Closer to the Edge
7 Oportunidades
Notas iniciais
Eu não conseguia parar de pensar no que poderia acontecer a Piper. A expressão que Charlotte fizera assim que a viu com certeza não era das mais receptivas. “Você ainda está viva, isso quer dizer que você e minha irmã se deram bem”, a voz de Percy vinha de minuto a minuto na minha cabeça. Posso dizer que a Charlotte e eu somos amigas, mas e quanto a Piper?
O treino com Thalia me fez tirar esses pensamentos da cabeça por hora. Eu tinha razão, a adaga não era nenhum bico de sete cabeças. Para falar a verdade, eu realmente era boa naquilo. Com o arco eu me saí bem. Espada, escudo, lança, pistola... Parecia que eu nasci para fazer isso.
Eu realmente fiquei feliz com aquilo tudo, mas sempre que eu olhava para as escadas das cabines não havia sinal de movimento. A porta estava fechada, muito embora eles estivessem no escritório, talvez seja para que ninguém ouça a conversa. Eu ainda não entendi do porque esse segredo todo. Era só a Piper. Um ser mais inofensivo que eu.
– Annabeth, não baixa a guarda.
Thalia estava um pouco suada, mas sem sinal de cansaço. Os olhos azuis brilhavam divertidos, como se realmente gostasse de ter encontrado um adversário à altura. O cabelo negro estava em um coque completamente mal feito, ela havia tirado o espartilho vermelho e só estava com a blusa de botões, as calças escuras e as botas marrons.
Minha adaga estava na mão dela, ela havia me desarmado e eu nem percebera, a espada estava a centímetros da minha garganta desprotegida.
– Desculpe. – disse – Mas não consigo parar de pensar porque esse segredo todo e o que vai acontecer a Piper. E também porque a Lotte fora tão rude com ela.
Thalia suspirou e se sentou na amurada, e fez sinal para que eu me sentasse ao seu lado.
– É uma longa história. – ela começou. – Há quanto tempo Piper é sua amiga, sua dama de companhia ou eu sei lá?
– Três anos, quatorze meses, duas semanas, cinco dias e algumas horas.
Ela me olhou com uma sobrancelha arqueada, a boca estava aberta, como se ela tivesse esquecido o que ia falar. Mas logo depois ela continuou:
– Bem, você sabe que a McLean é filha bastarda daquele artista, o Tristan McLean, certo? – eu assenti e ela continuou – Então, mas a mãe dela pertence a nossa família. Não é pirata e nem chega perto disso, mas ainda sim tem suas próprias tramoias, tanto que fez uma filha do cara mais famoso da França. Mas como a Piper ficou com a mãe, ela e a Charlotte eram amigas desde sempre. E quando a Charlotte descobriu que a Piper preferiu ser uma serviçal a ser parte da tripulação, ela ficou furiosa. Parece bobeira, e na verdade é, mas você sabe muito bem como a Lotte é. Apesar de que a Piper começou a ter um jeitinho muito irritante e besta antes de falar que ia se desvincular da família. Eu sabia que a Charlotte não ia mais prestar tanto atenção nela.
Ela olhou para o convés e respirou fundo antes de dizer:
– E é essa a história.
– Pensei que a Lotte estava assim porque ela gostava do Jason.
Thalia me olhou e arregalou os olhos, com a boca um pouco aberta, depois deu uma gargalhada alta:
– Isso... nunca... ai socorro... vai acontecer. – ela disse entre risadas.
Admito que fiquei com um misto de vergonha (porque todos estavam olhando para gente) e um cadinho irritada, já que ela estava rindo de algo que eu disse, e eu não disse uma piada. Depois de um tempo a Thalia finalmente conseguiu controlar o riso.
– Mas não se preocupe. A Charlotte não vai ficar com raiva de você. – ela disse. – Porque, sabe, você que aceitou a Piper.
– Eu ainda me pergunto como o Percy a convenceu de me deixar viva. – o que era mentira, depois que a Charlotte e eu tivemos a conversa no escritório, eu sabia.
– Claro, porque foi o Percy quem pediu. Ele é tipo, a terceira pessoa que ela realmente ama e se importa nesse mundo.
Juntei as sobrancelhas.
– E quem são as primeiras duas pessoas?
Ela não respondeu. Ela ficou com uma expressão pensativa no rosto, o meu palpite é que ela estava se perguntando se eu podia saber ou não.
– Que tal perguntar para ela? – ela falou, apontando com a cabeça para a varanda.
Charlotte acompanhava com o olhar Piper descer as escadas, essa que tinha trocado de roupa e estava com umas roupas que Silena usaria: botas de cano médio marrons, calças escuras e uma blusa de cordão rosada. Jason sorriu para ela no fim das escadas, ele estava conversando com Leo (aliás, Leo já apelidara Piper de “Rainha da Beleza”). Então os três foram dando risadas de algo que Leo disse até os compartimentos inferiores. O Leo provavelmente vai ficar com uma vela do tamanho da Rússia.
Charlotte girou o corpo, ela ainda estava com o rosto em uma expressão séria, voltou para as cabines e fechou a porta atrás de si.
– E lá se vai minha oportunidade. – comentei.
E voltamos a treinar.
***
Nem Percy nem Charlotte apareceram na hora do jantar.
Na verdade, eles não apareceram o resto do dia.
Quando eu fui para a cabine tomar banho depois do treino, não havia sinal que alguém apareceu por ali depois que eu saí de manhã. Estranho.
A porta do escritório estava trancada. A do quarto da Lotte também. Eu coloquei o ouvido para ouvir alguma coisa na porta do quarto dela, mas não ouvi som algum. Quando eu coloquei o ouvido na porta do escritório, eu ouvi alguns sussurros, de vez em quando o meu nome e o de uma tal de “Atena”, mas nada que eu conseguia ouvir fazia muito sentido.
Eu resolvi ir sozinha para o refeitório. Sentei-me a mesa de Thalia, com o restante das pessoas que estavam na cantoria de ontem. Eu pesei em contar o que ouvi no escritório para a Thalia, mas não sabia se ela ia me ajudar ou não. Eu passei o resto do jantar calada, apenas observando a cena que vai ser minha rotina daqui adiante: Leo cortejando sem sucesso algum Reyna, Piper e Jason com vergonha de falar o que sentem um ao outro, Grover e Thalia rindo da cara do Leo, a falação nas outras mesas. Eu sorri com aquela visão e voltei à atenção a minha comida.
***
Eu já estava pronta para dormir. Mas apoiei os cotovelos no batente da janela, sentindo a brisa do bar e vendo o céu totalmente estrelado, pensando no que aconteceu hoje de manhã. Luke pode estar vivo. Ele com toda certeza estava com o orgulho para lá de ferido e, conhecendo ele como eu conheço, ele vai por a marinha de toda a Europa se preciso for para ir atrás de nós. Com tanto de inimigos que esse navio tem, eu não duvido nada. Outra coisa que eu fiquei pensando é: quem é Atena? O que raios ela tem a ver comigo?
Perguntas demais que eu não sabia responder em um só dia.
O que realmente não me agradava em nada.
Depois de quase duas horas, a Lua já tinha se deslocado um bocado no céu, eu estava com um pouco de sono e Percy finalmente deu as caras.
– Quem é vivo sempre aparece. – comentei meio sonolenta.
– Demorei?
Eu olhei para trás, com uma sobrancelha levantada.
– Não, que isso, magina. – disse com um tom a mais de sarcasmo.
Ele deu aquele sorriso “a lá Percy” e me pediu desculpas, não muito convincente. Ele entrou no banheiro e eu continuei onde estava apenas ouvindo o barulho das torneiras do banheiro e as ondas batendo no casco do navio.
Quando Percy saiu do banheiro, vestindo as mesmas calças de pijama de ontem, ele se colocou ao meu lado, também com os cotovelos no batente da janela, e observando a paisagem comigo.
Nós ficamos em um silencio acolhedor até eu tomar coragem para perguntar o que estava na minha cabeça desde manhã:
– Então você conhece a Piper. Mas porque se elegeu para trocar de lugar com ela?
Ele não disse nada, nem ao menos me olhou, só ficou observando as estrelas. Depois ele deu um longo suspiro e finalmente olhou para mim:
– Porque infelizmente eu sou assim. Até se fosse um cachorro de rua eu me colocaria no lugar dele.
Ele deu um sorriso tímido depois que falou isso.
– Sempre colocando os outros na sua frente?
– Sempre colocando os outros na minha frente. – ele concordou, e voltou a olhar para o mar.
Eu gostaria de falar: “Queria ter essa coragem para fazer isso”, mas meu orgulho foi maior. Mas aí eu falei uma coisa que me deu vontade de pular no mar e me afogar:
– Mesmo da pessoa que trabalha pelo assassino da sua mãe?
Ele me olhou. Eu achei que ele mesmo ia me empurrar para fora da janela, e eu nem faria o mínimo esforço para tentar me salvar, porque eu merecia isso.
– Desculpe, eu...
– Não está tudo bem. – ele disse. – Eu estou começando a me apaixonar pela filha dele, isso não faz muita diferença.
É, agora ferrou de vez. Eu não sabia o que fazer. Eu fiquei ali, olhando para ele com a boca aberta, procurando alguma coisa não idiota para se dizer. Então eu resolvi manter a boca fechada e continuar olhando para o céu. Dessa vez, o silencio era bem desconfortável.
Quando uma estrela cadente cortou o céu, eu sorri e comecei a recitar um trecho de um dos meus livros preferidos:
– Duvides que as estrelas sejam fogo...
– Duvides que o Sol se mova... – ele continuou.
Ele me olhou e eu não contive o sorriso, então continuei:
– Duvides que a verdade seja mentirosa...
– Mas nunca duvides que te amo.
Estávamos muito mais perto agora. Eu queria perguntar desde quando ele lia Shakespeare, mas isso não era importante.
Nada mais era importante naquele momento.
Porque quando ele me beijou, o mundo poderia desabar e eu não me importaria.
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