Closer to the Edge
5 Descobrindo coisas
Notas iniciais
Eu não sou medrosa, acho.
Mas qualquer ser humano normal sente medo até o último fio de cabelo quando alguém fala que precisa falar com você.
A expressão da Charlotte não ajudava.
Os olhos dela perderam o brilho que tinham até cinco minutos atrás. O rosto estava tão sério que as covinhas nem apareciam.
Eu sentei no lugar que ela indicou, era perceptível que eu estava tremendo.
–Não precisa sentir medo. – ela disse, mas o sorriso não voltara — Eu apenas preciso de um favor seu. E também preciso saber algo, e somente você pode me responder.
Juntei as sobrancelhas. Charlotte era conhecida por ter tudo o que queria. Ela não passava a imagem de mimada, e não era, ela ia atrás do que queria. Por isso, estranhei o fato de ela me pedir um favor.
– Hm – murmurei – Que favor?
Ela finalmente sorriu, a expressão gélida sumiu sem deixar rastros. Nunca mais vou ficar tão feliz vendo as covinhas dela novamente como naquele momento.
– O meu irmão realmente quer você, e você sabe muito bem disso. – ela disse.
Eu tentei esconder o sorriso, juro que tentei, mas foi completamente em vão. Sempre que esse pensamento vinha a minha mente, meu coração disparava. Tinha um calor agradável se expandindo pelo meu corpo em grande escala, eu sentia um borbulhar no estômago, como se fossem borboletas.
Se eu não tivesse lido tanto Romeu e Julieta, de Willian Shakespeare, eu diria que isso era uma doença muito séria.
Céus.
Eu só conhecia Percy em menos de horas, não era possível... Não podia ser possível.
– E o favor que eu quero de você – Charlotte continuou – é que esse “querer” vire muito mais do que o simples... hamm... amor consumado entre duas pessoas.
Eu ri de nervoso.
– Quer que eu seduza seu irmão?
– Eu quero que você faça-o amar você. Amar de verdade você.
***
O pedido de Charlotte não podia ser mais impossível.
Eu mal conseguia me controlar perto dele. Aliás, que mulher conseguiria se controlar com Percy Jackson praticamente te engolindo com os olhos? Não que eu vá admitir isso em voz alta, claramente.
Eu não era burra, o “amar de verdade” da Charlotte claramente tinha algo a mais. O “querer” do Jackson também tinha, mas a Charlotte claramente sabia de algo que eu não sabia. E obviamente ela não vai me contar tão cedo.
Quanto a pergunta, recebeu uma resposta adequada. Embora essa resposta não agradara muito a Charlotte, ela até pareceu um pouco decepcionada.
Mas isso não durou muito tempo, logo estávamos conversando novamente, e a conversa durou um bom tempo.
Charlotte poderia ser uma irmã mais velha que eu não me importaria de ter. Ela não tinha mentalidade de alguém com 17 anos, e, realmente, poderia ser a melhor amiga que alguém pode ter. Eu até tive a permissão de chama-la de Lotte.
Subi de nível, beijos de luz.
O tour pelo navio finalmente teve fim. Voltamos para o convés ao entardecer, que parecia outro quando vi.
Havia lampiões em toda a amurada superior. Em volta, o oceano refletia o céu, dando a impressão que estávamos navegando por um mar de estrelas. Algumas pessoas estavam tocando uma música agitada, enquanto a tripulação estava sentada em um círculo batendo palmas com o ritmo da música.
No meio da roda, uma garota com aparência de uma cigana latina dançava, seus movimentos acompanhando com maestria a música agitada.
O nome dela era Reyna, se eu bem me lembro. Reyna Avila Ramírez-Arelano. Ou, como o Leo gostava de falar: “Mí Reyna”. Ela não dançava para seduzir ninguém ali, aquilo não era um bordel, apesar que o Leo babava tanto que poderia inundar um pequeno país. Eu sabia um pouco de espanhol, o nome dela significava “rainha”, e ela poderia muito bem ser uma, as coisas que a Lotte dissera que ela já fez prova isso. A Reyna realmente fez parte de uma tribo cigana, mas a vida no mar era mais interessante, e ela tinha motivos para odiar os comandantes europeus como todos ali.
A roda era formada pela tripulação oficial. Oficial mesmo.
Havia apenas sete ali, sem contar com a Reyna e as cinco pessoas que tocavam.
Beckendorf, o cara afrodescendente e gigante, estava abraçado com uma garota delicada que parecia uma anã perto dele. O nome dela era Silena Beauregard, acho. Ela era filha de um médico famoso na França. Ela estava prometida para um mulherengo cafajeste do leste da Itália, mas fugiu com Beckendorf para viver sem medo com seu verdadeiro amor, mesmo que esse seja pirata. A Lotte aceitou Silena sem pestanejar, devia isso ao Beckendorf.
Ao lado deles, tinha um casal com olhos extremamente azuis. Digo, um casal de irmãos, Jason e Thalia Grace. Eles fugiram dos guardas ingleses quando ainda tinham 10 anos, pegos por roubar comida. Pelo que entendi, a mãe era alcoólica e a já pouca renda da família era para sustentar o vicio alcoólico da mãe. Eles também são primos da Lotte, então ela não pensou muito quanto ao aceita-los na tripulação.
No outro banco, tinha um cara que tocava flauta como se fosse o maestro dali, já que a melodia que ele fazia era seguida pelos outros músicos. Grover Underwood, se não me engano. Ele era rebelde ambientalista, e quando fazia mais um de suas revoltas na Grécia, quase foi pego pela guarda de lá. Ele perdeu a noiva, Júniper, na ocasião. Mas ele mesmo admite que ela esteja mais salva longe dele. A Lotte e o Percy o conhecem desde os 12 anos, então Grover não precisou de muito esforço para entrar na tripulação.
E tinha o Leo. Que descobri que aquele bom-humor poderia ser apenas para esconder a tristeza. Ele perdera a mãe em um incêndio, onde ele mesmo foi o culpado. O garoto fugiu dos guardas espanhóis até a França, onde encontrou o navio e pediu para que cedessem um lugar para ele ficar. A Lotte disse que ele fez uma carinha tão fofa, e ele ainda tinha 7 anos, então era impossível dizer não.
Ao lado de um Leo que continuava babando, Percy estava sentado calado. Quando nós descemos a escada, ele sorriu e chegou mais para o lado, para que ele ficasse no meio de nós duas. A Lotte sentou do lado esquerdo dele, ficando mais próxima das pessoas da roda. Enquanto eu sentei na direita, um pouco afastada. Percy chegou um pouco mais perto de mim, o que nos deixou afastados da roda de pessoas.
– Minha irmã não te matou. – ele sorriu – Isso quer dizer que vocês se deram bem.
Sorri de lado, mas mantive a boca fechada. Ainda estava pensando no que a Charlotte sabia. Eu odeio não ficar sabendo das coisas, e ela ficar bancando a misteriosa da vida não me deixava menos estressada. Percy me olhava preocupado, e eu reparei que estava roendo as unhas. Mau sinal.
Eu sorri, tentando parecer que estava tudo bem e que minha cabeça não estava a mil com vários pensamentos. Ele deu um sorrisinho de lado, mas dava para ver em seus olhos que ele não acreditou no meu sorriso. Maravilha.
Eu olhei para cima, o céu parecia mais iluminado ali do que qualquer outro lugar que já vi.
– Lindo, não? – Percy perguntou, também olhando para cima – Em alto mar tudo fica mais belo.
– É, da para perceber.
E ficamos assim: apenas em um silencio que não me parecia desconfortável, olhando para as estrelas. Às vezes eu espiava Percy de rabo de olho, mas ele estava tão perdido olhando para o céu que nem percebera.
– Você é a Annabeth?
Reyna estava na minha frente e eu não percebi, tanto que levei um leve susto quando ela se pronunciou.
A Lotte já disse que ela fazia tudo com máxima perfeição, mas eu também não imaginava que ela conseguia ser perfeita mesmo dançando como ela estava. A trança não tinha nem um fio de cabelo fora do lugar, a saia longa colorida não estava amassada nem nada do tipo. O batom vermelho não precisava de um misero retoque. Ela estava ofegante, claro, mas nem estava suada como eu estaria se estivesse dançando tão rápido. Talvez o corpo dela tenha se acostumado ou coisa do gênero.
– É, você deve ser a quinquagésima terceira pessoa que me pergunta isso. – disse, mas achei que soou meio rude e completei:
– Mas, sim, eu sou a Annabeth. Você deve ser a Reyna, o Leo me falou de você, como consegue dançar tão bem?
Ela deu um sorriso tímido e estendeu a mão para mim. Eu me levantei e a cumprimentei com outro sorriso.
– Sim, eu sou a Reyna. O Leo estava falando de mim? Novidade. – ela revirou os olhos, e eu percebi que ela sabia que o Leo gostava dela, só não sei dizer se o sentimento era recíproco. – Quanto à dança, bem, obrigada. Mas o que eu mais gosto é de cavalos e luta com espadas.
Eu arregalei os olhos com o comentário. Percy começou a rir atrás de mim, e Reyna deu um pequeno sorriso, como se minha expressão a divertisse.
– Calma! – ela disse – Todos aqui têm habilidades em combate. Eu tenho as espadas, Thalia tem o arco, e por aí vai...
Silena, a noiva-namorada-amor-sei lá o quê do Beckendorf, se aproximou de nós duas e disse com um sotaque francês carregado:
– Não pude deixar de ouvir a conversa de vocês, ma chère, mas como a Annabeth passou direto para a tripulação, eu meio que sou encarregada de perguntar no que você é boa. Então, no que você é boa?
Eu varri minha mente em busca de algo que eu poderia ser boa, nada. Claro, eu estudei minha vida inteira para ser uma boa governante. Mas é só isso, nem aulas de como me proteger sozinha eu tive.
As duas me olhavam em expectativa, odiava decepcionar as pessoas, mas eu não sabia nada. E é melhor falar a verdade do que mentir.
– Eu não sei, desculpe, mas eu não fui treinada nem nada...
Como eu disse, elas me olharam com uma certa decepção.
Thalia, a garota de olhos azuis, se aproximou também da conversa.
– Bem, então eu posso ajudar nisso. – ela disse. – Sabe, eu e a Lotte treinamos juntas desde os 10 anos, então eu posso te ajudar com várias coisas. Arco, espada, lança, luta corpo-a-corpo, adaga...
– Adaga! – exclamei- Eu tenho uma!
Coloquei a mão dentro da saia do vestido, e retirei uma adaga de bronze da cinta-liga branca. Como eu pude esquecer disso? Eu não sei como usar aquilo, certo, mas não parecia nenhum bicho de sete cabeças.
As três garotas me olharam com uma sobrancelha levantada.
– Presente de casamento – respondi – Do meu ... hãm... ex-noivo.
– Ah, sim. – disse Thalia. – Então amanhã mesmo começamos a treinar... Annabeth?
A noite se alastrou por mais algumas horas. Dançamos, cantamos, o Percy caiu no mar e voltou com um troço estranho (o que me deu a oportunidade de apelida-lo de “Cabeça de Alga”) comemos guloseimas. Ah, como eu amo chocolate. E todos que deviam me odiar, já que eu fazia parte da realeza, foram gentis e não me pareceu falsidade. Muito menos forçado. Talvez eles saibam que eu deva ficar. Ou talvez eu mesma achei uma família, por mais estranha que seja, mas uma família.
***
Meu estômago começou a embrulhar quando ajudava Silena a arrumar o convés. Ela me desejou um “boa-noite” sonolento e eu a respondi da mesma forma.
Minhas pernas começaram a tremer quando subia as escadas para as cabines. Minha mão já estava suando quando toquei na maçaneta.
“É só o Percy” pensei
“Exatamente” respondeu meu cérebro.
Eu resolvi entrar no quarto antes de eu ter mais conversas com meus próprios órgãos.
Felizmente, Percy não estava lá. Eu até pensei em procurá-lo, mas eu não perderia a oportunidade de tirar esse vestido sem ele por perto.
A cabine era maior por dentro. Tinha uma cama gigantesca em um elevado de madeira, cheia de travesseiros e com um cobertor azul a cobrindo por inteiro. Havia duas mesinhas de madeira negra dos dois lados da cama. Um sofá de três lugares com aparência de novo estava no meio da sala, logo a frente da cama. Uma mesa de centro com vários papéis, uma bússola de prata e a espada que Percy usava hoje de manhã ainda na bainha. Uma janela grande estava escancarada, as cortinas de seda estavam abertas, dando a visão de um oceano iluminado pelo luar. Do lado do sofá, tinha uma cômoda com vários tipos de bebida em cima. E ao lado desta, tinha uma porta que eu julgava ser a que levava ao lavatório.
Abri a porta e descobri que estava certa novamente. Uma banheira de mármore estava na minha frente; ao meu lado, um lavatório médio também feito de mármore. Acima da torneira, tinha um espelho nas mesmas proporções. Credo, eu estava assim o tempo inteiro? Sobre o sanitário, havia um embrulho branco com um bilhete escrito na tinta preta:
Para Annabeth, embora eu ainda ache que você não vai usar isso por muito tempo esta noite.
C.
Charlotte, é incrível como você consegue ser tão discreta.
Tratei logo de tirar aquela droga de vestido, coloquei a adaga em cima da pia e tomei um bom banho. Dei um jeito no meu cabelo, o colocando em uma trança. E coloquei a longa camisola branca que Lotte me emprestara.
Eu coloquei o ouvido na porta, não havia barulho algum. Peguei a adaga e saí do banheiro. Eu não ouvira, mas Percy já estava ali. Ele usava apenas uma calça de cor clara, e eu estaria babando nele se ele estivesse fazendo qualquer outra coisa que não fosse aquilo.
Percy estava de joelhos, os olhos fechados e o corpo virado para uma vela acessa que estava sobre a mesinha de cabeceira. Eu coloquei a adaga na mesa de bebidas e me aproximei. Ele nem sequer reparou quando eu sentei na cama.
O.k., os velhos padres levaram minha infância inteira para que eu pudesse sequer rezar alguma coisa. Mas naquela hora até eu senti vontade de me ajoelhar ao lado dele. Ótimo, esse idiota está me fazendo acreditar em algo que eu não admitia nem morta que existia.
Ele fez o sinal da cruz e apagou a vela.
– Oi. – disse.
Ele se virou para a mim, não pareceu assustado, apenas melancólico.
– Oi.
Eu poderia ficar quieta, não falar nada sobre o assunto, já que era perceptível que ele não queria falar. Mas eu sou uma tremenda de uma filha de puta, então perguntei:
– Essa vela é para alguém?
Eu pensei que ele não ia falar, que ia me ignorar e tudo mais. Mas ele levou a vela apagada até o outro lado do quarto e disse;
– É para a minha mãe. Eu só conheci a Lotte quando tinha 8 anos, antes disso, eu vivia com a minha mãe em um vilarejo perto de Londres.
– O que aconteceu?
– Ela foi acusada de algo que não cometera. E, bem, você sabe muito bem o que acontece quando o seu pa... o rei não está de bom humor.
Senti meu coração falhar por um instante.
Esse era um dos maiores motivos que eu não queria ser uma governante. Eu poderia acabar com a vida de alguém quando não estava de bom-humor. Seguiria minhas próprias regras, sem constituição para me falar o que fazer.
Eu não o olhava nos olhos.
Queria saber como poderia ajuda-lo, mas eu não sou muito boa com pessoas. Mas arrisquei mesmo assim:
– Minha mãe morreu no parto. Nunca ninguém me fala dela, só me falam que ela teria orgulho de mim, e que eu era parecida com ela.
Ele balançou a cabeça de leve, mas continuava com o olhar para o chão.
Parabéns Annabeth, você foi de grande ajuda.
– Bem – eu tentei novamente. – Eu durmo na cama.
Ele deu aquele sorriso que poderia curar qualquer doença, o que me deixou meio aliviada.
– Nós dois vamos.
– Nã-nã-não mocinho, você vai ter seus sonhos molhados comigo aí no sofá.
Ele deu uma gargalhada gostosa, que me fez rir também. Eu tentei manter a expressão de soberania, mas eu ria só de pensar no quão idiota foi o que eu falei.
Eu joguei um dos travesseiros para ele; Percy pareceu que ia falar algo, mas ele apenas balançou a cabeça sorrindo e pegou um outro cobertor na cômoda. Talvez estivesse muito cansado para discutir comigo.
Eu me virei para arrumar os travesseiros e entrar debaixo das cobertas.
– Sem um beijo de boa-noite? – ele perguntou — Em pleno século 18 e eu não ganho um beijo de boa-noite?
Revirei os olhos
–Não inventa, Jackson.
– Isso é uma tradição, Chase.
Me sentei na cama e olhei para ele. Cretino.
– Tradição para casais, não somos um.
Ele sorriu e sumiu atrás do sofá.
– Ainda não. Mas tuuudo bem, eu espero. Boa noite, Annabeth.
Eu não respondi.
As luzes foram apagadas logo depois. Uns trinta minutos mais tarde, o silencio era tanto que eu conseguia ouvir a respiração de Percy.
Não acredito que vou fazer isso, pensei.
O que você tem a perder? , perguntou meu cérebro
Você devia ser mais racional, respondi.
Ótimo, estou falando comigo mesma novamente.
Me levantei e fui até o sofá. Eu segurei a risada quando ele se abraçou a um panda de pelúcia. Que fofo. E tive que me segurar para não rir quando ele começou a babar.
Dei um beijo na testa dele e sussurrei:
–Você baba enquanto dorme, Cabeça de Alga.
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