Closer to the Edge
4 Acostuma-se, querida
Notas iniciais
Pense em alguma coisa grande.
Pense em uma coisa dez vezes maior que isso.
Agora pense que isso é um navio de madeira polida, velas negras com alguns rasgos aqui e ali.
Se você conseguiu pensar nisso, você já tem uma ideia do Conçu pour la mer.
O nome do navio estava escrito em amarelo ouro na amurada direita. Na popa, em vez da habitual sereia, havia um dragão de bronze como figura de proa. Identifiquei umas quatro balistes giratórias, provavelmente para lançar fogo ou parafusos explosivos. Ao longo da amurada havia escudos de bronze; logo abaixo deles, existiam janelinhas onde provavelmente eram para a saída de bolas de canhão.
Parecia uma junção bem feita de uma trirreme grega com caravela inglesa.
–Uau. — exclamei, sem me esforçar para esconder o sorriso.
Entrar em um navio de pirata. Pode-se considerar uma descarga de adrenalina para mim.
– Demais, não?
Charlotte estava ao meu lado, as mãos na cintura, com um sorriso de orgulho no rosto.
Ela era a capitã daquele navio, afinal.
Uma escada de madeira desceu para que pudéssemos subir a bordo..
Não estávamos em um cais, para inicio de conversa. Andamos um bocado até chegar a um penhasco, descemos em uma trilha íngreme até chegar a um pequeno espaço de terra, onde há poucos metros da costa estava o navio.
Eu acertei quanto ao tirar o salto.
Os caras que carregavam o ouro entraram primeiro. Percy subiu com eles, pata "evitar gracinhas", como ele mesmo disse. Supus que era para a tripulação não roubasse nada.
Eu puxei a barra do vestido para cima, essa que estava toda cheia de rasgos e cheia de lama. Argh.
Charlotte subiu a bordo e a escada foi puxada para cima. Estávamos prontos para zarpar.
Charlotte gritava ordens como “estiar as velas” “vire a estibordo”, coisas do tipo. Toda a tripulação obedecia com eficácia e perfeição, como se tivessem nascidos para isso.
Olhei em volta, as proporções do navio pareciam aumentar de tamanho quando se estava dentro dele.
Havia pessoas com algemas nos tornozelos, lavando o chão. Pessoas ajeitando as velas, como a capitã queria. Algumas estavam em volta de uma mesa cheia de papéis, vendo em qual posição é melhor para tomar o curso. Um cara, não, um gigante, estava no timão. A grande maioria das pessoas que eu julgava ser os “guardas” tinham uma carranca estampada no rosto. E todos eles recebiam ordens de uma garota de dezessete anos.
Inacreditável.
–Você é a Annabeth?
Dei um pulo de susto. Olhei em volta, para ver quem falou.
Acabei parando o olhar em um garoto magricela e baixinho. Devia ter uns quinze anos. O sorriso dele era convidativo, tipo aqueles sorrisos que te fazem sorrir também. Tinha cabelo encaracolado caindo nos olhos e uma aparência que poderia ser comparada a de um elfo. Ele estava descalço, usava um colete bege sujo por cima de uma blusa branca de botões. A calça marrom dobrada até o tornozelo. Ele tinha um tipo de bolsa alça cruzada, onde a parte de cima de um martelo saía.
–Hm, sim, eu sou a Annabeth. – estiquei a mão. – Annabeth Chase. E você é...?
Ele limpou a mão, ou pelo menos tentou limpar, em um pano que pegara da bolsa, e a estendeu para mim. Em outras condições, eu não pegaria na mão dele. Mas eu estava muito pior que ele, então o cumprimentei.
– É, eu sei qual o seu sobrenome. A Inglaterra inteira sabe. Eu sou o Leo, Leo Valdez. Faz-Tudo, ferreiro, ou, como a Lotte gosta de me chamar: Garoto dos Reparos.
– Posso só te chamar de Leo? – perguntei.
– Eu agradeceria muito se você só me chamasse de Leo. – ele sorriu.
– O.k., mas sem querer ser indelicada, mas você não é um cadinho magro para um ferreiro?
Ele não pareceu ofendido. Na verdade, pareceu até se alegrar com a minha pergunta.
– Minha querida, só vou te dar um recado, assim, mínimo: Eu sou Leo Valdez, lindo de morrer! E as garotas amam os os lindos de morrer, ainda não sei como você não me agarrou até agora. E quanto ao magricelo – ele colocou as mãos na cintura, em uma pose “heroica” – Magricela é o novo gostoso pra dedéu, coração. E se você continuar nesse navio, tem que se acostumar com isso.
Eu não sabia se eu ria ou se dava uma gargalhada daquela cena. O Leo parecia um verdadeiro Bobo da Corte.
– Para mim, você sempre será o Garoto dos Reparos.
Charlotte estava ao meu lado, tentando não rir da cena do Valdez. Ela estava com o chapéu de capitão na cabeça, o que a deixou com um ar muito maior de superiedade.
– Muito engraçado, priminha. – Leo estava tentando fazer uma pose ofendido, colocando a mão no peito e fazendo uma cara de não-acredito-que-você-fez-isso, mas ele próprio não estava se aguentando e estava dando risada de si mesmo logo depois.
– Priminha? – perguntei, com uma sobrancelha levantada para Charlotte.
– É. – ela disse. – Você se surpreenderia com a quantidade de primos que eu e o Jackson temos. Apenas digamos que um dos irmãos do nosso pai é bastante mulherengo.
Resolvi não perguntar quantos eram, pela cara da Charlotte, nem ela mesma sabia quantos eram.
– Então, chefinha, eu já pus o gás nos lampiões, limpei os instrumentos e já falei com mí Reyna. Hoje com certeza vai ter festa! – ele fez um movimento com as mãos, subindo e descendo, como se tivesse dançando alguma coreografia estranha.
– Ótimo, Leo. Ahn, a Reyna já sabe que ela é a “Sua Reyna” ? – ela fez aspas com os dedos.
– Ah, isso. É. Paciência, Gafanhoto. – Leo disse. – Isso será em breve.
– Claro. – a Charlotte estava com uma total expressão de descrença no rosto. – Faça algo para agradar aos deuses e vai ver com o Malcom se o curso para o Norte já está certo.
– Hmm, porque norte? – perguntei.
– Ah, precisamos de um mapa mais adequado. – respondeu Leo. – Você vai conhecer a Hazel! Ela é, tipo, a única feiticeira que não te dá arrepios.
Ele falou “arrepios” mexendo os dedos das mãos em diferentes lados, como se tivesse jogando pó em você. Ou, no caso do Leo, fuligem.
– Valdez. Malcom. Agora. – disse Charlotte.
Leo bateu uma continência desajeitada e foi em direção à mesa entulhada de papéis.
– Devo perguntar?
Charlotte fez um sinal negativo com a cabeça.
– Ótimo garoto. Mas não para quieto. Até parece que ele caiu em um balde de café na infância. Ou, em vez de leite, a mãe dele dava vinho para ele.
Eu dei uma risada, e eu acho que o som saiu esquisito, pois a Charlotte olhou para mim como se eu tivesse caído da Lua. Parei de rir instantaneamente.
– Então... Você quer conhecer o navio comigo ou com o Beckendorf? – ela perguntou, apontando o dedo polegar para o cara gigantesco no timão.
Arregalei os olhos e fiz que não com a cabeça rapidamente.
– Que preconceito! Só por que o cara é negro e grandalhão?
– Não é isso! – exclamei. – É que... Bem, parece estranho, mas você aparenta ser mais amigável.
Ela deu um sorriso sombrio, o que me fez repensar o “amigável”.
– Se surpreenderia. O Beckendorf é uma ótima pessoa. E é ótimo em construir coisas. E ainda fica um verdadeiro doce perto da Silena. Mas isso não importa agora.
Ela andou até metade do convés; as pessoas davam passagem para ela passar, como se ela tivesse uma aura poderosa, o que ela provavelmente tinha. Ela parou de repente, como se tivesse esquecido algo. Charlotte girou o corpo cento e oitenta graus e olhou para mim com a sobrancelha levantada.
– Você vem ou não?
...
A Charlotte me mostrou tudo.
E me apresentou todo mundo.
A sorte é que eu tinha boa memória, então eu me lembrava de todo mundo no caminho de volta ao convés.
Descendo as escadas, havia a cozinha, que tinha mais comida e bebida alcoólica do que a dispensa do palácio onde eu morava. Logo depois, tinha onde a tripulação dormia: um conjunto quase infinito de beliches. Eram dois quartos, separados para homens e mulheres; sendo o das garotas muito menor, já que havia somente cinco ali (contando comigo e com a Charlotte).
No andar de baixo, ficava o compartimento dos canhões. Tinha uns quinze de cada lado do navio, trinta ao todo, pesando umas quarenta toneladas cada. Apesar do balanço contínuo do navio, as pilhas de bolas de canhão, que cada um tinha do lado esquerdo, ficavam paradas no mesmo lugar.
Artilharia pesada.
Nós não fomos ao último compartimento, mas era, a Charlotte me contou, onde ficavam os remos. E as pessoas que faziam eles de mexerem.
– Porque não podemos ir lá em baixo?
– Não é que não podemos. – ela explicou. – Mas é que nem eu vou lá embaixo.
Eu fiquei calada depois disso. Se nem a capitã gosta de ir lá embaixo, eu não estava curiosa para descobrir como é.
Subindo de volta ao convés, tinha duas escadas dos dois lados da porta que levava aos compartimentos de baixo. Ambas iam ao mesmo lugar: as cabines da Charlotte e do Percy, mais o escritório e onde o ouro que eles roubam é colocado.
Nós duas subimos a escada da esquerda.
Lá em cima tinha um tipo de varanda, como aquelas que os Imperadores davam os anúncios ao povo. Na nossa frente, a porta de madeira negra estava aberta, dando a visão de um corredor que se bifurcava no final.
– Esse é o meu quarto. – Charlotte apontou para a porta da direita. – O do Percy é o da esquerda. Embora esse você vai saber de um jeito ou de outro como é por dentro.
Ela deu um sorrisinho de lado, eu fiquei estática. Tentava tirar isso da cabeça desde quando ele falou que eu dormiria com ele. Não que eu sentiria medo, o Percy tinha uma cara de rebelde sem causa sim, mas ele me dava uma segurança como nenhum outro já tinha dado. O que me deixava nervosa era o fato de que eu nunca dormira com nenhum homem no mesmo quarto. E, apesar de me dar um sensação boa de segurança, o Jackson me deixava nervosa. Sempre que eu olhos verdes me dava uma dorzinha reconfortante no meu peito, mesmo eu só o conhecendo hoje. E eu estava ainda mais assustada com o que poderia significar essa “dorzinha reconfortante”.
– Calma Annabeth. Você está mais pálida do que você já é. Relaxa. – Charlotte disse. – Ele não vai fazer nada que você não queira. Embora, é claro, depois da cena que eu vi hoje de manhã...
Ela não continuou a frase. Ela só sorriu maliciosamente, e eu senti meu rosto ferver com o comentário.
– Mas enfim, no final do corredor – ela continuou o tour – o da direita é onde está o nosso tesouro, digamos assim. O Leo e o Beckendorf fizeram uma porta especial onde apenas eu e o Jackson podemos entrar.
– Como eles fizeram isso?
– Não faço a mínima ideia. Mas é o Valdez e o Beckendorf, nunca duvide do que aqueles dois podem fazer. Vem, vou te mostrar o escritório.
Nós andamos para a parte esquerda do corredor, eu logo atrás dela.
O escritório continha uma mesa gigantesca cheia de papéis, livros, mapas e alguns outros objetos de ouro ou prata. Tinha doze cadeiras da mesma madeira da mesa em volta da mesma.
Em uma parede, havia um mapa das rotas marítimas do mundo inteiro até melhor do que eu vi na Marinha Inglesa. Em volta dele, havia duas estantes entulhadas de livros, o que me fez dar um leve suspiro; eu era simplesmente apaixonada por essa maravilha da natureza feita de papel. Em baixo, tinha uma cômoda com um barquinho dentro de uma garrafa de run. Até hoje não sei como podem fazer isso.
O restante da sala era somente janelas de vidro, onde só podia ver mar até perder de vista.
Charlotte estava sentada na cabeceira da mesa, olhando fixamente para mim.
– É melhor você se sentar. – ela apontou com a cabeça a cadeira logo a direita dela. — Nós duas precisamos conversar.
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