Climton Beach - Um Lugar Para Todos
2 Super-Homem
Lar doce lar. Odeio essa expressão. Walter me cutucou para acordar e quando abri os olhos já estava na frente de casa, enquanto Walter estacionava na frente da nossa garagem. Meus pais estavam na porta da frente de casa, até parecia filme, e meu irmãozinho estava ao lado deles.
Meu irmão é uma história complicada pois nunca voltara para casa depois que fui para a cidade onde ficava a minha faculdade, e nesse meio tempo meus pais transaram e tiveram o meu irmão que agora tem três anos e nunca me viu na vida. Alias deixe-me fazer as devidas apresentações: meu pai se chama Johnson, um homem alto de dois metros, bem magro e com um enorme bigode na cara enquanto é careca. Sua profissão é administrador (quem você acha que fez com que eu fizesse economia?) e é casado com Sara, uma mulher super gentil, morena mas com olhos maravilhosos de cor azul, e diferente de meu pai ela tem apenas um metro e setenta. Apenas uma amorosa dona de casa a propósito.
– Filho, graças a deus você voltou! — minha mãe disse isso como se eu tivesse saído da prisão.
– Também senti saudades mãe. — mentira. Fui até meu pai e o abracei. Amava meu pai, apesar de querer mandar muito em mim as vezes eu o amava muito.
– É bom te ter em casa de novo filho, você faz muita falta aqui em casa. — lembra quando eu disse que sabia exatamente quando alguém está mentindo pra mim menos o Walter? Pois é, isso que meu pai disse era mentira, mais que óbvio, mas não liguei nem um pouco. — Filho, esse daqui é Ezequiel o seu irmão mais novo de três anos. — Ezequiel veio até mim e abraçou a minha perna, o único lugar que ele alcançava, e disse que me amava.
E por fim na apresentação estava ele, Ezequiel. Esse que era um menino de nem um metro com olhos negros como a noite, mas era óbvio que ia ser um terror com as meninas quando fosse mais velho, mas eu notei um defeito enorme de Ezequiel. Mentiroso. Ele nunca me conheceu, ele nunca me viu, como podia me dizer que me amava?
Eu odeio mentiras.
Eu estava odiando meu irmão mais novo.
Por fim entramos em casa. Ela estava idêntica a quando eu fui embora, a única diferença era que a televisão que meus pais compraram era maior, o que me animou bastante. Fui diretamente para meu quarto e notei que a maior diferença fora que o escritório havia se tornado um quarto. O de Ezequiel, o mentiroso. Minha cama, minha mesinha, meu criado-mudo, tudo estava no lugar e então deixei a mala na cadeira a frente da mesinha e deitei na cama e em seguida apaguei as luzes.
Meu quarto era infantil para alguém de vinte e três anos. Eu, como ja disse, queria ser pintor e sempre amei o mundo dos super-heróis, isso fez com que eu desenhasse intensamente, nas minhas paredes, alguns dos que eu mais amava. Tinha o Batman, o Homem-Aranha, Wolverine, Lanterna Verde, mas o que eu mais gostava eu havia feito enorme. O Super-Homem. Muitos não gostam do Super-Homem, dizem que não faz sentido a sua história. E é verdade, ele é um dos heróis mais sem graça, não possui uma fraqueza no nível de seu ser, assim como não possui um inimigo páreo para si. Mas uma vez eu vi um filme que adoro chamado Kill Bill, de Quentin Tarantino e nesse filme o tal do Bill diz algo genial sobre a filosofia do Super-Homem.
O Super-Homem é o único herói em que a sua identidade secreta é o Super-Homem.
Na verdade o seu disfarce é Clark Kent, um jornalista (que estranhamente não é confundido com o Super-Homem por causa de um óculos) mas que na verdade nasceu Super-Homem, nasceu com poderes para combater o crime e que para disfarçar sua real identidade secreta, usa o disfarce de Clark Kent. Essa observação foi genial. Tanto porque, Super-Homem é uma crítica à raça humana, já que Clark Kent é fraco, covarde e medroso. É assim que Super-Homem vê os humanos.
Mas o detalhe infantil que menos me incomodava no meu quarto eram as estrelas que eu tinha no meu teto, elas eram coladas e quando estava no escuro elas brilhavam. Eu sempre amei olhar para as estrelas mas com o tanto de iluminação atual, não se consegue ver mais quase nenhuma, e por isso eu amava olhar para elas quando deitava e relaxa no meu quarto, até odiava quando alguém entrava e interrompia meus pensamentos enquanto olhava para elas. Mas por fim, fiquei deitado e olhei para elas durante uma hora e na verdade só me vinha um assunto em mente. Fernanda. Maldita Fernanda. Essa menina tornou a minha vida o inferno, ela me fez apaixonar por ela, me fez amar ela e como se não pudesse ficar pior, me fez não poder ter ela. E agora ela é casada. Vocês devem estar pensando que é estranho uma menina de vinte e três anos já estar casada, mas na verdade ela tem vinte e seis. Três malditos anos mais velha do que eu. Três anos que se eu tivesse aparecido antes, ela não estaria namorando quando eu a conhecesse e ela não teria problema em me amar também. Não teria risco, não teria de escolher entre eu e outro, mas ao mesmo tempo não culpo ela por nunca ter ficado comigo. Nunca deu certo. Mas eu só pensava nela porque eu queria ver ela, não consegui falar com ela um minuto durante a minha faculdade e mesmo pelo computador, ela nunca gostou muito do mundo virtual, mas agora eu queria rever ela apenas para conversar e bater um papo. Ela já ta casada, o que poderia ser pior do que já ter certeza de nunca poder ter meu grande amor? E só pra avisar, eu conheci ela com quinze anos, muito tempo amando uma menina só.
A porta do meu quarto bateu e minha mãe me chamou para jantar. Não sabia que já era tão tarde mas fui a mesa pois estava morrendo de fome. Pude notar que a cozinha estava pintada de outra cor, ela sempre fora branca e agora estava cor de creme, uma cor espetacularmente horrível. A sala de jantar estava de vermelho, a cor da fome. Minha mãe sempre me irritou muito com essa crença em cores, misticismo e tudo de mais demoníaco no mundo. Mas ela gostava e eu amava ela do mesmo jeito. Me sentei na cadeira e esse foi o maior erro do meu dia, me senti em um interrogatório.
– Então Carlos, me conta como foi na faculdade? O que eles ensinam em economia? Foi legal? Fez muitos amigos né? Você também... — minha cabeça estava explodindo de tantas perguntas mas graças a deus que meu pai interrompeu.
– Querida, dá pra deixar ele responder umas cem das quinhentas perguntas que você fez?
– Brigado pai. — ele começou a rir e minha mãe deu um sorriso sem graça. — Pra fala a verdade eu gostei bem mais do que eu imaginava, até que foi divertido o curso mas fui gostando mesmo mais pro fim (minto demais fala ai?) e sobre dizer o que ensinam é muita coisa pra fala a verdade, tem muita coisa mesmo mais do que eu imaginava. E tem um pessoal legal também lá, tudo mundo é muito centrado por ser pública e pelo fato de ter muita conta e tudo mais, o pessoal estudava pra caramba. Era todo mundo muito na sua. — odiava mentir para meus pais, mas não ia dizer que peguei cinco anos da minha vida e joguei no lixo.
– Ainda bem que gostou. Vai ser muito importante na sua vida economia, vai saber administrar sua vida do modo mais correto filho, ainda bem que me escutou mas acima de tudo, ainda bem que gostou. — essa mentira me fez vontade de vomitar, "acima de tudo, ainda bem que gostou"? Pelo amor de deus, todo mundo sabe que meu pai ta pouco se fodendo pro meu gosto, para o que eu queria.
– É verdade, mas gostei mesmo.
Ai começou o momento constrangedor dos nossos jantares. A própria janta. Ninguém conversava na hora da janta, era chato demais. Meus pais me perguntaram algumas coisas da faculdade, coisa idiotas como o que tinha pra comer, ou o que eu fazia pra me divertir. E depois de a saudades imensa deles passar, desculpa disse errado, depois que a curiosidade deles acabou e eu ja tava em casa de volta então tanto fazia, eles começaram a falar um com o outro, meu pai perguntando como foi o dia da minha mãe e minha mãe perguntando como foi na empresa e todo aquele papinho furado que todos os casais de trinta anos juntos fazem um para o outro todo dia. Babaquice pura.
Terminei de jantar, e como eu sempre fazia já levei meu prato pra pia e me tranquei no meu quarto, no escuro, só eu e as estrelas novamente. Não estava afim de TV, vídeo game, computador ou qualquer outra coisa. Eu e meus pensamentos foi tudo de que eu precisava mas naquela hora eu precisava de fumar um cigarro também. Esse foi um abito que eu adquiri na faculdade mas não me orgulho muito, tanto porque nenhum dos meus amigos fuma e eu comecei por conta própria.
Sai do quarto e já fui pro lado de fora da casa, sentei na guia da calçada e acendi um cigarro. Aquilo me aliava tanto e ao mesmo tempo faz tão mal, vai entender. Mas não ligava para o mal que fazia, gostava de fumar na verdade me fazia bem, mas vai entender. Quando olhei no relógio já era mais de meia noite e isso foi estranho ver, não me lembro de ter ficado tanto tempo trancado no meu quarto olhando para as estrelas pensando no mundo ou em nada. Não lembro em que fiquei pensando. Mas fiquei analisando a rua e cara, parecida aquelas vilas americanas a minha rua. Toda casa tem seu quintal bonitinho, os vizinhos são todos amigos, nenhum tem caso com a mulher de ninguém. Era bem legal aquela vizinhança até que eu vi a dona Rosa sair da sua casa pra pôr o lixo na lixeira. Existem duas coisas que eu odeio, pessoas que me chamam pra conversar do nada e entrar no elevador com gente. Duas situações super constrangedores. E adivinha o que ela aconteceu? Ela me chamou pra conversar, puta que pariu cara.
– Ahhh, o filho pródigo voltou da faculdade. Como foi lá querido? — querido é a sua avó dona Rosa. Aliás seu nome é horrível.
– Ah dona Rosa, foi bom, super legal. E o tempo que fiquei fora, foi tão bom quanto se eu tivesse aqui? — já sabia a resposta.
– Foi perfeito ficar aqui sem você e aquela maldita guitarra, não sabia que ia voltar. — entende o porquê eu odeio ela?
– Também te amo dona Rosa. — joguei meu cigarro na rua e entrei em casa, nem esperei o que ela ia dizer.
Ninguém tinha acordado com a conversa na rua, ou comigo saindo de casa. Não queria que ninguém, principalmente meus pais meus pais, soubesse que eu fumo, eu não fumava quando fui para a faculdade e como eu disse, fumo porque eu quis desde o começo, e não me arrependo. Tirei meu tênis para não fazer barulho no assoalho de madeira da minha casa, passei nas pontas dos pés pelo quarto de Ezequiel e dos meus pais, que ficavam um para a frente do outro, andei mais um pouco e entrei no meu quarto a esquerda no final do corredor.
Acendi a luz do quarto e fiquei admirando o Super-Homem. Ele era como um ídolo para mim, adorava o Super-Homem, o que ele representava, mesmo sendo um tanto americano, sua filosofia e sua história. Pra mim, ele era foda e nada mais. Peguei minha guitarra que não tocava fazia cinco anos, engatei o fio na guitarra e conectei o fone de ouvido no amplificador para que o som não saísse por ele e sim apenas eu ouvisse. Não tinha música melhor para aquele momento se não a minha favorita, era uma música de momentos tristes e felizes, não importava. Wonderwall da banda Oasis. Eis uma música que com o tempo e a fama foi ficando clichê, tocando em tudo quanto é lugar, festas e aqueles idiotas que sabem tocar uma música no violão e tocam essa. Mas a música era gostosa, calma e suave. Boa para momentos bons e ruins, mas eu a adorava de qualquer jeito mesmo ela me deixando com saudades de muitos amigos e foi ai que lembrei de Lucas, o segundo amigo.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem para ele dizendo que havia voltado e que queria ver ele no dia seguinte que ia ser domingo ainda. Não demorou muito, no máximo dez minutos até que ele respondeu: "Claro que podemos nos encontrar, pode ser no Carl's Burger?". Era um lugar meio porquinho mas que Lucas adorava, não vou dizer que o lanche era ruim e na verdade era ótimo, mas eu adorava ir comer em lugares bonitos, mas como ele sugeriu não queria recusar, mandei apenas que sim e que estava indo dormir pois já era tarde, duas horas da manhã. Não entendi direito o que ele devia ta fazendo acordado ainda, mas isso não é da minha conta.
Eu pus a minha cueca que usava para dormir e minha camiseta regata. Tirei a guitarra da cama e encostei no suporte dela para ficar de pé, desliguei o amplificador e entrei debaixo das cobertas pois estava muito frio mas não queria pegar outro pijama. Tentei não pensar em nada e nem me distrair com as estrelas, apenas fechei os olhos e pensei em como o dia seguinte poderia ser. Provavelmente acordaria meio dia, ja almoçaria, teria uma conversa constrangedora ,com o Ezequiel calado na mesa como hoje, mais algumas perguntas sobre a faculdade, meu pai iria dar a opção do que fazer no dia e eu diria que iria sair com Lucas, eles fariam cara de merda e eu não ligaria e sairia com ele mesmo assim. É, o começo do dia deve ser assim, mas de resto, um dia longo e amigável com Lucas.
Amigos. Você os ama e os quer de uma forma que apenas você entende. Preciso de um cigarro.
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