Acordei com um tapa na cara. Só podia ter sido o merdinha do Arthur com esse costume ridículo! Nossa, como eu me estresso com essas coisas, eu posso não mostrar, mas cara, eu odeio demais gente idiota. O Arthur não era, mas é como eu disse, não é o melhor de todos os amigos, ainda não gosto dele por um lado.

– Você bem que podia tomar no seu cu, né Arthur? — ele levou na brincadeira, tanto que Vanessa e ele riram, mas que eu estava com raiva daquilo, eu realmente estava.

– Só queria te acordar, lindão. Chegamos na sua casa. Entra lá e faz suas malas. Vai precisar de ajuda?

– Não, valeu.

– Posso ir? — Vanessa pedia com jeitinho, e sei lá, eu tenho um fraco por ela. Mas eu estava meio puto no momento e respondi o improvável.

– Fica ai Vanessa. Troca umas ideias com o Arthur, aliás, não quero ter o trabalho de te apresentar para a minha família, muito menos olhar pra cara do Ezequiel.

– Quem?! — ela parecia surpresa. Não devo ter dito sobre meu irmão, Vanessa e eu nos conhecemos antes dele, e como você sabe, eu não tenho o maior amor do mundo por ele. Nem devo ter mencionado o nome dele pra ela em algum momento.

– É meu irmão. Ele é um merda, tem só três anos então nunca devo ter falado dele para você. To indo lá, fiquem conversando ai.

Dei as costas e fui indo em direção a minha casa.

Entrei, e todos estavam na sala. Isso é algo que eu odeio, me deparar com minha família logo que entro em casa, não dá nem pra respirar que eles ja vem com perguntas e dessa vez não foi diferente. Começando com minha mãe:

– Onde você estava? — fingindo preocupação.

– Mãe eu voltei da casa do Lucas com uma carona do Arthur. E fomos ficar andando um pouco por ai de carro, só isso. Aliás, eu preciso falar com vo...

– Não é para você ficar andando por ai à noite filho! — meu pai que falou isso, e quando ele fala, não é fingimento. Papai Johnson é um cara bem sério quando se trata de sermões, mas eu não estava afim de discutir.

– Eu vou viajar para Climton no meu aniversário de vinte e quatro anos. E vou com meus amigos.

Eu nunca vi uma cara tão perplexa no rostos dos meus pais. Nem Ezequiel ficou surpreso, pra ser sincero, eu acho que sou apenas um estranho na vida dele. Eu surgi agora, ele foi filho único por três anos e do nada, surge um cara com quase vinte e quatro falando que é seu irmão. É algo bem estranho eu acho, mas nada implica no porquê ele tem aquela cara de bostinha mentiroso. Ai como eu tenho raiva dele, e me sinto um pouco mau por isso. Ele só estava lá sentado no sofá, nem parou de ver a tv quando eu cheguei, muito menos no momento em que eu disse que ia viajar no meu aniversário.

Com toda certeza eu sou indiferente para ele.

– Como assim? — minha mãe dizia isso e mal conseguia fechar a boca. Eu estava começando a ficar com peso na minha consciência com aquilo.

– Eu vi o bilhete de vocês ontem, eu cheguei a entrar em casa antes de começar a andar com o Arthur por ai. Mas a verdade, é que eu ja combinei e lembram da Vanessa?

– Sua amiga de Floripa? — disse meu pais dando uma alisada no seu grande bigode.

– Sim, ela mesmo. Então, ela já ta até aqui porque eu chamei ela e logo ja comprei e enviei as passagens para ela, foi com o meu dinheiro, então não se preocupem. Mas ela já está aqui, lá no carro com o Arthur, eu só voltei pra fazer minhas malas e meio que estamos indo.

– Relaxa filho, só estávamos com saudades e queria ficar um pouco mais com você. Sabe, foram cinco anos que não foram curtos. Você é nosso filho mais velho e amamos você de todo o coração, mesmo brigando e discutindo muitas vezes, você é muito querido por nós. Mas antes de tudo, queremos a sua felicidade... — falou quem me obrigou a ir pra economia. — e isso inclui você se divertir no seu aniversário. Sabemos que você vai se divertir muito mais com seus amigos do que conosco, mas temos a esperança de que podemos participar de sua felicidade, de cada sorriso que você da. Mas é sério Carlos, eu quero que se divirta em Climton, mas nunca esqueça que te amo moleque! — meu pai veio até mim e me abraçou. Se tem alguém que sabe mexer comigo, apenas conversando, é meu pai. Ele conversa bem com todo mundo, mas ele só conversa bem porque ele conhece muito a pessoa com quem ele está falando. Eu sou o filho dele, ele sabe exatamente quem sou eu e como eu sou, e sabe deixar meu coração apertado e quase arrancar um "eu te amo" de mim.

– Eu também pai. — comecei a abraçar ele com força também. Querendo ou não, eu ja disse para vocês, é meu pai, minha família, e eu amo ela. — Me desculpem eu não ter avisado antes, não queria ter deixado algo em cima da hora e muito menos, magoar vocês. Mas eu ja tinha armado tudo gente, foi mal mesmo.

– Carlos, para com isso, vai logo fazer sua mala ou quer que eu faça outro discurso? — meu pai dizia isso com um sorriso estampado na cara, envolvia felicidade um pouco de amor. Meu pai é foda!

– To indo pai, valeu mesmo ta?! — abracei ele de novo, dei um beijo na minha mãe e fui pro meu quarto. Mas lembrei de dizer algo para eles e voltei. — Pai, rapidinho, eu sei que ja é um grande abuso eu estar indo com meus amigos para Climton no meu aniversário, mas como é em cima da hora, não sabemos se vai haver hotéis ou casas livres para alugar. Pode me emprestar a chave da casa? — meu pai ficou me encarando durante um longo tempo, até que começou a rir e isso não me fez sentir bem, com certeza, ele ia me mandar à merda!

– Ta no chaveiro do lado da minha cama, pega lá!

– Te amo pai! — sim, eu disse te amo, e era algo muito incomum.

Corri para o meu quarto e ai começou. Eu sou uma noiva para arrumar minhas malas de viagem. O primeiro passo, pegar a mala. Era uma mala um tanto compridinha e funda, era bem grande e espaçosa, mas vista de fora, parecia normal. Era vermelha com detalhes amarelos, até parecia uma propaganda do Mc Donald’s, mas era da Adidas na verdade.

Comecei a pegar umas camisetas manga curta, aliás, é praia. Preguei uma sunga, uns shorts que não tenham problema de mergulha-los na água salgada do oceano, uma calça jeans, caso saiamos para algum lugar mais bonito e chiquê e para terminar, duas camisetas polos pois eu me acho muito muito com elas. Um perfume e um desodorante, quem precisa de mais, né? Minha escova de dentes e duas toalhas, porque mamãe sempre me enchia o saco para levar duas toalhas, uma para uso pessoal após o banho, e a outra para usar na praia. No final vai dar na mesma, é uma coisa a mais ocupando espaço na minha mala.

Mas foi ai que vi a minha linda guitarra, e eu tive que pegar ela mais o meu amplificador e levar na viagem. No final das contas, eu estava com os dois braços lotados de coisas que mal conseguia segurar, mas fui mesmo assim.

Passei correndo pelo corredor da minha casa, aproveitei que a porta estava aberta e fui em direção ao carro mas ai vi que meu pai, papai Johnson, estava conversando com Arthur e Vanessa no carro. Não havia problema algum, mas eu achava um pouco constrangedor. Fui direto para a caçamba e coloquei minha bagagem e o amplificador, a guitarra ia comigo na mão. Ela é minha vida.

Dei um beijo na cara do meu pai e já fui me adentrando no carro no banco do passageiro, onde estava Vanessa. A Montana tem esse lado ruim, a gente tem que ir apertado por há apenas dois bancos, então se você está em três pessoas, dois precisam ficar apertados no banco do passageiro.

– Se cuida viu? — esse era meu pai falando comigo pela janela do carro.

– Pode deixar pai. Espero que tenha gostado da Vanessa.

– Sim, ela é muito bonita como você sempre disse. — pai, por que faz isso? Pra que me envergonhar? Vanessa estava me olhava com uma cara envergonhada também, mas com um sorriso alegre.

– Beleza pai, tamo aqui, ta bom? — dei um beijo no rosto dele. — Tchau pai, amanhã acho que já voltamos.

– Vai lá filho, boa viagem! Te amo Calos!

– Seu pai é um fofo. — Vanessa dizia ela e só pude pensar "você também", mas não disse nada.

– Vamos pro Lucas, Arthur.

– Entendido lindão. — Arthur engatou a marcha e foi em diante.

Termos gays entre os heteros, era engraçado demais.