Cocaine
22 O universo conspira contra nós
Notas iniciais
Coloquei as botas no chão de madeira e afundei o meu corpo nas almofadas, enquanto examinava cada traço do meu rosto. Se isso continuar, Julian vai fazer com que eu o ame. E depois… depois não tem volta.
[…]
– Sim, senhor. Eu sei. – fez-se uma pausa do outro lado da linha, mas logo James Adams voltou a falar no mesmo assunto.
– Seja séria, Harley Rosemary. Essa competição é muito importante para você. – disse papai, usando o segundo nome que eu tanto odiava. Suspirei, sentindo uma dor aguda nas têmporas. Julian me observava parecendo divertido. Isso, ri da minha desgraça. Sem dizer nada, o garoto saiu do quarto deixando-me sozinha com o meu pai no celular.
– Eu já entendi, papai. Não precisa repetir. E aliás, eu estou bem. E o senhor? – ouvi um suspiro cansado vindo do homem que me pôs no mundo.
– Sim, filha. Está tudo ótimo. Chad já chegou? – perguntou, parecendo ficar desconfortável. Revirei os olhos perante a frieza dele.
– Ele ainda não chegou. Vou ter que desligar, pai. – disse-lhe, vendo Julian entrando no quarto novamente trazendo uma bandeja com o meu café da manhã. Papai apenas respondeu um “ok” seco e desligou. Sem despedidas. Sem qualquer “sinto saudades suas”. A única coisa que preocupava meu pai era a competição anual de Física que eu teria que ganhar nem se precisasse morrer. Sempre era desse jeito.
Julian colocou a comida no meu colo e sentou-se no fundo da cama. Olhei para o prato de panquecas. Julian desenhara uma carinha sorridente com a calda de chocolate. Ri, sentindo o meu interior aquecer.
– Sério? Eu tenho quantos anos? Dois? – provoquei, sorrindo ao mesmo tempo.
– Ah, se você não gostou, eu posso levar… — começou Julian, ameaçando tocar nas minhas panquecas. AS MINHAS PANQUECAS!
– Afasta as suas mãos imundas das minhas panquecas. – rosnei, dando um tapa nas mãos bonitas e masculinas do garoto. Julian riu e deitou-se do outro lado da cama.
– Como estão seus machucados? – perguntou, com um tom preocupado na voz. Quase engasguei com o suco de laranja que Julian tinha trazido juntamente com as panquecas. Eu não conseguia me habituar a essa faceta carinhosa de Julian.
– Só estão doendo um pouco, acho que vou sobreviver. – falei, sentindo cada dor aumentar assim que falei. Eu menti, eu estava com muita dor. Mas nem em mil anos eu iria admitir isso para Julian. Comi devagar sentindo o olhar inquietante do garoto sobre mim. Assim que acabei, deixei a bandeja de lado e afundei meu corpo nas almofadas novamente. Eu queria descansar um pouco.
Bom, na verdade essa era a minha ideia inicial. Mas parecia que Julian tinha um plano diferente para mim. Assim que me deitei, o garoto aproximou-se vagarosamente e cobriu seu corpo com o meu, usando os braços para amparar o seu peso.
Os seus lábios tomaram os meus. A doçura do chocolate e da menta misturaram-se, fazendo-me ansiar por mais. Entreabri as pernas e coloquei-as em volta do quadril do garoto. Julian arfou sentindo o contato dos nossos sexos. Sorri, tendo uma ideia malvada. Tomando impulso, rolei os nossos corpos para o lado ficando agora por cima.
Empurrei o peito de Julian quebrando rapidamente o beijo. – Julian. Julian. Não é nada ético da sua parte abusar de uma pessoa doente.
Um sorriso torto e incrivelmente irresistível nasceu nos seus lábios. Sorri de volta e deslizei meu corpo na direção da sua ereção já bastante visível. O olhar de Julian queimou-me por dentro. Sedento, perigoso, desafiador. Continha um desejo ardente e tão intenso que quase tirei a roupa ali mesmo. Quase!
Mordi o lábio, deslizando novamente por cima do seu quadril. Julian levou suas mãos para as minhas coxas e apertou-as com força. Arfei sentindo a sua ereção aumentar de tamanho. Meu Hades, que pecado é esse?!
Ri com o meu pensamento e concentrei-me em expor cada centímetro do abdómen do meu colega de apartamento. Mordi o lábio com força quando senti cada músculo dele ficar tenso por baixo das minhas mãos.
Julian sentou-se, levando nossos corpos a colarem-se. Arfei de dor, sentindo as minhas dores corporais aumentarem. Abracei Julian pelos ombros tentando esconder a minha expressão de dor, mas o garoto percebeu imediatamente.
– Ei, o que está doendo? – perguntou, deslizando os seus lábios pelo meu cabelo. Neguei com a cabeça, pois nesse momento a minha voz não seria confiável. Segurando as minhas coxas, Julian levantou-se da cama levando-me junto. Agarrei-me mais aos seus ombros com medo de cair.
O garoto transportou-me até a cozinha e abriu a geladeira. Um soluço estrangulado saiu por minha boca e foi com surpresa que senti lágrimas amargas descerem pelas minhas faces. Lágrimas de frustração. Julian apertou-me mais nos seus braços e encostou sua cabeça na minha. Ficámos assim durante alguns minutos até a minha crise de choro passar. Pouco tempo depois, senti algo gelado encostar no meu hematoma. Encolhi-me quando as minhas costas arderam.
– Calma, isso vai controlar o inchaço e aliviar um pouco a dor. – informou Julian, distribuindo beijos pela minha face ainda molhada pelas lágrimas. Funguei, amando cada pedaço de atenção que o garoto me dava. Mordi levemente o seu ombro beijando-o com carinho de seguida. O garoto riu e acariciou o meu pescoço com os lábios e com a sua barba por fazer.
– Desculpa, eu… — pedi, sentindo uma vergonha irracional. Engoli em seco, escondendo o meu rosto com o cabelo para que Julian não conseguisse ver a vermelhidão que ocupara minhas faces.
– Não, a culpa foi minha. Não foi ético da minha parte abusar de uma pessoa doente. – disse imitando a minha voz. Ri, vendo a pele do seu ombro ficar arrepiada. Afastei-me um pouco do seu corpo para que Julian não sentisse o batimento desenfreado do meu coração.
Fiz menção de sair do seu abraço, mas os seus braços apertaram-me ainda mais. — Onde pensa que vai?
– Tomar um banho. – respondi, retirando o gelo das minhas costas.
– Precisa de companhia? – perguntou, lambendo os lábios num movimento obsceno. Revirei os olhos, encarando-o com desaprovação. Vendo a minha expressão, Julian sorriu timidamente. – Foi mal.
Finalmente o garoto deixou-me sair dos seus braços e assim pude caminhar desajeitadamente até ao banheiro. Fiz questão de trancar a porta. Julian poderia ter a excelente ideia de me fazer uma visita e ainda não me sentia na condição perfeita para receber esse tipo de “visita”. Tomei meu banho vagarosamente, arrepiando-me sempre que a água quente tocava um dos meus machucados.
Assim que acabei, enrolei o meu corpo numa toalha e encarei a minha figura no espelho. O meu rosto estava meio roxo, mas não parecia grave. Virei-me, descendo um pouco a toalha. As minhas costas estavam vermelhas mas também ficariam bem. O corte na cabeça estava escondido pelas mechas roxas sendo assim não me atrevi a tocar-lhe.
Sai do banheiro tentando fazer pouco barulho. Definitivamente eu não queria encontrar Julian e os seus hormônios. Na verdade, eu queria sim… mas não era aconselhável. Entrei no meu quarto e vesti uma camiseta e uns shorts confortáveis. Decidi ficar descalça para que pudesse sentir a sensação boa dos meus pés em contato com o chão gelado.
Sai do meu quarto e encontrei Julian devorando um dos seus milhares de salgadinhos no sofá da sala. Quase lhe fiz companhia, mas a porta semiaberta de um quarto fez-me ficar curiosa e cheia de saudade.
Abri totalmente a porta do quarto de Chad e encontrei o melhor quarto da casa. A cama era maior que a minha. Tinha inúmeras estantes ocupando as paredes do quarto, muitas delas cheias de livros de quadradinhos. A sua secretária estava completamente desorganizada e por todo o lado que eu olhasse, via figurinhas de heróis da Marvel. Sorri, sentindo ainda mais saudade do meu meio-irmão. A cama dele parecia confortável e abandonada demais, por isso deitei nela sentindo imediatamente o cheiro familiar da colónia de Chad. Revirei minha cabeça na almofada, sentindo-me desconfortável. E por mais voltas e voltas que desse, nunca encontrava uma posição realmente confortável. Sentindo-me irritada, levantei a almofada. Engoli um xingamento quando vi o objeto preto que antes estava escondido pelo objeto na minha mão. Esse era o motivo pelo qual me sentia tão desconfortável.
Uma… uma arma?!
Chad escondia uma arma por baixo da sua almofada. Levantei-me imediatamente da cama, sentindo um misto de medo e preocupação. Para que diabos Chad queria uma arma?
Ouvi a porta da frente bater com toda a força e uma voz animada gritar:
– Cheguei! Onde está a Harley?
Engoli em seco e escondi novamente a arma com a almofada. Sai sorrateiramente do quarto de Chad e tratei de colocar um sorriso no rosto. Mas esse sorriso não alcançou o meu olhar.
Dei dois passos na direção da sala e encontrei o meu meio-irmão rodeado pela sua bagagem e conversando com Julian. O garoto de cabelos cacheados levantou o olhar assim que percebeu a minha presença.
– Har? – Chad percorreu o olhar pelo meu corpo, parecendo preocupado. – O que aconteceu com o seu rosto?! Julian! Que merda é essa?!
Aproximei-me e dei-lhe um abraço rápido. A arma escondida não saia dos meus pensamentos. Eu só pensava porque raios quereria Chad uma arma?! O meu Chad! O garoto que odeia violência, que ama figuras de ação e que comenta garotos comigo. O que está acontecendo?!
Enquanto a confusão se alastrava pela minha mente, Chad lançava um olhar nada amigável para Julian. Afastei-o imediatamente do Grant, sentindo-me assustada com tudo.
– Julian não teve culpa. Eu que me descuidei e acabei encontrando o Jared. Aliás, se Julian não tivesse chegado e impedido Jared, eu estaria morta nesse momento.
Chad acenou e passou uma mão pelos seus cachos, desordenando-os. Ele parecia o Chad de sempre. O mesmo garoto que me fazia lembrar um urso abandonado. Suspirei, sentindo-me cada vez mais confusa. – Como está a sua mãe?
– Está muito feliz com a gravidez. E seu pai também está bem. – disse Chad com um sorriso feliz. Sorri também. Em breve ambos iriamos ter um novo meio-irmão ou meia-irmã. – Mamãe ficou enfurecida quando soube que você não pôde ir. Ela tem saudades suas.
Acenei, esquecendo por momentos o assunto “arma no quarto do Chad”.
– E o seu pai não parou por um momento de falar sobre a próxima competição de Física. Mamãe ficou até irritada com ele e falou que ele é “um bosta que deveria cuidar mais da sua filha”. – ri com o comentário de Lauren, a mãe de Chad. Lauren e papai eram completamente o oposto. Ela era uma explosão de energia enquanto meu pai era só um velho sem emoções. Aliás, a única pessoa que conseguia despertar emoções em James Adams era definitivamente a pequena Lauren.
Chad ficou conversando durante mais um tempo e logo fechou-se no seu quarto dizendo que precisava descansar. Fiquei durante alguns minutos encarando a porta do seu quarto até que senti o braço de Julian rodear a minha cintura.
– O que foi?
Neguei com a cabeça, sentindo um sabor amargo invadir minha boca. Julian não pareceu convencido, mas decidiu não insistir. Em vez disso, puxou o meu corpo contra o seu e beijou-me o machucado do rosto. Sorri com a sua atitude e acariciei o seu cabelo negro que parecia ganhar vida a cada toque meu.
– Você é minha. – disse, fazendo-me adquirir tons rosados nas faces.
– Quer que eu seja? – perguntei, vendo-o fazer uma careta engraçada. O seu rosto desceu na direção do meu pescoço e ali, Julian deixou a sua marca.
– Eu não estava pedindo permissão, eu estava afirmando.
Revirei os olhos e empurrei-o para bem longe de mim. Julian me olhou com confusão. – Quer tanto que vai ficar querendo.
E com essa última provocação, dei a língua e afastei-me um pouco mais do garoto. Julian puxou-me na direção dele novamente e segurou meu rosto. Seus olhos agora de um azul claro queimaram-me com intensidade. Senti-me nua por baixo do seu olhar feroz.
– Cuidado com essa língua. Eu posso me descontrolar e você vai acabar ficando sem ela. – ameaçou com a sua voz mais rouca que o normal. Aproximei-me dele como se o fosse beijar e, no último minuto, desviei e beijei a minha mão.
Julian revirou os olhos e segurou meus pulsos com uma mão enquanto a outra embrenhou-se nos meus cabelos e levou-me até si.
Seus lábios encostaram-se nos meus lentamente, provando cada canto da minha boca. Brincando com a minha sanidade. Seus dentes repuxaram o meu lábio inferior, fazendo com que eu pensasse que o beijo tinha terminado. Mas em vez de se afastar, Julian prendeu-me ainda mais no seu abraço e sua língua adentrou a minha boca tocando-me e provocando-me com urgência. Libertei meus pulsos da sua mão forte, e rodeei seus ombros fincando as unhas na sua carne.
Julian sorriu, lambendo a extensão do meu lábio inferior e apertando a minha cintura com desejo. Iria beijá-lo novamente, mas o universo está sempre conspirando contra nós.
– É sério, será que vocês não conseguem aguentar essa tensão sexual por um minuto?! E ainda pra mais temos visita! – reclamou Jade, fazendo-nos afastar imediatamente. Minha boca escancarou quando vi uma pessoa em particular me olhar com interesse e… ciúme.
– Daniel. – murmurei, não conseguindo impedir a minha língua.
– Oi garota dos cabelos roxeados... ou devo antes chamar-lhe Harley? – perguntou Daniel, o irmão do namorado de Chad e o garoto que há muito tempo atrás me tentara seduzir num bar de jazz.
Engoli em seco, sentindo os músculos de Julian ficarem tensos.
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