. — Lucy diz preocupada. — Pelo que a Kitty me contou, eles não se veem á anos.

—Kitty?- Hunt pergunta.

— A senhora Phipps...- Lucy fala constrangida.

—Não vou falar nada...- Hunt repreende Lucy.- Existe alguma chance da própria senhora Phipps ter feito isso?

—Não. — Skytte responde. — Também pensei nessa possibilidade, mas ela estava na apresentação do filho. Alguém teria percebido sua saída.

— E se ela tivesse contratado alguém?- Falou sério. — Já vi muitas esposas fazerem isso.

— O que ela ganharia com isso?- Lucy respondeu. — Aparentemente todo o dinheiro do seguro vai para a mãe dele. A senhora Phipps não chega perto das contas da família a anos, seu marido dava uma mesada para ela.

— E mesmo se tivesse acesso, não encontraria nada. Eles estão falidos.- Skytte disse.- A senhorita Bonny investigou as contas deles. E o senhor Phipps gastou todo o dinheiro deles.

— Então, por enquanto o mais provavel é que o traficante, não ficou nada feliz em não receber o dinheiro por seus serviços...- Hunt disse.- Enquanto vocês vão lá falar com ele, eu vou conversar com os vizinhos. Ao contrario do que você pensa Skytte, vizinhos curiosos são muito uteis, príncipalmente em casos que envolvem famílias “perfeitas”.

—Sinta-se a vontade. — Skytte perguntou.- Lucy o laboratorio descobriu mais alguma coisa?

—Não…- disse distraida- Tirando o fato que a condição financeira deles não está nada bem. Mais nada. A cena era bem simples, um homen que morreu baleado.

— E o sapato?

— Acho que era um pedido de desculpas, por ter brigado com a esposa...- Disse Hunt.

— Provalvelmente.- Lucy disse.- A senhora Phipps me contou que ele sempre dava presentes depois das brigas. Talvez por isso que a sogra dela, ache que ela é uma consumista...

— Não importa o que a sogra dela pense, o senhor Phipps gastava mais do que devia. E dever para pessoas erradas pode levar á morte. Por isso andem logo e vão achar aquele traficante.- Hunt fala expulsando eles da cafeteria.

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— Eu ainda não acho uma boa ideia você vir comigo.- Skytte fala enquanto caminham pela rua descrita por Hunt.

Já estava de noite, e não havia viva alma por perto. Lucy tentava acompanhar os passos rápidos de Skytte.

— Eu nunca vou conseguir trabalhar direito em campo se não ganhar experiencia.- Disse determinada, apesar do frio fazer ela se encolher no proprio casaco.- Então por favor cale-se e aceite a minha presença.

—Se está com frio volte para o carro.- Disse se contendo para não entregar seu casaco para ela.

— Você já sabe a minha resposta.

Eles chegam no beco. Lucy involuntariamente se aproxima de Skytte, e ele aprova essa decisão. Assim que entram, um homem tenta sair. Skytte o segura pela mochila e o joga na parede.

— J.D?

—Não sei quem é esse.- fala sorrindo e levantando as mãos.

— Vai saber se eu abrir e confiscar o que tiver dentro dessa mochila?- Skytte fala agarrando ele pela gola da camisa e o levantando alguns centímetros do chão.

— Olha você não tem um mandado, e eu não posso me meter em encrenca. Se meu agente da condicional souber que fui parar em uma delegacia...

—Você é o J.D?- disse sacudindo ele sem paciência.

—Sim...- Disse revirando os olhos.

Skytte solta ele.

— Onde o senhor estava ás duas horas do domingo?- Lucy pergunta saindo de trás do Skytte.

—Olha o que temos aqui...- Fala sorrindo para Lucy.- Quem é essa policial adorável?

—Eu não...- Lucy tenta falar.

—Por favor responda a pergunta da minha parceira.- Skytte fala tentando parecer o mais calmo possível.

—Okay, ciumento... — Diz se divertindo com a expressão de Skytte. -Eu estava em casa, é meu dia de folga.

—Tinha alguém com você?-Lucy pergunta.

—Não. Mas se você estivesse comigo garanto que teria se divertido muito.

—Conhece um homen chamado Henry Phipps?- Lucy ignora o comentário impertinente.

—Phipps? Aquele idiota?- Fala deixando transparecer a sua raiva. — No começo era um ótimo cliente. Mas agora que tá falido, não paga mais nada e ainda tenta arranjar sem pagar. O tipo de desgraçado que sempre vemos por aí, falava para esposa que tava trabalhando mas na verdade estava aqui, jogado no beco.

—Ele não te paga. Então você resolve ir tirar satisfação... — Skytte fala impassível — Mata ele na frente da própria casa, pra ver se consegue assustar e ganhar algum respeito com os outros traficantes daqui. Acha que eles vão perder espaço para um traficantizinho patético como você?

—Calma aí...- J.D diz surpreso.- O desgraçado tá morto? Quem vai me pagar agora?

— Ótima atuação. — Skytte fala jogando ele na parede novamente.

—Não! É sério!- Ele grita desesperado.- Eu não o matei. Mal sei segurar uma arma, como você mesmo disse, eu sou peixe pequeno. O máximo que eu faria era tentar assustar um pouco. Talvez jogar um tijolo na janela, mas se eu o matasse teria que lidar com o meu chefe, teria que dar um jeito de arrumar o dinheiro que ele devia. Seria muito problemático.

— Sei... — Falou incrédulo.

— Mas eu sei quem poderia ter feito isso.

—Sabe?- Lucy fala surpresa.

— Olha... Eu nunca vi o rosto.- Disse cauteloso.- Mas ele vinha aqui e ficava observando do outro lado da rua. Sempre no mesmo horário que o Phipps vinha. Usava moletom e capuz.

— Eles sempre usam moletom e capuz...- Skytte fala sem acreditar em uma palavra que lhe foi dita.

—Eu estou dizendo a verdade!- disse aflito.- Achei suspeito e um dia persegui ele... Porém o infeliz foi mais rápido e eu perdi ele de vista. Em compensação ele nunca mais apareceu.

— Isso foi quando?- Lucy indagou.

— Há uns três dias...

— Ele fazia alguma coisa além de só observar?

— Algumas vezes ví ele ascender um cigarro...

Sem pestanejar, Lucy atravessa a rua correndo.

—Nem pense em sair daqui!- Skytte fala para o D.J e vai atrás dela

Lucy estava agachada, segurando uma pinça e saquinhos de prova.

— O que está fazendo?- Skytte pergunta se agachando ao seu lado.

—Provas.- Fala concentrada.- É uma rua pouco movimentada. Duvido que limpem com frequencia.

— Vou te ajudar.- Falou pegando uma pinça.- O que estamos procurando exatamente?

— Bitucas de cigarro...- Disse pegando uma bituca.- Lembre-se de colocar em sacos separados para não contaminar nada.

—Okay...

Lucy olha para trás.

— Acho que vamos ter que chamar uma equipe...

— Porque?

— Tem uma lixeira bem atrás da gente.- Disse séria.- Devemos analisar o lixo de lá tambem, procurar digitais, fios de cabelo, qualquer coisa.

Skytte solta um suspiro cansado.

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—Acorda.

—Ahn...- Lucy geme.

— Acorda. — Skytte fala cutucando as bochechas dela.

— Ahn? Skytte?- pergunta confusa.

Lucy havia adormecido no sofá da recepção do IMC enquanto esperava o resultado dos testes.

— Está na hora de levantar.- Fala sentando-se ao seu lado e entregando uma xícara de café para ela.

— Os testes já sairam?- Disse bocejando.

—Não...Você mandou analisarem quase uma tonelada de lixo.

— Precisamos de provas.

—Eu sei. Por isso devemos ir interrogar o namorado.

—Tá...- Falou coçando os olhos.- Vou lavar o rosto.

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Hunter Hoffman, ex namorado de Kitty, antecedentes criminais por posse de armas, tráfico e agressão. Foi solto á cinco anos. Atualmente trabalha como mecânico e vive em um apartamento pequeno em um bairro pobre.

— Quais são as chances de você ter que arrombar uma porta de novo?- Lucy fala apreensiva.

—Espero que baixas...

Skytte bate na porta. Depois de alguns segundos um homen alto e tatuado atende.

—Senhor Hunter Hoffman?

—Sim.- Fala receioso.

— Somos da policia. Gostariamos de fazer uma pergunta

Ele os encara surpreso, mas os deixa entrar. Lucy segue Skytte até a sala, onde se sentam.

— Sinto muito, mas não tenho nada á oferecer...- Fala se sentando na frente deles.

— Porque não está na oficina?- Lucy pergunta mais por curiosidade do que para fins investigativos.

—Meu chefe me deu um dia de folga, disse que eu parecia cansado e distraido. Ele é um homem bom, foi o único que me deu uma chance depois que fui preso.

— As pessoas não costumam confiar em criminosos.- Skytte disse seco.

— De onde eu venho, não costumam confiar em ninguém.

—Você e a senhora Phipps viveram no mesmo bairro não é?- Lucy fala.

—Por favor não chame ela pelo sobrenome daquele desgraçado...- Falou rancoroso.- Kitty e eu nós conhecemos desde sempre. A vida não foi fácil para nenhum de nós dois, sem dinheiro, pais negligentes, cercados de má influencia, eramos farinha do mesmo saco. Porém kitty nunca deixava-se corromper, ela é a alma mais bondosa e justa que eu já conheci.

—E como ela acabou ficando com um cara com você?- Skytte o provocou.

— No começo era diferente. Eu não queria nada, não precisava de nada, só viver a minha vida. Mas então eu percebi que ela era a minha vida,e o sonho de Kitty era terminar a faculdade, se casar e viver em uma casa de cerca branca... E para que eu pudesse dar isso a ela eu precisava de dinheiro, ganhar respeito e ter poder para protege-la.

—E acabou preso por isso...- Lucy disse sentindo pena dele.

— Entrei em uma gangue, e na primeira oportunidade eles me usaram de bode expiatório...- A frustração era explicita em seu rosto.- Fiquei sete anos preso, e quando sai Kitty já estava com outro. Tentei falar com ela mas...

—Ela não quis nada com um bandido como você.- Skytte disse.

— O marido dela usou os seus amigos juízes para arrumar uma ordem de restrição.- Disse furioso.- Não pude mais me aproximar de Kitty...

O celular de Lucy começa a tocar.

—Com licença preciso atender...- Fala levantando-se indo para fora.

—Você conhece um traficante chamado D.J?- Skytte prossegue o interrogatorio

—Não.

—Você viu a senhora Phipps recentemente?

—Não, mesmo se eu quisesse, ela não se aproximaria de mim.

— E sobre o vicio do senhor Phipps? As dividas? Sabia algo sobre os problemas que eles estavam passando?

—Não- Disse perdendo a paciencia- Já disse que não sei nada sobre eles á anos.

Lucy abre a porta.

—Skytte...- Ela estava palida.- Podemos conversar um instante...

—O que aconteceu...- Disse indo até ela preocupado- Você está bem?

— Eu devia ter desconfiado. — Suas mãos tremiam. — Kitty obviamente apanhava do marido, o senhor Phipps estava cada vez mais desesperado e passando por um período de abstinencia, uma hora ou outra uma tragédia iria acontecer. Era ela ou ele...

—Do que você está falando?- Disse segurando os ombros dela.

— O DNA encontrado nos cigarros, que batem com o DNA encontrado na carteira eram...

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As viaturas piscavam, os vizinhos cochichavam em voz alta e a cena do começo do caso se repetem. A diferença é que agora uma pessoa está saindo algemada e não numa maca.

—Senhora Phipps, você tem o direito de permanecer calada, tudo que falar poderá ser usado contra você no tribunal...- Skytte falava frio e automatico.- A senhora tem direito á um advogado, se não tiver como pagar, o estado fornecerá um para você.

Kitty chorava desesperadamente, Luke tentava ir atrás da mãe, porém Lucy o segurava. Skytte a algemava, enquanto Hunt apenas assistia aquilo inconformado.

—Não se sinta mal, é normal se apegar aos envolvidos nos primeiros casos. — Disse dando tapinhas nas costas da mais nova. — Com o tempo você aprende que não deve confiar em ninguém...

—Talvez eles tenham razão... — Disse olhando para a senhora Phipps. — Talvez eu ainda seja muito inexperiente.

—Isso não torna você pior do que qualquer outro agente por aí. Reconhecer seus erros é a melhor forma de aprender.

—Obrigada.

Um carro estaciona próximo á casa. Hunter desce desesperado, ele aponta a arma para Skytte.

—Hunter o que está fazendo?- Kitty pergunta assustada.

—Abaixa a arma- Hunt fala apontado a arma para Hunter

— Solta ela...- Ele não abaixa.

—Olha, calma Hunter, eu tenho certeza que você não quer voltar para a cadeia...- Skytte fala tentando acalma-lo.

Lucy não sabia o que fazer. Tudo acontecia tão rápido.

—Fui eu! Fui eu que matei Henry Phipps!- Disse desesperado.- Então porque estão prendendo ela?

—Você não pode assumir a culpa por ela...

—Eu não estou assumindo nada. Eu que atirei nele, eu que joguei a carteira, eu que seguia ele. Fui eu!

—Como vai provar isso?- Lucy se pronunciou.

Hunter suspira e joga a arma no chão

—Essa é a arma do crime. Tenho certeza que vão conecta-la com as balas...

—Porque você fez isso?- Skytte perguntou, soltando Kitty.

—Eu não tive escolha, era ela ou ele...- Disse enquanto Skytte o algemava.- O desgraçado ia matar a Kitty! Ele queria contratar um assassino e depois ia ficar com o dinheiro do seguro dela...

Ao ouvir aquilo, Kitty desaba aos prantos, Lucy vai até ela e tenta acalma-la.

—Eu o encontrei mes passado se drogando naquele beco nojento em plena luz do dia...- Disse encarando Kitty.- Eu não aguentei ficar longe e comecei a segui-lo. Descobri o que ele fazia com você, o quanto ele a fez sofrer...-Não conseguia conter a raiva.- A gota d´agua foi quando eu o ouvi conversando com um cara no bar, sobre matar a esposa e ficar com o seguro. Ele ia usar o dinheiro da faculdade do Luke, para matar você Kitty...

Skytte o colocou dentro da viatura e o mandou embora. Ele se voltou para Lucy que estava abraçada com Kitty na calçada.

—Venha senhora Phipps, eu a levo para dentro...- Hunt disse ajudando ela a se levantar.

Ela e Lucy se encaram, não sabiam o que dizer uma a outra, então simplesmente se despedem. Kitty entra na casa e Lucy encara Skytte com uma expressão horrivel.

—Tinhamos mesmo que fazer tudo isso?-Lucy fala abatida.- Não poderiamos simplesmente usar o DNA da carteira e do cigarro para incrimina-lo... Precisavamos fazer todo esse shownzinho?

—Ainda não tinhamos a arma do crime, melhor coisa que podiamos fazer era arrumar uma confissão...- Disse sério.- Fizemos o que deviamos fazer.

—Então porque me sinto péssima?

—Um homem morreu, uma criança perdeu o pai, um homem de boas intenções perdeu o amor de sua vida e a sua liberdade pela segunda vez e uma mulher viu tudo que acredita desmoronar sob os seus pés. É díficil alguém sair feliz com tudo isso.

Lucy não sabia como responder, apenas entrou no carro e foi para o IMC para encerrar aquele caso.

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Quando saiu do IMC já era de noite, o céu estava cheio de estrelas e a lua brilhava intensamente. Mas apesar daquela linda noite, Lucy só queria ir para casa, sem milk-shake ou comemorações. Só estava esperando Skytte aparecer com as chaves.

—Olha que eu achei...- J.D apareceu do nada e foi até ela.

— J.D? O que está fazendo aqui? Como me achou?- Perguntou surpresa.

—Eu me esforço quando é algo do meu interesse.- Disse sorrindo divertido

—O que você quer?- Falou desconfiada.

— Só uma chance de sair com você...- Falou se aproximando e a encurralando na parede.- Garanto que você vai se divertir muito, Lucy.

—Sinto muito mas ela já tem planos para essa noite...- Skytte aparece e a puxa pela cintura, abraçando ela.

—Como? Com você?- J.D fala cético.

—Isso mesmo!- Fala abraçando Skytte desesperadamente. — Ele é meu namorado, e eu o amo muito.

J.D apenas sai dali frustrado.

—Não precisava ter exagerado... — Skytte fala tentando esconder o rubor de suas bochechas.

—Desculpa... — Ela fala envergonhada. — É que eu entrei em pânico...

— Deu para perceber...- Ele disse coçando a cabeça constrangido. Seu coração batia rápido por causa das palavras de Lucy, e pela proximidade.

Skytte se afasta um pouco e Lucy faz o mesmo.

—Acho melhor você me deixar em casa logo...-Ela fala olhando para o céu.

—Eu não menti.- Ele disse olhando para ela.- Sobre você ter um compromisso. Dessa vez vamos fazer que nem adultos normais e vamos sair para beber depois de um dia díficil.

—Ah, não!- Ela disse surpresa.- Minha resistência ao álcool é péssima, sempre acabo passando vergonha.

—Você não tem escolha, o carro é meu... — Diz arrastando ela. — Além disso, você me deve uma por todo estresse que me faz passar.

—Skytte!

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— Eu devia ter imaginado que iria acabar desse jeito...- Skytte falava enquanto tentava tirar Lucy do carro.

Depois de dois copos, ela já estava completamente alterada. Assim que entraram no carro, Lucy apagou, e agora que chegaram Skytte tentava dar um jeito de colocar ela dentro de casa.

Decidiu carregar ela nas costas.

—Skytte...- Lucy sussurrou próximo ao ouvido dele.

—O que foi? Você não estava dormindo?- Ele falou sussurrando involuntariamente.

—Você se lembra daquele dia no parque?- Ela disse apertando mais o pescoço dele.- Você também tinha me carregado...

—Então você estava acordada àquela hora também... — Skytte sorriu nostálgico.

—Não, minha mãe me contou. — Lucy falou seguida de um bocejo. — Sinto falta daquela época.

Skytte sentia o mesmo, saudades do tempo que passaram juntos, saudades do parque, do terraço e até da obsessão dela por patinhos. Porém tinha algo que ele não tinha saudades, pois nunca o abandonaram, isso era os sentimentos que nutria por ela e que nunca teve coragem de confessar, e o remorço que sentia por ter estragado tudo.

Se lembrou de como ficou surpreso no dia que se reencontraram, ao perceber que tudo que sentia por Lucy não havia mudado, muito menos esfriado. Era como se começasse novamente de onde haviam parado. E agora, talvez pelo efeito da bebida, ou pelas memorias dos velhos tempos, Skytte sentia uma vontade enorme de falar com Lucy.

—Eu também sinto...-Skytte criou coragem e disse.- Eu sei que muitas coisas aconteceram, e também sei que tudo acabou daquele jeito por minha causa... Eu não quero que me de o seu perdão, porque sei que eu não mereço...Mas eu quero ter a chance de começar de novo.- Suspirou.- Lucy,você quer tentar de novo?

Ele se virou para ela e sentiu toda frustração cair sobre seus ombros.Lucy havia apagado de novo, e parece que ela já estava dormindo á um bom tempo. E então sentiu alívio, ela não ouviu nada.

Queria ter falado bem mais, queria acordar ela e faze-la ouvir,mas o medo de destruir a parceria que eles estavam começando a construir o impediu. Não podia arriscar. Decidiu esquecer tudo aquilo, mesmo que fosse uma tarefa impossivel. Iria guardar aquilo para depois, e se pudesse, adiaria aquela conversa para um futuro distante.

O que podia fazer? Ficar perto de Lucy fazia isso com ele. Se tornava irracional, tomava decisões precipitadas e até arriscava tudo para te-la em seus braços. Teria que se esforçar mais, se conter mais, porque se ela fosse para longe de novo, não saberia o que fazer.

Respirou fundo novamente e a levou para dentro. A porta estava destrancada, fez uma nota mental de dar uma bronca nela mais tarde por ser tão irresponsável. Tentou acordar ela para que fosse para o seu quarto sozinha, mas ela não deu sinal de vida.

—Sério que vou ter que fazer isso?- Falou consigo mesmo.

Subiu as escadas e entrou na primeira porta que viu. Bingo, era o quarto dela. Não era muito diferente do que quando era mais nova, paredes brancas, escrivaninha e vasos de margaridas para todos os lados. A diferença era que tinha mais espaço, e provalvelmente agora que ganhava o próprio sálario, cheio de enfeites e, é claro, patinhos de pélucia.

Skytte não conseguiu conter sorriso quando viu um pato em especial. Colocou ela na cama, tirou seu sapato e a cobriu. Foi em direção ao bichinho e o pegou na mão.

— Então você ainda guarda isso...- Disse reconhecendo o pato de pélucia que havia dado para ela quando foram ao parque.

Quem ele queria enganar? Ele tambem guardava o chaveiro que ela havia dado. Olhou para Lucy, ela dormia tranquilamente, e decidiu ir embora logo. Apagou as luzes e seguiu o seu caminho. Antes que fizesse algo que se arrependeria mais tarde.