Climton Beach - Um Lugar Para Todos
4 Juke Box
Fiquei do lado de fora do Carl's, peguei meu maço de cigarros e tive uma péssima notícia. Havia apenas mais um cigarro. Não sabia se fumava ali enquanto esperava, ou se guardava até comprar mais, só sei que aquilo era ruim para mim. Muito ruim.
– E ae mano! — fui encoxado por trás. Ação gay e voz familiar. Era Lucas com certeza. Me virei e era ele mesmo, e por incrível que pareça ele era o mesmo de cinco anos atrás. Parecia até um vampiro. Cabelos negros, olhos azuis como o céu limpo, tinha a boca bem rosada e possuía um estilo único de se vestir, bem estiloso por sinal. Lucas era um cara bonito, até eu admitia isso, era daqueles que quando passava as mulheres diziam "Ai que desperdício!", me irritava um pouco esse comentário mas tudo bem, acima de tudo, Lucas era como irmão.
– Porra Lucas, que saudades de você cara! — abracei ele com força até que Lucas olhou para mim e deu um beijo na divisa entre a boca e a bochecha. Não ache estranho, Lucas era gay mas ele sempre nos cumprimentava dessa forma, não era eu em especial. Sabíamos que não era nada demais aquilo. Esse momento embaraçoso durou cerca de apenas uns quinze segundo, logo depois, foi cortado por Lucas querendo quebrar o gelo naquele reencontro entre nós.
– Vamos entrar cara, ai a gente já pega a nossa mesa — já te explico sobre a mesa. — e batemos um papo.
A mesa. A famosa mesa do quarteto juvenil, eis um nome ridículo, mas era este pelo qual éramos chamados quando estávamos os quatro juntos. Mesa esta que nós quatro nos encontrávamos sempre que íamos ao Carl's. Quando entrei notei a lanchonete diferente. Ela estava bonita, vai por mim. Carl, o dono claro, tinha redecorado a lanchonete à moda americana com músicas de fundo dos anos 80. O bom e velho rock n' roll. Havia pintado as paredes de vermelho mas todos os detalhes que ela tinha, eram pintados de preto. Coisas como a silhueta de uma guitarra, ou baquetas de bateria. Também tinha prendido objetos nas paredes. Havia fotos do festival de rock Woodstock, alguns discos de vinil e havia até baquetas, de verdade, colocadas na parede. E foi ai que eu vi um sonho de consumo meu, uma paixão que sabia que um dia ia precisar ter. Uma Juke Box! Eu sempre achei elas lindas e maravilhosas, sempre quis ter uma e o melhor é que ela tocava, era dela que saia a música de fundo. Fui até ela ver que músicas tinham, e cara, só música boa pelo amor de deus! Era Nirvana, The Rolling Stones, Oasis, The Jimi Hendrix Experience, Beatles, Guns N' Roses e muito mais do velho rock. Aquilo estava sendo uma nostalgia! Pirava demais e chegava à sorrir como uma daquelas mulheres que fazem propaganda de creme. Sempre sorrindo. Acho que fiquei tão apaixonado pelo Juke que perdi a noção do tempo.
– Carlos, vem logo sentar antes que peguem a mesa.
– Ah me desculpa Lucas. Mas cara, como não me mandaram uma mensagem dizendo que tinha uma Juke no Carls?! Inaceitável! — Lucas começou a rir, eu tava muito empolgado.
– Cara, a gente ia te contar, juro mesmo, mas preferíamos que você visse pessoalmente. Sabíamos que você ia adorar. — houve uma pequena pausa. — Mas e ae Carlos, como anda a vida cara? Saudades de você velho, e nem me fala que ta tudo normal porque em cinco anos acontece bastante coisa. — Lucas sempre sorria quando falava, era um dos poucos gays que não julgavam, e assim ele não tinha nenhuma preocupação na vida.
– Ah cara, vocês que são meus amigos sabem que deve ter sido uma merda. Eu odeio economia cara. Nunca devia ter feito.
– Cara, eu sei que você tem um futuro garantido, sabe, você voltou e não precisou correr atrás de estágio, a empresa foi atrás de você. Você ta feito pro resto da vida cara! Alias você criou aquele tal de logaritmo de Weber, Welder...
– Logaritmo de Welderson. Sim, realmente foi algo genial que eu fiz. — começamos a rir. Eu gosto de humildade, mas sinceramente, o logaritmo de Welderson foi uma coisa genial que eu fiz, e com isso, vi que seria um cara bem inteligente na base de economia. Vou te explicar o que seria o Welderson. Dizem que o saldo menos o gasto, é igual ao lucro, e está correto. Mas e quando bônus são acrescentados no meio de uma contagem? Ou se você tira pequenas quantias, estas que o seu chefe não ligaria de correr atrás, como um centavo, ou dois reais. Sabe, em transações são negociados milhões, ou até mesmo milhões de transações por dia. Imagine se você tirar um dólar ou real, de cada transação que o dono não vai notar, o quanto de dinheiro que você ficaria no final. Sim, era algo ilegal, muito ilegal diga-se de passagem, mas eu tinha criado e eu usava a meu favor. E estava rico por causa de Welderson. O logaritmo era instalado no programa de transações da empresa que eu trabalhava, e era tão pequeno o espaço que ele ocupava que nunca notaram, assim, ele roubava a quantia posta de cada transação que eu queria roubar, e mandava diretamente para a minha conta bancária. Aliás, esse nome foi algo aleatório, e ninguém nunca descobriu onde foram parar os dois reais que faltaram nas transações. — Mesmo sendo algo ilegal, eu usei muito lá na empresa que eu trabalhava na cidade da minha faculdade. Ganhei bastante mas é arriscado, não sei se deveria fazer isso aqui agora que ja estou empregado, basicamente.
– É cara, pensa bem porque se você for pego, sabe lá quantos anos vai pegar. Aliás cara, seu aniversário é dia 10 de maio né?
– É sim, por quê?
– Faltam três dias cara, não vai fazer nada?
– Eu to cansado Lucas, preciso desfazer minhas malas, colocar as coisas no lugar e além do mais falta uma semana pra mim começar no novo emprego. Acho que não vou não.
– Ah vai sim. Quer saber, vamos para Climton Beach no seu aniversário, que acha?! — que estranho, Lucas se empolgou muito com a ideia.
– Bom é uma possibilidade. Além do mais...
– Vamos então cara, temos que ligar pro pessoal, quem vai chamar? — Lucas estava muito agitado.
– Calma cara, eu tava pensando em viajar pra lá no meu aniversário, chamar as pessoas mais importantes e tals. Seria divertido. Mas vamos sair daqui. Você ainda tem o porão cara?
– Claro que tenho, nunca vou me desfazer dele, ta maluco? — o porão era um quarto na casa de Lucas em que nos reuníamos as vezes para fazer coisas como jogar vídeo game, falar sobre mulheres dos colégios e tomar cerveja. Além do mais, Lucas fumava maconha, e o quarto ficava tão isolado e tinha aqueles sprays que espirram a cada dez minutos, que nem se sentia o cheiro no porão.
– Beleza, vamos para lá agora e vamos ligar pro pessoal. Eu penso em quem vou chamar la, pode ser?
– Ta beleza, mas precisamos fazer rápido, faltam só três dias!
– Eu ja entendi, três dias.
Lentamos da mesa e íamos saindo do restaurante quando vi Carl passando com a Juke Box em um carrinho de carga, aqueles para se carregar caixas, não sei o nome. Fiquei muito triste, mal havia chegado e nem pude curtir a música da Juke. Nunca tinha estado tão feliz por ter ido naqueles lugar, mas tudo que é bom dura pouco. Foda-se.
– Carlos, quanto tempo que não te vejo rapaz! — esse era Carl, um careca bigodudo e gordo. O mais legal era que seu bigode era ruivo.
– Carl que bom te ver cara. Como anda a lanchonete? — pra ser sincero, não me importava, só não queria ser antipático.
– Anda bem, mas era bem melhor quando você morava aqui. Esses rapazes ficaram meio depre depois que você foi embora. — meu deus, ele dizia a verdade!
– A é Carl? — virei e fiquei olhando Lucas. Os detalhes gays e idiotas ninguém nunca conta, sempre se escuta vindo de outra pessoa. — Mas Carl, mal cheguei e você ta mandando a Juke embora, sabe que adoro essas coisas cara!
– Eu sei Carlos, mas ela tem um novo dono agora, ele espera la fora. Me acompanham?
– Ah claro. Ja estávamos de saída Carl.
Saímos pela porta da frente e o sininho que toca quando alguém abre a porta tocou. Ficamos segurando a porta para Carl sair com mais facilidade. Carl ja era um pouco velho, perto dos sessenta anos, mesmo assim, certas atividades ja o complicavam. E mesmo comigo não gostando muito do lugar, que agora estava bem melhor, Carl era um sujeito muito gente boa, ele era simpático e engraçado. Parecia uma criança adulta. Nem me lembro quantas vezes fomos la e ele se sentava na nossa mesa contando suas histórias de vida, eram muito engraçadas, queria ter um amigo como o Carl. Saímos da lanchonete, e ficamos olhando para a rua pois não havia ninguém.
– Cadê o dono da Juke Carl?
– Bom, ela na verdade é sua agora.
Vocês não imaginam a minha felicidade. Eu não tinha palavras para agradecer Carl mesmo não entendo o porquê ele me deu a Juke. Olhei para Lucas que estava me olhando meio sem graça.
– Você tem algo a ver com isso Lucas? — ele tinha uma cara de suspeito que tive que perguntar.
– Bom...
– Como assim cara!? Como você não me contou!?!!
– Cara, esse é o nosso presente de aniversário pra você. Meu, do Walter e do Arthur. Feliz aniversário adiantado cara! Esse é seu presente. — Lucas deu um sorriso de canto de rosto, ele ficava sem graça quando dava presentes que a gente adorava. Sei que não era apenas dele, mas mesmo assim, ele tinha participação e tenho certeza que não tinha sido de graça.
– Sabe cara, vocês são amigos de verdade, obrigado mesmo. — abracei Lucas com força e ele também. — Vamos fazer o seguinte, — soltei ele — vocês me deram a Juke, ela é minha, mas assim, eu dou ela pra gente!
– Não cara, não pode...
– Eu insisto. Ela vai pro porão da sua casa mas tem uma condição. Eu serei o único que vai escolher as músicas.
Lucas deu uma gargalhada. Essa foi bem escandalosa, acho que ele esperava algo mais sério, ou sei lá, que eu ia dar pra ele a Juke. Claro que não.
– Vamos sim cara. Curti a ideia, ainda mais porque ela vai ficar na minha casa. Agora vamos para casa, temos muita coisa a fazer.
Fomos para casa de Lucas. O porão estava o mesmo como sempre, apenas com a diferença de que ele não tinha mais apenas o Xbox 360, mas tinha também um Playstation 3. Muito legal por sinal. Ligamos para todos os importantes, até liguei para Vanessa que é uma grande amiga minha. O modo como nos conhecemos é engraçado, na verdade, diferente. Nos conhecemos em uma viagem, meio do nada. Fui viajar para Foz do Iguaçu com meus pais e um dia fui a uma praça muito bonita na cidade. Comecei a desenhar a praça naquele dia, sempre que viajava, desenhava em um caderno de rascunhos e começou a ficar ótimo o desenho. Foi ai que eu vi ela. Ela chamou minha atenção como nada, uma menina muito linda e eu tive que desenhar. Sabe quando você se apaixona e não sabe o porquê? Não era uma paixão de amor, mas cara, eu não conseguia tirar os olhos dela, entende? Comecei a ficar olhando muito e, é lógico, que ela veio falar comigo, deve ter se sentido incomodada. Apenas pedi pra ela que ficasse parada, olhando para a direita pois assim o vento batia de uma forma que o cabelo cobria um pouco do rosto. Ela deixou, achei até muito simpático da parte dela e não tinha como agradecer se não dar o desenho à ela. Ela se apaixonou pelo desenho, perguntou meu nome e nos despedimos. Nunca mais a vi. Quando voltei para casa, ela havia me adicionado na minha rede social e tudo mais. Desde então, nunca mais deixei de falar com ela.
Eu sou apaixonado por mulheres. Mas ela, é uma deusa, não é apenas uma mulher.
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