Coaching Daddy
3 Capítulo 3
Notas iniciais
— Vocês conseguem montar a mesa sozinhos? – perguntou Thea no balcão e os dois assentiram, querendo ajudar. Thea deu os talheres e guardanapos e os dois foram até a mesa de jantar. – Começa a falar.
— Em uma das viagens que eu fiz com o time para Nevada, conheci a mãe deles. Sara Lance. Ela estava em um encontro, mas o cara nunca apareceu. Tínhamos acabado de enterrar papai, eu estava no começo da minha carreira e ela era linda. Nós começamos a beber e a jogar juntos. – eu disse e observei os dois colocando os talheres na mesa certinhos. – Nós dormimos juntos e casamos em uma capela qualquer de Vegas.
— Oh meu Deus... – riu Thea lavando o macarrão cozido.
— Não durou muito, nós nos divorciamos três dias depois e eu nunca mais vi ela na minha vida. – eu terminei e os dois voltaram e levaram dois pratos cada um.
— Eles chegaram hoje? – perguntou Thea e eu assenti. – Tommy que me contou que eles estavam aqui, não Roy. Ele me pediu para vir aqui antes que você desse um shake de proteínas de jantar para eles.
Revirei os olhos.
— Que loucura, cara... Imagine a reação de Moira Queen ao descobrir que é avó. – ela disse colocando o macarrão dentro de uma tigela e eu me arrepiei com o cenário que ela pintou.
— Assumindo que eles são meus filhos mesmo. Isso ainda está sob debate.
— Oliver, você não vê, porque não quer! Eles são a sua cara! – exclamou ela despejando molho vermelho em cima do macarrão. – Mamãe vai ficar nas nuvens quando descobrir sobre eles.
— Ela não vai descobrir até termos certeza, estamos claros Speedy? – perguntei usando a minha voz séria e Thea assentiu e misturou a gororoba que havia feito.
Pegou uma jarra de suco de laranja e levou para mesa.
Eu respirei fundo, peguei quatro copos e a segui.
Nós sentamos na mesa e Thea serviu os pratos dos remelentos e foi bem generosa com o parmesão ralado. Comemos em silêncio, não por falta de assunto, só Deus sabe que assunto era o que mais tínhamos agora, mas porque os dois atacaram a comida e só paravam para respirar ou beber o suco de tempos em tempos.
— Ahm, está sujo aqui... – disse ela apontando para o próprio queixo enquanto me encarava.
Ergui uma sobrancelha e ela esticou sua mão. Recuei levemente com medo de ser atingido por um tapa ou qualquer coisa, mas ela apenas se inclinou ainda mais e passou o dedo pelo meu queixo tirando o molho de tomate que tinha ali.
— Prontinho. – disse limpando a mão em seu guardanapo e voltando a atacar seu prato.
Me senti levemente culpado.
Eles não tinham comido nada por causa do longo treino de hoje.
O remelento 1 foi o primeiro a acabar. Ele pediu licença e tirou seu prato e copo, os levou para a pia da cozinha e depois caminhou até o lavabo social com uma pequena necessaire em mãos. Eu conseguia ver ele escovando os dentes e passando o fio dental de onde estava sentado. A remelenta 2 fez o mesmo quando acabou seu prato.
Thea os observava com um sorriso enorme e eu realmente não via o que eles tinham de tão impressionante assim. Eram crianças que sabiam como passar o fio dental, isso não é nada demais. Eu já sabia me barbear com nove anos.
— Eles têm cinco, e sim, é muito impressionante eles serem muito educados e higiênicos considerando... – ela disse e me mediu da cabeça aos pés. – Bem, você.
— O que isso significa?
— Significa que graças á Deus, eles não puxaram nada de você além da aparência. – ela disse e caminhou até a remelenta que estava penteando o cabelo com bastante dificuldade.
Revirei os olhos e comecei a tirar a mesa. Lavei, sequei e guardei a louça.
Peguei a coleira de Archer e o chamei dos pés do remelento que ainda estava lendo Harry Potter no sofá, mas já estava de pijama.
— Vou levar o Archer para passear. – eu disse e Thea soltou um “Okay” enquanto arrumava o cabelo da remelenta.
Archer veio até mim e eu afivelei sua coleira ao redor de seu pescoço e corpo.
Nós descemos os 32 andares de escada, ele precisava voltar sua rotina de exercícios assim como eu. Buldogues tem históricos de doenças cardiovasculares e respiratórias, por mais que não estava em meus planos adotar ele como fiz dois anos atrás, não iria suportar ver ele doente. Ele tinha se tornado quase que uma parte de mim, e sua saúde foi sempre uma das minhas prioridades.
Ele era um fardo que eu amava ter.
Parece que somos seus filhos e você é o nosso pai.
Ignorei a voz da remelenta soando em minha cabeça, enquanto saía na rua e puxava o capuz do moletom para cima. Archer conseguiu manter meu ritmo até precisar se aliviar. Entramos no Stanley Park e fomos até sua árvore favorita. Ele bebeu água no espaço pet e recuperou o fôlego bem mais rápido do que eu imaginava. Nós continuamos correndo, depois trotando, depois correndo e por fim voltamos caminhando para o apartamento.
— Exercício de cardio de uma hora sem pedir arrego... Nada mal Archer. – eu disse pegando ele no colo para entrarmos no elevador.
Digitei meu código de segurança e recebi uma lambida de Archer enquanto ele apoiava sua cabeça grande e pesada no meu ombro. Fiz carinho em suas costas, enquanto soltava as fivelas de sua coleira e ele me escalou até eu achar o ponto certo para coçar.
Chegamos no apartamento e ele foi correndo até seu cantinho na lavanderia beber água como sempre. Encontrei Thea sentada no sofá em meio a cobertas com seu celular em mãos e um sorriso bobo no rosto.
— Você finalmente conseguiu que Roy vestisse uma fantasia de policial ou descobriu algum podre sobre Rachel Parker? – perguntei me fazendo presente e ela desviou o olhar do celular para mim. – Está usando seu sorriso satisfeito e está me assuntando.
— Não e não. Muito melhor. – ela disse e apontou a tela para mim onde vi os dois remelentos juntos com ela na minha cama sorrindo para uma foto.
Revirei os olhos pelo que parecia a enésima vez apenas hoje e Thea bufou.
— Acho bom eles saírem da minha cama, enquanto estou no chuveiro... – eu disse tirando o agasalho e foi a vez de Thea revirar os olhos.
— Eles irão dormir lá, eu peguei o sofá. – ela disse e ergui uma sobrancelha.
— Esta é a minha casa. Minha cama. Meu sofá. – disse enumerando em meus dedos. – Não tenho quarto de hóspedes, porque não gosto de hóspedes.
— Seus filhos. Sua irmã. Eu venci. – ela disse terminando de contar com os seus próprios. – É só por uma noite. Amanhã mesmo, eu vou voltar e remodelar a sala cinema para um quarto para eles.
— Wow! Nós nem sabemos se eles são meus de verdade! – eu exclamei e Thea apertou o indicador em seus lábios, então abaixei a voz. – Isso tudo pode ser um grande mal-entendido e eu não irei colocar minha sala cinema em risco!
— Ollie... Você está tentando me convencer ou convencer á si mesmo? – ela perguntou e eu decidi ir tomar banho.
Me despi e entrei no banheiro. Foi a melhor ducha da minha vida. Cada parte do meu corpo foi relaxado pela água quente, e a sensação melhorou ainda mais quando entrei dentro da minha calça de pijama. Voltando para o quarto, vi os dois remelentos espalhados na cama e Archer no meio deles, todos dormindo e babando.
— Traidor. – acusei olhando para o cachorro que estava babando no meu travesseiro. Suspirei endireitando a remelenta que estava quase caindo da cama e fechando o livro do remelento, mas não antes de marcar a página em que ele estava.
Oh. Harry já estava falando a língua das cobras.
A melhor parte estava chegando.
Olhei ao redor. É claro que não iria acordá-los, mas com certeza não iria dormir no chão duro. Abri as portas duplas do closet em silêncio e peguei a maior parte dos meus cobertores e mantas. Puxando meu travesseiro debaixo da cabeça de Archer, que eu ainda não sabia conseguiu subir na cama alta, caminhei até a minha academia.
Fiz minha cama no tatame com os cobertores e me joguei no chão duro. Cruzei os braços e olhei para o teto. Thea estava certa. Eu estava mentindo para mim mesmo, a semelhança entre nós chegava a ser assustadora. Peguei meu celular e mandei uma mensagem para Walter pedindo um favor. Ele deveria estar passeando com mamãe de gôndola em Veneza, mas sabia que ele poderia me ajudar com o que iria pedir.
—--
— Bom dia, raio de Sol! – exclamei ao ver Thea entrando na cozinha com a cara amassada.
Ela poderia estar dormindo e andando sonambula, eu não sabia, mas o que eu sabia era que Thea Queen nunca foi uma pessoa matinal. Nunca. Nem quando era pequena e definitivamente não agora.
— O que você está fazendo? – perguntou enquanto sentava na bancada e esfregava os olhos.
— Café da manhã. – eu respondi e coloquei uma xícara de café na sua frente.
— A minha definição de café da manhã ou a sua definição de café da manhã? Shake de ovo e sardinha não é algo que eu coma pela manhã, Ollie. – ela disse esfregando o rosto.
— Diferente de você, eu já tomei o meu café da manhã, já fiz minha rotina matinal e meus exercícios com Archer. Estou fazendo o café da manhã dos remelentos. – eu disse virando para o fogão e desligando o fogo. – É o que chamamos de pró-atividade, disposição...
— Oh meu Deus, o que aconteceu com você ontem? Dormir no chão te faz tagarela e energético? – ela resmungou bebendo seu café e eu revirei os olhos.
Eu não tinha conseguido pregar o olho.
Depois de conseguir a resposta de Walter, eu fiquei escrevendo e estudando jogadas e estratégias novas que poderíamos usar no campeonato, depois comecei a malhar. Não usei nenhum dos equipamentos, para não acordar ninguém e ser xingado, foram apenas flexões e abdominais. Não parei de fazê-los até sentir a velha e boa queimação nos músculos debaixo da pele.
Quando o Sol nasceu, mandei uma mensagem para Tommy perguntando sobre o resultado do teste mesmo já suspeitando qual seria a resposta, mandei mensagem para Slade dizendo que provavelmente iria me atrasar de novo hoje e depois comecei a pesquisar o que crianças comiam no café da manhã. Confesso que me senti culpado por ter deixado eles passarem fome no dia anterior devido ao treino longo, mas queria mudar isso e descobrir o que diabos dar para eles comerem que não fosse a ração de Archer.
Simplesmente digitei na linha de busca do Google. “Comidas para crianças.”, do mesmo jeito que havia feito dois anos atrás com Archer, e achado sua ração orgânica que era forrada com proteínas, ferro e cálcio.
Imagine minha surpresa quando eu descobri o que crianças comem. A resposta era: Porcaria. Cereal em formas estranhas e coloridas não era café da manhã. E eu com certeza não iria comprar essa merda industrial para eles comerem.
Decidi mandar mensagem para Raisa que me passou uma lista de compras depois de eu ligar e dispensar sua ajuda. Hoje era terça-feira, era o dia de jardim dela. Ela amava cuidar dos jardins da mansão e das roseiras de mamãe de terça-feira.
Peguei Archer e repetimos nossa rotina de exercícios das escadas até o parque e depois até o Walmart mais próximo. Comprei quase que a seção de frutas inteira, alguns legumes que eu sabia cozinhar, diversas outras coisas, não resisti á pelo menos dois potes de sorvete porque meu começo de ano já estava estressante e mais um saco de ração para Archer junto com um brinquedinho novo. Peguei as três sacolas pardas pesadas e peguei Archer na saída, por sorte, ninguém me reconheceu na rua devido ao boné e aos óculos escuros que estava usando. O que eu menos queria agora era uma foto minha parecendo a dona de casa fazendo compras, tão doméstico.
O substituto de Rory ofereceu ajuda e eu recusei, apenas pedindo para ele chamar o elevador para mim, acho que seu nome era Alex, ele era um grande fã do Starling City Rocketes e parecia nutrir uma certa obsessão por mim, por isso tentava manter minha distância o máximo que conseguia.
— Onde está Rory?
— Ele está gripado e foi afastado, senhor. – ele respondeu e eu apenas assenti.
— Está no hospital?
— Sim, senhor. – respondeu e eu maneei a cabeça.
Oh que pena. O causador de minha recém-adquirida paternidade estava doente demais para eu poder bater nele. O elevador chegou, Alex fez com que Archer entrasse atrás de mim quase sendo mordido no processo e liberou o código com a chave/cartão que estava em seu pescoço.
Acenei agradecendo e as portas se fecharam. Archer ficou sentado ao meu lado o tempo inteiro, ele não gostava de desconhecidos. Mais um fato interessante, porque aparentemente ele aprendeu a escalar camas e adorar desconhecidos, desde que tudo isso envolvessem os remelentos.
E eu, realmente, me nego a sentir ciúmes de um cachorro.
Quando chegamos em casa, todos estavam dormindo ainda. A viagem foi bem longa, e eles deveriam estar cansados. Fiz meu shake de proteínas e guardei as compras nos armário e geladeira, será que eu iria precisar daqueles cadeados de segurança também?
Comecei pelo mais fácil que era fritar o bacon. Não fritei muitas tiras, porque se não Archer iria querer. Fiz torradas, omelete e uma pequena salada de frutas para Speedy como agradecimento pelo jantar de ontem e quando ia quebrar os ovos na frigideira notei a remelenta em pé perto da porta coçando os olhos.
— Oi. – ela disse.
— E aí... Quer dizer, bom dia. – eu disse e quebrei os ovos. Ela veio até o meu lado, curiosa e eu a afastei com uma mão. – Quente, perigoso, criança, afasta.
Ela obedeceu, mas ficou na ponta dos pés para ver.
— São ovos mexidos? – perguntou e eu assenti. – Com bacon e verdinhas?
— O que são verdinhas? – perguntei quebrando as quatro gemas e começando a misturar.
— Verdinhas são um negócio verde que a mamãe colocava nos nossos ovos e ficava super iper mega ultra power gostoso! – ela disse abrindo os abraços para mostrar o quanto gostava.
Estendi o braço para o armário acima de minha cabeça e peguei dois potes que poderiam ser as tais verdinhas e mostrei pra ela, enquanto mexia os ovos na frigideira sem deixar grudar no fundo.
— Essas mesmo! – ela disse apontando para salsinha. Guardei o orégano e dei a salsinha para ela segurar. Depois a ergui com apenas um braço e ela despejou a salsinha em cima dos ovos como queria. – Agora você tem que misturar tudo!
Devolvi ela para o chão e continuei misturando.
— Vá escovar os dentes e trocar de roupa, acorde o outro remelento também. – eu disse e ela assentiu e saiu pulando da cozinha.
Thea acordou cinco minutos depois.
Deus... A fadiga estava começando a cobrar seu preço.
— Ollie?
— Sim? – perguntei me voltando á minha irmã na minha frente.
Por que uma manhã pareciam dias dentro da minha cabeça?
— Você está olhando para o nada... De um jeito bem sinistro. – ela disse e eu revirei os olhos.
Coloquei mais dois pratos no balcão e servi os ovos, o bacon e as torradas.
— Eles não bebem café, Ollie. – Thea disse rindo quando olhei para as duas xícaras em minha mão.
— Que bom, porque isso é veneno e estraga os dentes. – eu disse trocando as duas xícaras por dois copos. Deixei suco e água a disposição na frente dos pratos.
— Você está parecendo Raisa assim.
— Algum de nós dois ouvia o que ela falava então. – rebati e ela mordeu sua torrada com um sorriso escondido. A remelenta reapareceu parecendo elétrica e pronta para a guerra. Jesus me ajude, por favor. — Sente.
— Mas é alto demais...
Peguei ela no colo novamente e a coloquei de frente para o prato. Thea riu.
— Posso beber suco de laranja? – perguntou para Thea que assentiu.
— Coma um pouco primeiro. – eu disse sentando ao seu lado.
Remelento 1 apareceu pronto para o dia e com seu livro debaixo do braço. Ele disse “Bom dia” e sentou ao lado de minha irmã. Sem pedir ajuda para sentar na banqueta alta.
— O que irão fazer hoje? – disse Thea comendo sua salada de frutas.
— Tommy vai chegar daqui a pouco assim espero com os documentos deles, e depois treino e depois cama. – eu disse e Thea assentiu. – Mas uma coisa de cada vez. Ainda são 9 da manhã.
Os remelentos comeram em silêncio e depois foram até a varanda brincar com Archer. A piscina e a hidro estavam fechadas, e as barras de proteção eram maiores que eles, então não havia perigo. Tenho certeza que a ESPN aposentou o drone paparazzi deles assim que foi processada por vários jogadores da NBA por invasão de privacidade e danos morais.
Estávamos seguros, por enquanto.
Thea lavou a louça do café para depois se juntar aos remelentos, e eu fui arrumar a bagunça que havia feito na academia. Quando terminei de dobrar o último cobertor, senti meu celular vibrar no bolso da calça.
"Tommy, M: Eles estão vivos ainda? Estou no elevador e não quero ser cúmplice de homicídio infantil."
Revirei os olhos e preferi não responder. Ele estava de bom humor para fazer piadas tão cedo assim, o que significava que ou ele tinha boas notícias ou tinha se dado bem na cama com alguma mulher ontem. Quando ouvi o elevador abrir, assoviei e todos saíram da varanda e vieram para dentro.
Esse negócio de assovio até que funcionava bem com eles.
E com Thea também.
— Titio Tommy! – exclamou a remelenta 2 quando viu Tommy em sua glória carregando uma caixa de arquivo.
— E aí gatinha? Dormiu bem? Ele fez você e seu irmão passarem fome? – perguntou Tommy colocando a caixa na mesa de jantar e se abaixando até ficar do tamanho da remelenta 2.
— Foi muito legal! A cama é tão grande! E Oliver fez ovos com verdinhas hoje! Estava tão gostoso! – ela disse animadamente e Thea e Tommy riram, encantados.
— Espero que não tenha sido maconha... — sibilou Tommy baixinho e eu encarei ele com a cara fechada. — Brincadeira, cara.
Suspirei junto com o remelento 1 que estava ao meu lado.
— Okay! Vamos resolver isso logo, por favor. – pedi.
— Por que vocês não assistem um pouco de Netflix enquanto eu e os adultos vamos cuidar da papelada que vocês trouxeram? – sugeriu Tommy e ela assentiu.
Thea ligou as TV' de plasma e os dois acamparam no sofá. Me voltei para Tommy que abriu a caixa e começou a colocar vários papéis em fileiras na mesa.
— A história deles confere. Sara Lance faleceu a cinco meses atrás por causa de leucemia, ela tinha sido tratada e estava sem a doença por anos, mas depois do parto deles, ela voltou por causa da vulnerabilidade que seu corpo foi exposto. Ela sofreu várias recaídas e tentou diversos tratamentos, infelizmente, sem sucesso. – ele começou em voz baixa mostrando um arquivo com a foto de Sara.
Ela era linda e bem do jeito que eu lembrava dela. Cabelos loiros, sobrancelhas marcadas, olhos azuis e boca pequena e carnuda. Ela era linda. Não merecia morrer do jeito que morreu. Ignorei o aperto em meu peito e o arrepio que correu ao longo da minha espinha.
— Seguimos para o vovô e vovó Lance. – ele disse pegando outro arquivo e me entregando. – Quentin Lance foi condenado e está preso por ter provocado um acidente de carro enquanto estava incrivelmente chapado, o teor alcoólico estava nas alturas quando chegou no hospital, ele aleijou uma garota no processo. Dinah Lance está internada em Ninho das Aves, uma casa de repouso para idosos que sofrem com demência, Alzheimer, derrames... Literalmente mandam os coroas para lá para bater as botas.
— Então vovô e vovó estão fora. – eu disse olhando para a foto dos dois e ele assentiu.
— Próxima, nossa querida Kristen James. Ou Sin, como prefere ser chamada. – ele disse e me entregou a próxima pasta. Abri e vi uma foto da gótica que havia trazido os remelentos até mim. – 17 anos. Era a babá de Damien e Julianna quando Sara trabalhava turnos extras como barwoman ás vezes e quando era internada no hospital. Quando Sara morreu, Kristen e sua mãe, Sylvia, ficaram com os gêmeos até o enterro e até a assistente social localizar parentes vivos.
— O serviço social não sabia da paternidade, sabia? – perguntou Thea olhando o arquivo ao meu lado. – Isso teria sido um escândalo se soubessem que Oliver é pai de gêmeos.
— O serviço social não sabia porque Sin não contou. Sara deixou instruções bem específicas com Sylvia e Sin para os dois virem até você depois que as aulas acabassem e as férias de fim de ano começassem. – Tommy disse e pegou a última pasta.
— Por que eles não ficam com as duas então?
— Sylvia não fez o que fez, porque tem um coração bondoso, Ollie. De acordo com Sin, ela recebeu uma bolada das economias de Sara para atuar como a responsável até que as crianças chegassem aqui. – ele disse e me deu outra pasta com fotos de uma mulher morena de meia-idade ao lado de uma versão sem delineador e piercings de Sin.
— Planejado?
— Eu conversei com Sylvia e Sin a tarde inteira ontem, mas foi Sin que desembuchou tudo. Sara aparentemente sabia que iria morrer e deixou tudo pronto para que os gêmeos não entrassem para o sistema de adoção. Ela deixou dinheiro para as despesas do enterro, para as passagens de trem de Central City até aqui, vendeu a casa e o carro que tinha para pagar algumas dívidas e o suborno da Mamãe Adams... – ele disse e colocou as mãos na cintura. – Sin também me contou que Sara tentou te ligar quando deu entrada no hospital pela última vez, pela ordem cronológica de tudo, você estava em Aspen com Makenna na festa da Victoria Secret's. Duvido que tenha notado uma ligação perdida de um número desconhecido.
— Hey! – eu disse ofendido e Thea riu levemente.
— E agora o mais importante... – ele disse me entregando a pasta mais fina em comparação as outras. — O teste de paternidade confirma que eles sãos seus. Os documentos são autênticos. As crianças possuem 42 mil dólares esperando por eles no banco, junto com um seguro de vida bem caro para cada um.
— Eu conheço esse tom de voz, Merlyn. Qual a má notícia?
— Você vai querer assumir eles? Não tem o nome do pai registrado nos documentos, apenas na certidão. – Tommy revelou me entregando a última pasta com as fotos dos remelentos presa á um verdadeiro bolo de papéis e documentos.
Olhei as fotos e depois olhei para os dois no sofá assistindo Bob Esponja.
— E Laurel Lance? – perguntei e Tommy maneou a cabeça.
— Ela tem um apartamento em Central City com as contas em dia, mas aparentemente deve estar trabalhando para o serviço secreto britânico porque ela sumiu do mapa! – ele disse dando ombros parecendo realmente frustrado. – E tem um histórico alcoólico pior do que o do pai, mas não tem nenhum mandado de prisão em seu nome.
— Você fez tudo isso em um dia? – perguntou Thea boquiaberta e Tommy fechou a cara.
— Eu levo meu trabalho a sério e a situação implica Oliver, as crianças, a carreira dele, a minha carreia, você e o resto de sua família, Speedy. – disse Tommy como se fosse óbvio. – A única razão pela qual eu ainda não pirei com tanta papelada e a viagem rápida até Central City foi porque tomei muito café e seis calmantes hoje.
Thea riu, mas eu vi que ela estava tão preocupada quanto Tommy. Respirei fundo e olhei para foto de Sara no hospital com dois embrulhos gordos em seus braços e um sorriso enorme no rosto inchado.
— Prepare a melhor coletiva de imprensa da sua vida. Eu quero até a fodida Super Nanny lá. Dê entrada nos novos documentos deles e pesquise escolas perto daqui... Tudo que eles precisarem. – eu disse fechando o arquivos dos dois e jogando de volta na caixa.
— Ollie, pense bem. Não vai ter como cair fora depois. – disse Tommy usando seu tom de aviso. – Você não vai poder abandoná-los em um internato sem afetar sua carreira, se assumir eles, vai estar trocando farra por reuniões escolares, o que também diz bye bye para suas fodas casuais.
Esfreguei meu rosto e assenti.
— Eu sei.
— Tudo vai girar em torno deles e de como você se porta como pai, Ollie. – disse Thea ficando ao lado de Tommy e eu assenti mais uma vez.
— Eu sei, só faça o que eu pedi. – eu pedi novamente.
Eu fingi que não vi o olhar preocupado que trocaram entre si e apenas sentei no meio dos remelentos e coloquei minha reprise de Eagles VS Patriots nas duas tevês de plasma acima do desenho. Archer veio para o meu colo e eu comecei a estudar as jogadas de Tom Brady.
Porra, eu realmente sou pai.
—--
— Okay... Hora de conversar. – eu disse quando estacionou na minha vaga de sempre do centro de treinamento do time.
O centro de treinamento era um complexo acoplado ao Estádio de Starling e eu até tinha chegado bons vinte minutos antes do treino de hoje. Assim como René que havia estacionado sua Harley na vaga de Adrian ao meu lado, só para irritar nosso colega de time.
Tirei o cinto e me virei para o banco de trás encarando dois pares de olhos azuis.
— Eu não sabia que vocês existiam até ontem, e agora sou pai. Não é a melhor semana da minha vida e nem o começo de ano que tinha planejado, mas a gente vai ter que discutir algumas regras para ninguém entrar em problemas. – eu disse e eles assentiram juntos. – Primeira regra: não saiam do meu campo de visão. O lugar é grande e é fácil se perder. Segunda: não conversem com ninguém que não conheçam. Terceira: não aceitem nada de ninguém que não conheçam.
— Oliver, não sair correndo, não falar com estranhos e nem aceitar coisas que eles oferecem... A mamãe já ensinou isso pra gente. – disse o remelento 1 revirando os olhos e eu assenti.
— Okay, então continuem fazendo isso e fiquem na de vocês até o treino acabar. Se vocês ficarem com fome... – eu disse e joguei a bolsa térmica no meio dos dois. – Tem lanches e suco aí dentro.
— A gente promete fazer tudo isso, mas o que a gente ganha em troca? – perguntou a remelenta 2 cruzando os braços.
— O que vocês querem? – perguntei cruzando os meus também.
— Eu tenho que pensar ainda... – disse ela e eu assenti.
— Sigam o plano hoje e em casa nós conversamos sobre isso. – eu disse e eles assentiram.
Nós três saímos do carro e desta vez remelenta 2 não quis entrar no vestiário vendada, então ela ficou no corredor com o remelento 1 enquanto eu me trocava e colocava o equipamento. Ambos haviam trazido livro e desenhos para colorir desta vez, então eles iriam se ocupar durante o treino. Me troquei rapidamente e coloquei meu equipamento, assim que estava terminando de amarrar os cadarços da minha chuteira, Adrian entrou no vestiário com um sorriso.
— Vai começar a trazer eles todo dia? – perguntou deixando sua bolsa cair ao meu lado enquanto abria seu armário.
— Acho que sim. – respondi me levantando.
— Se precisar de ajuda, Queen... Saiba que pode me ligar. Sei que você não é fã da ideia de ser pai, mas eles estão aqui e eu posso tentar te ajudar no que for preciso. – ele disse em um tom sério e eu assenti.
— Você poderia me passar o nome da babá de Anthony. – resmunguei saindo do vestiário e ouvindo sua risada.
Assoviei e eles levantaram do chão rapidamente e me seguiram até a entrada do campo. Apontei para a estação de treinadores vazia e eles sentaram lá. Começaram a ler e colorir sem hesitação. Coloquei meu capacete e fui até onde Slade estava conversando com Dig e os outros guards.
O treino correu bem, Slade tirou o couro de todos nós com mais seções de rastejo e depois passou a nova rotina de exercícios da academia. De tempos em tempos, eu olhava para os remelentos e eles não pareciam se mover nem um centímetro até que a remelenta 1 começou a andar na margem do campo onde era marcado a linha de jardas como se estivesse pulando em uma amarelinha invisível. Thea também costumava fazer isso quando éramos bem menores.
Quando tive a terceira pausa fui até eles com o capacete na mão. A remelenta 2 torceu o nariz quando viu que eu estava suado demais e manteve distancia, já o remelento 1 nem se deu ao trabalho de levantar o olhar para mim.
— Vocês comeram os sanduíches? – perguntei e eles assentiram. – Legal. O que estão fazendo?
— Tentando não morrer sufocados pelo seu cheiro... – disse a remelenta 2 apertando o nariz entre os dedos. – Você vai tomar banho depois, né? Está cheirando a cachorro molhado e a chulé!
Revirei os olhos querendo rir de sua observação.
— Nós já estamos acabando, e depois vamos para casa. – eu disse e coloquei o capacete de novo.
Nós jogamos dois tempos completos e depois Slade nos liberou. Nosso primeiro jogo seria com os Owls de Opal City. Eles eram um time considerado “fraco”, eu tentava não superestimar times pequenos, porque eles tem mais potencial para surpresas do que times grandes, mas Barry parecia confiante que iríamos ganhar.
— Vou tomar banho antes que eu te mate com o meu fedor. Fiquem aqui. – eu disse na porta do vestiário e os dois apenas assentiram e sentaram no chão.
Corri para dentro e dei meu equipamento para Josh que era um dos assistentes do time, peguei uma toalha e corri até as duchas. Ignorei a vontade de esganar René e Barry que estavam cantando nos boxes ao lado e apenas me lavei. Quando a camada de suor, sujeira e grama saiu do meu corpo, eu até me senti mais leve e bem mais relaxado.
Me vesti rapidamente e joguei a toalha usada no cesto de roupas sujas. Voltei para o corredor. Eles estavam conversando com Adrian e Dig no corredor e estavam rindo.
— Oliver! Você vai ter que me ajudar, cara.. – começou Dig e eu ergui uma sobrancelha. – Apostei com sua pequena aqui que era ótimo em guerra dos polegares e ela me deu uma surra.
— O que você apostou com ela? – perguntei pegando a mochila da remelenta 2 do chão e jogando pelo ombro junto com a minha própria.
— Big Belly Burguer. – a remelenta 2 respondeu com um sorriso enorme.
Olhei para Dig que apenas deu de ombros e suspirei assentindo.
Ela socou o ar em sinal de vitória rindo ainda mais.
No caminho de casa, eles ficaram quietos demais. Mesmo conhecendo eles á apenas dois dias sabia que isso não era um sinal bom, o remelento 1 até que era quieto na dele o problema era a remelenta 2. Toda vez que eu olhava pelo retrovisor ela estava encarando sua pasta de desenhos ou encarando a janela com um olhar perdido.
— O que vocês vão querer? – perguntei virando o carro para entrada do drive-thru do primeiro Big Belly que achei.
Ainda não podia arriscar ser visto em público com eles, então era melhor evitar.
— Big Belly Kids! Com o brinquedo da Supergirl! – exclamou a remelenta e assenti parando ao lado do microfone.
— Eu também. Só que eu quero o Flash. – disse o remelento 1.
Apertei o botão vermelho e redondo e a voz de uma atendente entediada respondeu.
— Bem-vindos ao Big Belly Burguer Drive-Thru! Posso anotar seu pedido?
— Eu quero dois especiais kids com brinquedos e um Big Belly Mad Max com bacon e picles extras e fritas. – respondi olhando o enorme outdoor de opções na minha frente.
— Qual é a opção de brinde dos especiais kids?
— Supergirl e Flash! – gritou a remelenta de sua própria janela com entusiasmo que me fez sorrir.
— Por favor dirija-se á próxima janela para efetuar o pagamento! Obrigada pela preferência e volte sempre!
Nem se o inferno congelar, colega. Continuei no caminho e depois pagar os lanches, subi a janela da remelenta 2 quando chegamos perto de uma das atendentes que estava segurando nossos lanches com um sorriso forçado.
— Não! Eagles marcou!— alguém gritou do lado de dentro e isso chamou minha atenção.
Porra, hoje era a estreia do campeonato! Como é que eu fui esquecer isso? Oh sim, estava ocupado demais descobrindo que era pai de fato para lembrar do jogo de Eagles VS Pirates! Merda. Engoli alguns palavrões e abaixei mais minha janela.
— Está quanto o jogo? – perguntei me esticando para ver a televisão do lado de dentro onde dois atendentes assistiam de perto.
— 12x09. – alguém respondeu do lado de dentro.
— Obrigada. – disse quando peguei a sacola parda no banco do carona.
— Ai meu Deus! Oliver Queen! — a atendente me reconheceu e eu ri. Antes que ela sacasse seu celular ou pegasse fôlego para pedir uma foto, eu acelerei e liguei o rádio da estação de esportes.
Quebrei duas ou três leis de trânsito e cheguei em casa quando o bastardo do Carson Wentz marcou outro touchdown, sai do carro com as bolsas e os lanches em mãos e quase esmaguei o botão do elevador de tanto apertá-lo. Era a tradição que o time que fosse campeão no campeonato anterior fosse o primeiro a jogar no campeonato seguinte.
— Vamos! Vamos! – eu apressei os dois para entrar no elevador e digitei o código de segurança.
— Você sabe que consegue assistir a reprise depois, né? – perguntou o remelento 1 e eu assenti.
— O problema não é o jogo em si... – eu disse e dei os lanches para remelenta 2 segurar.
Mais seis andares.
— O que é então? – perguntou a garota pescando uma batata frita do saco.
Cinco andares.
— A coletiva de imprensa que acontece depois do jogo com o time inteiro. – respondi.
Quatro andares.
— O que acontece?
Três andares.
— Vamos dizer que o primeiro time que vence gosta de ameaçar outros times.
Dois andares.
— E você acha que vão ameaçar o seu? – perguntou a remelenta 2 e eu assenti.
As portas se abriram e eu vi Tommy no sofá com Roy e Thea assistindo o jogo.
— Olá pessoas que não moram aqui. – saudei os três que estavam assistindo o finalzinho do jogo.
— Shhhh. – os três ecoaram juntos quando o rosto de um Carson Wentz apareceu nas quatro telas na parede.
— Quem você está ansioso para enfrentar nesta temporada?
— Rockets, Patriots e Giants. — ele respondeu ofegante enquanto segurava seu capacete.
A torcida estava uma loucura atrás dele.
— Por que?
— Melhor do que ganhar de Tom Brady é ganhar de Oliver Queen. Os Rockets não participaram da NFL ano passado porque a maioria dos jogadores foram convocados para as Olímpiadas, mas esta temporada eles irão participar e eu vou arrancar o anel do dedo de Oliver Queen e eu tenho certeza que vai ser no fodido SuperBowl. — prometeu ele olhando para câmera e para repórter.
— Não repitam as palavras feias. — eu disse e os remelentos assentiram.
Logo ele foi chamado pelo treinador dos Eagles que por coincidência ou não era um dos piores inimigos de Slade, um tal de Billy Wintergreen. Eles tinham uma rixa desde os tempos que os próprios jogavam nos campos e quando viraram treinadores, só piorou.
— Você tem que responder! – disse Thea e eu apenas continuei encarando as telas.
Oh Carson... Você realmente acabou de me ameaçar em rede nacional?
— Calma, a gente não pode fazer qualquer coisa sendo que nem jogamos o primeiro jogo ainda... – respondeu Roy e depois recebeu um olhar assassino de minha irmã. – Mas também não pode deixar isso pra lá.
— Ele te ameaçou? – perguntou a remelenta 2 do meu lado e eu assenti.
— Mais ou menos.
— Você deveria responder. – disse o remelento 1 tirando seu lanche do saco pardo já manchado de gordura. – Mamãe sempre disse para a gente ignorar as crianças malvadas, mas de vez enquanto tínhamos que atacar também para nos defender.
— Principalmente se eles roubam seu brinquedo favorito! – emendou a remelenta 2 e cruzou os braços.
— Eu devo concordar com as crianças e não, não estou me referindo á Thea e Roy. – disse Tommy se levantando do sofá recebendo olhares do casal no meu sofá. – E eles estão querendo roubar seu brinquedo favorito Ollie.
Sim.
Eu tinha paixão pelos cada um dos meus troféus e tinha uma sala cheia deles, mas nenhum troféu ou taça se comparava ao anel de bicampeão da NFL. Remelento 1 estava comendo suas fritas e abrindo a embalagem de seu brinquedo quando eu tive uma ideia.
Fui até a sala de troféus e afastei o quadro com a minha primeira camiseta jogando para o Rockets, abri o cofre e peguei as caixas dos anéis.
Voltei para sala de estar com eles em mãos e vi os dois comendo á mesa com Tommy e Roy que haviam pedido pizza aparentemente. Thea estava no telefone na varanda.
— Me dê sua mão... – eu pedi para remelenta 2 que estendeu e eu coloquei o primeiro anel de campeão do primeiro campeonato que joguei pelos Rockets no dedo anelar dela. Notei que suas pequenas unhas estavam pintadas de rosa e azul e completamente borradas. Roy engasgou quando viu o que estava fazendo e Tommy estava ficando roxo de tanto segurar o ar. – Agora você.
Remelento 1 também estendeu a mão, mas estava mais hesitante do que a irmã, coloquei o anel de bicampeão no dedo anelar dele. Estava ridiculamente folgado ao redor dos dedos pequenos e finos dos dois, mas iria funcionar.
— Eu vou gravar um vídeo e vocês vão me oferecer cada um, uma batata, okay?
Eles franziram ainda mais as sobrancelhas, e isso os fez parecer ainda mais parecidos, mas assentiram. Peguei meu celular e acessei minha conta quase que esquecida do Instagram. Apontei a câmera para o meu rosto.
— No três, okay?
Eles assentiram e pegaram as batatas.
— Não é comigo que vocês têm que se preocupar. – eu disse sorrindo para câmera enquanto contava com os dedos para os remelentos. As batatas vieram de lados opostos do meu rosto e eu comi a duas deixando os anéis e meu rosto em evidência.
— Mas acho que estou pronto para o terceiro... – eu disse de boca cheia e os dois riram e eu encerrei o vídeo.
Assisti duas vezes para ter certeza que nada além de suas mãos e um pouco da risada deles aparecessem no vídeo e postei ele sem legenda alguma.
O recado estava dado.
— Em menos de cinco minutos, Billy Malone vai estar falando de mim. – eu disse fazendo Tommy e Roy rirem, e vi Tommy sacar o próprio celular.
Liguei a ESPN News e esperei.
— Fechem os punhos e olhem para cá!... Ollie mostre os dentes! – ele pediu e os remelentos fizeram o que mandaram e sorriram. Fiz uma careta e os dois gargalharam e Tommy bateu a foto. – Acho que já tenho a capa da próxima edição de esportes do Starling Times Sports.
— Okay okay, hora de comer. – eu disse e meu coração perdeu a batida com vi a remelenta afogar uma batata frita no potinho cheio de ketchup.
Peguei meus anéis de volta e os guardei em seu devido lugar.
—--
Depois de um banho de banheira merecido, eu admiti derrota e me permiti ficar exausto fisicamente e psicologicamente. Eu estava mais quebrado do que quando Slade mandou eu fazer o rastejo com Brad, um guard de 123kg, em minhas costas por todo o campo para conseguir a braçadeira de quarterback e capitão do time.
Saí do banheiro, mas não antes de reparar mudanças sutis como duas escovas de dente extras junto da minha, sereias de borracha no chão do box e duas toalhas coloridas cheias de desenhos no aparador térmico perto da minha.
Surpreendentemente isso não me irritou.
Coloquei um conjunto de moleton e voltei para sala onde Tommy estava brincando de guerra dos polegares com o remelento 1. Roy havia ido embora e Thea estava cochichando com a remelenta 2 no sofá. Assoviei e todos me olharam. Estava começando a gostar mais do que deveria disso.
— Banho. Cama. Agora. – eu disse.
— Eu vou primeiro! – gritou o remelento 1 deixando Tommy ganhar e disparando pelo corredor antes que sua irmã tivesse uma chance para falar um “a”.
Ela revirou os olhos como resposta final e eu ri.
— Okay... Isso nos dá tempo para resolver algumas coisinhas. – disse meu melhor amigo indo até a cozinha.
Tommy e eu sentamos na bancada e ele abriu sua pasta com mais papéis que foram empurrados para mim com uma caneta, eu gemi de desgosto e ele riu. Eram os novos documentos dos remelentos. Assinei a nova via da certidão de nascimento deles, o pedido de emissão do passaporte deles, até a carteira de vacinação eu tive que assinar entre outros milhares de papéis.
— Okay... Depois eu trago mais. Separei as escolas mais perto daqui e do centro de treinamento para você dar uma olhada. Eu e Thea visitamos todas hoje a tarde e diminuímos a seleção para três. – ele disse e colocou três panfletos em minha frente. – Todas em tempo integral e com várias atividades para eles se ocuparem e ficarem longe de problemas.
Se precisar de ajuda, Queen... Saiba que pode me ligar.
Tirei foto dos três e anexei ela como mensagem para Adrian com apenas um ponto de interrogação. Ele tinha mais experiência com Anthony participando da vida do garoto por seis anos do que eu só tinha entrado pro time dos pais á dois dias.
Adrian devolveu a mesma foto com uma flecha apontando para o panfleto da esquerda. Adda Westwood Elementary School. Hm. Antes que eu perguntasse o porquê daquela, Adrian mandou mais uma mensagem.
"Adrian, C: Tony estuda lá, os professores são ótimos, a diretora é gata e as crianças adoram futebol."
Eu ri de sua resposta e batuquei o dedo no panfleto que Adrian mostrou ser a melhor opção. Então Tommy tirou mais dois blocos de papel de sua pasta.
— Eu preencho um e você o outro. – ele disse pegando outra caneta e eu assenti.
Peguei os novos documentos do remelento 1 e comecei a preencher o formulário de matrícula. Tommy e eu começamos a conversar sobre o campeonato e ele disse que marcas esportivas famosas que estava patrocinando o mesmo queriam o meu rosto como a cara das novas campanhas. Eu poderia ficar milhões mais rico, mas publicidade era a última coisa que eu queria agora. Quando estava na parte dos contatos de emergência do formulário, senti um cutucão em minha perna.
Olhei para baixo e vi a remelento 1 me encarando já de pijama e com o cabelo molhado do banho.
— O que está fazendo?
— Te colocando numa escola. – respondi e antes que pudesse voltar aos papéis, ele me cutucou de novo e desta vez subiu e sentou na banqueta ao meu lado com um olhar assustado? – O que?
— Eu não quero ir para escola.
— Por que não? – perguntei ligeiramente curioso. Ele lia o tempo todo, nunca passou pela minha cabeça que ele não iria gostar de ir para escola. Ele tinha "NERD" escrito em vermelho na testa. – Você parece gostar de ler bastante...
— Mamãe que ensinou eu e Julianna á ler e a escrever em casa... Nós tivemos que ir para escola quando mamãe começou a ficar doente de novo. – ele disse e pegou o panfleto de uma das escolas. – Isso aqui parece a Mansão da Família Adams e não uma escola!
— Amiguinho, eu também odiava ir para escola, mas depois comecei a amar. Sabe por que? – perguntou Tommy e o garoto deu ombros. – Conheci seu pai lá e ele é meu melhor amigo até hoje. E também, garotas!
Revirei os olhos rindo e percebi que o remelento havia feito a mesma coisa.
— Quando fomos para escola, as garotas foram malvadas com a Julianna. Puxavam o cabelo dela, roubavam o lanche e as bonecas... Eu queria defender ela, mas mamãe sempre disse que errado bater em meninas. – ele contou e eu assenti concordando. – Então eu ensinei Julianna a bater nelas.
Tommy gargalhou ao ouvir a confissão e eu não consegui segurar a risada.
— Eu proponho o seguinte: Vamos dar uma chance para a escola nova. O filho de Adrian estuda lá, vocês podem ser amigos. – eu disse e ele me encarou cético demais para uma criança de quase seis anos. – Se não der certo, eu contrato professores e vocês estudam em casa.
Ele ponderou por alguns minutos enquanto eu terminava de preencher o formulário e depois assentiu. Entreguei o folheto da escola escolhida que tinha uma fachada mais normal para ele ver e Tommy e eu terminamos com os outros detalhes burocráticos.
— Parabéns, Sr. Queen. Você é oficialmente o pai de Damien e Julianna Queen. – ele disse fechando sua pasta depois de organizar e guardar todos os papéis que me fez assinar. Minha mão estava até latejando! – O que me lembra, eu já conversei com Slade e Ra’s sobre as crianças.
Uh-oh. Ra’s era o dono do Starling City Rockets e costumava ser um pé no saco quando o time entrava no meio de qualquer tipo de polêmica ou escândalo.
— Eles concordaram com a coletiva de imprensa depois do primeiro jogo, porém querem que você faça junto de Roy, Dig, Barry e Adrian para impulsionar publicidade para eles também. O time foi notificado de não comentar nada sobre eles em entrevistas ou qualquer coisa do tipo até a coletiva, ou todos tomaram banco até o final da temporada. – ele disse e eu assenti.
Poderia ser pior, bem pior.
— E querem que as crianças também apareçam.
— De jeito nenhum! – eu esbravejei e assustei o remelento ao meu lado. – Eles são crianças e aqueles abutres irão perguntar sobre Sara, Quentin e sabe-Deus quem mais, e você sabe disso Tommy!
— Sim, mas se contarmos a verdade, ou pelos menos uma versão limitada da verdade, não entraremos em problemas. – ele disse. – Nós fazemos a coletiva, ajudamos os caras, e apresentamos as crianças ao público. O vídeo com os anéis já foi uma ótima prévia!
— Não acho que por eles no holofote irá nos ajudar...
— Assim que a notícia vazar, você vai ser o cara que abandonou a garota grávida em Vegas com seus bebes. Não importa o que você falar, vão te crucificar, Ollie. – ele disse e esfreguei meu rosto. – Porém se ouvirem da boca das crianças, o desastre pode ser controlado. É melhor assim antes que isso tudo se vire contra nós depois.
— Atacar para defender? – perguntou o remelento.
— Atacar para defender. – eu afirmei e acenei para Tommy em consentimento.
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