Coaching Daddy
15 Capítulo 15
Notas iniciais
— Mas se ela não tivesse acabado com a maldição, ela teria quatro ursos morando com ela! Isso seria muito legal! — exclamou Julianna e eu ri. Depois de um dia de treino estressante demais, eu havia sentido falta da remelenta. Ela conseguia me relaxar com mais eficiência do que Tanya, uma das massagistas do time. — Já pensou se eu e Dame viramos ursos? Você não ia precisar mais de cobertor!
Nosso elevador parou e as portas se abriram.
— Não acho que Archer iria gostar disso, Jules. — eu disse e senti ela assentir nas minhas costas já que havia insistido de me usar como veículo de locomoção hoje.
— Tio Tommy!
Estremeci levemente quando seu grito animado saiu bem próximo ao meu ouvido e segui seu olhar. Tommy e Thea estavam no balcão com panelas fumegantes no fogo e o cheiro de comida no ar. Coloquei Julianna no chão e encarei os dois com um leve ar de desconfiança.
— Okay. O que aconteceu? Por vocês dois estão aqui parecendo culpados como inferno? — perguntei colocando as mochilas dos dois no chão ao lado da minha e depois tirei minha jaqueta a jogando em cima do aparador. Damien e Julianna se afastaram dos dois após cumprimentá-los com abraços, beijos e sorrisos. — Quem vai falar primeiro?
Thea começou abrir a boca, mas Damien a cortou.
— Quem é aquela moça no terraço? — apontando para o lado de fora.
Segui seu olhar e senti meu sangue gelar por completo por três longos segundos. Do lado de fora estava Moira Queen vestida para matar e falando no celular, ela não parecia satisfeita pela expressão no rosto dela. O que não era realmente uma novidade.
— Tentamos convencer ela que ainda não estava na hora, mas ela não quis ouvir, Ollie. — disse Thea vindo ao meu lado. — Ela disse que estava na hora de conhecer os dois.
Eu desviei meu olhar para ela e vi Raisa saindo do banheiro no corredor.
— E arrastou até mesmo você? — perguntei e minha babá assentiu com os olhos suaves cheio de pesar e receio. — E Roy? Só falta ele.
— Oh, ele está sendo entrevistado hoje e só conseguiu se safar por causa disso. — disse Thea revirando os olhos e eu assenti.
Me virei para os gêmeos e eles me encaravam com medo? Não sei direito, mas sabia que ter duas estranhas na minha casa não era nenhum pouco legal. Sem falar que uma delas não era exatamente estranha assim. Puxei os dois para a lavanderia onde vi que Archer havia sido preso. Revirei os olhos. Ele não gostava de mamãe.
— Okay. Nós vamos jantar junto com Raisa e a minha mãe. Raisa é boazinha, mas a sua avó tende a ser chata as vezes. Não fiquem chateados se ela disser algo que vocês não gostem. Nada vai mudar aqui em casa, okay? — eu disse quando me abaixei na frente dos dois. Eles assentiram. — Não comentem nada sobre a mãe de vocês para ela porque ela ainda fica muito triste.
Eles assentiram mais uma vez.
— Podem me abraçar agora? — eu pedi e os dois me abraçaram.
E até mesmo Archer se enfiou entre nós querendo carinho também.
Voltamos para a sala de jantar e eu rezei para conseguir controlar meu temperamento. Thea e Tommy sabiam como mamãe poderia ser quando não conseguia que as coisas saíssem do jeito dela, mas eu não deixaria ela se aproximar muito dos remelentos. Ninguém aqui além de nós dois sabia o que ela havia feito para as crianças e Sara no passado. Eu ainda estava bravo com tudo isso, mas tentaria fingir por hoje.
A mesa já havia sido posta, então mandei os dois irem lavar as mãos quando Raisa e Thea levavam as travessas de comida para mesa. Tommy veio para o meu lado como se estivesse pronto para pular no meio de um confronto corporal, mas eu não sabia ao certo quem ele estaria defendendo nesta situação.
— Oh querido, você chegou! — ela exclamou assim que me viu na cozinha. Coloquei meu sorriso mais convincente no rosto e a cumprimentei com dois beijos no seu rosto e um leve abraço. Eu não conseguia mais do que isso. — Onde estão meus netos afinal de contas? Está na hora deles conhecerem a avó.
— Crianças... Essa é avó de vocês, Moira. — disse Thea assim que eles voltaram e se colocou entre nós e eles. Assim como Tommy fazendo uma barreira corporal. — Mãe, esses são Damien e Julianna.
Damien apenas a encarava com seu olhar de desinteresse e depois de um leve aceno foi se sentar na mesa. Julianna acenou e agarrou a pernas de Thea e tentou esconder o rosto no jeans da minha irmã. Raisa olhou para mim e seu olhar ficou ainda mais piedoso e eu apenas dei ombros em resposta.
— Vamos comer? Estou morrendo de fome. — disse Tommy quebrando a tensão que havia se formado no ar.
Todos nós nos sentamos na mesa e eu fiquei na cabeceira com os gêmeos dos meus dois lado, Thea e Tommy ao lado do dois e mamãe na outra cabeceira com Raisa ao seu lado. No menu de hoje havia tilápia com arroz tasmânia e alguns legumes. Servi os pratos dos remelentos com tudo menos o peixe, porque sabia que eles não iriam comer e não adiantava tentar disfarçar no prato.
Tommy começou a disparar tópicos para manter um clima suportável, mas mamãe estava ocupada demais observando cada movimento meu e dos gêmeos para prestar atenção no que ele dizia ou fingir que estava participando da conversa.
— Eles tem que comer um pouco do peixe, Oliver. Faz muito bem para saúde. — ela disse assim que eu me sentei de volta no meu lugar depois de cortar as batatas assadas de Jules em cubinhos, e comecei a comer.
— Eles não gostam de peixe. — foi o que eu respondi antes de comer mais uma garfada.
Mamãe ergueu uma sobrancelha para mim e eu dei de ombros.
— Só porque eles não gostam, não significa que elas não devem comer. — ela disse antes de espetar um cubo de cenoura e levar á boca. — Você não gostava de beterraba quando era criança e hoje ama porque eu fiz você comer.
— Eu já ofereci uma vez, eles não gostaram. Não se preocupe eles comem ervilhas e brócolis o suficiente para não comerem o peixe, mamãe. Nenhuma vitamina está sendo perdida. — eu respondi sem me importar com meu tom de voz duro.
Percebi que toda vez que ela soltava um comentário, Julianna afundava um pouco mais em sua cadeira e eu estava odiando isso. Olhei para Damien e vi que ele estava brincando com a comida com seu garfo. Respirei fundo e encontrei o olhar de Thea em Jules e vi como minha irmã tensionou a mandíbula.
O resto do jantar foi em completo silêncio. Quando todos terminaram, os gêmeos ajudaram Raisa a tirar a mesa, enquanto Tommy servia um drink para mamãe e Thea.
Merda.
Até eu queria um drink agora, mas não tomaria por causa do jogo amanhã.
— Muito bem, eu trouxe esses chocolates da Escócia para ser a nossa sobremesa, vocês querem experimentar? — perguntou mamãe abrindo um caixa quadrada com alguns bombons decorados do lado de dentro.
Damien e Julianna se aproximaram e Jules escolheu um bombom cor-de-rosa e o mordeu. Pela sua cara, ela não gostou muito, mas comeu até o final por medo da reação de mamãe. Eu conhecia aquele tipo de comportamento, Thea e eu fazíamos a mesma coisa quando éramos menores.
Tommy e Thea também pegaram um bombom cada, Raisa e eu dispensamos e quando foi a vez de Damien pegar um, ele parecia indeciso e relutante, mas acabou por optando pelo bombom mais simples de todos da caixa e se sentou no sofá com ele e o comeu em silêncio.
— Está na hora do banho, Jules. Por que não chama a tia Thea para te ajudar e quem sabe ela não faz um trança bem legal no seu cabelo? — perguntei em voz baixa para ela que assentiu minimamente e foi até Thea que estava ajudando Raisa com a louça do jantar.
Logo as duas desapareceram pelo corredor.
Olhei para Damien e ele estava alisando o braço parecendo desconfortável.
— Oliver, podemos conversar em particular?
A hora do abate chegou, eu acho.
Assenti e mamãe foi para o terraço primeiro.
— Já volto, okay?
Damien assentiu em resposta e continuou alisando o braço. Odiava ver ele assim.
Fechei a porta de correr atrás de mim e observei mamãe.
Como sempre ela estava vestida para ocasião com um vestido elegante, saltos combinando e a quantidade certa de jóias que não a faziam parecer ostentosa demais, os cabelos perfeitamente arrumados e a maquiagem bem mínima. Ela cruzou os braços e me encarou com uma sobrancelhas erguida.
— Então?
— Eu acho que eles precisam ver um terapeuta. Claramente ainda não processaram a morte da mãe e são muito arredios. — ela disse e eu bufei uma risada sem humor algum. — Isso é sério, Oliver...
— Eu sei, confie em mim... Eu sei. — eu disse me recuperando e cruzando os braços.
— Talvez você também deva contratar uma babá em tempo integral para acompanhar a rotina deles. Sua irmã mencionou que eles já tem os próprios seguranças o que é ótimo... — ela continuou falando e andando de um lado para o outro com um ar altivo com qual eu havia crescido, mas especialmente hoje eu achava irritante. — Não gostei da sua escolha para a escola particularmente, mas não é uma das piores. Podemos mudar isso quando o semestre acabar para que eles não parem com o conteúdo na metade e prejudique o desempenho dos dois.
— Mãe...
— É claro que quando forem mais velhos, podemos considerar alguns intercâmbios e outros idiomas para eles aprenderem... Damien parece ser mais inteligente do que a média para crianças da sua idade, e iremos conseguir que Julianna acompanhe o irmão com alguns tutores particulares. — continuou me ignorando e depois parou de andar e cruzou os braços levemente. — Você ainda vai continuar com sua escolha de carreira agora que tem eles?
Eu não estava ouvindo isso.
Eu realmente não estava ouvindo isso.
— Mãe, eu vou dizer isso apenas um vez e espero que entenda. — eu disse me aproximando e cruzando os braços também. — Damien e Julianna são meus filhos, eu vou decidir o que vai acontecer. Suas sugestões não são bem-vindas, porque eu não as pedi. Eu estou com eles á mais de um mês agora e eu sei muito bem o que é o melhor para os dois.
— Claramente discordamos nesse tópico, querido. — ela disse com aquele tom condescendente que eu odiava. — Você precisa de ajuda. Não tente fingir que consegue fazer isso sozinho, Oliver. Ninguém consegue.
— Nunca disse que não precisava, mas eu não quero ajuda de você. Eu disse que eles não estavam prontos para te conhecer, mas mesmo assim você decidiu fazer do seu jeito. — eu disse tentando manter meu tom de voz baixo. — Eu sou o pai deles, a decisão é minha e você tem que respeitar. Você ao menos notou que literalmente coagiu todos nós para esse jantar? É esse tipo de relacionamento que quer ter com os dois?
Ela ergueu uma sobrancelha em minha direção.
— Eu sei o que eu quero. O meu relacionamento com eles vai ser muito melhor do que o que eu tive com você e papai. Nem que seja uma pequena fração de tudo que eu vivi com voc...
— Oliver!
Me virei para onde Thea havia gritado meu nome e a encontrei ao lado de Damien que estava jogado no sofá cheio de manchas no rosto e com uma das bochechas inchada. Corri para o lado de dentro sem hesitar um segundo sequer.
Manchas vermelhas cobriam a pele de Damien e sua bochecha esquerda estava inchada como se ele havia sido picado por algum animal venenoso. Olhei para Julianna que estava no colo de Tommy observando tudo com olhos cheios de preocupação e o jeito que ela agarrava o pescoço de Tommy apenas confirmava seu medo pelo irmão.
— Eu acho que ele está tendo alguma reação. — disse Thea gesticulando nervosa com as mãos. Me aproximei de Damien e vi seus olhos transbordando medo e o jeito que seu corpo tremia me assustou para caralho. — Raisa, chame uma ambulância!
Thea começou a chorar ao meu lado.
— Eu vou precisar que você segure em mim e não solte, okay? — eu pedi me aproximando e ele assentiu. Notei que sua outra bochecha começou a inchar também. Eu sabia o que era isso. Ele estava tendo uma ataque anafilático, porque eu já vi Barry ter um, e eu não tinha nada para parar isso em casa. Apenas uma coisa. Peguei Damien em meus braços com cuidado e se agarrou em mim como um coala e ouvi sua respiração começar a ficar ofegante demais. — Segure em mim e não solte, Dame.
Ele assentiu e começou a tossir. Eu apenas disparei.
Sabia que o hospital mais perto de casa era o Starling General, mas uma ambulância iria demorar demais para chegar aqui por causa do trânsito de uma quinta-feira a noite. Eu confiava muito mais em minhas pernas. Eu não chamei elevador, apenas invadi as escadas de emergência. Em dois minutos e meio eu estaria no térreo e em mais quatro, no hospital. Ouvi meu nome ser gritado atrás de mim e nas escadas, mas nada no mundo me faria parar agora.
Nada.
Eu pulava lances de escada com facilidade e Damien não me soltou em momento algum, ele ainda estava tossindo toda vez que eu pisava na saída de um andar diferente. Quando cheguei no térreo, parei, recuperei o fôlego. Damien também e abracei suas costas. Ele estava sem blusa e havia começado a chover. Merda.
— Rory, eu preciso da sua jaqueta. — eu gritei correndo até o balcão.
O porteiro apenas levantou e me entregou ela, confuso, mas não me parou. Consegui cobrir o corpo inteiro de Damien assim como sua cabeça e voltei a correr novamente, desta vez, porta á fora. Com um solo mais nivelado, eu era bem mais rápido. Anos de treinamento me fizeram ser. O que antes eram quatro minutos inteiros, agora seriam três. Eu nunca corri tão rápido na minha vida inteira.
Nem mesmo a chuva, ou o vento gelado me faziam desacelerar. Tive sorte em pegar todos os faróis fechados até o quarteirão do hospital, mas conseguia sentir a respiração do remelento ficar cada vez mais rala. Até que parecesse um som arranhado e angustiante.
— Oli... — Damien começou quando chegamos a esquina do hospital.
— Shh, já chegamos. Você vai ficar bem. — eu disse caminhando entre os carros e ambulâncias que entravam no estacionamento do hospital. Entrei pela saída de emergência e logo uma enfermeira veio até mim com um olhar preocupado. — Ele está tendo uma reação alérgica.
— Maca! — ela gritou e mais três pessoas vieram até nós.
Deitei Damien na maca que trouxeram e um enfermeiro trouxe uma seringa bem grande, mantive a atenção de Damien em mim quando o enfermeiro o espetou bem na coxa com aquela agulha. O rosto do remelento se contorceu de dor e ele gemeu bem alto. Aquilo acabou comigo. Passei a mão pelo seu cabelo levemente molhado e fomos para dentro de uma sala separada.
— Eu sei que você vai me mandar embora, mas eu não vou. Ele é o meu filho, e eu não vou atrapalhar vocês. — eu disse assim que a enfermeira que havia nos recebido veio até mim. — Por favor.
Ela suspirou e notou o jeito com que Damien se agarrava a minha mão que estava em seu ombro e cabelo. Uma de suas bochechas já havia começado a desinchar e sua respiração estava mais ritmada e menos ofegante. A enfermeira assentiu por fim e começou a fazer seu trabalho com o resto da equipe.
Os sinais vitais foram checados, assim como seus pulmões e o coração. Eu só me permiti respirar aliviado quando o pediatra atendente examinou Damien e no fim disse que fora apenas um susto que nos recuperamos bem rápido. Eles fizeram alguns raio-X e me deram um colete de proteção para não ter que sair da sala. O remelento foi medicado com um pouco de morfina e mais anti-alérgico, não foi surpresa para ninguém quando ele apagou.
Um dos enfermeiros colheu um pouco de sangue para algum tipo de exame, eu acho.
Eu não sabia direito. Meus ouvidos estavam com um eco de um zumbido estranho, sentia meu sangue fervendo e meu coração batendo muito mais rápido do que o normal. Minhas panturrilhas estavam queimando pelo esforço todo e eu não conseguia focar minha mente em apenas uma coisa.
— Hey... Sente-se aqui. — olhei para a enfermeira que nos recebeu e em seu avental tinha um crachá que se dizia "Carly". — Ele está bem, acabou. Preciso que respire fundo e beba um pouco de água.
A adrenalina ainda estava correndo livre por todo o meu sangue, mas eu consegui assentir e me deixar ser levado até um cadeira ao lado de onde Damien estava apagado. Bebi um copo inteiro de água gelada e consegui controlar minha respiração, tudo ficou mais fácil depois disso.
— Bom. Podemos começar com a ficha dele? — perguntou olhando de Damien para mim e vice-versa. Assenti em resposta e devolvi o copo de água agora vazio para ela.
— Tem algum telefone aqui que eu possa usar? — eu pedi e ela assentiu sorrindo levemente.
—-
Depois de uma hora, Damien já estava em observação em um quarto privado. Eu havia preenchido a ficha dele ao mesmo tempo em que Tommy chegou com Leo no hospital. Ele cuidou de todo o resto e fez com que a transferência de Damien do leito do pronto socorro para o quarto privado fosse calma e discreta. Eu havia notado que alguns funcionários haviam me reconhecido pelos longos olhares, mas não estava no espaço mental adequado para falar com ninguém.
— Thea jogou os chocolates fora e expulsou sua mãe com toda a educação do mundo também. — disse Tommy baixinho quando ele entrou no quarto de Damien com uma bandeja com copos de isopor e um de meus casacos. — Ela está com Julianna no apartamento e Roy estava a caminho assim que você me ligou.
Eu aceitei o casaco e café, mas não saí de meu lugar. Observei o rosto sereno de Damien e como seu peito subia e descia lentamente. Ele estava deitado de lado e com um dos braços esticados por causa do acesso que prendia o tubinho de soro á sua veia. Não havia mais nenhum inchaço em seu rosto e as manchas vermelhas estavam desaparecendo.
— Avisei Slade e Cat sobre o que aconteceu também. — ele disse sentando na poltrona ao meu lado e eu finalmente o encarei nos olhos. — Você achou mesmo que eu iria deixar você entrar em campo mesmo com Damien tendo alta á tempo?
Ele me deu um olhar que claramente dizia: "Qual é...".
Vesti meu casaco e finalmente deixei a fadiga me dominar. Todo o stress, a preocupação, o medo e o pânico cobraram seu preço. Eu estava sentindo frio pela chuva que havia pegado, minhas pernas estavam doendo, eu sentia o começo do que seria uma enxaqueca em breve e talvez o começo de uma gripe também.
— Ele está bem agora, cara. — ele disse e apertou meu ombro levemente.
Eu assenti em resposta e tomei o café.
— Posso pedir um favor? — perguntei assim que abaixei o copo e ele assentiu sem hesitar. — Pode falar com o Dr. Campbell que eu não quero ninguém além dele e da enfermeira Carly dentro do quarto? Eu vi algumas pessoas tentando tirar fotos minhas quando fui no banheiro.
Tommy assentiu e levantou da poltrona indo fazer o que eu pedi acontecer.
Arrastei minha poltrona para mais perto da cama de Damien e peguei sua mãozinha entre as minhas. Era pequena e quente em comparação ás minhas, mas eu não soltei. Senti o bolso do meu casaco vibrar algumas vezes, sabia que era o meu celular, mas eu não o peguei. Poderia esperar. Tudo poderia esperar agora.
Encarei Damien e aquele aperto no meu peito voltou.
Eu não sei lidar com essa merda emocional. Eu sabia lidar lancheiras, rotinas, filmes de trezentas mil fodidas princesas. Não isso. Estava soando como um disco arranhado dentro da minha própria cabeça, mas era verdade. Nunca senti tanto medo e pânico na minha vida como horas atrás. Nem mesmo quando Thea sofreu seu acidente de carro enquanto dirigia bêbada alguns anos atrás.
Senti meus olhos arderem e pinicarem ao mesmo tempo. Eu não precisava ser um gênio para saber que estava chorando. De alivio? Talvez. De medo? Talvez também. Respirei fundo algumas vezes, mas não impedi que as lagrimas corressem livremente pelas minhas bochechas. Funguei uma vez como uma criança e o fato de não poder confiar ou buscar consolo com a minha própria mãe também doía um pouco.
Limpei minhas bochechas com as costas de uma de minhas mãos e peguei meu celular no bolso, não soltei a mão de Damien em momento algum. Havia recebido mensagens e perdido ligações. Todas de Tommy e Thea. Fui até as mais recentes e respondi Thea.
"Thea, Q: Para onde você foi? — 19h:21"
"Thea, Q: Que hospital? — 19h:30"
"Thea, Q: Atende a merda do celular, Oliver! — 19h:32"
"Thea, Q: Ótimo, você não levou seu celular... — 19h:33"
"Thea, Q: Como Damien está? — 21h:31"
Abri meu teclado na tela e respondi a sua última mensagem.
"Oliver, Q: Estável agora. Sem nenhum sinal da alergia. Talvez terá alta amanhã á tarde. Como você está? Jules?"
Apertei o botão de enviar, passei para a próxima mensagem que era de Slade.
"Slade, W: Thomas me contou o que aconteceu. Não se preocupe com amanhã, cuide do seu garoto e dê um abraço nele por mim. Me mantenha atualizado."
"Oliver, Q: Obrigado, treinador. Ele está bem agora."
E fui para a seguinte. Era Adrian. Provavelmente Slade deve ter avisado que eu entraria em campo amanhã e ele teria que me substituir como capitão e quarterback durante o jogo.
"Adrian, C: Slade acabou de me ligar dizendo que não vai jogar amanhã. Está tudo bem com as crianças? Com você?"
"Adrian, C: Estou preocupado, cara. Me responda assim que puder."
Fiquei grato por Slade não ter revelado de cara o que havia acontecido com Damien, mas esse era Adrian. Depois de Tommy, ele era o meu melhor amigo dentro e fora daqueles campos. Beijei as costas da mãozinha de Damien e digitei uma resposta.
"Oliver, Q: Damien teve uma reação alérgica, mas já está bem. Estamos no hospital e não vou conseguir jogar amanhã. Não me faça passar vergonha, estarei assistindo daqui. Boa sorte."
Meu dedo pairou sobre a foto sorridente de Felicity. Havíamos trocados mais mensagens desde a noite do cinema e nos esbarrado na escola também, sempre flertando e provocando um pouco também. Olhei para Damien mais uma vez e suspirei levemente chateado. Nossa aposta teria que esperar.
"Felicity, S: (Foto)"
"Felicity, S: Acho que estarei torcendo por você amanhã, afinal de contas."
Cliquei no ícone da foto e sorri levemente. Ela estava dentro de um banheiro com um espelho bem amplo que pegava de sua cintura para cima. Estava usando a camiseta dos Rocketes com meu número e o boné com o logo do time. Seu cabelo estava repartido em dois rabinhos baixos e suas bochechas estavam com listras verdes e pretas. Ela estava com seus óculos e estava mostrando sua língua para câmera.
Meu dedo pairou novamente sobre a tela. Não sabia o que responder para ela, talvez um emoji? Eu já havia vomitado meus problemas em cima dela uma vez, não queria colocar mais bagagem no que poderia se tornar algo bom entre nós dois, mas também não queria mentir para ela.
"Oliver, Q: Não vou jogar amanhã, professora. Podemos remarcar para o próximo jogo?"
Fiquei satisfeito com a minha resposta. Eu não havia mentido, apenas ocultado algumas partes que eu tinha certeza que ela descobriria amanhã quando fosse assistir Adrian e os caras do time com Anthony. Eles iam em todos os jogos locais. De alguma forma ou outra, ela iria saber.
Voltei a guardar o celular no bolso da jaqueta e engoli o resto do café morno.
Teríamos uma longa noite pela frente.
—-
Quando acordei o Sol ainda estava nascendo, estralei minhas juntas depois de um noite inteira dormida em uma poltrona que não era confortável suficiente para isso e esfreguei meu rosto. Chequei meu celular e vi que não tinha mensagens novas. Ouvi um ronco ao meu lado e vi Tommy dormindo na outra poltrona disponível e estava completamente torto e com um pouco de baba escorrendo de sua boca.
— Pai?
Meu coração perdeu a batida quando ouvi apenas essa palavra naquela voz em particular. Me virei para cama ao meu lado e meus olhos se encontraram com os sonolentos de Damien. Seu cabelo estava amassado pelo sono, mas tirando isso ele parecia bem. Ele estava bem. Okay.
— Hey campeão... — disse em um tom de voz baixo e me aproximei ainda mais de sua cama com a poltrona. — Como está se sentindo?
— Acho que eu quero vomitar. — ele disse com as sobrancelhas franzidas. — Mas não quero ao mesmo tempo.
Ele estava enjoado, era compreensível depois de tantas medicações que injetaram nele. Peguei sua mão entre as minhas novamente e desta vez seus dedinhos quentes entrelaçaram nos meus. Empurrei a emoção para dentro do meu peito e deixei apenas o alivio inundar meu corpo e minha mente. Ele estava bem. Okay.
— Estamos no hospital? — perguntou ele e eu assenti.
— Você teve uma reação alérgica á amendoim. Você já tinha comido isso antes?
Ele negou.
— Dentro do chocolate que a sua avó te deu tinha um pouquinho de amendoim e isso fez com que o seu corpo tivesse uma reação alérgica. — eu expliquei levemente e ele assentiu acompanhando. — Por isso aquelas manchinhas apareceram no seu corpo e ficou difícil de respirar, mas isso já passou, okay? O médico já te deu um remédio e você vai ficar bem.
— A vovó não gosta de mim? — ele perguntou piscando algumas vezes. Senti meu coração rachar com aquela pergunta, porque eu não sabia como responder a ela sinceramente.
— É claro que ela gosta de você, Dame. Ela só não sabia que você era alérgico á amendoim. Eu também não sabia, você acha que eu não gosto de você? — eu perguntei e ele assentiu levemente. — Que bom, porque eu te amo muito e ontem foi um dos piores dias da minha vida.
— Por que?
— Porque se eu não tivesse sido mais rápido, teria perdido você. — eu disse e beijei sua mãozinha. — Pode me dar um abraço?
Ele assentiu e se levantou tomando cuidado com o acesso preso ao seu braço e estendeu os braços para mim. O peguei em meus braços e mais uma onda de alivio veio sobre mim. Eu não me cansava de me sentir assim mais. Aliviado, porque meu filho estava bem. Depois de alguns momentos, eu recuei um pouco e o deitei novamente nos travesseiros. Sabia que estava sendo cuidadoso ao extremo, mas não me importei.
A porta se abriu assim que eu me sentei novamente na poltrona que havia sido minha cama na última noite. Enfermeira Carly entrou usando seu uniforme vermelho com um avental cheio de bichos e um sorriso agradável. Damien havia gostado dela e eu também.
— Hey Damien, como foi a noite? — perguntou em voz baixa ao ver que Tommy ainda dormia.
Ela ascendeu a luz do banheiro e abriu um lado da cortina da janela. Isso deixou o quarto com mais luz, mas nada que acordasse Tommy. Mal ela sabia que ele dormia feito uma rocha.
— Eu sou a Enfermeira Carly. Eu te recebi no hospital junto com o seu pai e o Dr. Campbell que cuidou de você. — ela disse se aproximando da cama e o remelento assentiu levemente. — Lembra de mim?
Ele assentiu mais uma vez e ela sorriu.
— Eu sei que foi muito assustador, mas eu preciso fazer alguns exames bem rapidinho em você para eu poder liberar você para ir para casa, okay? — ela perguntou e ele assentiu se sentando na cama. — Posso ouvir seu coração?
A Enfermeira Carly escutou o coração de Damien e depois seus pulmões. Tateou levemente a garganta dele assim como a nuca. Verificou as manchinhas que ainda estavam em seu braço. Ela conversava em voz baixa com ele, sempre pedindo permissão antes de tocá-lo, sempre usando um tom de voz baixo e amigável, e sempre fazendo pergunta de sim ou não já que Damien não estava se sentindo muito vocal. Enquanto ela testava seu reflexos com o martelinho, eu sentei ao lado de Damien na cama e ele escorou em mim enquanto sua perna chutava para cima levemente.
— Muito bom. Todos os seus sinais estão muito bons, não há mais nenhuma sequela da sua alergia, as manchinhas estão sumindo bem rápido... Acho que você vai conseguir ir para casa hoje a noite. — ela disse quando terminou e foi até o balcão onde tinha alguns materiais de hospital.
— Ouviu isso? Vamos voltar para casa rapidinho. — eu disse abraçando ele de lado e penteando seu cabelo de lado.
Ele assentiu em resposta, mas não disse mais nada.
— Agora a gente chega em uma parte chata. Eu tenho que colher um pouquinho do seu sangue para a gente fazer um teste de alergias para que você e o seu pai não tenham mais nenhum susto como o de ontem. — disse a Enfermeira Carly voltando com uma bandeja com materiais para uma coleta. Damien recuou contra o meu corpo e eu não estava surpreso. Eu também odiava agulhas. — Está vendo isso aqui no seu braço? Ele está ajudando o seu sangue a circular melhor dentro do seu corpo, e nós usamos uma agulha para fazer isso.
Damien negou com a cabeça.
— Hey, eu sei que dá medo, eu também tenho medo de agulhas, mas vou deixar ela me furar se você deixar também. O que acha? — perguntei e ele olhou para mim com medo e incerteza. — Eu O-, vocês não estão precisando de uma doação de última hora, enfermeira?
Ela sorriu levemente e assentiu.
— O que acha, Dame? Você segura a minha mão e eu a sua? — perguntei e ele aceitou depois de dois longos minutos.
Enfermeira Carly parecia satisfeita.
— Eu vou chamar uma amiga para me ajudar.
Ela voltou rapidamente com outra enfermeira que arregalou os olhos quando me viu e me reconheceu. Ela se apresentou formalmente para mim e para Damien, seu nome era Pauline, e ela iria cuidar de mim enquanto Carly cuidava do remelento.
Elas colocaram luvas e Damien segurou em minha mão com força quando Pauline amarrou uma tira de plástico que cheirava a chiclete com força no meu bíceps direito. Não foi difícil achar minha veia, e eu ignorei a agulha que ela estava segurando. Me concentrei em Damien, este que não tirava os olhos daquela mesma agulha. Senti a picada e depois Pauline ligou o meu acesso á uma bolsa de sangue vazia pequena.
— Tente não mexer este braço. Sem comida na próxima hora, okay? — ela me perguntou e eu assenti ignorando o jeito que ela batia seus cílios para mim.
Carly então fez o mesmo processo com Damien que aumentou ainda mais seu aperto em minha mão. Ele apertou os olhos assim que ela furou a agulha na pele dele e eu beijei seu cabelo.
— Prontinho. — ela disse depois de cinco segundos que tinha um tubinho cheio com o sangue de Damien.
Damien abriu os olhos e ficou surpreso. A enfermeira deixou ele escolher a cor de seu band-aid que foi vermelho igual ao uniforme dela e depois saiu dizendo que iria voltar mais tarde com o Dr. Campbell.
— Isso doeu muito? — perguntei e ele deu de ombros.
Tommy decidiu acordar e assim que nos viu, ele sorriu e depois fechou a cara.
— Eu dormi pelo que? Duas horas? Vocês não conseguem ficar quietos?
Damien bufou uma risada e eu revirei os olhos.
— Okay. Eu vou ir pegar café e vocês podem me contar o que aconteceu em seguida. — ele disse se levantando da poltrona e estralando alguns ossos. — Mas primeiro café.
—-
— Campeão, você tem que comer um pouquinho, se não a enfermeira Carly vai brigar com a gente. — eu pedi ao ver Damien mexendo com o que deveria ser o seu café da manhã. Eram torradas e suco de laranja.
— Não estou com fome. — ele disse e soltou um suspiro. — Vamos poder assistir o jogo?
— É claro. — eu disse e liguei a televisão do quarto e coloquei no canal certo que transmitiria o jogo de hoje. — Ainda falta meia-hora para começar, dá tempo de você comer um pouquinho.
Ele assentiu e começou a comer. Não foi muito, mas era melhor do que nada.
Desviei meu olhar para a tela do celular em minhas mãos. Thea estava vindo com Julianna para o hospital visitar Damien depois de uma noite do pijama entre garotas improvisada com Roy que havia ido para o estádio para participar no jogo de hoje.
"Thea, Q: Quer algo de casa?"
"Oliver, Q: Uma troca de roupa para Damien e os dois últimos livros de Harry Potter. Ele está entediado."
Ela enviou vários polegares positivos como resposta e disse que estaria aqui em menos de vinte minutos.
— Julianna vai vir? Estou com saudade dela. — Damien disse depois de ter comido metade do seu prato e empurrar a mesa com rodinhas para os pés da cama.
— Sim, ela e Thea estão vindo. — eu disse me levantando da poltrona e levando sua mesa com rodinhas até o corredor. Uma enfermeira que passava a pegou de minhas mãos e levou até o canto do corredor onde todas as outras mesas de pacientes ficavam. — Quer um pouquinho de suco ou água?
— Água. — ele pediu e afundou em seus travesseiros.
Servi um copo para ele que tinha um canudo divertido que fazia curvas e tinha o logo do hospital. Assim que ele pegou de minhas mãos, tomou metade do copo em questão de segundos. Ele me devolveu o copo vazio e eu enchi mais uma vez e deixei no balcãozinho ao lado de sua cama.
O jogo começou bem á tempo de Tommy voltar com uma sacola em mãos. Ele arrastou a sua poltrona para o outro lado da cama de Damien e tirou de dentro da sacola três sacos de pipoca. Deu um para mim e o outro para Damien que aceitou e começou a comer logo de cara.
— A enfermeira liberou desde que não tivesse muita manteiga ou sal. — Tommy disse assim que viu a forma com qual eu estava o encarando. — Relaxe, Ollie.
O primeiro tempo se iniciou e a formação de Raiders não estava horrível.
Adrian conseguia muito bem acertar os pontos certos nas fraquezas do time adversário, mas sabia que ele odiava ficar na minha posição. Assim como Roy e Barry, ele gostava da adrenalina de correr com três ou mais gorilas atrás dele querendo seu sangue e a bola, é claro. Roy estava jogando muito bem com Dig e René também. Ele era um jogador coringa, conseguia jogar em quase todas as posições e se dava bem nisso. Com Adrian assumindo a posição de quarterback e Barry assumindo sua posição de running back, ele tomou a posição de Barry e montou o muro de guards junto com os outros caras. Nada mal.
— Aquele cara ali, o número 19. Ele está jogando sujo. — disse Tommy com a boca cheia de pipoca.
Eu assenti em concordância. Eu não conseguia lembrar quem era o cara no uniforme 19, nem seu rosto, mas era claro como água que ele estava tentando entrar nos nervos de Ben. Nós o chamávamos de Tigre porque tirando John, ele tinha o melhor recorde de defesas dos últimos três campeonatos. Ele não era muito falante ou social, odiava fazer conferências de imprensa, mas saía com os caras do time de vez em quando e sempre aceitava meus convites para treino conjunto. Não sabia qual era a cor favorita dele ou nome de sua mãe, mas acho que tínhamos uma espécie de amizade legal. John o puxou pelo capacete para longe do número 19 quando as coisas escalaram um pouco. Adrian o reposicionou na frente e Dig tomou seu lugar.
Ótimo raciocínio, Chase. Estou orgulhoso.
— Nós chegamos!
Ao ouvir a voz de Julianna, eu desviei meu olhar da televisão para a porta do quarto e vi a remelenta invadir o quarto com Thea ao seu lado. Ela estava usando um vestido verde com florzinhas rosas e seus all-star nos pés. Seu cabelo estava solto e seu sorriso era largo como sempre. Thea estava usando roupas de ginástica e estava carregando uma pequena mochila.
— Oi Dame! — ela disse vindo até a cama onde Damien estava. — Oi papai, oi Tio Tommy.
— Oi princesa. Dormiu bem? — perguntei a erguendo e a colocando ao lado de Damien que jogou seu braço por cima dos ombros da irmã e eles se abraçaram rapidinho. Jules enfiou a mão no saco de pipoca de Damien sem cerimônias e ele nem fez cara feia como ele normalmente fazia. Okay. Isso foi fofo, eu admito. — Archer babou muito?
— Não, mas eu não gosto de dormir na cama sozinha com ele, então eu e a Tia Thea dormimos no chão da sala que nem no dia do cinema com o Tony. — ela disse com um sorriso satisfeito e eu bufei uma risada e beijei sua testa levemente. — Nós levamos o Tio Roy para o jogo e depois almoçamos no Taco Bell. Eu descobri que amo nachos.
Encarei minha irmã que estava fingindo procurar algo em sua mochila.
Damien e Julianna entraram em um conversa sobre comida mexicana e os filmes que iriam assistir nos próximos dias. Era como se estivessem dentro de uma bolha apenas deles e nós fomos deixados do lado de fora. A noite passada, talvez, tivesse sido a primeira noite que eles passaram longe um do outro.
— Você não quer passar em casa e tomar um banho? — perguntou Thea vindo até o meu lado. — Suas roupas já viram dias melhores, Ollie. Você está todo amassado.
— Assim que o Dr. Campbell vier checar nele, eu vou.
No primeiro intervalo foi quando o doutor apareceu. Ele deveria ter uns trinta para quarenta anos, mas era simpático e tinha jeito com as crianças. Julianna ficou amiga dele em questão de minutos e Damien até que falou um pouco também. Ele apresentou o resultado do exame do remelento que dizia que além de amendoim, ele era alérgico á todo tipo de alimentos oleaginosas o que era mais comum do que parecia ser. Então sem castanhas, nozes, amêndoas e amendoim para Damien. Ele aconselhou também fazermos mais um exame para testar se o remelento tinha alergia á algum tipo de medicamento para não termos mais surpresas.
— E Julianna? Ela também tem as mesmas alergias? — perguntou Thea.
— Sim e não. É bem comum gêmeos compartilharem alergias, mas ela pode não ter elas também ou ter outros tipos de alergia. É sempre bom investigar. Eu posso recomendar um laboratório muito bom para vocês conseguirem fazer esse mapeamento. Demos sorte de Damien ter tido uma reação que chamamos do tipo retardo. Ela não age tão rápido, mas ainda sim é imperativo que a medicação chegue a tempo antes que a situação se agrave.
Ele anotou em um folha de prescrição o endereço e o nome e me entregou. Nós conversamos sobre as medidas preventivas de Damien ao voltar para casa e sobre o acompanhamento daqui uma semana. Ele estaria de alta hoje a tarde depois da última medicação do tratamento que recebeu desde ontem.
— Eu volto aqui para me despedir, okay? — perguntou o Dr. Campbell bagunçando o cabelo de Damien que assentiu e riu.
Assim que ele saiu pela porta todos nós nos voltamos para a televisão onde o jogo já estava quase na metade do segundo tempo. E havíamos chegado em um empate contra os Raiders.
— Eu vou para casa tomar banho e já volto, okay? — perguntei para Damien que por um momento pareceu que ia me impedir, mas ai ele olhou para Thea que estava no pé de sua cama e Tommy que estava bem atrás de mim e assentiu levemente. — Eu vou ser rápido. Obedeça a sua tia e a enfermeira, okay?
Ele assentiu novamente e eu saí pegando as chaves que Thea estendeu para mim.
O caminho para o estacionamento foi no minimo desconfortável. Eu sentia os olhares em minhas costas e alguns celulares apontados em minha direção discretamente. Sabia que Leo estava na porta de Damien usando sua postura mais ameaçadora, e também sabia que apenas a enfermeira Carly tinha acesso á Damien, mas ainda sim fiquei inquieto.
Cantei pneu para fora do estacionamento do hospital em direção para casa e a primeira coisa que eu fiz quando cheguei foi agradecer Rory e me desculpar pelo seu casaco que eu não tinha ideia de onde estava. O porteiro sorriu e deu ombros tranquilo e desejou melhoras para Damien dizendo que tinha mais quatro em casa. Não fiquei muito convencido sobre a última parte, mas fiz uma nota mental de lhe entregar um bônus depois. Eu confiava mais em Rory com meus filhos e Archer do que em muita gente.
Não deixei esse pensamento amadurecer na minha mente e voltar ao dilema entre mim e mamãe. Ela não havia ligado sequer uma vez ou mandado mensagem sobre o estado de Damien, ou pedido desculpas, a este ponto eu estava mais do que inclinado á cortar laços com a minha própria mãe, mas esperaria para ver até onde ela iria.
Archer me recebeu com lambidas e latidos. Percebi que ele havia feito xixi no corredor que levava aos quartos e perto do lavabo mas lhe dei um desconto por causa de ontem. Cachorros conseguem sentir essas merdas também, ele provavelmente ficou ansioso. Liguei a televisão para que o apartamento não ficasse tão silencioso assim e limpei a bagunça que ele havia feito. O segundo tempo já estava terminando e ainda estávamos empatados.
Droga.
Me despi e caí dentro do chuveiro ouvindo a narração que vinha da sala.
Fui metódico ao me lavar e não demorei muito debaixo do jato de água por mais que meu corpo pedisse por isso. Coloquei um conjunto de ginástica e meus tênis mais confortáveis. Olhei com desgosto para minha barba que eu havia deixado crescer demais, talvez a faria quando voltasse para casa com os remelentos. Antes de sair novamente troquei a água de Archer e coloquei um pouco mais de ração para ele comer.
— Seja um bom garoto e não faça mais xixi dentro de casa, Archer. Estou contando com você, ouviu? — perguntei esfregando sua cabeça gorda e peluda. Ele lambeu meu queixo em resposta e lhe dei um biscoito antes de ir para o elevador novamente.
Liguei na rádio de esportes assim que girei a chave na ignição. Havíamos ganhado graças á um ultimo down graças á Ben e Barry. Fechei os olhos aliviado. Estávamos na segundas de final. O que era ótimo. Me senti menos culpado por não ter conseguido jogar com os caras no campo hoje.
Peguei um trânsito horrível quando cheguei perto do estádio. Os torcedores estavam loucos comemorando entre si nas ruas, e isso significava engarrafamento. Sorte ou não, as janelas do carro eram escuras suficiente para me proteger de ser reconhecido por alguém na rua. Mandei uma mensagem para Tommy dizendo que estava preso no trânsito e ele apenas respondeu que estava tudo bem e que queria um Big Belly de almoço e eu revirei os olhos. Fiquei preso ali por pelo menos meia-hora. E nenhum atalho parecia ser uma boa ideia agora.
Quando cheguei no hospital, notei que as enfermeiras estavam cochichando mais do que o normal e que até alguns médicos estavam se acumulando no final do corredor de Damien. Eles me cumprimentaram assim que eu passei por ele e eu fui educado o suficiente para retribuir. Leo estava na porta do quarto do remelento, mas sua postura ameaçadora havia sido substituída por algo mais suave e notei que Mick estava vindo do final do corredor com dois copos de café. Cumprimentei os dois e descobri a razão de todo o burburinho.
O time inteiro estava no quarto de Damien. Literalmente. Adrian, Anthony, René, Barry, Ben, John, Lyla, os pequenos Diggles, Roy, Slade... Até mesmo Lawton e Travel. Sendo que esses últimos eu nunca tive um bom relacionamento e nós já tentamos resolver isso com os punhos e ainda sim, não deu muito certo.
Também notei a quantidade exorbitante de presentes que estavam ao redor da cama de Damien e como eles todos estavam rindo de algo que Anthony havia dito. Sorri ao ver aquela cena. Okay.
— Você sabe que pode entrar, não sabe?
Meu sorriso aumentou consideravelmente e eu me virei dando de cara com Felicity vestida dos pés a cabeça de torcedora dos Rocketes. Ela ergueu uma sobrancelha loira para mim e não me deu tempo algum para responder, apenas abriu a porta e todos olharam para mim e todos me recepcionaram com sorrisos e abraços. Eu voltei a sentar ao lado de Damien que se recostou em mim e começamos a abrir os presentes juntos. Aparentemente ele esteve esperando por mim para fazer isso.
Metade dos caras trouxeram coisas do time para Damien, incluindo a bola que foi usada no jogo de hoje que fez os olhos dele brilharem. Lyla foi a única que trouxera um livro para o remelento. "Percy Jackson". Ela havia dito que era um bom livro para Damien experimentar assim que terminasse Harry Potter. Talvez tenha sido o presente favorito do remelento, eu não sei ao certo, acho que ficaria entre o livro e a bola do jogo. Julianna quase teve um ataque quando segurou a bebê Charlie no colo, e ela era o bebê mais lindo do mundo inteiro.
A Enfermeira Carly expulsou todos eles assim que veio medicar Damien pela última vez dizendo que eles estavam causando alvoroço com os funcionários. Eu sorri um pouco com a sutileza da enfermeira, mas não questionei sua autoridade. Tommy foi para casa tomar banho, e eu despachei Thea para a casa de Roy junto com o mesmo.
A Enfermeira Carly expulsou todos eles assim que veio medicar Damien pela última vez dizendo que eles estavam causando alvoroço com os funcionários. Eu sorri um pouco com a sutileza da enfermeira, mas nem pensei em questionar sua autoridade. Eu gostava de ter bolas, muito obrigada. Tommy foi para casa tomar banho, e eu despachei Thea para a casa de Roy junto com o mesmo.
— Hey, o que foi isso? — perguntei para Jules assim que vi um curativo em seu braço.
— A enfermeira pegou um pouco do meu sangue para fazer um teste, mas ela disse que devolve depois... Fica tranquilo, papai. Eu nem chorei com a agulha. — ela garantiu dando leves tapinhas de consolação em meu braço e eu sorri. — A tia Thea segurou a minha mão o tempo inteiro.
Eu assenti entendendo. Então Jules também fez o exame de alergias. Ótimo.
O trio se despediu dos gêmeos e de mim e foram embora, mas eu fingi que não percebi que o abraço que Felicity me deu perto da porta foi o mais longo de todos. Ela não mencionou nada, provavelmente por causa de Adrian, mas a forma com que ela sorria para mim me dizia que eu fui perdoado por ter omitido algumas coisinhas na nossa troca de mensagens de ontem.
Eu disse para Mick e Leo nos esperarem no estacionamento assim que o Dr. Campbell voltou ao quarto no final da tarde para assinar a alta de Damien assim como trazer os resultados do exame de Julianna. Aparentemente ela tinha as mesmas alergias que Damien com o bônus de uma possível alergia á frutos do mar e similares. Eu não tinha ideia como eles conseguiam resultados tão objetivos assim, mas mais uma vez não questionei. O Dr. Campbell voltou a bater na tecla sobre o exame no laboratório que recomendou para fazermos um mapa mais completo e em caso de sinal de qualquer tipo de sintoma como coceira, machinhas, falta de ar, dor de barriga, ou inchaços, teríamos que voltar para o hospital.
— Vá trocar de roupa ou quer ir embora usando a camisola do hospital? — perguntei para Damien que pegou a mochila que Thea havia trazido de minhas mãos e foi para o banheiro. Ele estava bem mais vocal e móvel agora, mas ainda parecia tímido perto de estranhos. Nada fora do normal, eu acho. — Jules, eu vou falar com a enfermeira Carly sobre os remédios de vocês, fique aqui dentro, okay?
Ela assentiu e depois se voltou para a televisão que estava passando um desenho que eu não conhecia. Juntei nossas coisas e saí do quarto com a receita para as canetas de anti-alérgicos para os remelentos em mãos, talvez a enfermeira Carly conseguisse me indicar alguma marca, porque eu sabia que existiam várias e nem sempre todos eram eficazes.
— Estou procurando o quarto de Damien Lance...
Me virei em direção ao posto de enfermeiras onde havia uma mulher procurando pelo meu filho. Ela era alta, morena, estava usando um traje social e uma bolsa de velho com algumas revistas de fofoca ali no meio da papelada que ela carregava, e isso me fez fechar a cara. Talvez fosse uma jornalista querendo saber um pouco mais sobre o porquê eu não entrei em campo. Adrian havia contado que eu fui uma pauta na coletiva de impressa após o jogo de hoje, mas ninguém revelou merda nenhuma.
— O que você quer com o meu filho? — perguntei fechando a porta atrás de mim e a morena se virou.
Ela me encarou dos pés á cabeça com um olhar desdém, e era recíproco.
— Oh, você está aqui...
— Posso saber quem é você? — perguntei cruzando os braços. — E o que quer com o meu filho?
Ela se aproximou fazendo seus saltos altos ecoarem pelo chão e estendeu a mão.
— Eu sou Laurel Lance. Irmã de Sara e tia dos gêmeos. — ela disse com um sorriso mordaz. — Ah, e a mulher que vai tirar a guarda dos dois de você.

Fale com o autor