Cocaine
36 As pessoas (não) mudam
Notas iniciais
Estou vendo é que essa garota ainda não desistiu dele. Duvido que algum dia desista, afinal, onde vai ela encontrar um outro cara que tenha tanto dinheiro como Julian? O cara é quase o dono do país…
Abri a boca. – Ele… é o quê?!
[…]
Eu sou a pior namorada do mundo.
Nenhuma garota deveria ser perseguidora ao ponto de pesquisar o namorado no Google. Mas aqui estou eu, esperando que a internet da biblioteca da universidade seja rápida em procurar o nome Julian Grant.
Eu sinceramente não sabia o que esperar. Aliás, como diabos eu não suspeitei? O cara dirige um carro clássico que para que eu pudesse comprar, precisaria vender ambos os rins. Ele até compra toda nossa comida e aposto que paga as contas porque eu nunca vi alguém pagando.
E ele não cobra nada a ninguém. Nesse momento, eu só sinto que estou me prostituindo por comida, água e luz. Pensando bem, todo o mundo está. Eu nunca vi Jade ou Chad pagando o que quer que fosse.
Como isso é possível?!
A página em branco foi revelando aos poucos vários artigos e sem notar, segurei a respiração. Eu não acedi nenhum dos resultados, só os títulos me faziam estremecer imagina os artigos completos. Tinha um pouco de tudo, acidente de mota, corridas ilegais, drogas e principalmente dinheiro. Muito dinheiro.
Cliquei na cruzinha vermelha no canto e afastei-me, endireitando as costas na cadeira. Eu não consigo fazer isso. Sinto-me como se estivesse abrindo a caixa de pandora dos segredos privados de Julian.
Se ele não queria me contar, então não tinha tanta importância assim. Não vou fazer disso a minha nova obsessão. O celular vibrou no meu bolso fazendo-me pular de susto. Peguei-o vendo o nome de Jade saltitar na tela.
— Harley, sua idiota, onde você está? Você tem ideia do quanto a gente está preocupada?! – gritou Jade antes que eu pudesse falar alguma coisa. A bibliotecária me encarou com seu desprezo contido costumeiro. Claro que ela havia ouvido os gritos assustadores de Jade nesse silêncio mortal.
— Eu estou na biblioteca, pesquisando algumas coisas para… para… a próxima aula de Física Experimental e acabei me distraindo. Porquê tanta fúria?
Ouvi Jade rir irônica do outro lado da linha. – Você ainda pergunta porque? Harley, você desapareceu durante o dia todo e nunca fez o favor de atender seu celular. O Julian está nesse momento quase cavando buracos na cidade procurando desesperado por você, sua idiota.
Suspirei, eu entendi que sou uma idiota, não precisa repetir.
— Tudo bem, você está bem e é isso que importa. Vou ligar para o Grant para falar onde você está.
— Não! – gritei alto, ferindo a paz de todas as pessoas que aproveitavam o silêncio da biblioteca. Coloquei no rosto um sorriso de desculpas e aproveitei a deixa para sair desse lugar.
Do outro lado da linha, Jade parecia confusa. – Como não?
— Porque não.
A garota, vingadora das causas perdidas, suspirou como uma mãe que se prepara para dar uma bronca no filho delinquente. – Vocês brigaram de novo, mulher? Como isso é possível, meu Deus?! Vocês passam mais tempo brigando que namorando, Harley.
Ri. Jade tinha razão, mas nesse momento, eu realmente não queria Julian perto de mim. Acho que se o visse agora, iria esquecer que estou zangada com ele e pular em seus braços como uma adolescente apaixonada dessas comédias românticas idiotas.
— Não é isso, é que eu estou também revendo alguns conceitos importantes para a competição e queria muito conseguir terminar isso sem distrações.
Jade soltou uma gargalhada alta me assustando. Automaticamente afastei o celular para longe do meu ouvido precioso. – Compreendo, amiga. Sendo como Julian é, ele iria acabar te seduzindo até você acabar nua em cima de uma das mesas da biblioteca. E aposto que a bibliotecária-monstra iria amar assistir.
Senti as minhas maçãs do rosto ficarem quentes. – Nós não somos ninfomaníacos desse jeito, Jade. E sinceramente, você é nojenta.
— Bom, pelo menos você não é. Julian por outro lado…
— Até depois, Jade!
Desci a escadaria de mármore que conduzia a saída pensando no que fazer. Tinha algo que eu pudesse fazer, certo? Pelo menos poderia tentar afastar Monique antes que ela pudesse sequer pensar em fazer algo ruim. Bom, se tudo o que Nolan havia contado sobre ela fosse verdade, por essa hora ela já teria um plano maléfico em mente.
Que merda, o que eu posso fazer?
— Harley. – levantei a cabeça imediatamente quando reconheci a sua voz rouca e ofegante. Engoli em seco. Eu não conseguia conversar normalmente com Julian, não agora com minha cabeça tão cheia de pensamentos descontrolados sobre ele.
Abri a boca levemente, querendo simular um sorriso despreocupado. Infelizmente acho que não deu muito certo porque Julian entortou a cabeça parecendo confuso. Involuntariamente encolhi-me. Será que eu não conseguia agir normalmente uma vez na vida?!
Baixei a cabeça de novo e só percebi que Julian tinha encurtado a distância entre nós quando seus all star pretos apareceram no meu campo de visão.
Quase esqueci as minhas preocupações quando reparei que nossos pés estavam combinando. Foi inevitável abrir um sorriso idiota.
— Você está bem? – perguntou Julian, interrompendo os meus pensamentos de boba apaixonada. Meu Hades, eu sou muito doente da cabeça. Quando não respondi, o Grant rodeou o meu rosto com ambas as mãos forçando-me a encará-lo.
Arregalei os olhos, sentindo um calor agradável acumular-se nos lugares em que as mãos de Julian tocavam a minha pele. Para a minha felicidade, Julian não me olhava diretamente nos olhos. Em vez disso, ele encarou todos os pontos do meu rosto enquanto descia suas mãos para os meus ombros, costas e por fim, fechou seus dedos nos meus.
Agora sim eu estava com medo. Normalmente Julian não era um garoto muito carinhoso mas nunca o seu toque me pareceu tão doce como agora. Ou então eu estava imaginando coisas e sentindo saudades dele.
— Você está mesmo bem, certo? – perguntou novamente, apertando levemente as minhas mãos com as suas. Acenei, meio confusa. – Você simplesmente desapareceu do nada. Eu fiquei preocupado. Pensei que você estivesse… eu sei lá.
Desde que Nolan foi preso que essa preocupação e insistência em cuidar de mim piorava.
— Eu estou bem e para sua informação, foi você que desapareceu no hospital. Não eu! – resmunguei, tentando afastar minhas mãos, mas Julian não deixou apertando-as um pouco mais forte.
O Grant abriu um sorriso convencido e aproximou seu rosto do meu. – Eu tive que ir embora porque Daniel e Monique estavam criando problemas e íamos acabando sendo expulsos, meu amor. O que foi? Ficou com ciúmes? Pensou que saí correndo para “matar a saudade” que tinha de Monique?
Bem na mosca, parabéns, Julian Grant.
— Eu não. – o sorriso convencido de Julian aumentou e a minha vontade de estrangulá-lo também. – Eu fiquei aliviada, assim pude…
Seria uma boa ideia contar que visitei Nolan sozinha sem sequer avisar que o iria fazer?
— Assim eu pude estudar em paz sem interrupções desnecessárias. – continuei.
O sorriso de Julian desapareceu no mesmo instante fazendo-me estranhar a resposta sarcástica que não veio. – Você está querendo me incluir nessas interrupções desnecessárias? Desde quando eu sou desnecessário?
Agora sim foi minha vez de abrir um sorriso convencido. Ele está brincando como sempre, calma. – Você realmente se acha muito, Grant. Eu estava falando apenas de Daniel, estar na mesma sala que ele é desconcertante sabe…
— Hum.
Hum? Só isso? Só hum? Que reação é essa, Grant?
Talvez ele ficou chateado mesmo.
Merda.
Para piorar, Julian não falou mais nada oferecendo-me o tratamento do silêncio, e eu já estava começando a ficar preocupada. Eu não queria fazer as coisas entre nós piores do que já são… Porra, eu só estava o provocando como ele sempre faz comigo! Claro que no passado, eu meio que fui uma maldita megera e quebrei o coraçãozinho de Julian usando Daniel.
Ok, eu sou uma idiota. Eu preciso resolver isso agora.
— Julian, eu estava… — tentei explicar, mas nessa hora ele não parecia muito disposto a ouvir as minhas desculpas. Acho que mais depressa ele queria ver a minha cabeça rolar no gramado do que me ouvir falar de Daniel.
É compreensível.
Acho que me habituei demasiado a esse nosso jogo de provocações. Desde que conheci Julian Grant naquela manhã – ou seria tarde? – que nossas conversas se resumiam a provocações. Eu não passava um dia sem brincar com a paciência dele e posso dizer que Grant fazia o mesmo comigo.
Então o que mudou dessa vez, eu pergunto-me.
Baixei a cabeça, pensando em todas as possibilidades e não possibilidades, mas mesmo assim não compreendi tanta sensibilidade quando ele sabia que eu estava só brincando.
Até que finalmente Julian Grant me esclareceu, voltando a aproximar-se e levantando a minha cabeça com uma mão para que assim me pudesse beijar.
Chamo isso de bipolaridade, amiga. Bipolaridade!
Como sempre ter os meus lábios colados numa pessoa como Grant parecia uma irrealidade estranha, mas confortável e conhecida. Á medida que Julian brincava e explorava a minha boca, eu me convencia da razão pela qual eu gostava tanto de um cara galinha como esse.
Sim, a maestria com que controlava a minha boca com a sua parecia um talento vindo de um mundo paralelo, mas não era essa a real razão.
Eu me apaixonei pela forma carinhosa com que Julian sempre acariciava a minha bochecha com as pontas dos dedos quando me beijava. Pela vontade possessiva que o seu braço ganhava quando me puxava contra ele como se me quisesse mais perto e não fosse ainda suficiente. Eu sentia que nunca seria o suficiente.
Eu me apaixonei por tanta coisa em Julian que sentia até vergonha só de pensar nisso.
— Calma, flor. Eu não estou chateado. – sussurrou quando se afastou encostando sua testa na minha enquanto nossas respirações se regularizavam em conjunto. – Era só uma pegadinha, eu nunca poderia me chatear com você.
Ri, puxando Julian para um selinho rápido. – Que pegadinha fraca.
— Eu iria continuar, mas você estava com uma expressão tão triste que eu pensei que uma hora você iria começar a chorar.
Os cantos da minha boca tremeram. – Você é um completo idiota, seu… seu… idiota. Eu estava aqui quase tendo um ataque de coração!
— Não se preocupe, eu depois faria respiração boca-a-boca em você. – falou, aproximando-se novamente. Revirei os olhos empurrando-o de leve e em resposta o garoto riu e pegou a minha mão. – Vamos voltar.
Acenei, entrelaçando os meus dedos nos seus.
[…]
Eu sinceramente um dia acabo cometendo um assassinato. Mal chegámos em casa, lá estava a criaturinha sentada no sofá. Quando nos viu só faltou correr nos braços de Julian de novo. Ela que tentasse mesmo!
Olhei chateada para Chad e Jade que a observavam desconfiados.
— Antes que alguém aponte dedos, eu não tenho nada a ver com isso. Foi Chad que deixou ela entrar, por mim eu tinha espetado a faca de cozinha nela. – resmungou Jade, aproximando-se de Monique que se afastou assustada com a ameaça.
— Ela disse que queria pedir desculpa. Eu acho que você merece um pedido de desculpa, Julian.
Concordo. O problema é que ela não merece nem respirar o mesmo ar que ele.
Monique levantou-se do sofá e quando se ia aproximar de nós, Jade parou-a e balbuciou “faca de cozinha” e parece que a garota decidiu que era melhor não mexer mais nenhum músculo.
Sabia decisão, garota.
— Eu só queria pedir desculpa… por hoje. Pelo passado. Eu não vim para continuar criando problemas. Eu queria acertar a nossa relação e fiquei frustrada quando vi que você tinha namorada. Ainda por cima é essa garota incrível… eu fiquei cheia de ciúme. Eu não sabia o que fazer e sinceramente, ainda não sei como tirar você do meu coração. Apenas sei que você merece ser feliz e merece a maior sorte do mundo. Eu… poderia falar com a Harley a sós por um segundo?
Eu estava pasma. Não sei se porque ela falou que eu era uma garota incrível ou se porque ela queria falar comigo, sozinhas.
Eu deveria aceitar? Julian foi o primeiro a acordar dessa dormência estranha provocada pelo pedido de desculpa de Monique. – Nem por sombras, eu não confio em você.
— Eu juro que não vou fazer nada! Vai ser uma conversa de garotas inofensiva… depois eu desapareço de vossas vidas para sempre!
É tentador.
Ainda assim Julian abanou a cabeça, negando o pedido da ex-namorada. Suspirei, percebendo que Monique estava mesmo decidida a falar comigo… que seja! Abracei Julian de lado ao que fui correspondida com um olhar preocupado. – Tudo bem, eu quebro a boca dela se ela falar alguma merda.
O meu namorado deu um sorrisinho de lado e aproximou a sua boca do meu ouvido. – Se for fazer isso, me chama que eu quero ver.
Ri, sentindo o seu hálito brincar com a minha pele. Acenei para Monique me seguir para o meu quarto. Aposto que se fossemos para a cozinha eles iriam ficar bisbilhotando. Entrei no quarto, fechando a porta quando a Monique também entrou. Se fosse outra pessoa, eu teria falado para ela sentar e ficar à vontade. Mas eu não queria que ela ficasse à vontade.
— Fala, desgraça.
Monique sorriu tímida e ficou remexendo as mãos com um nervosismo irritante. – Eu só queria falar que você é uma garota de sorte… e te dar alguns conselhos para que você não cometa os mesmos erros que eu. Julian é dessas pessoas que sempre tem um monte de gente rondando, querendo a atenção dele. Se ele te nota, é como se o mundo mudasse completamente. Você continua querendo se aproximar mais e mais… é impossível não acabar o amando. Mas eu fui idiota e deitei tudo fora. Faça o que fizer, não o magoe como eu fiz. Você estará destruindo uma pessoa maravilhosa.
— Eu não o vou fazer.
— Nós tínhamos uma história tão linda, sabe. Nós nos completávamos de um jeito que nunca vi ninguém se completar. Foram anos e anos juntos. Você nem imagina… eu vi Julian no seu melhor e no seu pior. Eu sei cada história sua porque eu as vivi com ele. – a garota fez uma pausa. – Bom, de qualquer jeito, se comporte com o meu Julie.
Engoli em seco. Eu sei que eu não deveria, que estava sendo maluca, mas as palavras de Monique estavam começando a doer em mim. Só depois de ouvir é que me toquei: eu conheço Julian faz poucos meses. Não temos uma história… Não temos memórias importantes. Se eu pensar bem em tudo o que aconteceu, teve mais vezes que eu chorei do que ri. Sempre teve os meus problemas impedindo seja o que for. Parecia até que ele só me namorava porque era o que todo o mundo esperava que acontecesse no final. Ou por pena.
Não com Monique. Ela o conheceu. Ela o amou. Ela o fodeu muito. E ela ainda estava tão cravada no coração dele que foi preciso ela brotar do inferno para ele me falar um pouco do seu passado.
Afinal o que sabia eu sobre Julian? Ainda hoje eu tive que pesquisar o nome dele na biblioteca.
Em relação a Monique eu não tinha nada para me defender. Eu não podia apagar a sua existência. Quer eu queira, quer não, ela era uma pessoa importante para Julian.
Foi essa conversa que eu não devia ter tido que deu inicio a mais um medo: eu posso perde-lo para ela a qualquer hora.
E o pior é que eu o amo tanto que eu o deixaria ir para ela se ele assim o desejasse. Eu sou uma garota deplorável, meu Hades.
Fale com o autor