Climton Beach - Um Lugar Para Todos
5 O Porão
Ficamos durante um tempo sem fazer nada no porão. Fumei maconha. Cara, aquilo me fez voar, e é bem melhor do que cigarro. Ao menos te dá uma brisa né? Lucas ficou um pouco puto comigo, ele se importava demais comigo e com os moleques, e mesmo que aquilo fizesse mal e ele tivesse noção disso, ele não queria que nós fossemos na mesma onda dele de fumar maconha. Eu tive uma grande briga com o Lucas uma vez, isso foi quando eu comecei a fumar cigarros e brigamos pelo telefone. Não lembro o porquê eu liguei pra ele, ou vice e versa, só sei que parecíamos um casal discutindo no telefone. Coisa ridícula. Aliás casais são uma coisa ridícula eu acho. Sabe, as meninas e meninos de quinze anos namoram, e acham que aquilo vai durar para sempre enquanto a real probabilidade daquilo acontecer é de, aproximadamente, um décimo. Não me restrinjo disso, sabe, se eu tivesse conseguido ficar com a Fernanda eu teria namorado com ela, mas se ia durar é outra coisa.
Sentimentos são confusos também, não fazem sentido na maior parte do tempo.
Mas que seja. Fumamos bastante maconha porque na verdade, eu adorei. E puta merda, aquilo dá muito fome, pelo amor de deus! Fumamos e fumamos mais. Em seguida fomos ter a ideia genial de colocar a Juke no porão. Cara, a gente tava fumado, a Juke tem várias cores brilhantes e cintilantes, e ainda por cima é pesada pra cacete, mas não é que ela tava leve? Só pode ter sido a maconha não é possível. Encaixamos ela bem do lado da mesinha que fica a TV de LCD de Lucas. Aliás, que TV era aquela. Lucas na verdade criou um santuário, não era mais um simples porão, aquilo podia ser um abrigo ante bomba de tão maravilhoso que era. Tinha um mini frigobar com refrigerante e cerveja, do lado tinha um armário com todos os tipos de salgadinhos existentes, um sofá que cabia, mais ou menos, umas cinco pessoas e do lado havia mais duas poltronas e tudo isso virado para a mesa com a TV de quarenta polegadas, conectada em um home theater de som 5.1 e os dois vídeo games de Lucas, que agora estavam acompanhados de uma maravilhosa Juke Box bem ao lado. Aquilo era um real paraíso, tanto porque eu desfrutava agora da maconha.
– E ae cara, não vai ligar pro pessoal? — Lucas tirou o cigarro de maconha da boca e assoprou a fumaça para o lado.
– Vamos sim vai. — eu levantei com uma preguiça do sofá. Eu não sabia que a maconha deixava o corpo tão mole. Dava uma preguiça de viver até. — Cadê o seu livro com o número do celular de todo mundo?
– Ta ali na gaveta da mesa. Você vai chamar quem? — Lucas deu mais um trago e assoprou a fumava novamente. Ele era viciado, eu já nem fumava mais naquele momento.
– Você, Walter, Arthur.
– Só a gente, não quer chamar a sua família nem mais ninguém?
– Cara, ninguém é importante na minha família. Amo todos eles, tirando o Ezequiel, odeio aquele moleque! — eu tinha raiva só de pensar ou de falar o nome dele, puta merda!
– Ezequiel?
– Meu irmão porra, não lembra? Ele nasceu enquanto eu tava na faculdade, só tem três anos.
– Ah sim, sei quem é. É que eu pouco vi ele cara, não lembro dele direito. Cheguei a dar umas passadas na sua casa pra ver como sua família estava quando você foi pra faculdade. Pode crer, Ezequiel, não sei porque odeia ele tanto. — Lucas não tinha culpa, mas isso me irritou.
– Sei la também, mas parece que aquele moleque nasceu pra me deixar puto no dia-a-dia. Mas que seja, não quero falar daquele infeliz! — nisso eu dei um soco na parede, mas ela não era de concreto e sim oca, ou seja, arrebentei a parede de Lucas.
– Puta que pariu Carlos, qual a porra do seu problemas velho?! Você abriu um buraco na minha parede mano! — Lucas se levantou muito irritado quando começou a falar, com razão claro, mas porra eu tenho ódio daquele moleque, não aguento falar dele, ver o nome dele ou que seja.
Pra você ter noção, ele estragou um dos meus filmes prediletos. Pulp Fiction. Em Pulp Fiction o personagem de Samuel L. Jackson é um assassino de aluguel junto com John Travolta, e todas as vezes ele cita uma passagem bíblica, demais por sinal, que se chama Ezequiel 25:17. Puta que o pariu, por que tinha que ser Ezequiel? Por que meus pais deram esse nome para aquele indivíduo idiota? Isso também era o cúmulo para mim, mas dane-se, o que eu posso fazer?
– Desculpa Lucas, desculpa mesmo. — peguei um cigarro e acendi, não de maconha. — Eu prometo dar um jeito na parede, pode até cobrar se quiser.
– Relaxa, ninguém entra no porão, mas cara, se controla, ele é seu irmão! Ele é teu sangue e sua carne, relaxa com isso, se você odeia ele, deixa quieto não sai por ai quebrando tudo. Só relaxa!
– Ta ta. To de boa agora. Me dá o livro com os números, por favor? — traguei mais um pouco do meu cigarro. Aquilo sempre me fazia relaxa, estranho.
Lucas foi até a mesa e pegou o livro. Parecia uma relíquia aquele livro de tão fodido que ele tava. Abri ele e tinha o número de todo mundo da nossa pequena cidade. Saintfield. Eu só gostava do nome Saintfield porque a sonoridade combinada com o meu. Carlos Plainview de Saintfield. Achava muito legal. O primeiro dos meninos pra quem eu ia ligar era Walter. Peguei o meu celular e comecei a discar o número dele e liguei. Começou a chamar e demorou uns trinta segundos, quase caindo na caixa postal, e ele atendeu todo ofegante, como se tivesse ido atender correndo.
– Alô?!
– Oi Walter, é o Carlos cara. Ta ocupado?
– Não cara, ta tudo...
– É que você ta todo ofegante cara.
– Ah não cara, é que eu tava tomando banho e bem na hora que eu sai você me ligou. Só que eu nem tinha me secado e tava pelado, não ia sair com o meu pênis de trinca e quatro centímetros, balançando aqui em casa né? — Walter tentou fazer a piada de um modo convincente, mas eu consegui ouvir ele rindo um pouco ao fundo.
– É verdade cara, pode crer. Lembra quando eu vi na primeira vez que fomos fazer amor gostoso? Até desmaiei quando vi amor. — começou a coisa gay. — Não, mas agora falando sério cara, parou com a bixisse, vem aqui na casa do Lucas?
– Vou sim, mas por quê?
– Reunião de última hora. Se troca ai e vem cara. Aliás, valeu pela Juke de Aniversário ta?
– Porra cara, você já descobriu?! — acho que Walter ficou meio triste de não estar junto quando eu recebesse a Juke. Ao menos aparentava.
– Sim, mas vem aqui que eu te conto, beleza?
– Beleza, to indo. Abraço lindo.
– Vem logo gostoso.
Desliguei o telefone e olhei para Lucas.
– Vocês são muito gays, sabia? — ele dizia isso com um sorriso na cara. Ele sabia que não tinha a moral para dizer aquilo.
– Olha quem fala né?
– Ao menos eu admito. Seu bixa! — foi muito engraçado. Lucas disse isso com uma agressividade como se fosse um homofóbico, era muito engraçado. Lucas era um gay muito estranho perante a sua escolha sexual, as vezes ele era muito mais homem do que eu e os meninos que éramos heteros mesmo, e Lucas sempre chingava a gente de gay, bixa, viado. Era ofensivo para qualquer um, mas a ironia era ele nos chamar assim, mas nem ligávamos.
Lucas foi até a janela e a abriu. Ficou ali olhando para fora por um tempo, mas não consegui saber se ele estava ali para tirar o cheiro da maconha que a gente tinha fumado, ou se ele estava tomando um ar ou olhando a "paisagem" de prédios ao redor da casinha dele. Sei lá, nem dei muita bola para isso, peguei o livro e comecei a caçar o número do Arthur. Sim, eu ia chamar ele pra viajar comigo no meu aniversário, sei que a impressão que eu passei é de ódio a ele, mas Arthur não é nenhum Ezequiel. Arthur era meu amigo e eu não gostava muito de admitir isso, mesmo no fundo gostando bastante dele a não ser aqueles detalhes. Às vezes acho que sou uma mulher, ao menos sou mais confuso do que muitas.
Disquei o número de Arthur. Era bem facinho por sinal. 99919 — 1243, uma incrível sequência de noves mais uma continua mudando a ordem dos dois últimos números. Adoro falar difícil, me sinto inteligente.
– Alô? — Arthur estava com uma voz de sono. Fiquei pensando o que ele podia ter feito na noite anterior, se tinha ido para a balada, feito muito sexo ou coisa do tipo, mas ele me mandara uma mensagem hoje antes de entrar no Carl's. Mas o que eu tenho a ver com a vida dele? Por que as pessoas adoram se intrometer na vida dos outros? Os humanos são muito xeretas e curiosos mesmo, e isso não se aplica apenas para nós, qualquer ser vivo é assim.
– E ae Arthur, aqui é....
– Carlos! — pelo jeito ele estava empolgado em falar comigo, nem me deixou terminar. Arthur tinha uma habilidade que eu admirava muito. Memória, ele tinha uma memória boa demais, tanto que não esqueceu da minha voz mesmo não tendo escutado ela por cinco anos. — Caraca cara, que saudades de ouvir sua voz doido! Recebeu minha mensagem cara?
– Recebi sim Arthur, mas não é isso que...
– Vamos toma uma então cara?! — puta merda Arthur, me deixa terminar de falar cacete!
– Arthur, dá pra relaxar? A gente pode tomar uma sim, mas rapidão cara deixa eu falar, pode ser?
– Me desculpa cara, é que to empolgado, fazia tempo que não falava com você!
– Mas então, pode colar aqui na casa do Lucas?
– Quando e que horas?
– Tipo assim, agora?
– Beleza, não to fazendo nada cara já to saindo, beleza? Menos de dez minutos já to ai.
– Beleza, vem logo. Abraço.
– Tranquilo, fui!
Continuei a fumar meu cigarro. Comecei a discar um número, era da Vanessa. Queria que ela viesse no meu aniversário, nunca tinha passado algum momento importante com ela e foda-se, eu pago a passagem dela para Saintfield. É que Floripa era uma cidade do estado ao lado, então não seria fácil ela vir para Saintfield, mas queria que ela viesse de qualquer jeito.
– Alô?
– Minha deusa, você está sendo convocada para o meu aniversário de vinte e quatro anos. As passagens de Floripa para Saintfield estão no correio indo para a sua residência, e chegaram em, aproximadamente, algumas horas pois o meu aniversário será neste final de semana em Climton Beach. Você vira, correto? — eu disse que conseguia ser um cara bem humorado.
Só conseguia escutar ela rindo. Ela sabia que era eu no telefone, impossível não reconhecer.
– Como você é besta sabia?! Não acredito que você já comprou a passagem! Como você é cretino de fazer isso, e se eu...
– Vanessa! — ela parou de falar, acho que tomou um susto pra falar a verdade. — Não tem essa de "e se eu dissesse que não poderia ir", não tem essa. Você vai vir, ao menos dessa vez você vai vir.
– As passagens ja chegaram. Eu estava pra te ligar quando você me ligou. Não acredito que fez isso. Quando eu posso ir ai pra Saint?
– Faltam três dias, hoje, amanhã e meu aniversário. A gente já quer ir viajar amanhã pra não chegar no meu aniversário. Pode vir amanhã, por favor? Ai você chega e a gente ja vai, tem problema?
– Claro que eu vou, fazer o que se meu melhor amigo me faz tudo isso né? Chamou quem, os moleques que eu sempre falo, você e to pensando em chamar a Fer...
– Você vai chamar aquela vadia? — Vanessa era daquelas amigas ciumentas, mas ciumentas em um sentido protetor. Ela sabia que eu era apaixonado pela Fernanda e que me prendia muito à ela as vezes. Mas não posso fazer.
– Sim. E ela não é uma vadia.
– Você ta sendo cabeça dura, ja brigamos até sobre isso Carlos!
– Vanessa, me desculpe, sabe que eu te amo e que tudo que você fala é para o meu próprio bem. Mas por favor, cuida da sua vida? — não me ache ignorante, ou grosso. Esse era eu e Vanessa sabia que eu ia acabar falando com ela daquele jeito agora, odiava que ficassem palpitando sobre minha vida.
– Desculpa. Vou fazer as malas e ir então Carlos. Ta bom?
– Por favor, venha o mais rápido possível.
– Ok. Te amo ta bom? Você sabe muito disso. — ela apenas disse isso e desligou. Ela me ama e eu amo ela. Mas não passava de um amor amigável, nada demais mesmo parecendo algo demais. Mulheres são complicadas demais, deviam vir com manual. Todas.
Enfim, não tinha tempo para esquentar a cabeça com isso, ela ia vir pra viagem e isso era o que importava. Saudades do dia em que vi ela. Mas ainda tinha mais duas pessoas para ligar. Fernanda e Bruno. O bostinha do Bruno. Sabe, eu amo a Fernanda mais do que muita coisa no mundo, ela é muito importante pra mim, e eu amo ela de um jeito que eu não tenho ciúmes, é impressionante. Não tenho ciúmes do Bruno por ser casado com ela, eu só quero que ela seja feliz, e isso é tudo que importa pra mim. É sério. Mas é lógico que eu tenho raiva dele ta? Que tipo de ser humano não sente o maldito sentimento raiva? Esse sentimento tão gostoso, que você queima por dentro e as vezes tem vontade de esganar a pessoa. Mas é claro que eu sentia, só que não sou um assassino. Infelizmente.
Esse não era um número que o Lucas iria ter, não faria sentido. Pesquisei na agenda telefônica do meu celular e liguei para o número da casa, pois qualquer coisa eu deixaria uma mensagem e Bruno escutaria, sei que ela a avisaria. O telefone começou a chamar e enquanto isso passei o tempo olhando Lucas jogar Mortal Kombat. Era impressionante como ele era um gay machão mas só usava as mulheres do jogo. Isso me fazia rir, mas ele nem ligou, sabia o que era. Graças a deus o telefone foi atendido, e pela voz, era Bruno.
– Alô?
– Bruno?
– Quem fala? — ele não parecia muito feliz.
– É Bruno, aqui quem fala é Carlos. Tudo bom?
– O que você quer? — ele falava bem ofensivamente. Parecia bem bravo ou estressado com algo.
– Aconteceu alguma coisa muito significativa cara? — não tava perguntando por perguntar como todo mundo faz, eu realmente queria saber e estava preocupado. Consegui ouvir ele bebendo algo. Devia estar enchendo a cara.
– Cara, eu não quero falar sobre isso agora, e tenho certeza que nem você.
– É que eu precisava falar sobre isso agora cara. Eu queria que você e a....
– Fernanda?! Pois é, ela morreu ontem e hoje foi o funeral! Sua grande amada sofreu de um ataque cardíaco do nada, no meio da noite que a única coisa que eu consegui fazer foi chegar ao telefone e ligar para uma ambulância! — ele começou a chorar e eu também. — Parabéns! Seu olho gordo pra cima de nós finalmente deu certo. Ela morreu! Nem você nem eu mais temos ela. Contente-se com a última lembrança que você teve dela, ela ja foi enterrada. — ele desligou e nem consegui me despedir.
Eu não tinha reações. Eu me desmoronei em lágrimas repentinamente, era uma dor muito grande para mim, nem sei como tive forças para chorar. Lucas saiu correndo e me abraçou as costas, eu estava ajoelhado em uma posição fetal encostado com a cabeça no chão. Cara, como eu chorava, soluçava, gritava, fazia de tudo! Lucas me perguntava desesperado o que tinha acontecido e eu tentava falar pra ele mas não conseguia, ia tentar falar e começava a gaguejar e chorar mais ainda. Por quê?! Por que ela?! Por que eu?! Ela não cara, ela não! Era melhor viver sem ela mas viva, do que viver sem ela definitivamente. Eu te amo Fernanda, você é o amor da minha vida e me desculpe por tudo que eu possa ter feito!
Lucas me levou até o sofá onde eu me acalmei. Peguei os meus cigarros e comecei a fumar para me acalmar mais rápido. Não me lembro de quantos cigarros haviam no maço, mas só sei que fumei o maço até falar com Lucas. Na verdade, até conseguir falar com ele.
– O que houve Carlos?! — ele se preocupava de verdade, o pior é que ele sabia o que a Fernanda significava para mim.
– Fernanda morreu cara! Ela morreu e não sei o que fazer, eu não sei o que pensar cara! Ela... — voltei à chorar.
Devo ter chorado durante mais uma hora mais ou menos. Era muita dor pra um só momento, e não quero relembrar isso, desculpe!
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