Cocaine
37 Macaquinhos na cabeça
Notas iniciais
Foi essa conversa que eu não devia ter tido que deu inicio a mais um medo: eu posso perde-lo para ela a qualquer hora.
E o pior é que eu o amo tanto que eu o deixaria ir para ela se ele assim o desejasse. Eu sou uma garota deplorável, meu Hades…
[…]
Você já ouviu essa expressão de “você está com macaquinhos na cabeça”, é algo como você está criando problema onde não tem problema. Bom, na minha situação tinha problema por todo o lado, não que isso fosse novidade.
Eu não estava com macaquinhos na cabeça, estava já um zoológico crescendo aqui. Fazia horas que Monique tinha ido embora toda “felicidade e risinhos” porque finalmente tinha, segundo ela, liberado o seu coração para conseguir seguir em frente.
Que bom para ela, porque agora quem não conseguia seguir em frente era eu. Pensamentos como: “essa relação não vai durar”, “a gente não consegue ficar bem sem discutir” e “ele ainda não a esqueceu”, enchiam minha mente. Claro que Julian notou essa mudança repentina de humor e me perguntou o que diabos Monique tinha falado para mim.
Eu respondi que não era nada demais e que até já tinha esquecido. Ele infelizmente ficou desconfiado e me obrigou a assistir o meu filme preferido agarrada nele. Não que eu realmente me importasse… Só parecia que ele queria compensar-me. Pelo quê? Não sei, talvez pelo aparecimento da assombração chamada “Monique”.
De qualquer jeito, eu nunca iria conseguir assistir o filme com ele beijando o topo da minha cabeça tão carinhosamente. Tinha até vezes que ele passeava os seus lábios por meus cabelos tão suavemente que eu até esquecia o meu nome.
Infelizmente uma hora ele parava e os macaquinhos ficavam me atacando novamente, tentando fazer a minha mente sangrar todas as minhas preocupações mais idiotas.
Sinceramente isso estava me matando. Mesmo eu sendo a orgulhosa que sou, queria me ajoelhar na sua frente e implorar para que ele não me abandonasse para ficar com outra. Sendo que a outra é uma perua desgraçada. Mas claro que eu não fiz isso.
Quando chegou a noite, eu não conseguia dormir. Mesmo com Julian do meu lado me abraçando como se eu fosse fugir a qualquer momento. Eu não estava tranquila. E quando adormeci, só piorou e os macaquinhos me fizeram sonhar com Julian me traindo com Monique.
Eu não lembro como foi ou onde, mas doeu. Doeu tanto que acabei sendo acordada por um Julian preocupado e muito fofo, que limpou as minhas lágrimas como se eu fosse uma boneca de porcelana prestes a quebrar.
— Harley, sério, o que está acontecendo? Eu não te via chorar desse jeito desde que Nolan… fez o que fez. Você pode confiar em mim. Eu não tenho formação em psicologia como Stuart, mas eu te ouço e te protejo de qualquer coisa.
Isso só me fez chorar ainda mais. Como não amar essa pessoa? Monique tem razão, assim que você conhece Julian só se quer aproximar mais e mais. Ele é quase uma droga, nem cocaína se compara. Como eu vou conseguir me afastar se ele assim decidir? Eu vou ficar perseguindo-o tal como Nolan fez comigo?
Não, eu seria pior que Nolan. Acho que vou enlouquecer.
Em vez de ficar frustrado comigo, o Grant só me abraçou mais apertado e deixou-me molhar a sua t-shirt branca de lágrimas. A sua mão afagando o meu cabelo foi a última coisa que senti antes de cair novamente na inconsciência.
[…]
— Como você se sente? A competição é depois de amanhã, não é mesmo? – perguntou Chad, examinando o meu rosto com uma expressão de medo contido. Sim, nessa manhã eu deveria estar linda, perfeita.
— Estou ótima, explodindo de felicidade.
Chad revirou os olhos. – Está menstruada? Ou Julian negou sexo para você? Sei lá…
Dessa vez fui eu quem revirei os olhos. Preocupado como estava ontem, se eu pedisse a Julian um mês de sexo tórrido ele teria queimado todas as nossas roupas no momento.
— Você acha mesmo que Julian me negou sexo? Eu nem sei porque estou discutindo a minha vida sexual com o meu irmão! É nojento e desnecessário, sabe Chad…
O meu homossexual preferido abriu um sorriso fofo de covinhas. – Concordo, mas se não tem nada a ver, o que foi? Você está monstruosa.
Obrigada Chad, sério.
Estiquei o pescoço tentando perceber se estávamos sozinhos e quando vi o caminho livre, aproximei-me do meu irmão sussurrando cada palavra lentamente. – O que você achou de Monique?
O garoto encolheu os ombros não parecendo perceber a pergunta. – Pareceu-me uma garota normal, mas pelo que ouvi não é bem assim, não é mesmo?
Acenei fitando as panquecas que já esfriavam na minha frente. – Ela é meio sem noção, mas você não a acha… não sei… bonitinha? Toda delicada e mocinha precisando de proteção…
— Você não está com ciúmes dela, está?
Arregalei os olhos, controlando a vontade de bater no cara. – Não é isso, mas ela era bonitinha… enquanto isso, eu fico vestindo roupas de homem e não penteando o cabelo. Cabelo colorido e louco…
— Harley, sério que você está se comparando com essa garota?! Não, para com isso mulher! Você é linda do seu jeito mesmo! Tem por aí mil e uma garotas que são bonitinhas e delicadas, mas Harley só tem uma.
Sorri largo e peguei uma das panquecas. – Você é um bosta, Chad.
— É isso que eu ganho por aumentar sua autoestima, irmã ingrata?!
Eu admito que fiquei feliz pelas palavras de Chad, mas eu não estava descansada ainda. Eu preciso de mais validação, eu preciso de apagar esses macaquinhos desgraçados.
A minha próxima vítima foi Jade. Como sempre essa maluca não fazia nada com a sua vida, a não ser ver filmes dramáticos e chorar como se o mundo estivesse acabando. – Harley, senta aqui, eles estão se beijando pela primeira vez!
Fui agarrada bem ali na inocência e fiquei assistindo dois péssimos atores se beijando sem qualquer emoção. Como é que Jade consegue gostar desse tipo de coisa?
Como é que Julian é capaz de gostar de mim que também sou uma coisa? Encarei Jade, mas ela estava demasiado embrenhada no filme e provavelmente não iria me ouvir.
— Monique é uma garota bem interessante, não é mesmo? – contrario daquilo que pensei, Jade me ouviu e me olhou assustada.
— Você só pode estar sonhando. – a minha amiga bufou, parecendo agora zangada. – Nem fala isso para mim outra vez que vou lá e faço ela aparecer morta num fosso.
É, falar com Jade não resolve nada porque ela parte logo para a violência. Olhei as horas no meu celular. Julian ainda está na aula, ou será que…
Não, confiança no namorado Harley! Ele não foi te trair. Ele é meio galinha, mas ele gosta de você. Pelo menos eu acho que gosta.
Peguei o celular de novo e procurei o contato de Stuart.
“O que você está fazendo? Eu precisava conversar um pouco.”
A resposta a minha mensagem não tardou a chegar.
“Estou comendo um lanche no subway da quinta avenida, pode vir.”
Assenti para o celular que nem uma retardada, e deixei Jade chorando como uma outra retardada. O cara do filme morreu, notícia péssima.
Cheguei no subway em poucos minutos já que era perto de casa e eu podia ir andando sem usar o ônibus. Assim que entrei, vi logo um Stuart eufórico acenando como um idiota. Isso me envergonha desse jeito, seu otário.
Na mesa já tinha uma criança desconhecida comendo também um lanche. Sentei num dos lugares livres e encarei o meu psicólogo com medo. – Stuart, eu vou ser direta, você não sequestrou essa criança, pois não?
O homem revirou os olhos e respondeu sem esvaziar primeiro a boca, que visão. – Que engraçadinha. É a filha da minha namorada. Nessa, Harley. Harley, Nessa.
A garotinha que eu imaginava ter uns 5, 6 anos me encarou semicerrando os olhos. – Eu já não sou criança, tenho 6 e meio.
Ah, errei.
— Os meus parabéns então. – murmurei, recebendo outro olhar afiado da garotinha. – Stuart, eu estou pirando de vez. Acho que nem com cinquenta sessões eu vou conseguir ultrapassar e tirar isso da cabeça.
O meu psicólogo, dessa vez, mastigou primeiro e falou depois. – O que aconteceu, Adams?
— Monique aconteceu. – resmunguei, e nem perdi um outro segundo. Expliquei tudo. A nossa conversa estranha no meu quarto. O meu pesadelo. A bagunça na minha cabeça. Falei até que Julian não era esse tipo de cara que negava sexo.
Sim, na frente da criança mesmo.
Vou parar no inferno? Vou.
— Sim, você tem razão, pirou de vez. – murmurou o homem na minha frente, bebendo um pouco de refrigerante. Abri a boca, chocada com a resposta.
— Seu otário, que diabos de psicologia lhe ensinaram na faculdade? Esse é um assunto sério, eu estou quase entrando em combustão espontânea!
Stuart revirou os olhos. – Eu compreendo que você esteja se sentindo insegura dado todo o passado de Julian, mas ele parece sério. Tão sério que é capaz de furar o meu olho se eu encostar em você. Eu já te falei que o segredo está em conversar para resolver e não acumular e esperar que resolva. Nesse momento você deveria estar conversando com Julian, não comigo.
— Não é tão simples assim, quer que eu fale o quê? Ah desculpe, mas esqueça Monique de uma vez porque eu sou uma total paranoica e não aceito que ela fique existindo nesse mundo?
— Esse seria um belo começo. – disse, roubando o brinquedo irritante com que a garotinha brincava. – Chega, Nessa. Vou explodir se ouvir mais um “você é a melhor amiga do mundo” desse viado.
A garotinha fez o biquinho mais estranho de sempre e quando uma lágrima caiu do canto do seu olho, Stuart desistiu devolvendo o elefante de pelúcia. Novamente aquele treco falou “você é a melhor amiga do mundo” e eu não aguentei e soltei uma gargalhada alta assustando as pessoas da mesa do lado.
— Não ria do meu azar, mocinha. – resmungou Stuart. A partir dessa hora, deixei de prestar atenção. O meu olhar cravou-se inconscientemente na fila para o atendimento. Eu podia jurar que o meu coração iria rebentar. Esse idiota me mentiu, aula coisa nenhuma!
Levantei com tudo. Ainda consegui ouvir um “o que foi” de Stuart e derrubar um tabuleiro de um pobre coitado, mas nada disso me impediu de chegar nesse traidor.
— Eu não acredito que eu confiei em você, seu filho de uma… — quando o cara se virou para mim confuso, não era ele. Não era Julian. De costas as parecenças eram incríveis, o mesmo estilo, a mesma estatura e massa muscular, o mesmo corte de cabelo. Mas assim que o cara se virou, o nariz torto e os olhos muito afastados do nariz o denunciavam.
Afinal eu não precisava de Stuart para me envergonhar, não é mesmo?
Saí do subway e pouco tempo depois percebi que o meu psicólogo me acompanhava com aquela criança e o elefante no colo.
— Isso está começando a ficar descontrolado, Stuart! Eu até já tenho ilusões dele, imagina que eu tinha partido para o soco! O cara iria chamar a polícia e eu iria ser presa!
O homem me parou, colocando uma mão sobre o meu ombro. – Espera um pouco que eu tenho mais 30 quilos para carregar que o normal.
Nessa decidiu que essa era a hora perfeita para apertar o elefante e ele falar “você é a melhor amiga de sempre”. Agora até eu queria arrancar a cabeça do bicho.
— Harley, como seu psicólogo e amigo, eu acho que você deveria falar tudo para o Julian. Todas as suas preocupações, tudo! Mesmo que pareça idiota.
Suspirei, sentindo as lágrimas quentes acumularem-se nos olhos. – Mas isso não vai resolver nada se ele realmente quiser ficar com ela. O que eu faço se ele não me querer mais?
Stuart achocalhou os ombros, colocando a criança numa posição mais confortável. – Se isso acontecer, o que duvido, você faz o que todos nós fazemos.
— O quê?
— Você chora tudo o que tiver para chorar e depois você segue em frente.
[…]
Eu não chorei mais, pelo menos não durante as horas seguintes. Aliás, dessa vez eu estava possessa. Eu queria matar Julian. Fazia meia hora que ele deveria ter chegado e nada. Assim que ouvi a chave sendo colocada na porta, fui já levantando de braços cruzados e ficando bem na frente da porta de entrada.
Ele não me notou logo. E nesse pequeno minuto eu permiti-me olhá-lo. Olhá-lo verdadeiramente. Continuava bonito e sexy como sempre, mas parecia cansado. As bolsas negras debaixo dos seus olhos quase quebraram o meu coração. Quase! Os seus braços carregados de sacos brancos deixaram-me curiosa e quase desisti da minha raiva toda. Eu falei quase.
Quando finalmente me notou, o semblante de Julian se iluminou e tudo o que era cansaço pareceu desvanecer-se no ar. O meu coração traiçoeiro falhou uma batida, mas eu permaneci firme.
— Onde você estava? – perguntei, desconfiada.
Julian sorriu com simplicidade. – Eu fui fazer compras. O meu beijo?
— Porquê que você foi fazer compras? A gente tem comida em todo o lugar. – murmurei, não convencida. Foi aí que Julian me olhou desconfiado e pousou os sacos. Normalmente, eu teria o beijado na hora, mas dessa vez eu estava fazendo perguntas estranhas e cruzando os braços. Ele sacou que eu estava zangada, só provavelmente não entendia o porquê.
Eu meio que também não entendia.
— O que aconteceu? – murmurou, descruzando os meus braços. Mordi a língua já me sentindo uma megera odiosa. Julian Grant me olhava com tanto carinho que até metia dó.
Eu estava sendo uma idiota. Balancei a cabeça, tentando controlar o zoológico furioso dentro de mim e sorri tentando amenizar a situação. – Nada não, o que você comprou?
Agora sim Julian me olhou estranho. Talvez pensando que eu era uma garota bipolar e que me deveria deixar agora mesmo. Mas ele não o fez, em vez disso, pegou os sacos do chão e os levantou para que eu pudesse prestar mais atenção neles. – Como você está triste, eu pensei em fazer sua comida preferida.
Abri a boca para falar alguma coisa, mas não saiu som nenhum. Numa hora eu estava zangada, numa outra eu estava rindo, agora eu estava chorando de novo. Julian largou os sacos de novo, correndo para limpar as minhas lágrimas. – O que eu faço com você, Har? Sempre que olho, você já está chorando de novo.
Abracei-o com força, cravando as unhas na sua camisola de frio como se ele fosse evaporar na minha frente. O garoto correspondeu o abraço automaticamente e assim que as lágrimas diminuíram levantei a cabeça um pouco para que a voz não saísse abafada.
— Eu não te mereço, Julian Grant. Obrigada. – funguei mais uma vez, limpando as lágrimas no meu braço mesmo.
Como é que eu pude duvidar de uma pessoa boa dessas?
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