Closer to the Edge
18 Problemas mentais causados por um moreno irritante
Notas iniciais
Levei menos de dez minutos para pegar um livro qualquer e achar um lugar propicio para ler em paz, totalmente sozinha, sem ninguém para atrapalhar. Acabei achando isso em cima no mastro principal, era surpreendentemente fácil chegar até lá e aparentemente ninguém reparou em mim.
Era bom, sabe, quando você quer ficar sozinha e as pessoas te deixam ficar assim.
O livro era de medicina, “Fábrica de Corpos Humanos”, não muito o meu gênero literário favorito, mas qualquer coisa servia naquele momento desesperador. Quero dizer, não necessariamente desesperador, do tipo eu arrancar os cabelos e me jogar no mar sem saber nadar, mas desesperador no sentido de eu querer me jogar de onde estava. E aquele mastro não era baixo, ele era o principal, oras.
Ai, Annabeth, cale a boca.
Abri o livro em qualquer página, mas eu nunca conseguia me concentrar totalmente. Parecia que meus olhos continuavam lendo, mas minha mente viajava para outra dimensão mais divertida. Ao qual eu não tenho problemas e more em uma casa de chocolate.
Annabeth Chase, você tem 16 anos na cara e ainda quer morar em uma casa de chocolate?
Consciência deixa o ser de 16 anos ser feliz.
Mas eu sempre voltava para a dura realidade: meu empasse interno, que virara um grande monólogo interior. Um grande amontoado de frases sempre começadas com “e se”. Nunca gostei de e se’s, gostava mais de possibilidades definitivas, sem pensar no que poderia ter acontecido se eu tivesse feito diferente. Eu fiz porque achei o certo a fazer, nada de “e se eu tivesse feito tal coisa ao qual eu não ligo à mínima”.
Mas, convenhamos: depois do meu quase porém- não-acontecido-graças-a-uma-reza-braba casamento com o loiro oxigenado invocado do Castellan, minha vida mudara radicalmente. E, depois de hoje mais cedo, daquela notícia do tempo regencial na Inglaterra, minha cabeça se revirou em um grande “e se”.
E se eu tivesse ficado no castelo quieta no meu canto?
Teoricamente, querida Annabeth, você foi praticamente obrigada.
Não, querida Consciência, a idiota aqui estava babando pelo moreno de olhos verdes. Ela não foi obrigada a nada.
E se eu emposse minha vontade de ficar no castelo?
Eu seria morta. Ou não. Não sei, mas isso provavelmente aconteceria.
E se eu pedisse para voltar?
Ora, por favor, se eu pedisse teria que ser a nado. E estamos há... O quê? Duas semanas em alto mar? Estamos mais para as Américas do que para a Europa. Consciência, minha jovem, você está ficando cada vez mais burra. Não fique pensando em possibilidades que poderiam acontecer, pense em possibilidades que vão acontecer. Você é parte da minha mente, deveria ser mais esperta.
ESPERTA? a voz em minha cabeça parecia ter ganhado vida própria Eu teria que perder 60 pontos de Q.I. para ser considerada “esperta”. Esperta, vê se posso com isso.
Revirei os olhos e resolvi esquecer que minha própria mente me dera uma bronca. Acho que enlouqueci. Ouvi em algum lugar que as pessoas malucas são as melhores, mas não acho que isso seja bom para a pessoa maluca.
Quando finalmente voltei minha mente para o livro, já havia lido três capítulos e estava totalmente perdida e sem nenhuma vontade de voltar aonde me lembrava de alguma coisa. Deixei o livro de lado (o que era uma novidade) e balancei minha cabeça, estapeando a mim mesma. Gostaria que assim minha cabeça se clareasse para uma coisa só, mas isso seria com muito esforço.
Ou não.
Apenas olhei para um ponto em lugar algum do horizonte escuro para finalmente não pensar em nada que me atormentasse.
Pensamentos felizes, Annabeth, pensamentos felizes.
Maravilha. Comecei a falar comigo mesma novamente.
Enterrei meu rosto nas mãos e bufei, fazendo um barulho de choro sem nenhuma lágrima. Gostaria de gritar, mas acho que isso chamaria muita atenção, e não era exatamente o que eu queria. Mas, para falar a verdade, nem eu mesma sei o que eu queria.
Queria meu pai bem, saudável e me fazendo rir como ele fazia quando eu tinha 10 anos.
Mas também gostei dessa vida. Gostava dessa, digamos, nova família. Aqui não havia sensação que você tinha, de sorrir e manter a pose de perfeita que havia em jantares da Família Real. Ah, e claro, Percy.
Eu não queria admitir, nem admitir para mim mesma, mas eu não consigo mais me imaginar sem ele. Não sei se isso era feitiço ou apenas um sentimento novo. Só sei que quando eu olhava para ele, via um porto seguro reconfortante. Em minha vida, nunca realmente tive uma casa. Claro, tinha o palácio e gostava da maioria das pessoas ali, mas nunca realmente chamei aquilo tudo de lar. E, ao mesmo tempo, Percy me fazia sentir como uma criminosa fugitiva. E isso era estranhamente bom, excitante, algo ao qual eu podia considerar como desafio.
Parabéns Perseu Jackson, você conseguiu confundir minha mente. Principalmente se o assunto for você.
Idiota.
– Toc, toc. – Piper estalava os dedos e balançava a mão freneticamente na frente dos meus olhos. – Terra para Annabeth, Annabeth você ainda está aí?
Pisquei algumas vezes, como se estivesse acordando de um coma, voltei meus olhos para a pequena garota com traços tão familiares e sorri para ela. Vestia uma saia longa escura, mas dava para ver as botas um pouco mais escuras do que a saia, a blusa de botões rosa-claro estava por dentro da saia. Seu cabelo estava em duas tranças de cada lado da cabeça, colocadas para trás em um coque com os fios repicados para fora. Pipes parecia mais uma camponesa do que uma pirata. Então me recordo que ela fez de tudo para ficar bem longe desse mundo.
Piper era minha dama de honra, certo, mas eu a via mais do que apenas uma serviçal. A via como uma melhor amiga, uma irmã ao qual ainda não obtive. Conhecemo-nos há três anos e parecia que nascemos juntas.
Ela sentou ao meu lado e se esticou para ver a capa do livro.
– Fábrica de Corpos Humanos? – ela perguntou depois olhou para meu rosto e levantou uma sobrancelha – Se você está abatida com isso, nem queira ler a continuação. Fábrica de Corpos humanos: A retaliação da revolta dos órgãos.
Eu ri e bati de leve o braço dela.
– Não estou abatida com isso. Você sabe, estou pensando na Inglaterra.
– Ah, em casa.
– Não. – disse, minha voz saindo mais ríspida do que pretendia – Na Inglaterra. Só isso.
– Ah, no pobre rei. – Pipes parecia realmente abatida. Mas isso era normal, ela provavelmente ficaria triste até com a morte de uma barata. E baratas são nojentas. – Mas, sabe, se eu fosse você não ficaria assim. Ele vai ficar bem, não? – ela pôs a mão em meu ombro e sorriu – Ele é Frederick Chase, rei da Inglaterra, todo mundo vai mover rios e montanhas para deixa-lo saudável. Além disso, não adianta ficar assim. Você sabe muito bem que mesmo se estivesse lá, não poderia resolver muita coisa. Ninguém te deixaria ficar perto dele, mesmo você teimando muito.
Piper estava certa, ou ao menos eu achava que sim. Ela tem uma persuasão quase que sobrenatural. Não duvido nada que se ela conversasse com você sobre o Papai Noel, você juraria de pé junto que ele existe.
– Mas enfim, — sorri, puxando minhas pernas para meu corpo em uma posição mais confortável, igual quando conversávamos quando tudo era normal – como está indo?
Ela pareceu feliz com a pergunta.
– Ah, sabe, é legal. Quer dizer, Charlotte não perde uma chance de me pôr para baixo. Mas eu não ligo muito, até porque, se eu fizesse alguma coisa, ela me botaria para nadar com tubarões.
– Acho que Charlotte vai fazer algo pior.
– Não duvido nada.
– Mas, porque raios ela odeia você? – perguntei – Quero dizer, eu sei da história sobre você e ela terem brigado porque você escolheu ser uma serviçal do que ser parte da tripulação dela. Mas não vejo como isso pode criar esse ódio, é idiotice, até mesmo para padrões Charlotte.
– Bem... – ela suspirou e desviou seus olhos de mim, parecia que lembrança não a agradava. – É uma longa história... E... Sabe...
– Ok, Pipes, podemos mudar de assunto.
Piper suspirou aliviada e se virou para mim, o que significava que essa conversa não acabaria tão cedo. Ela sorriu com o término do assunto, embora eu ainda vá retornar isso mais tarde quando tiver tempo, e começou:
– O Leo é legal, ele faria até morto cair na gargalhada. Descobri que a Silena é a minha irmã – eu a encarei e ela fez uma careta e assentiu.
– Sua mãe não perde tempo, mesmo.
– Haha, muito engraçado. – ela falou, enquanto eu ria da sua expressão de indignação. – Mas enfim, eu descobri também que o Leo e o Jason tiveram uma disputa indireta e totalmente discreta pela Reyna, ainda tem, na verdade, mas isso parou um pouco depois que cheguei.
– Ah sim claro, — eu joguei o cabelo para trás e fiz minha melhor imitação da voz de Piper – Até porque eu tenho um caso de amor mal resolvido com Jason Grace e a Reyna é do Leo, ela só precisa saber a não mexer com meu homem.
Ela gargalhou e só depois de alguns minutos que ela praticamente teve um ataque epilético Pipes voltou ao normal, com olhos brilhando de tanto rir e com a mão na barriga. Acho que ela só não rolou de rir porque ela sabia que iria cair e não ia ter uma queda agradável.
– Menos majestade. – Piper disse, mas o “majestade” não parecia gozação.
– Piper, não estamos mais na Inglaterra. Aqui eu não sou nem de longe uma majestade.
Pipes inclinou a cabeça em sinal de desculpas.
– Bem, ele é legal. É gentil e tudo mais, nunca imaginei que alguém que trabalhasse com a Charlotte fosse gentil, mas Jason é. – ela sorriu meio sonhadora, o que me fez balançar levemente a cabeça. – Vamos mudar de assunto, pode ser?
Perguntei-me mentalmente porque ela não gostaria de se fixar nesse assunto, mas então me lembrei de que Piper é reservada. Ela deve pensar muito nele, mas prefere não comentar com terceiros sua vida pessoal, isso explica como só fui conhecer sua real origem agora.
– Ainda acho que você não precisa pensar muito nisso. – ela falou depois de um tempo, eu a olhei com as sobrancelhas erguidas em questionamento – Na Inglaterra. Não deve se lamuriar ou ficar se punindo por algo que poderia ter feito.
– E como sabe que eu estou me punindo ou me lamuriando?
– Porque você está em um lugar alto. – ela respondeu como se fosse muito óbvio – Se lembra de quando você tinha 14 anos e gostava do filho do Comodoro? Qual era o nome dele... Octavian?
– Argh. – fiz uma careta com aquela memória. Octavian era filho do Comodoro do Interceptador, orgulho da Marinha Real, meu pai confiava sua vida nele. E eu, como estupida, tive uma mísera queda pelo projeto de gente que se achava por ser filho de quem era. E, tentando impor isso, me deu um verdadeiro pé na bunda. Não antes de ele me dar um selinho que mal pode chamar de beijo. Hoje ele deve estar comandando alguns guardas em alguma colônia. – Por favor, não me lembre de meu passado obscuro. Tenho nojo só de pensar que me primeiro quase beijo foi com ele.
Piper riu. Cretina.
– É, Annabeth... Você evoluiu bastante. – ela dera uma ênfase carregada no “bastante” e olhou para baixo.
O convés estava todo iluminado com pequenas luzes, pareciam pequenas bolas de fogo. Pessoas andavam aqui e ali, fazendo seus afazeres ou apenas conversando. Na elevação de madeira onde ficava o timão, Beckendorf o manejava com maestria. Leo e Thalia estavam conversando alegremente, provavelmente relembrando a dancinha nada normal de Leo hoje cedo. Charlotte estava sentada na mesa lotada de papéis, analisando o mapa circular que Hazel nos entregara, mas parecia que também prestava atenção na conversa de Thalia e Leo, já que sorria de vez e quando e balançava a cabeça. E, ao lado dela, parecendo totalmente descontraído com os pés apoiados no canto da mesa e ajudando Thalia a deixar Leo mais vermelho, o moreno ao qual Piper olhava.
Percy percebeu depois de um tempo que eu olhava sonhadora e com um sorriso constrangedoramente bobo nos lábios. Ele deu aquele sorriso torto habitual, mas que eu não me cansava de ver, e piscou para mim. Revirei os olhos e balancei a cabeça, o que só fez com que ele sorrisse mais.
– Quero dizer, — Piper continuou, mas eu não voltei meus olhos para ela, continuava perdida no abismo verde-água que eram os olhos dele – Evolução é pouco, você passou de um guri magricela loiro azedo a um moreno que é o pecado em pessoa.
Ri com o pecado em pessoa. Não que não fosse verdade. Porque, até agora, nunca ouvi ninguém por o que Percy Jackson era em apenas três palavras.
– Olha, eu não sou especialista nisso nem nada. E também não sei no que se passa nessa sua cabecinha feita de engrenagens. – Piper sorriu de lado, o que me fez suspirar e finalmente olhar em seus olhos. Ela tinha uma expressão sapeca no rosto, o que dava um medo estranho. – Mas eu acho, só acho, assim, que alguém está apaixonada.
Ela fez um coração com as mãos quando mencionou a última palavra.
Bufei e revirei os olhos, não gostava nem um pouco disso. Nunca me simpatizei com o amor. Não sei se vou me machucar e também não quero ser uma granada, que explode e destrói todos a minha volta. Só sei que vou ao menos tentar, pelo menos tentar do meu jeito. Tentar nunca matou ninguém.
Pelo menos, não que eu saiba.
Voltei meus olhos para baixo e os olhos verdes que ultimamente invadiam minha mente sem permissão continuavam me encarando. Eu os encarei de volta e sorri de lado, em uma expressão de desafio.
– Sinceramente, Pipes, nem eu sei o que se passa em minha cabeça.
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