Closer to the Edge
17 Leo dança no ritmo da ragatanga
Notas iniciais
– Então, Caçadoras. – falei enquanto estava ocupada com o nó do espartilho vinho, estava apoiada no batente da janela e Percy estava a minha frente – Hunters of Moon?
– Uhum. – ele voltou seus olhos para mim, aos quais pareciam estranhamente mais claros, mas seus dedos ágeis ainda estavam ocupados com os botões da blusa. Aliás, ele os abotoou até o começo do pescoço, o que, além de frustrante, era estranho. O máximo dele era o começo da barriga.
Juntei as sobrancelhas e fiquei olhando para ele assim que terminei com os nós no espartilho, pousando minhas mãos no batente e inclinando o corpo um pouco para trás. Percy se levantou e pegou um colete de couro na cômoda e o vestiu.
– Que foi? – ele perguntou, assim que viu minha expressão. – Caçadoras não são muito fãs de homens sabia? Melhor prevenir, não estou a fim de virar o jantar delas.
Revirei os olhos e andei até ele enquanto ainda estava ocupado com o colete. Os botões escuros do colete iam até o começo da barriga, não era exatamente onde eu queria, mas vale. Sorri e comecei a desabotoar sua blusa até o limite no colete.
– Annabeth...
– Shiu.
– Annabeth, é que...
– Shiu.
– Mas Annabeth...
– Shiu, cacete. – ouvi-o comentar alguma coisa como “suave como um coice de mula”, mas não prestei atenção o suficiente. Desabotoei até onde dava e voltei meus olhos para ele – Elas não vão ousar tocar em você. – inclinei-me para frente e dei um beijo superficial em seus lábios. – Eu não vou deixar.
Percy não disse nada, apenas sorriu sem graça de lado.
– Por mais que você seja idiota... – comecei, fazendo-o lançar os braços para cima e sua expressão fofa mudar para uma de irritação.
– Estava demorando. – ele comentou, eu sorri e roubei-lhe um beijo antes de me jogar no sofá e calçar minhas botas.
– Mas enfim, — falei quando Percy se sentou ao meu lado – Elas não são aquela tripulação que “abriga” – fiz aspas com os dedos – mulheres. E elas só se vestem de prata, e sempre saqueiam homens solteiros e, obviamente, ricos?
Ele assentiu.
– As Caçadoras são chamadas de virgens de prata ou virgens eternas. – ele pegou suas botas e as calçou, olhando para mim logo depois – Mas nem todas são realmente virgens. A grande maioria entrou porque ou foi desiludida com o amor ou sofreram agressão.
– Que tipo de agressão... Ah.
– É. – Percy se levantou e amarrou a bainha de sua espada na cintura – A grande maioria tem medo de chegar perto de homens por isso. A capitã delas, Ártemis, sofreu com o amor. Ou coisa assim. A mão direita dela, Zoe Doce-Amarga, sofreu tanto por um, tanto pelo outro. – ele olhou meu rosto e explicou: — São minhas primas, ficaria surpresa com tanto de primos que tenho.
– Já ouvi isso.
Ele sorriu e continuou:
– Então Ártemis criou o Hunters of Moon, ou as Caçadoras de Ártemis. Como preferir. O negócio é que nem sempre é um bom sinal quando elas aparecem. Além disso, eu espero que Charlotte não arrume alguma briga com Ártemis.
– Isso não seria legal? – sorri para ele, amarrando o lenço em minha cintura, seguido pela bainha.
– Não, isso não seria nada legal. – ele sorriu e abriu a porta, dando passagem para que eu passasse. Eu o olhei com a sobrancelha arqueada, ele deu de ombros e fechou a porta atrás de si.
Quando ambos saímos do quarto, nos deparamos com Charlotte andando de um lado para o outro no corredor, respirando fundo e fazendo caretas, como uma atriz antes de entrar no palco. Ela dava cinco passos para frente e girava seu corpo logo depois, andando outros cinco passos.
– Eu sei que vou me arrepender de perguntar. – Percy comentou, com os olhos fechados como se tentasse imaginar que a cena não foi real. – Mas o que raios você está fazendo?
Charlotte não parou seu ritmo, tão pouco o respondeu.
– Esperando ter um guarda-costas ou o quê? – ele ironizou, cruzando os braços e se apoiando na parede.
– Não exatamente – ela parou na nossa frente. – Mas não estou nem um pouco a fim de ver Ártemis e também porque preciso de uma opinião. – logo depois de falar, ela abrira um sorriso tão ofuscante que deixaria o Sol com inveja. Charlotte continuou o que tinha que dizer com aquele sorriso, deixando sua voz um pouco estranha, como se tivesse amordaçada. – Parece bom?
– Parece falso. – respondi, Percy assentiu, mostrando que concordava comigo.
– Ótimo. – ela parou de sorrir e se dirigiu até as portas duplas – E que o show comece.
***
O navio das Caçadoras estava a uma distancia boa do nosso, o suficiente para alguém pular e cair sem dificuldade. Ele era de madeira clara com detalhes em prata aqui e ali, o nome estava no habitual lugar, escrito também em prata. A grande parte da tripulação estava nele, com olhares duros aos meninos e sem retirar as mãos dos arcos, pistolas e espadas. Os olhares repreensivos tinha um brilho estranho, como se aquilo só fosse uma armadura para o que tinha atrás.
Medo, provavelmente.
Mas isso era o suficiente para deixar a população masculina presente, o que era grande maioria, praticamente tentando se esconder, fazendo seus afazeres apreensivos, mantendo-se o mais longe possível da linha de tiro delas. Embora não ache que isso vá impedi-las de qualquer coisa.
Isso, tirando a parte de que havia duas tripulantes ali.
Uma mulher alta, esguia, de pelo menos vinte e cinco anos. Cabelos cacheados soltos caindo até a cintura, ela era ruiva, tão ruiva que seus cabelos chegavam a ser vermelho vivo. Sua pele era clara, não muito comum para alguém que vive no mar, mas nela parecia tão comum quanto. Ela usava roupas habituais, com calças e botas de combate. Mas eram as únicas coisas de outra cor nela, sua blusa e colete eram prateados, contrastando com o cabelo vermelho. Seus olhos cinzas – cinzas, não. Prateados. – estavam ofuscantes, como se pudessem perfurar alguém apenas com o olhar.
Sinceramente, eu não duvidava nada.
Já a outra, era mais nova, dezesseis anos talvez. Também era alta e graciosa, sua pele cor de bronze fazia um belo contraste com o cabelo escuro longo. Ela estava apoiada na amurada, de braços cruzados e olhando qualquer ameaça ao seu redor. Suas vestimentas também eram prata, mas havia um tipo de tiara com uma lua minguante no topo de sua cabeça, fazendo-a parecer uma princesa persa altamente perigosa. Seus olhos cor de obsidiana causavam a mesma impressão da mulher mais velha: como se pudesse perfurar você.
Olhando-a assim, ela parecia um pouco com a Reyna, para falar a verdade.
Assim que descemos as escadas, a ruiva desfez por um mísero momento a carranca, sorrindo para Charlotte, muito embora ele não parecesse tão verdadeiro assim. Mas o da Lotte também estava longe de ser, então estávamos quites. Percy continuou ao lado de Charlotte, mas em uma distancia segura. Eu andei até a amurada do navio e sentei-me ao lado de Thalia, a alguns metros de distância da menina que parecia Reyna.
– Charlotte, minha querida prima. – ele abriu os braços, como se fosse abraça-la, mas Charlotte apenas olhou com uma sobrancelha erguida, deixando a mulher com uma expressão constrangida e se afastando um pouco.
– Ártemis, sempre chegando a horas extremamente necessárias – a ironia na voz dela era quase palpável.
– É eu sei que não é uma hora propriamente boa. – Ártemis respondeu, gesticulando enquanto falava – Mas quando eu e minhas Caçadoras estávamos perto da Irlanda, encontramos algo não muito bom. Na verdade, alguém.
– Alguém? – Charlotte juntou as sobrancelhas, ela não parecia estar prestando atenção antes. – Como era esse alguém?
– Um loiro, olhos azuis, todo machucado, o encontramos em uma praia da Irlanda quando passávamos por lá.
Charlotte e Percy deram um olhar cumprisse um para o outro.
– Um loiro de farmácia invocado? – Percy perguntou.
– Sim, Perseu. – Ártemis dera um olhar tão frio para ele que poderia congelá-lo por completo. – Íamos para Inglaterra, está em tempo regencial desde que o rei piorou. Você sabe que o casamento da filhinha predileta não dera muito certo e o velho dá com o pé na cova.
Meu coração pareceu falhar por um mísero minuto. Meus olhos se arregalaram e minha vontade era de deixar as lágrimas cair, mas travei o maxilar e pisquei os olhos rapidamente. Umedeci os lábios e olhei para baixo, se as lágrimas caíssem sem minha permissão, esperava que assim ninguém as visse.
– Você está bem? – Thalia perguntou em um sussurro – Não se preocupe, as Caçadoras não são tão boas em palavras.
– Já as conheceu?
– Eu quase fui uma delas. – ela sorriu de lado, como se uma lembrança a fizesse ter memórias boas – Mas alguém me fez pensar melhor. – esperei para ver se ela ia falar mais alguma coisa, se ela quisesse contar quem é esse ser milagroso, ela contaria. Provavelmente não. – Mas, sério, seu pai deve estar bem. Eu sinceramente achei que ele nem daria falta. Aliás, nem você pareceu dar.
– Estava ocupada com as coisas que estavam acontecendo para pensar em qualquer coisa que envolva a Inglaterra. – as palavras seguintes pesavam como chumbo em minha consciência – Até mesmo no meu pai.
– Ocupada de mais com coisas ou com alguém? – ela sorriu de lado, mas eu não me voltei para ela, estava realmente confortável deixar meus olhos se focalizarem em lugar nenhum.
Ficamos quietas a partir dali, Thalia não era exatamente o tipo de pessoa que sente pena de alguém, muito menos o tipo de pessoa que passa a mão na cabeça. Mas não esperava pena, muito pelo contrário, a otária aqui esqueceu o próprio pai.
Vou ser a filha do ano depois dessa.
Claro, eu estava tentando entender à lógica deste lugar, embora realmente ache que nada é tecnicamente lógico por aqui. Estava tentando decifrar como esse mundo funciona, mas especificamente tentando decifrar como as pessoas pensam e agem. Nunca nem sequer me lembrei de que tudo isso que está acontecendo foi porque meu pai está à beira da morte.
Mas e se o Luke realmente estiver vivo? Um loiro equivocado ao norte da Irlanda parece se enquadrar no Castellan. Se ele estiver vivo, alguém vai acha-lo como Ártemis o achou, e ele vai voltar à Inglaterra. E, se eu conheço bem o Castellan, ele vai mover rios e montanhas para me achar, enforcar todos aqui e sair de herói da história.
Uma pequena parte da conversa que eu tive com ele no dia do jantar de noivado vinha a minha cabeça, no mesmo dia em que ele me dera à adaga. Lembro-me perfeitamente de que ele fez uma promessa nesse dia que, naquele momento, eu achei que a promessa era bem simples de ser cumprida. Agora, eu não tenho tanta certeza.
Mas, vendo pelo lado bom, eu ganhei 60 pratas do Jackson.
***
Depois de quase se estrangularem, se esfaquearem, quase usarem todos os artifícios da natureza (ao qual uma quase matou a outra com um maremoto) Charlotte e Ártemis finalmente tiveram um momento de calmaria. Assim que elas quase se engalfinharem no meio do convés, a garota prateada (ao qual eu descobri que ela era Zöe Doce-Amarga) se meteu no meio das duas e, de alguma forma que a ciência ainda não descobriu qual é, botou na cabeça de ambas que isso não valia de nada, que isso não era comportamento de duas damas.
Sim, ela usou a palavra “damas” para se referir a elas. Ártemis tudo bem, mas Charlotte?!
Também descobri que a Garota Prateada não gostava de Thalia, e o sentimento era recíproco. Acho que essa rixa nasceu quando a Thalia disse não a Caçada e, pela história que ouvi, Zoe fez um escândalo. A única parte que Thalia não contara é por que ela foi chamada para Caçada, se ou ela foi violentada ou sofreu por amor, ou até mesmo os dois.
Mas, convenhamos, qualquer um que tentar chegar ao coração de Thalia vai ser esmagado no processo.
Quando Ártemis falou o que tinha que falar, que era, basicamente, notícia ruim, elas se preparam para ir embora. Mas antes ela se virou para nós, algo que eu soube que ela sempre fazia, e perguntou:
– Alguma de vocês reconsidera a ideia? – ela pousou seus olhos em mim e os estreitou; depois de um tempo assim, ela arregalou os olhos e olhou para Percy (que havia voltado depois que Beckendorf quase o arrastou e Leo para cima), depois olhou para mim novamente. – Então é esta a garota?
E eu respondi algo muito inteligente, do tipo “Hã... tá”, e ela começou a me analisar. De inicio, quando era apenas com um olhar duro, eu não me importei tanto. Mas aí ela começou a puxar meu cabelo, talvez para ver se era verdadeiro. Abrir meus olhos e ficar olhando curiosa, ela até abriu minha boca para ver como meus dentes eram.
– Ártemis. – Charlotte forçou um sorriso depois de tossir, como se isso não fosse chamar atenção, nossa.
Ártemis se distanciou de mim, desistindo de tentar ver o céu da minha boca, e sorriu para as outras garotas. Thalia mostrou um interesse repentino pelos próprios pés; Silena começou a analisar as próprias unhas; Piper coçou a cabeça e olhava para tudo que é lugar, menos para Ártemis. Ela olhou esperançosa para Reyna, que se levantou meio hesitante, mas antes mesmo de ela falar qualquer coisa, o Leo gritou um sonoro “NÃO” e, não, eu não estou brincando, pulou aos pés de Reyna. Ele a segurou fortemente nas pernas e começou a choramingar e gritar coisas em espanhol:
– NO, USTED PREGUNTA, POR FAVOR NO HACER! MI REYNA, quédate conmigo, POR FAVOR PREGUNTE USTED. PERDOI conmigo para cualquier grosería que hablaba, pero por favor quédate aquí conmigo, EN MI VAMOR MÍ REYNA.
Reyna estava tentando desgrudar de Leo, mas ele a agarrou como uma sanguessuga. Ela ficou extremamente vermelha, coitada, mas eu conseguia ver um sorrisinho desenhado em seus lábios. E eu tenho quase certeza que não era de divertimento.
Leo continuava com os olhos cor de chocolate voltados para Reyna, o pobre estava quase chorando, mas não parecia ligar para mais da metade das pessoas gargalhando ao seu redor.
– Ele está falando sobre tacos? – Percy perguntou do meu lado, eu apenas sorri de lado e neguei com a cabeça.
– Tortilhas.
– Sério? – ele arregalou os olhos para mim e eu não contive a risada.
– Claro que não, Cabeça de Alga, é quase perceptível que ele não está falando sobre tortilhas nem tacos.
Ártemis não estava nem rindo, nem esboçando um único sorriso. Ela olhou para Reyna, que deu de ombros e mostrou as mãos, como se não pudesse fazer nada a respeito de um elfo latino a segurando pelas pernas e gritando que ficasse.
Ártemis assentiu e deu um cumprimento cúmplice com a cabeça para Charlotte, se virou e pegou impulso para um salto até seu navio. Assim que ela estava em pé no convés, o navio zarpou para o outro lado. Talvez elas vão fazer algo nas Treze Colônias ou em algum lugar mais acima.
Quando o Hunter of Moon era apenas um pequeno cisco negro no horizonte banhado pela luz do entardecer, Leo finalmente se desgrudou de Reyna. Ele sorria para ela, aquele mesmo sorriso de boas vindas que ele me dera, mas para Reyna, o sorriso do Valdez parecida ficar mais largo e seus olhos pareciam brilhar mais que o habitual.
Ela o respondeu com uma carranca, balançou a cabeça e saiu batendo os pés para os compartimentos inferiores.
Leo não parou de sorrir.
Ele abriu os braços para toda a tripulação, como se pudesse abraçar a todos nós, e gritou:
– ELA ME AMA! – repetiu isso umas duas vezes, logo depois começou a dançar uma coisa que eu não chamaria de dança, arrancando mais gargalhas. Logo depois do pequeno show, ele limpou a garganta e disse na sua melhor voz de galanteador (ou ao menos tentou) – E isso, meus caros amigos e amigas, se chama Leyna.
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