Arthur estacionou na frente da casa de Lucas onde pudemos avistar o carro de Walter. Havíamos combinado à uma da tarde, mas por incrível que pareça, já era onze horas. Então comecei a pensar do porquê Walter já estaria ali. Mas não era da minha conta e quem sabe não saíssemos mais cedo? Poderíamos aproveitar melhor a praia e a viagem também.

Saímos do carro e fomos em direção a porta da frente da casa de Lucas. Toquei a campainha e esperamos por uns segundos. Lucas estava demorando para abrir a porta até que toquei novamente, e em menos de um minuto dessa vez, ele atendeu.

– Foi mal gente! — Lucas estava ofegante, com o cabelo inteiro molhado, porém, estava vestido. — Eu tava tomando banho, na hora que você tocou o Walter me avisou e ai desliguei o chuveiro e desci correndo. Desculpa a demorara.

– Relaxa cara, sei que você e o Walter estavam se beijando. — Vanessa estava junto, então era óbvio que Arthur não ia perder uma oportunidade se quer, de fazer piada com os outros. E ela riu, mas foi tão ridícula a piada que nem sei se foi por educação ou por ser ter achado engraçado mesmo.

– Cala a boca Arthur! Aliás Lucas, não te apresentei a nossa acompanhante na viagem até Climton. Essa daqui é Vanessa Sakata, a menina de Floripa que lhe falei, e que você estava junto quando eu liguei para ela. — pude ver que Vanessa ficou com as bochechas avermelhadas, não sabia que ela era do tipo tímida pra ser sincero.

– Ah, então você é a deusa Vanessa de quem o Carlos tanto fala? — meu deus do céu, ela estava para explodir de tão vermelha. Estava até engraçado, mas não ia rir da cara dela. — A propósito, eu sou o Lucas. Lucas Fernandes, o amigo hétero que gosta de pinto. Ou seja, não tão hétero assim. — Lucas sabia ser simpático demais, e não tinha vergonha de dizer à ninguém que era gay e o modo como se descreveu era perfeito. Um hétero que gosta de pinto. Quando o cara sabe quebrar o gelo com uma piada que é um fato real, eu tenho que admirar.

– Sim, ele me falou de você! Pra ser sincero, ele só não tinha contado de você Arthur. — Vanessa e Lucas riram, mas Arthur ficou meio incomodado e eu não gostei dela ter admitido aquilo.

– Valeu hein Carlos! To vendo o jeito que você me ama. — ele dizia isso com um sorriso no rosto, mas era óbvio que estava disfarçando sua real raiva daquele momento atrás da sua cara sorridente.

Ficamos ali, olhando para a cara um dos outros depois daquele momento embaraçoso, e só depois de quase um minuto, que Lucas resolveu nos chamar para entrar em sua casa.

Sinceramente, eu sou muito educado dessa parte. Eu não entro na casa de ninguém até que me convidem, quase que nem um vampiro, sem contar que toda vez que entro em algum aposento da casa da pessoa e há outro indivíduo da casa no mesmo, eu pelo "licença" sempre. Mesmo sendo a casa dos meus melhores amigos, eu não me sento no sofá ou em qualquer outra coisa, cadeira, cama até me convidarem para isso e até mesmo tênis ou sapato. Não os tiro até me darem permissão. Eu seria um ótimo escravo ou um servo.

Afinal das contas, quem não é servo de algo? Quem não tem um líder, um mestre?

Pare de dizer que não tem. Você tem sim e eu vou provar.

Todos somos movidos por algo, assim como carros são movidos à gasolina. Niki Lauda era movido pela sua fome de corridas, Fórmula 1, e acabou queimado. Magic Johnson, o melhor jogador de todos os tempos da NBA, na minha opnião, era movido pelo basquete e no final, parou por causa da aids. Todos somos movidos por algo, uma paixão que fulmina dentro de nós, e que é o nosso líder. A arte é o meu mestre, a música é o de Lucas, odontologia o de Walter e arquitetura o de Arthur.

É um vício, quase uma droga os nossos mestres. Mas o que seriamos sem eles, certo?

Subimos as escadas e fomos para a porta do fundo, o Porão. Lucas abriu a porta e la estava Walter mexendo na Juke Box. Pensei o que ele estava fuçando no meu presente mas vi que só estava escolhendo uma música. Eu sou um pouco ciumento com coisas que amo e dou muito valor, a Juke não era exceção.

– E ae careca! — esse era Walter cumprimentando Arthur.

– Fala moleque bonito, como você está?

– Não enche o saco, você me viu ontem, sabe exatamente como estou. Agora eu to mais curioso em saber quem é essa linda japonesa, que o Carlos não teve a educação de apresentar! — Walter sorria com seus dentes lindos devido à anos de aparelho, e enquanto isso, Vanessa devia estar se arrependendo daquela viagem, ja que todos a deixavam envergonhada.

– Pode deixar, eu sem me apresentar. Sou Vanessa, e você é quem? Walter?

– My name is Padovezi, Walter Padovezi!

Senso de humor. Isso era algo que não faltava entre nós, mesmo quando se tratava de pessoas desconhecidas para alguns. Sempre somos muito simpáticos, piadistas e não importava com quem. Uma vez, lembro que saímos para um bar, isso antes de eu ir morar em outra cidade para a faculdade. Estávamos bebendo cerveja e começamos a ver algumas meninas nos olhando. Então, só puder ver Walter e Arthur se levantarem e irem conversar com elas, quando olhei, elas já estavam sentados juntas à nós na mesa, bebendo e conversando. Cada um ficou com uma naquela noite, menos o Lucas e olha que foi só pela parte dele! Impressionante, o cara é bonito mesmo! Até a menina, que sabia que ele é gay, queria ficar com ele.

– Mas agora fala, por que chegou tão cedo na casa do Lucas? — eu disse.

– Eu faço uns bicos com a minha mãe de manhã, saí do escritório dela e liguei para Lucas pra ver se ele estava ocupado ou, se era muito cedo pra vir aqui. Ele disse que não, então vim e estávamos enrolando aqui, jogando Fifa e tudo mais.

– Ah ta, entendi. Bom, que vamos fazer agora? Já vamos para a viagem?

– Calma cara, relaxa um pouco, são só onze e meia quase, pra que tanta pressa? Vanessa, você está cansada, não está? — Lucas disse.

– Um pouco, a viagem foi longa e o modo que viemos para cá não foi muito confortável.

– Sim, o Arthur inventa de colocar três pessoas num carro de dois bancos...

– Não fala mal do meu carro!

– Ta, cala a boca ai. Quer deitar ou alguma coisa?

– Não! Eu só...

– Beleza, vou pegar uma coberta e você pode deixar na minha cama um pouco. Não tem problema e não aceito não como resposta de alguém que só nega por educação. — Lucas lia mentes. Era impressionante porque ele estava certo. Vanessa sempre negava as coisas, menos de seus familiares, por tem uma certa vergonha. Não é nem vergonha, mas educação mesmo.

Lucas pegou na mão de Vanessa e os dois saíram do Porão. Nesse exato momento eu pulei no sofá centralizado no Porão bem à frente da TV e me deitei.

– Você não vai dormir de novo né? — Arthur já devia estar inconformado com o tanto que eu dormia, principalmente no carro.

– Não, nós não estamos andando de carro mas eu não sei o que podemos fazer aqui durante duas horas, isso se vocês quiserem sair exatamente na hora que planejamos sair.

– Olha, são quase quatro horas de viagem. Dependendo, podemos almoçar e já ir embora. Aliás, como vamos fazer? Teremos que dividir o pessoal já que no carro do Arthur só cabem duas pessoas. — disse Walter.

– Faz o seguinte, você com certeza vai dirigir o seu carro, eu e Lucas vamos com você. Arthur, você vai com Vanessa já que está mais que na cara que está afim de pegar ela.

– Desculpa Carlos, sei que tem mó carinho por ela mas ela é muito gostosinha cara! — Arthur as vezes tinha suas ações de cachorrão, mas no fundo ele mais ficava na dele do que ficava com mulheres. — Mas assim, onde vamos almoçar?

– Não sei, mas isso é o de menos. Walter, você já fez suas malas?

– Não fiz não, só vou precisar passar em casa mas é dois minutos pra faze-las. Não sou noiva que nem você. — começamos a rir. Eu não levei pro lado pessoal, já que Walter é meu melhor amigo e eu demorar pra fazer minhas malas não era segredo para ninguém.

Ficamos rindo até que Lucas entrou bruscamente pela porta e já começou a falar.

– Eu ouvi tudo que vocês disseram. Meu quarto é aqui do lado, não se esqueçam para não falarem mal de mim quando eu estiver nele. Posso falar com minha mãe de fazer alguma coisa pra gente comer, pessoal.

– Sei la, eu não quero incomodar sua mãe Lucas. — lembra quando eu disse que sou um cara educado, até demais, na casa das pessoas?

– Relaxa, vou falar com ela, já volto!

– Lucas, nã... — nem tive tempo de terminar, Lucas saiu correndo pela porta, e depois de ouvi-lo descer as escadas, já pude escutar ele conversando com sua mãe.

– Pessoal, minha mãe vai fazer um macarrão pra gente! — Lucas gritou lá da cozinha para avisar a gente. Agora que ele tinha falado, não tinha volta. A mãe ia fazer o almoço e pronto.

– E fazemos o que enquanto isso? — perguntei enquanto ligava a tv.

– Vamos jogar Fifa? — disse Arthur.

– Ta, vamos! — isso foi uma fala coletiva.

Mesmo nenhum de nós jogando futebol, nós éramos ótimos jogares do mesmo nos vídeo games.