Climton Beach - Um Lugar Para Todos
3 Climton Beach
Um barulho desgraçado me acordou. O maldito barulho era meu despertador do trabalho, e não sei como não aprendia, todo final de semana eu era acordado as seis horas da manhã porque esquecia de desligar o maldito despertador. A música que tocava era Pyro da banda Kings of Leon, havia colocado ela pois era bem calminha e começava o dia de um modo amenizado. Amava acordar com ela mas não no sábado ou no domingo.
Por fim desliguei o despertador e me virei para tentar dormir. Mas quem disse que consegui? Fiquei rolando na cama durante uma hora até que me convenci de que não iria conseguir dormir novamente, então eu olhei o meu velho e amado ateliê que ficava de frente a minha janela. Sentei na cadeira do ateliê e olhei à fora, e tudo que consegui ver foi uma árvore, mas como eu tinha um certo olhar artístico eu conseguia ver mais do que uma árvore, eu via dois esquilos deitados um enrolados no outro dormindo. Era impressionante como a natureza não mente, é óbvio que eles se amavam assim como era claro que se eu pegasse a fêmea e saísse correndo o macho viria atrás de mim para me pegar. Não é preciso ser um gênio para saber que uma criatura faz de tudo quando sua vida está ameaçada, e quando digo criatura refiro a nós também. Algumas vezes somos mais animais do que os próprios animais e isso me incomoda um pouco. Para falar a verdade, eu não vejo muito sentido na vida, não vejo muito onde a humanidade vai parar e nem qual a nossa função nesse mundo. Às vezes acho que vivemos no inferno.
As pessoas se matam internamente e as vezes as outras por algo que no fim vai ser igual para todos, claro que queremos uma vida boa mas se você pensar bem todos morremos no final, não importa se você viveu como um mendigo durante vinte anos da sua vida e morreu de fome na rua quando tinha cinquenta, o homem mais rico do mundo vai morrer assim como você só que apenas mais velho. Não vejo sentido do porquê nos importamos tanto com a vida, não entendo por que temos medo de morrer sendo que deve ser o melhor para todos nós. A vida não faz muito sentido, e o que fazemos dentro dela faz menos sentido ainda.
Terminei o desenho dos esquilos, e não é querer me gabar mas ficou lindo, sinceramente. Olhei no relógio e me surpreendi, fiquei três horas desenhando e isso explicava o tamanho do cansaço que eu estava depois que terminei. Ouvia os passos da minha mãe na casa fazendo o seus afazeres, eu tinha dó dela, nunca tinha sossego. Sai do quarto e fui pra sala ver TV, sempre fazia isso quando morava em casa e não ia ser agora que voltei que iria parar, mas não pude fazer nada ja que o bonitão do Ezequiel estava na sala vendo o maldito Bob Esponja Voz Irritante, mas antes isso do que a sugestão que minha mãe deu logo em seguida.
– Ae você acordou, porque você não leva o Ezequiel para brincar no jardim?
– Ah mãe, sério?! Eu ainda to um tanto cansado, não sei se quero ficar brincando. — também era um ótimo ator.
– Carlos Plainview... — quando esse nome era pronunciado, ou a ordem era obedecida ou você terminava como Tiradentes.
Suspirei forte para provocar minha mãe, ela sabia que não queria ir e não era suspirar forte que ia me fazer querer. Mesmo assim suspirei e provoquei. Peguei o pequeno indigente no colo e fui para o jardim. No jardim havia um pequeno castelinho de brinquedo e também, amarrado em uma árvore que estava lá desde que eu me lembre, tinha um balanço. Um pequeno maldito balanço. Isso me frustrou muito, mas muito mesmo. Aquele era um balanço da minha irmã, ele estava todo reformado, não estava do jeito que era quando minha irmã brincava nele. Me desculpem, eu to muito puto pra falar dela agora. Eu estava para explodir, tava me queimando por dentro de ódio, mas era surpreendente o quão puto eu estava só de ver aquela porra! Por fim não aguentei ficar olhando aquilo ali parado, atrás da árvore havia um matagal bem escondido, fui lá fumar pra me acalmar.
Estava puto de verdade. Fumei um. Fumei dois. Quando terminei o terceiro, percebi que só tinha passado dez minutos, devia estar bem estressado mesmo. De repente começaram a cair folhas da árvore do balanço, e infelizmente não dava mais pra ficar lá e acabar com o maço, realmente estava a ponto disso. Sai de trás do matagal, e o grande motivo das folhas estarem caindo, era o bosta do Ezequiel na merda do balanço. A porra do balanço é da minha irmã seu merdinha! Ah mas como eu queria que aquele galho caísse. Não deu outra, o galho quebrou, o balanço foi destruído e tudo que me lembro era do choro do Ezequiel e de minha mãe correndo mais rápido que uma ambulância pra socorrer ele. As vezes a força do pensamento é algo impressionante, até me fez acreditar em Star Wars depois disso. "Obrigado Yoda", era tudo que eu pensava.
– Vem me ajudar, por favor?! — isso era minha mãe me chamando. Uma coisa que eu acho engraçado, é quando alguém te chama para ajudar em algo que o máximo que você pode fazer, é ficar olhando, aliás, ele só ralou o joelho e tava fazendo um escândalo. Passa aqueles sprays que ardem pra cacete, quem sabe ele não sossegava.
Não fiz nada pelo Ezequiel, apenas entrei em casa, vi meu pai sentado na poltrona dele vendo Fórmula 1, coisa que eu odeio. Mas tudo bem. Sai bem rápido do banho, vinte minutos não era nada para mim, devo ter tomado um belo banho de gato isso sim, ou eu tomei banho mais rápido que o normal pra não ficar pensando. Se eu ficasse pensando, só ia pensar no Ezequiel merdinha. Sai do banho e me troquei super rápido, queria sair dali logo, estava me sentindo incomodado ali, avisei que ia sair com o Lucas e fui embora.
Olhei nas mensagens porque não lembrava o lugar que tinha marcado. Carl's Burger. Eu tinha que amar muito meus amigos pra ir naquele lugar com o lindo humor que eu tava. Mesmo assim fui. Fui andando mesmo, não ficava muito longe, e o caminho até lá, apesar do lugar ser uma porcaria, era muito lindo, era cheio de árvores e como estamos no outono as folhas ficavam a cair e muitas estavam no chão. Ia olhando o caminho a minha frente até que prestei atenção em outra coisa, um outdoor de uma praia. Essa era uma praia muito famosa mas que pouca gente ia. Ela se chamava Climton. Mas como era estranho falar "Vamos viajar para a praia Climton" nós daquela cidade a apelidado de "Climton Beach", mas não era apenas isso, nós a chamávamos de "Climton Beach, um lugar para todos". Deve estar se perguntando o porquê, mas o motivo era maldoso de ser "um lugar para todos".
Quando Climton Beach ficou famosa, todo mundo ia para lá quando tinha tempo livre, trabalhadores, moradores, pobres, ricos, políticos, todo tido de gente, gorda ou magra. Mas quando Climton Beach deixou de ser "point", o lugar se tornou meio sombrio com uma fase bem ruim, começou a surgir drogados, alguns estupradores até que teve a coisa mais pesada. Um casal foi viajar para la, apenas o casal e seu filho de sete anos, esse que viria a encontrar, enterrado na areia, um corpo de uma menina de dez anos que havia sumido na época, há uma semana. Ela havia sido morta com um tiro no pescoço, foi brutal esse assassinato e nunca pegaram o maldito assassino. Isso deu uma polêmica desgraçada e quase fecharam Climton Beach, não lembro porquê não fecharam a praia, mas eu fiquei feliz de ela ficar aberta, pois o meu sonho era visitar Climton Beach. E foi assim que a praia Climton se tornou "Climton Beach, um lugar para todos".
Essa era uma história curiosa, e ficamos famosos por criar esse nome. Eu devia ter uns dezesseis anos quando criamos o nome, eu, Lucas, Walter e Arthur. Aliás, não disse a vocês quem é Arthur, não? Bom, terei tempo para contar, não vou me preocupar agora em dizer quem é, não gosto muito dele aliás, vamos nos concentrar em Carl's Burger. Levei mais ou menos dez minutos para chegar la, isso depois de ter ficados admirando o outdoor. O Carl's não tinha mudado nada, parecia aquelas lanchonetes estadunidenses bem caseiras, onde o lanche vem com mais óleo do que carne. Fiquei olhando pelas janelas da lanchonete para ver se Lucas ja havia chegar, tinha chegado cedo, era quase onze horas mas só tinha dito para Lucas de almoçarmos la, não disse que horas.
Fiquei esperando Lucas e nada dele, até que meu celular vibrou e adivinha quem era? Ele mesmo, Arthur. "Voltou das terras nérdicas então? Saudades de você cara, quando tiver um tempo, depois de se ajeitar à sua vida nova, me avisa cara. Vamos tomar uma cerveja. Abraço." Ta, vou falar sobre Arthur.
Arthur estudava com Walter e Lucas no ensino médio, eu nunca estudei com nenhum deles. Eu jogava vôlei e Walter também, coincidentemente pelo mesmo clube. Começamos a jogar pelo time do clube e éramos os titulares e favoritos do nosso treinador, chamado Walter também. A partir disso eu e Walter nos tornamos grandes amigos, mas muito amigos mesmo, e a partir de Walter eu conheci outras pessoas, uma delas foi Lucas, o primeiro dos moicanos. Lucas era o melhor amigo da escola de Walter na época que estudavam juntos, e Lucas era um grande amigo de Arthur e foi assim que Walter e Arthur começaram a se falar e se tornaram ótimos amigos também. E assim acabei conhecendo Arthur. Arthur é arquiteto, tem vinte e três anos e é o que faz aniversário mais perto de mim, ele até é um cara gente boa, mas as vezes sinto que Arthur quer ser intelectual demais, mais do que ele realmente é. Mas no fundo, Arthur é um cara inteligente, pouco esforçado mas inteligente, engraçado e simpático, mesmo que tenha umas atitudes equivocadas e um tanto ridículas as vezes. Mas não é ninguém que eu chamaria pra sair, por isso não respondi a mensagem dele.
Meu celular vibrou de novo e agora sim era Lucas com o seu velho "To saindo de casa. Beijo".
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