Closer to the Edge
35 Fancy
Notas iniciais
P. o. V. Annabeth
Frederick James Chase morreu na madrugada do mesmo dia, sendo anunciado o obituário de manhã para quem quisesse ler na primeira página dos jornais de toda Europa. Ele morreu em sua cama, com mosquiteiros brancos impedindo sua fraca visão vislumbrar seu último pôr-do-sol.
Assim que Piper e Alicia entraram pela porta do meu quarto, de certa forma já sabia o que elas falariam. Ou ao menos imaginava. Fiquei deitada por longos instantes na minha cama, olhando para o teto e me lembrando da única conversa longa e verdadeira que tive com meu pai, não muito tempo antes de ele morrer.
Ele ainda escreveu um bilhete com a letra intocável, deixando na mesinha de cabeceira e devidamente dobrado, com as palavras “para minha única filha” atrás.
Se pudesse viver mais um pouco, eu viveria apenas para que você, minha filha, se case com alguém que realmente ame.
C.
As iniciais dele estavam em letras corvinas, e o fim do “c” foi puxado para baixo, e imaginei que ele tivesse pensado “já estou morrendo, porque não?”.
Foi no fim da tarde, se lembro-me bem, o cortejo fúnebre. O caixão com uma manta de flores coloridas e ironicamente vivas estava bem seguro em uma carruagem com paredes inteiramente de vidro. Observei enquanto uma fileira contínua de guardas sustentava a população londrina inteira atrás das linhas, sufocando qualquer agitação que pudesse começar em pancadaria. Depois foi o enterro, no cemitério atrás do palácio ao qual ele cresceu. Só foi aberto a família, toda a família, portanto não tive sequer espaço sozinha para poder lamentar a infortuna morte do meu pai.
Na saída, todos vieram prestar lamentações a mim e a minha madrasta, ao qual o choro não parecia choro e sim resfriado.
Não aguentava ficar mais nem um minuto perto de ninguém, quando resolvi entrar na casa onde meu pai nasceu, ao sul de Manchester. Deveria ser confortável, pensei, morar em um lugar longe de tudo e só tendo que se preocupar quais brinquedos iria brincar hoje. Seu pai, diferente dela, era o irmão do meio. Quando o mais velho morreu, ele tinha 20 anos, e só teve que se preocupar com isso a partir daí.
O hall de entrada era feito de madeira e mármore, indo direto a uma sala grande onde uma escada feita de ouro que girava no segundo andar, formando a entrada para o terceiro, se bifurcava em duas passagens. No meio entre as duas, dava-se para ver as tapetarias persas e a visão do jardim pelas grandiosas janelas de vidro da sala de estar.
Pensei em ir para lá, trocar de roupa e me enrolar em um lençol e fingir que tenho dez anos. Porém uma voz me impediu de qualquer coisa:
– Meus pêsames sobre seu pai – Luke falou falsamente -, creio que será tão boa governante quanto ele.
Ora, por favor pensei enquanto me virava e o encarava.
– Não tanto quanto o senhor imaginou ser – respondi ríspida.
Luke era dono de uma expressão de falsa surpresa quase convincente, ou talvez tenha sido verdadeira, ele não seria o primeiro a me subestimar.
– O que? – perguntei com uma sobrancelha arqueada – Pensa que sou tola? Eu sei todo o seu plano, e também sei o quanto foi fácil arrancar a resposta de seu estimado amigo Octavian. Digo, comparsa. Se tratando do senhor, até é bonito, mas é como uma maçã podre. Ninguém levantaria um dedo por você a não ser que tenha pagado para isso.
Vi a ponta curva do sorriso de Luke abrir-se pela bochecha.
– És mais inteligente do que presumi ser – declarou, a voz suave e baixa – Entenda Annabeth, a França e a Inglaterra nunca serão nações amigas. Por milénios os franceses tentaram subir na hegemonia europeia sem nenhum sucesso, nunca conseguiram tal feito e sabe por quê? Porque nós estamos sempre à frente. E agora o governo inventa essa loucura de ser, digo, tentar trazer a paz entre os dois países com tratados idiotas! Se fosse do meu jeito, teríamos exterminado a França e fazendo-a território nosso! – Luke sorria como um maníaco, algo entre o genial e a loucura hospitalar – E depois, seria questão de tempo até a Europa ser minha!
– Comigo abdicando o trono – concluí – Não, obrigada.
– Annabeth – Luke usava o tom que se usaria com uma criança – Estará casada comigo. Tudo que é meu, será seu. Se a Europa for minha, será rainha dela! Viu? Sua coroa não será usada por ninguém a não ser você...
– Do que importa ser rainha e não ter voz? Se for para superar a França, supere com inteligência, trazendo progresso ao nosso país e exportando para terceiros, não é isso que todos querem? Dinheiro? Para quê derramar sangue por algo que é facilmente conseguido?
A risada de Luke tinha o som de facas sendo amoladas umas nas outras.
– Percebe o quão soa tola?
– E percebe que não entrarei em sua ideia insana? – dei um passo em sua direção, procurando ter o olhar de superioridade que imaginava ter – Daqui a três meses, quem subirá no trono serei eu, quem governará esse reino serei eu. Não você.
– Você... – ele rosnou, mas logo depois achou a suavidade que perdera – Irá concordar com meu golpe. Se casará comigo e será muito feliz. E fará isso por bem ou por mal.
– E quem irá me obrigar?
Luke me pegara pelo pulso, puxando-me para perto de si violentamente, agarrando meus braços e me prendendo junto do seu corpo.
– E quem irá acreditar ou sequer levar uma garotinha assustada e perturbada pela morte do papai? – disse – Esqueça sua honestidade ou qualquer bom conceito de bom caráter. Afinal, teve muito tempo com seus amiguinhos piratas. – falou a última palavra como se tivesse engolido óleo e cuspindo em letras. – Lembre-se que seu lugar é conosco. Comigo. Seu sangue pede poder, assim como o meu. O que quer que aquele garoto, o tal Perseu, tenha feito para destorcer sua mente, você ainda sabe quem é – remexi-me nos pulsos de ferro dele, mas isso só serviu para ele apertar mais os dedos nos meus braços – É hora de mostrar que continua sendo a garotinha obediente.
Tentei me libertar uma segunda vez.
– Solte-me, Castellan.
A mão dele subiu pelo meu braço, envolvendo a parte superior com os dedos.
– É uma coisinha, sabe. Quem imaginaria que teria tanto fogo? Principalmente na cama.
Dei um salto, conseguindo desviar das mãos insistentes e me afastar de Luke.
– Ousadia sua sugerir algo desse gênero.
Luke se aproximou como um felino observando a presa, preparando o bote. Era tão mais alto que eu que chegava a ser injustiça. Inclinou-se para perto ao falar, a voz baixa e áspera:
– Vi os roxos em seu decote, princesa – declarou. – Claros e quase invisíveis – ele continuava sorrindo. – Está dizendo que não foi o que estou insinuando? Você e o Jackson pareceram próximos da última vez que vi. Por favor... Sequer duvido que tenha sido contra sua vontade...
Não hesitei em levantar a mão e estalar uma tapa em seu rosto. Luke virou o tronco, algo exagerado, os olhos arregalados mais em surpresa do que em dor. Quando se voltou para mim novamente, vi a fúria em seus olhos.
– Sua vaca...
Recolhi a mão direita, a mais forte, e esperei ele partir para cima de mim, dando-lhe um soco no estômago. Ele era mais alto, mais largo e mais forte do que eu seria, mas contei com o elemento surpresa e o fato de ser de baixa estatura. Luke se curvou, arquejando, e não esperei para ver o que ia fazer a seguir.
Corri em direção das escadas, levantando a saia pesada e pisando nos degraus com estrondo.
Cruzei os corredores, procurando achar alguém, qualquer um, que impedisse qualquer coisa que Luke pudesse fazer. Não tinha ilusões de que, se ele me alcançasse, sairia ilesa. Ouvi os pés de Luke pisando forte atrás de mim e aumentei a velocidade, não me atrevendo a olhar para trás...
O punho de Luke se fechou no meu coque, agora desgrenhado e desarrumado, puxando-me para trás pelos cabelos. Engasguei quando ele me levantou e me jogou contra parede, deixando que o fôlego fugisse de mim. Luke fixou os olhos azuis gélidos nos meus, e seus lábios se curvaram em um sorriso diabólico.
– Ainda crê que consegue fugir de mim? – perguntou. Inclinou-se para frente e sibilou em meu ouvido: — Não existe lugar nesse mundo para o qual possa ir onde eu não vá encontra-la. Seja no Céu ou no Inferno, terra ou mar, sangue chama sangue. O meu é tão real quanto o seu.
Respondi com um epíteto que teria feito Alicia segurar a respiração e me reprovar por tal atitude. Quando Luke começou a rir, dei outro tapa em direção a sua cara com tanta força que os dedos doeram. Com surpresa, ele afrouxou as mãos que me segurava, e tive a chance de me afastar e empurrá-lo para o lado, correndo para a despensa do andar de baixo, que pelo que me lembrava tinha tranca na porta...
E ele apareceu na minha frente, agarrando as laterais do vestido e girando-me. Meus pés voaram do chão, e teria caído se ele não tivesse me prendido à parede com o corpo, os braços em ambos os lados, formando uma jaula ao meu redor.
– O que foi princesinha? Parece-me chateada.
Mal conseguia recuperar o fôlego.
– Estraguei... minha... unha batendo nessa sua cara horrível. Viu? – mostrou um dedo, apenas um dedo.
– Que gracinha – riu. – Sabe como sei que mentiria? Como sei que não conseguiria evitar em fazer de boa moça? Porque se parece demais comigo. Pode até não admitir, mas sabe. Todos dentro de um castelo são.
Ele me apertou ainda mais forte contra a parede. Senti o peito de Luke subir e descer contra o meu. Estava com os olhos na altura da linha afiada e reta da clavícula dele. O seu corpo parecia uma prisão em minha volta, mantendo-me no lugar.
– Não sou nada como você. Sou inteligente o suficiente para saber que seu golpe ridículo nunca daria certo. Não sou egoísta em pisar em qualquer um para conseguir o que quero. Solte-me...
– É inteiramente como eu – rosnou ao meu ouvido – Infiltrou-se no meio do inimigo. Fingiu se importar se eles viveriam ou não àquela batalha marítima. E não duvido nada que quando estava aproveitando com aquele pirata, nem sequer se importou se seu pai definhava com seu desaparecimento...
– Engano seu. Sempre pensei no estaria acontecendo aqui sem minha ausência, e eu não estava aproveitando com aquele pirata, eu estava o amando. Algo que sei que alguém como você nunca saberá a diferença.
Vi alguma coisa brilhar nos olhos dele naquele instante, um ciúme sombrio, e nem sequer sabia por quê. Ele colocou os lábios na minha bochecha, perto o bastante para que sentisse se movimentando contra minha pele enquanto ele falava.
– Entenderei quando nos casarmos e estivermos na nossa noite de núpcias, querida – murmurou ele. Sua mão envolvia meu pescoço como um torno, começando me levantar devagar.
Não pude evitar em sentir nojo só de pensar que terei que consumar os votos com ele, com a pequena corte inteira esperando no lado de fora o lençol ensanguentado, a prova de que casei-me virgem.
Mas esse não era o caso.
– E eu provavelmente fecharei os olhos, tentando imaginar que você é outra pessoa – insinuei, sabendo perfeitamente quem estaria em primeiro lugar na cabeça de Luke – Talvez assim não sinta tanta repugnância.
Senti Luke respirar fundo.
– Foi isso – disse ele – Se entregou a um mandrião, a um fora da lei, por conta própria. Não foi obrigada – Soou quase traído.
– Pensei que isso fosse óbvio, Lukito.
Luke agarrou meu rosto, virando-me para ele, enterrando seus dedos no meu queixo.
– Não pode dormir com uma pessoa até torna-la boa. Ou pelo menos fazer com que ela se apaixone por você. – sua boca se curvou em um sorriso frio – Duvido que ele tenha se interessado tanto. Já deve ter dormido com tantas que você só era algo para se divertir enquanto não arrumava algo melhor – ele então passou os olhos pelo meu corpo se pudor algum – Mas creio que a senhorita não é desperdício total. Ele se divertiu? Porque eu teria.
Senti a bile subir na garganta.
– Pois saiba que nunca sentirei o que sinto com ele da mesma forma com você, até porque com o senhor serei obrigada.
– Suas palavras não me machucam e nem querer dizer nada. Obrigada ou não, será minha. Totalmente minha. – ele olhou no fundo dos meus olhos, seus lábios lamentavelmente perto dos meus – Soube que conheceu Thalia. Ela ainda se lembra de mim? – seu sorriso frio se tornou de escárnio – Claro que sim. Difícil esquecer.
O olhei com o máximo de desprezo que consegui.
– Então a iludiu e depois a molestou – conclui, balançando o quanto conseguia a cabeça – Sabia que era louco, mas não tinha certeza absoluta, espetacularmente fora de si. Um monstro.
– Oh, não creio que haja nada de louco nisso. Afinal, seus amiguinhos do mar já fizeram isso.
– Portanto és um hipócrita.
– Claro que não. – defendeu-se – Eles pegam indefesos. Eu pego quem acho que pertence a mim.
Fiz um gruído com a garganta quando senti seus dedos apertarem mais.
– Thalia nunca pertenceu a você...
– Tens razão. Mas você, minha dama, pertence a mim.
– Percy. – digo – Pertenço a Percy. Não a você.
Luke emitiu um ruído de desprezo.
– Acho que é mais esperta do que isso – falou, beijando-me na boca com força.
A boca de Luke se moveu na dela, dura e fria como uma navalha, então fiquei na ponta dos pés e mordi o seu lábio com força.
Ele gritou e girou para longe de mim, levando a mão à boca. Senti o gosto do sangue de Luke, cobre amargo; pingou pelo queixo dele enquanto a olhava com olhos incrédulos.
– Você...
Não perdi tempo. Girei e o chutei com força na barriga, torcendo para que ainda estivesse dolorida com o soco de antes. Enquanto Luke se curvava, passei disparada por ele, correndo para escada. Estava na metade do caminho quando o senti agarrar-me pela saia do vestido. Ele me virou, como se estivesse virando um taco de críquete, arremessando-me contra a parede. Bati com força e caí de joelhos, perdendo totalmente o ar.
Luke foi em minha direção, as mãos flexionadas na laterais, os olhos brilhando como a de um predador. Parecia assustador, e sabia que deveria estar apavorada, mas um desprendimento frio e elétrico dominou minhas costelas. O tempo pareceu desacelerar e eu me vi de volta à batalha do meio do mar, com uma adaga em mãos e homens vindos em minha direção com a morte como objetivo. Luke esticou o braço em minha direção, e empurrei o próprio corpo contra o chão, movimentando as pernas de lado enquanto levantava, dando uma rasteira que levantou Luke no ar.
Ele caiu para frente, e eu rolei para fora do caminho, levantando-me um pouco desajeitada com a saia. Não corri dessa vez. Em vez disso, peguei um vaso de porcelana do corredor e, enquanto Luke ainda se levantava, lancei-o contra sua cabeça. O vaso estilhaçou, óbvio, entornando água e folha, fazendo Luke cambalear para trás, sangue brotando em seus cabelos loiro-areia.
Luke rosnou e saltou para cima de mim. Não fui rápida o suficiente e foi como se atingida por uma parede de tijolos. Voei para trás, destruindo algo de vidro atrás de mim, e caí no chão em uma explosão de cacos e agonia. Lembro de que gritei quando Luke aterrissou em cima de mim, empurrando seu corpo contra o vidro quebrado, os lábios retraídos em um rosnado. Desceu o braço em um movimento repentino, com a mão em punho contra meu rosto. O sangue me cegou, engasgando-me com o gosto salgado na boca, as lágrimas ardendo sua garganta e olhos. Levantei o joelho, acertando-o fracamente na barriga, não tendo o objetivo que queria. Luke agarrou minhas mãos, forçando-as nas laterais do corpo.
– Ah, Annie, Annie... – disse. Estava ofegante, e isso me fez ter uma leve sensação de alívio, ao menos dei um cansaço nele. Sangue corria em um rastro lento de um corte na lateral da cabeça, manchando os cabelos de vermelho. – Nada mal. Não me parecia grande lutadora quando a conheci.
– Saia de cima de mim...
Ele abaixou o rosto com a expressão vitoriosa para perto do meu. Tentei me afastar quando seus lábios chegaram perigosamente perto, mas não rápida o suficiente quando ele lambeu meu sangue da lateral do meu rosto e sorriu. O sorriso abriu a boca dele, e mais sangue escuro desceu pelo queixo.
– Ó, querida dama, minha dama, seus olhos são como as estrelas e seus lábios como vinho – cantarolou alegremente uma música antiga, traduzindo horrivelmente do italiano para o inglês – Não tente esconder, Annabeth – ele sussurrou meu nome com desejo, e eu senti ânsias mais fortes do que o gosto de sangue em minha boca – Tu violaste meu coração com uma corrente no teu pescoço... – Os dedos de Luke esfregaram minha garganta, se enrolando no cordão de Sally Jackson, ao qual eu me recusava tirar. Imaginei se ele me enforcaria. – Ela lutará pela luz, e ele pela escuridão. Lutando por séculos pela doce centelha do amor. Sempre que duas almas se amarem de verdade, vocês os encontrarão, a corajosa Julieta, e Romeu, o desertor...
O sangue de Luke pingou no meu rosto e em volta, tentei manter a face imóvel, o corpo chiando com o esforço para manter-me quieta, enquanto a mão dele escorregava pelo pescoço, pela lateral do corpo, até a cintura. Senti a saia do vestido subir pelas minhas pernas, puxadas pela sua mão, meu coração palpitando de terror. Senti sua pele quente e ardente na minha coxa, os olhos em um azul escuro.
– Você não me ama – grunhi. Minha voz soou fraca e mais cautelosa do que gostaria, o ar sendo forçado para fora dos pulmões.
Luke não demonstrava emoção, a não ser forjadas até conseguir o que deseja. Meus pensamentos estavam correndo pela minha cabeça, mas eram claros como cristas; agradeci silenciosamente à euforia da batalha por fazer o que tinha que ser feito e manter-me concentrada enquanto Luke me enojava com seu toque.
– Ora, minha dama, se já se deitou com o primeiro que falou algumas palavras bonitas em seu ouvido, por que não comigo? – soou quase uma reclamação – Se conseguiu amá-lo, porque não amar a mim?
– Ele me queria. Não a minha coroa. Mil vezes Percy do que você.
– Ninguém é melhor do que eu. – Ele sorriu, os dentes brancos manchados de vermelho escuro – Um jardim anexo é minha amada. Uma fonte fechada, um chafariz selado... Mas não mais, certo? O tal Percy cuidou disso – sua mão desceu pela minha perna, e aproveitei da distração para pegar um pedaço grande de vidro e enfiar a ponta no ombro dele.
O vidro deslizou, cortando os meus dedos. Luke gritou, indo para trás, manchando de vermelho seu casaco azul. Eu apunhalei, desta vez com mais força, sua coxa com a mesma arma de vidro. Quando ele recuou, enfiei o cotovelo na garganta dele. Ele caiu de lado, engasgando, e rolei para cima dele, prendendo-o com meus joelhos enquanto puxava o caco da perna dele. Abaixei-o na direção da veia pulsante do pescoço dele – e parou.
Luke ria.
Estava embaixo de mim, rindo, a risada vibrando pelo meu corpo. Sua pele estava suja de sangue – meu sangue, pingando nele, e o próprio escorrendo do corte, os cabelos loiros em cor escarlate. Seus braços estavam abertos para os lados do corpo, com meus joelhos prendendo-o ao chão com cacos de vidro.
– Vá em frente, princesa. Mate-me. Quero ver como explicará isso. Não pode ser rainha sem um parceiro...
– Esse casamento desnecessário é só para herdeiros, Luke – expliquei, e não pude deixar de rir. Sua expressão presunçosa mudou ao ouvir meu riso lunático, estava surpreso e confuso. – Mas isso não é necessário.
Desci o caco de vidro, e deliciei-me ao ver a expressão dele de assustado, com os olhos fechados, covarde de mais para ver a própria morte. O caco de vidro se alojou no piso de madeira, a centímetros da sua garganta.
– Não consegue – disse ele, o sorriso voltando ao rosto.
– Você pode ir para o inferno – digo – Não quero manchar minhas mãos com seu sangue podre.
– Mas também sabe que sem mim nunca subirá ao trono... – incentivou.
– Como disse, o que a corte quer é herdeiros – inclinei a cabeça para o lado, cravando minhas unhas no rosto de Luke e balançando-o sem nenhuma gentileza – Porém não preciso de você, quando grávida eu já estou.
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