Às vezes eu tenho vontade de sumir. Não entendo muito bem esse mundo e não sou uma criança, não sou um garoto que não tenha estudado e que não tenha noção sobre esse mundo. Acabei de terminar minha faculdade. Fiz faculdade de economia em uma das melhores universidades do meu país, mas tudo que consegui aprender nesse período em que fiz faculdade foi que eu odeio economia! Sério, eu odiei economia. Por que eu terminei o curso? Vou te responder da seguinte forma: quem disse que tenho alguma palavra na minha vida?

Eu estudei muito para entrar na minha faculdade, ela é pública e meus pais não pagariam nenhuma particular. Fiz um ano inteiro de cursinho, me dedicando muito, e fiz apenas economia porque meu pai queria que eu fosse um economista, enquanto eu na verdade, queria ser um artista plástico. Queria fazer quadros, obras de arte para o mundo, este que está muito triste, muito deprimido e essa era uma maneira de eu conseguir melhorar ele (na minha visão claro), mas meu pai queria que eu fosse economista e até entendo o motivo de ele rejeitar a minha vontade de ser artista.

Existem certas profissões que são difíceis demais de conseguir se dar bem na vida, assim como artista, atores, músicos, tudo relacionado ao lado da arte, eu acho.

Semana passada foi minha formatura, eu já trabalho, na verdade trabalhava pois agora que sai da cidade da minha faculdade não vou ter como continuar o emprego, mas enfim, tenho vinte e três anos e acredite, faço merda até hoje. Muita merda, acredite. Eu preciso ir pra casa, minha casa que vou ver depois de tanto tempo. A propósito eu morei em uma república, não era nem um pouco perto de casa. Meu celular começou a tocar no meu bolso e peguei rapidamente para atender.

– Carlos, cadê você cara? Eu achei que você ia me encontrar no seu dormitório as três horas da tarde cacete, mas você não ta aqui! — esse era meu melhor amigo, Walter, e ja para esclarecer se pronuncia Valter, não é com Walt Disney. Walter não tinha feito faculdade de economia comigo, na verdade a gente era amigo há muito tempo e mesmo com ele estudando na minha cidade e eu em outra a gente se via direto porque ele tinha carro, e ia ser ele quem ia me levar pra casa. Aliás, Walter é dentista.

– Foi mal Walter. To aqui sentado na arquibancada do campo de futebol, só pensando na vida. Se quiser dá uma passada aqui e a gente bate um papo antes de ir pra casa, ta beleza. — apesar de tudo eu sou um cara bem humorado. Adoro piadas, e rio muito principalmente quando falo ou quando estou com meus amigos, porque nós não conseguimos falar sério, sempre embutimos uma piada ou outra nas conversas.

– Ah Carlos, puta merda né? Desculpa mano mas não to afim, ja vim de bastante longe pra te esperar mais e mais. Eu passo ai e você entra no carro, a gente se conversa no caminha tranquilo?

– Ta tranquilo cara, to abusando da sua bondade.

– Para com isso Carlos, você abusa da minha pessoa toda noite na hora de dormir. — era isso que eu queria dizer com não saber falar sério.

– Poxa cara, desculpa. Se eu soubesse que você não gostava eu parava. Agora não faço mais.

A gente falava com um tom sério na conversa, mas víamos que tínhamos vontade de rir quando falávamos coisas idiotas ou gays como essas. Não quero dizer que gays são más pessoas, na verdade são ótimas pessoas, as vezes muitos melhores que as pessoas heterossexuais no geral. Mas não tenho amigos gays, na verdade, apenas um, o Lucas, mas falo melhor sobre ele depois. Enquanto isso Walter continuava, falava no telefone a nossa falsa discussão gay.

– Para não amor, por favor você sabe que eu te amo.

– Walter vamos para porquê você sabe que eu odeio ficar fazendo essas brincadeiras gays, e segundo que quem passa e me vê falando assim com você vai pensar que sou gay mesmo.

– Ta bom cara, vai indo pra parte rodoviária mais perto do campo que eu to chegando. — desligou o telefone e me deixou falando sozinho.

Desligamos o telefone e peguei a minha mochila, desci as escadas da arquibancada e fui pra rodovia mais próxima, na verdade só tinha uma mesmo. Adorava ficar no campo de futebol, não sou fã, na verdade não gosto de esportes, mas o campo era calmo, me sentia como se estivesse numa fazenda ou em alguma lugar afastado da cidade ou civilização. Isso se você ignorar as estruturas das arquibancadas. Adorava ir lá pra pensar. E pensar me fez querer escrever esse livro. Eu tenho um certo excesso de pensamentos, e isso me cansa demais porque eu não consigo contar meus problemas pra ninguém então começo a pensar em voz alta, e pra isso você precisa que ninguém o esteja ouvindo certo? Talvez seja por isso que amo as arquibancadas, elas são minha melhores amigas...depois do Walter claro.

Fiquei andando em círculos na beira da rua que passa pelo campo de futebol até que Walter chegasse. Eu tenho esse péssimo abito de não conseguir ficar parado, sempre que preciso esperar, fico de pé andando em círculos ou fico sentado batendo o pé. Isso irrita até eu, imagina quem ta do lado. Finalmente Walter chegou. Ele tinha um carro vermelho mas não sei o nome nem a marca porque não presto atenção nisso. Se tem uma coisa que eu odeio é carro. Pra mim são todos iguais, tem quatro rodas todos, um motor e um volante. A mesma função pra todos, locomoção. Então pra que inventar de ser mais rápido ou não? Mas que seja, ele chegou e nos cumprimentamos com um abraço. A gente sempre se cumprimenta assim. Me ajudou a pôr a mala no porta-malas e então eu entrei no banco do passageiro enquanto ele foi pro do motorista.

– E ae cara, pronto pra voltar pro lar? — Walter sempre falava comigo com um sorriso na cara, ele era alguém super de bem com a vida.

– Vamos né meu querido. Mesmo que não esteja super animado, é o jeito.

– Mano, pensa bem. Agora a gente vai se juntar de novo, veteranos de faculdade em uma cidade que nem faculdade tem, ou seja, só novinhas, e o que isso quer dizer? Sexo. Muito sexo.

– Walter, para de pensar em xana por um minuto? — a gente começou a rir, ele sempre relacionava os assuntos com sexo, era impressionante. — Mas você realmente acha que não pensei nisso? Aliás, como ta o Lucas?

– Ah cara, o Lucas ta la né cara. Sabe como é, ele é gay cara.

– Mas o que tem? Ele ta bem e tals? Como ta a vida dele, anda falando com ele? — queria muito saber como Lucas tava, gostava muito dele. Era meu melhor amigo depois de Walter, ai vinham as arquibancadas.

– Cara, é lógico que eu falo com ele. A gente vai sempre pra balada e tals, mesmo ele caçando a fruta oposta a minha, mas a gente se ve direto. Você faz falta la cara, é legal...mas não a mesma coisa sem você cara. — eu não sei dizer se Walter mentia. Eu sempre tive um sexto sentido pra mentiras mas Walter falava com uma convicção enorme que eu não conseguia saber se ele dizia a verdade. Mas ele era honesto e eu acredito que sim. — Mas relaxa cara, você ta acabado mano. Dorme um pouco ai e você vê as coisas quando chegar em casa beleza?

– Tranquilo cara. Ontem teve festa de despedida. Até parecia que eu ia morrer.

Ri sozinho depois que disse isso. Walter as vezes não comentava ou ria, só dava um sorriso de canto de boca mas bem disfarçado. De qualquer forma não me incomodei, apenas deitei o banco um pouco e pus meus fones de ouvido que estava conectados no celular. Escuto qualquer tipo de música, mas nessas horas nada me acalma mais que músicas calmas, apenas violão e vocal. Música é uma maravilha do mundo terrível.